O Pacense
Sexta-feira, Abril 29, 2005
  UM LAR POR EMPRÉSTIMO

Veio à porta, com a mão espalmada sobre os olhos semicerrados, encandeado pela luminosidade excessiva que se derramava de um céu azul pálido, desmaiado, como se o calor, que tanto era, o tivesse chamuscado. Era uma tarde de Agosto.
Vivia agora num permanente sobressalto. Os montes eram assaltados por quadrilhas de larápios vindos não se sabe de onde e que logo desapareciam, levados pelas artes do diabo. Por toda a freguesia não se falava de outra coisa. Poucos dias havia que na freguesia vizinha tinham roubado um casal seu conhecido e até, ao que se dizia, tinham abusado da velhota. O receio difuso, alimentado quase diariamente pelas conversas ouvidas no Café, centro do mundo duas léguas em redor, tinha-se agora transformado em medo. Os gatunos tinham até então feito as suas patifarias longe, e o seu receio seria como o da caça que ouve lá longe, vagamente, o espingardear dos caçadores e que precatada dorme, com um olho aberto e a orelha fita, sentindo-se ainda segura no aconchego do pasto dissimulador ou na lura aberta em pé de azinheira carcomida pelos anos. Mas agora tinham-se chegado demasiado perto. Sentia-se jogador de uma lotaria para a qual não tinha comprado cautela. Agora também a ele lhe poderia calhar a sorte. O medo havia-se apegado às pessoas como o calor do Verão.
Tranquilizou-se. Era o jipe da Guarda.
A mulher veio à soleira perguntando quem era, que era a Guarda, que descansasse. Também ela, e ainda mais ela, vivia em sobressalto. Nem as poucas horas que dantes dormia, que os anos nos vão tirando as horas de sono, agora lhe aproveitavam. Até o ruído mais familiar a acordava e a punha em cuidados por longo tempo, sem pregar olho.
-Bons dias! Bons dias! Que não abrissem a porta a desconhecidos, fosse lá por que razão fosse, já que não tinham telefone que comprassem um telemóvel, que era coisa útil e que até já nem custava muito dinheiro, que até os filhos lho poderiam comprar, que estavam empregados e que se o senhor Aníbal dissesse para o que era decerto que não iriam dizer que não. E por que toma e por que deixa...
Mas o semblante taciturno, sombrio, dos guardas não tranquilizava ninguém. Atenazada pelos superiores, apoucada pelo povo, pois aquilo durava havia meses sem que lhe conseguisse pôr termo, a autoridade sentia-se incomodada e posta em causa.
E lá seguiram o seu caminho.


II

O Café do Vitorino encontrava-se mais animado do que era habitual. A televisão tinha falado noutro assalto lá mais para baixo, quase na serra algarvia. Tinham espancado os velhotes, tinham-lhes roubado as poucas economias e deixado amarrados por largas horas, enquanto não foram descobertos por um vizinho.
Havia no ar uma exaltação e um nervosismo contagiantes. Tinha ido ao Café beber um copito e desenferrujar a língua e logo lhe contaram aquela.
Mas ali encontravam-se mais seguros. Sempre eram umas quantas habitações de um lado e outro da estrada. Até agora os ladrões tinham roubado gente isolada nos montes e sempre casais idosos, que novos também já por lá não os havia. Nunca tinham roubado em aldeias, por mais pequenas que fossem. Quando o faziam faziam-no pela certa, sabiam ao que iam. Roubavam gente como ele e a sua Mariana, sós, desamparados, velhos e trôpegos, incapazes de se defenderem. Há muito que se deveriam ter mudado para a aldeia, quando o último dos filhos abalou deviam-no ter feito. Ela bem havia insistido. Mas ele, teimoso, preso a umas parcas courelas que desde moço trabalhara ainda em companhia de seu pai, fora ficando. Agora já nem força tinha para trabalhá-las. Deveria ter vendido tudo em bom tempo e mudado para o povoado. Mas aquele malvado apego à terra tinha podido mais. Vendê-la era vender-se, quando em tal pensava punha-se-lhe um peso e uma escuridão na alma que só ele sabia. Agora era aguentar-se até que a morte o viesse buscar.
A conversa ia animada no Café. Um gravatinha, bancário na vila próxima e que, como filho da aldeia, ali passava os fins de semana, dizia, toda farroncas, que a ele não o haveriam de pilhar. Olha que se fosse com ele, havia de ser bonito, que lhes metia um tiro no bucho, que fazia e acontecia. O Vitorino olhava-o de soslaio. Não morria de amores por aquele desde que por causa de uma sua gracinha se tinha visto em apuros com a inspecção das actividades económicas, que esses também só apoquentam os pequeninos. Tinha aparecido no Café com uma garrafa de vinho de rótulo todo catita e por força que o Vitorino havia de enchê-la e servir com ela as taças. Em má hora o Vitorino acedeu. Logo chegam os fiscais e embirram com a garrafa que era de um vinho caríssimo. Então servia vinho aos fregueses em vasilhame que não era o próprio? E por pouco não o encoimavam, não fora as explicações prestadas e o apoio de todos os fregueses, que o gravatinha na altura pisgou-se. Mas lá parlapatão era ele. E não é que daí em diante alguns farsantes entravam no Café e lhe pediam vinho da tal marca, no meio de grande chacota? Vitorino não era homem para motetes e um belo dia em que acordou mais assomadiço, resolveu não abrir o Café. Por três longos dias aquelas portas se mantiveram encerradas. O Vitorino está doente! O Vitorino ausentou-se! Que nada, estava amuado. E os fregueses, que andavam como pássaros a quem houvessem destruído o ninho, fizeram romagens a sua casa: que não ligasse, aquilo eram coisas de moços, que ele perdia o seu negócio e eles o convívio... E ao quarto dia Vitorino reabriu o Café, que sempre era preferível aturar os fregueses do que a mulher, que nesse intermédio o havia infernizado. E quando, nessa manhã, as portas se abriram, foram tantas e tais as manifestações de agrado da clientela desarvorada que Vitorino se comoveu.
Era tempo de regressar a casa. Sempre era meia légua que ele, Aníbal do Monte Lobo, ainda era capaz de fazer em meia-hora. Mas cada vez lhe ia custando mais. De repente estugou o passo, ao lembrar-se que a mulher há horas que estava para lá sozinha.


III

A mulher olhava-o com um ar repreensivo.
Aníbal estava sentado com a velha escopeta sobre os joelhos. Tinha-a acabado de carregar. Comprara naquela manhã cartuchos, coisa que já há muito tempo não havia naquela casa, desde que as pernas se recusaram a marchar por veredas e córregos em busca de caçapos e perdizes.
Aquilo não era viver, dizia-lhe. Estavam para ali como animais acossados. Se viessem para roubá-los pois que viessem, que o roubo havia de ser coisa de pouca monta. Mas sangue derramado em sua casa, gente ferida ou morta em sua casa, só eles. Como iam viver depois com isso? Que maluqueira se lhe havia metido na cabeça? Que haviam de ir para um lar. O compadre Damásio, que estava na Junta de Freguesia, era homem com muitos conhecimentos e haveria de meter um empenho. E que ou ele ia falar com o compadre ou ia ela.
Aníbal, sentado na rua do monte, olhava os longes.


IV

O dia chegou.
O táxi esperava-os. Já tinham carregado os poucos tarambecos que haviam de levar consigo. A maior parte, que pouco préstimo tinham, haviam-nos distribuído pelos vizinhos.
O motorista esperava-os, impaciente. Aníbal demorava-se, olhando uma última vez os campos em redor, como se os afagasse com os olhos.
Entraram por fim no carro e sentaram-se, sem trocar palavra. Ele, num gesto tão pouco comum, pousou a sua mão sobre a dela. Se algum deles chorou nunca o souberam. Não se olharam nem tampouco olharam para trás.



 
|
Sábado, Abril 16, 2005
  Bilhete Postal


Falemos claramente, se não conseguimos eliminar os dejectos caninos das nossas ruas e praças então reconheçamo-nos definitivamente vencidos e tentemos virar a coisa a nosso favor.
Já estou a ouvir os mais empedernidos defensores da coisa pública vociferarem que agora se abandona esta luta que é de todos, esta cruzada em prol da higienização dos espaços públicos, esta denodada luta em defesa da saúde pública, este objectivo que é o de subir mais um patamar de civilidade ao tratarmos bem os animais domésticos e não andarmos a pisar merda nos espaços públicos que presuntivamente são de todos. Mais devagar, mais devagar, se esta luta é de todos quantos estão empenhados em travá-la? As autoridades municipais para quem parece ser indiferente haver mais ou menos merda nas ruas? As madames que olham embevecidas os lulus enquanto estes levantam graciosamente a perninha e deixam a sua rosquinha malcheirosa no empedrado? Afinal, pergunto eu, quantos destes todos estão deveras interessados nesta luta? Sim, quantos? Luta em defesa da saúde pública? Bem, as maleitas provocadas pelas fezes caninas são perfeitamente curáveis e se o não forem sempre vos digo que de alguma coisa a gente há-de morrer. Um patamar mais na longa marcha a caminho da civilidade? Há prioridades, senhores, há prioridades. Por acaso já se constuíram todas as acessibilidades aos novos estádios? Parece que não. Construir uma obra pública para divertimento das massas e deixá-las sem acessos não revela uma grande falta de civilidade? Ora aí têm!
Então como podemos virar a coisa a nosso favor? Com imaginação, meus senhores, com maginação. Vou dar-vos algumas sugestões:
-organizar ralis pedestres, como por exemplo "Tente chegar ao fim da Avenida sem cagar os pés". O que as pessoas não se iam divertir;
-formar técnicos numa nova forma de adivinhação a que se poderia chamar cacomancia. Eu explico: os turistas interessados recorriam aos serviços do cacomante, este fazia o turista rodar sobre si próprio umas quantas vezes e depois de este estar suficientemente entontecido mandava-o caminhar. É claro que poucos passos volvidos o interessado toparia com dejectos caninos. Aí entrava a sapiência do cacomante: pela altura do dejecto, sua consistência, cor, aroma e outras características que só o cacomante conhece, todos sabem que estas práticas têm os seus segredos, ele exercitaria então a nobre arte da adivinhação;
-outra sugestão ainda: poder-se-ia instituir um prémio nacional para a povoação com maior densidade de dejectos caninos por metro quadrado. Chmar-se-ia à competição "A povoação mais merdaleja de Portugal" e o honroso galardão seria ostentado por um ano.
É claro que estas são apenas algumas sugestões, muitas mais os leitores poderão engendrar se se derem ao trabalho. Eu fico-me por estas.
Passem todos muito bem e até à próxima. 
|
Domingo, Abril 10, 2005
 
CONVERSAS NO OCASO


-Compadre, Nunca mais voltou ao seu monte?
-Nunca mais. Da última vez que lá fui, já lá vão uns bons dois anos, fiquei tão descoroçoado que jurei nunca mais lá voltar. Até me deu vontade de chorar. É verdade, não tenho vergonha de dizer, compadre. Aquilo já não era a mesma coisa. Estava tudo a mato. Na horta havia um ervaçal mais alto do que eu. A parede da nora estava quase toda caída, do monte já só havia pedras e o chão da casa. Nem queira saber o desgosto que me deu quando vi aquilo naquele abandono. O sítio onde passei quase toda a minha vida já não existia. Olhos que não vêem coração que não sente. E eu, em não vendo, não me lembro. É melhor assim. Nunca mais lá hei-de voltar. Nunca mais!...
-Pois é, compadre! Estamos a chegar ao fim, a nossa licença está-se a acabar e tudo aquilo que fomos, tudo aquilo que tivemos, já não existe. É a vida, tal como os alcatruzes da nora, uns vão e outros vêm, uns sobem e outros descem. E a gente já começou a descer há muito tempo, estamos quase no fundo.
-Descendo ou subindo, compadre, tanto dá. Mas sabe vossemecê o que é que ainda lá estava tal como eu havia deixado? As nogueiras que o meu pai tinha semeado lá p'ró pé do barranco. É verdade, ainda lá estavam e ainda lá hão-de estar depois da gente partir, se ninguém as arrancar. Se aquelas nogueiras falassem muito tinham p'ra contar. Semearam aquilo tudo de eucaliptos mas não tocaram nas nogueiras. Não lhes tocaram, é verdade. Se elas falassem... Lembra-se o compadre da Maria Zefa, da Zéfinha? Está claro que se lembra. Pois era eu ainda solteiro o raio da mulher começou a aparecer lá pelo monte quase todos os dias. Andava lá no seu negócio de compra de ovos e galinhas para ir vender à vila e começou-me cá a parecer que eram vezes demais aquelas de aparecer lá pelo monte. E vá de falinhas mansas para mim, que eu estava já um belo moço, se já tinha namorada e que mais isto e mais aquilo... Não sei se o compadre a conheceu por esse tempo. Era mulher dos seus trinta anos, de perna rija de subir e descer por esses córregos, com um belo peito e cores sadias. Não se lhe conhecia homem certo mas também não eram muitos os que se gabavam de lhe ter posto a mão em cima.
-É verdade, compadre, é verdade. Olhe, um dia a vi eu, aqui no mercado da vila, assentar um chapadão num mais atrevido que a quis apalpar que o homem até parecia que tinha ficado com almareios e, a modos que envergonhado, meteu o rabo entre as pernas e marchou-se dali sem dizer palavra!
-Pois era assim a Zéfinha, sim senhor... Mas como eu lhe ia dizendo, ela começou de aparecer lá pelo monte mais vezes do que aquelas que seriam precisas lá para o seu negócio de compra e venda de ovos e galinhas. E vá de me fazer gaifonas. Eu, que ainda era franganote, nem às sortes tinha ido, comecei a magicar naquilo, comecei a magicar e resolvi que quando melhor calhasse haveria de tentar a minha sorte para ver se a Zéfinha queria aquilo que eu também queria.
E o dia chegou. Foi a meio da manhã. A minha mãe, que Deus haja, e as minhas irmãs tinham ido lavar roupa à ribeira. O meu falecido pai andava a apanhar cortiça com dois homens que trazia à jorna. Eu tinha ficado sozinho no monte a rachar lenha. E nisto apareceu-me a Zéfinha. Uma grande cesta à cabeça e outra na mão, toda corada que a manhã estava quente e ela já tinha feito muitos caminhos. Veja lá, compadre, que tudo me lembra como se tivesse sido ontem.
-Pois comigo acontece a mesma coisa. Coisas que aconteceram há já tantos anos ainda hoje me lembram como se fosse ontem e as coisas que aconteceram há muito menos tempo, por mais voltas que dê à cachimónia, não consigo lembrá-las. O tempo tudo nos tira, até a memória.
-Pois é assim tal e qual. Pois a Zéfinha chegou à rua do monte, pôs as cestas no chão e como não visse ninguém chamou. Eu, que me encontrava debaixo das nogueiras, lá p'ró pé do barranco, a rachar lenha, sempre era mais fresco e o calor já era muito, tinha parado de trabalhar a vê-la e chamei-a. Ela, assim que me viu, veio caminho abaixo. Agora, agora é que tem de ser, pensei. E ela a descer o caminho para ir ter comigo e eu a marchar na direcção dela. Perguntou-me se estava sozinho. Disse-lhe que sim. Disse que estava muito calor e tirou o lenço da cabeça. Trazia o cabelo solto debaixo do lenço, um cabelo bonito, farto. E ria-se para mim. Lembra-me como se fosse ontem. E eu, tem-te não caias, agarrei-a por um braço. Ela, em vez de se mostrar esquiva, encostou-se a mim. Fiquei desvairado. Puxei-a para baixo das nogueiras, para trás do monte de lenha. Deitou-se no chão, mansa como uma rola. E foi aquela a minha primeira vez, compadre...
-E nunca mais se voltaram a encontrar?
-Voltámos, voltámos! Só que minha mãe começou a desconfiar da fartura. E eu apercebi-me disso pois quando a Zéfinha ia ao monte fazer a sua negociata já a minha mãe não nos tirava os olhos de cima. As mulheres percebem essas coisas melhor do que os homens. De maneira que tivemos de lhe trocar as voltas. Não ia a Zéfinha ter comigo ia eu ter com ela. Passámo-nos a encontrar às escondidas, aí por esses córregos. Belos tempos. A coisa terá durado aí uns seis meses. Depois, de repente, a Zéfinha desapareceu. E sem dizer palavra!
-Houve quem a visse mais tarde lá para as bandas do Barreiro. Que se tinha juntado com um marchante...
-Pois foi, compadre. E parece que o marchante era o mesmo que aparecia por aí e lhe comprava os ovos e as galinhas. Eu é que nunca mais a vi! Depois arranjei namoro com aquela que haveria de ser a minha mulher, já lá está, coitada, fui às sortes, fiz a tropa, casei-me, vieram os gaiatos, mais trabalhos e mais canseiras e assim se foi uma vida!
-O compadre onde é que fez a tropa?
-Em Beja, no 17. E o compadre, parece que foi em Elvas?
-Pois foi em Elvas, sim senhor! Oh Elvas, oh Elvas, Badajoz à vista... Algumas vezes lá fui, a Badajoz, poucas que o dinheiro não era muito e as espanholas eram caras, Ah compadre, que se pudesse voltar atrás!
-As coisas estão assim feitas. Hoje uns, amanhã outros. E não vale a pena querermos o contrário, porque a vida é assim mesmo!
-Pois vossemecê em Elvas e eu em Beja lá fizemos a nossa tropa. O passadio não era bom mas quando se é moço tudo se aguenta. Os percevejos eram mais que muitos, compadre.
-A quem você o diz!
-E muito tempo se passava sem virmos a casa. O dinheiro era pouco. O meu pai, coitado, lá me ia mandando aquele pouco que podia. Ainda me lembro quando fui a apanhar o comboio para Beja. Eu e o meu pai, cada um à vez em cima de um burro que possuíamos, que o caminho era comprido, lá fomos até à estação. Eu com a guia de marcha, uma merenda que a minha mãe me tinha preparado, pão, uma marmita com carne e azeitonas, como tudo me lembra, e um saco de chita que a Josélia, a minha mulher, na altura ainda namorada, me tinha feito. O compadre lembra-se que era costume as namoradas oferecerem esses sacos quando os moços partiam para a tropa?
-Se me lembro, se me lembro! Também, eu levei o meu saco, também eu!
-No monte tinham ficado as minhas irmãs e a minha mãe com a lagriminha ao canto do olho a ver-me partir. E o meu pai a dizer que não era o fim do mundo, que era o destino dos moços e que a tropa só lhes fazia bem, ensinava-os a serem homens e que mais isto e mais aquilo. Tudo para nos animar, já se vê. E lá fomos. De caminho sabe o que fiz, compadre? Apanhei um ramo de medronheiro para levar cimigo para o quartel, coisas de moços, pensava eu que assim haveria de ter menos saudades cá dos sítios. Popis sabe o que lhe digo? O ramo de medronheiro nem chegou a Beja. Quando chegámos à Funcheira juntámo-nos com uns dos lados de Setúbal que iam também p'rá tropa, para o mesmo quartel, e que nunca tinham visto medronhos, perguntaram o que era aquilo, se se podia comer, e toma lá daqui, toma lá dali, comeram-me os medronhos todos. Tinham lá uns ares de rufias, de fadistas, que logo me fizeram desconfiar. Mas depois de os ficar a conhecer melhor, com o tempo, eram todos bons moços, boa rapaziada! Um deles foi até o meu melhor amigo na tropa. Belo moço! Nunca mais soube dele!
-Pois era assim mesmo, faziam-se grandes amizades na tropa. Em Elvas tive eu um grande amigo que era de lá mesmo. Fazia contrabando para Espanha. Aquilo era lá coisa de família. Já o pai e os irmãos faziam o mesmo e ele parece que desde muito gaiato começou a acompanhá-los naquelas andanças. Nos dias em que estava de licença era certo e sabido que lá ia para o contrabando. Eu, às vezes, perguntava-lhe: "Mas tu não tens medo que te apanhem? Olha que se te apanham metem-te no forte. Dessa não te safas!" "Qual apanham!?" dizia ele. "Ainda não nasceu aquele que me há-de apanhar. Conheço a fronteira como as minhas mãos. Não há buraco, não há caminho que eu não conheça." E o certo é que não o apanhavam. Um dia diz-me ele: "Tens de vir comigo!" "Tás maluco, eu tenho lá vida para isso!?" "Já te disse, vens comigo. Ganhas uns cobres e se gostares vais mais vezes!" "Homem, não vou, nem penses nisso!?" Mas ele tanto me desafiou, tanto me desafiou, que eu fui. Com alguma sorte podia ganhar-se uma boa maquia e eu fui.
-Pois então o compadre foi com os contrabandistas?
-Pois fui. A primeira e única vez. Aquilo não é p'ra qualquer um, compadre. Tem de se ser muito afoito. Mas quer ver o compadre como é que aquilo foi? Aquilo era uma jolda de cinco homens, seis comigo. Cada um levava uma mochila com uma arroba de café. Quando se cerrou a noite lá marchámos. Depois de andarmos um grande pedaço, diz-me ele: "Agora a partir daqui não falas, não dizes nada. Nem conversas, nem cigarros. Está entendido? E vais sempre atrás de mim. O que eu fizer fazes tu!" Acenei que sim com a cabeça e lá fomos. Eu ia mais pequenino que um rato, todas as sombras me metiam medo. O pior foi quando atravessámos o Guadiana. Eu, que não sei nadar, ia com medo de cair nalgum cachafundão e pr'ali morrer afogado. Mas lá passámos sem novidade, com a água pela cintura. Eles lá conheciam os melhores sítios. . Eu ia de tal modo assustado que nem sequer me sentia molhado. Lá quando chegámos a um tal sítio, que era assim um barranco escondido, fizeram alto e esperámos um bom pedaço. Ouviu-se um assobio e um dos nossos logo respondeu com outro assobio. E logo apareceram os espanhóis. Eram cinco, cada um com a sua mochila. Falaram uns com os outros numa linguagem que eu não entendi nada, aquilo era tudo gente que se entendia em espanhol, e lá voltámos para trás. Trazíamos peças de bombazina, que era o contrabando que se trazia para cá. Como eram cinco mochilas e a gente éramos seis lá se decidiu que eu não trazia nada à volta, porque era a primeira vez que fazia aquilo. E lá vim mais leve. Mais leve da carga que o medo agora até parecia que me pesava mais. Mas lá voltámos em bem. E ainda ganhei uns bons tostões com aquele trabalho. Mas nunca mais voltei, ele bem que me desafiou mais vezes mas eu nunca mais fui. Tinha-me safado daquela não me ia meter noutra. Não, que eu não tinha nascido para aquilo. Ele é que sim, lá continou a ir e nunca o apanharam. Tinha feito daquilo modo de vida.
-Sempre é preciso muita afoiteza, compadre. Eu também não era homem para levar uma vida dessas!
-Pois eu há pedaço não acabei a minha conversa, quando fui com o meu pai montados no mesmo burro a apanhar o comboio à estação para Beja. Pois quer ver o compadre, o comboio chega e vai daí o meu pai mete-me uma nota de cem escudos na mão. Digo-lhe eu, "Meu pai, eu não preciso do dinheiro, lá para onde vou dão-me roupa, cama e mesa e ao pai o dinheiro fica-lhe a fazer falta". "Leva lá o dinheiro, filho, que te há-de fazer mais falta a ti do que a mim!" Vai daí dá-me um grande abraço, encomendou-me e lá marchei para o comboio. Foi a única vez que o meu pai me abraçou, era muito amigo dos filhos mas não era lá homem para essas coisas.
-O meu pai também era assim. E depois que nos morreu a Maria, a nossa irmã mais nova, morreu com cinco anos de um garrotilho, teve um desgosto tão grande que depois disso quase não me lembro de o ver rir. Sempre triste, sempre triste...
-Quando olhamos para trás já são mais os mortos que contamos do que os vivos! Dos seus dois irmãos já só é vivo o Chico?
-Pois é assim, compadre. Está lá p'ró Algarve. Já não o vejo há uns bons cinco anos. A última vez que o vi foi quando foi a enterrar a minha mulher. A gente já só se vê em alturas de desgraça. O compadre ainda tem os filhos. Agora eu nem isso. Casei-me mas Deus não me deu a dita de ter filhos.
-Tenho filhos, tenho, mas de pouco me serve. Cada um abalou lá à sua vida e eu estou tão sozinho como o compadre.
-Não diga isso que eles sempre o vêm visitar quando podem!
-Lá isso é verdade, mas o maior desgosto que eu tenho é que nenhum deles quis seguir a vida da agricultura e isso é que me obrigou a vender as poucas terras que possuía. Mas também não tenho lá muitas razões para me queixar, eu sempre lhes disse para seguirem outro modo de vida que isto da agricultura o que dá mais é padecimentos. Mas sempre esperei que o moço seguisse este modo de vida. Mas o que está feito, está feito, depois de cavalo morto cevada ao rabo!
-O compadre não devia ter vendido a terra.
-Mas o que havia eu de fazer, compadre? As moças abalaram-me cada uma para o seu lado, casaram e ala. A mais nova foi para França com o marido, por lá ficaram alguns anos e lá conseguiram arranjar a vidinha. Verdade seja dita, nenhum deles precisa de mim. A oitra está lá p'ró Algarve. O moço empregou-se, e bem empregado, e eu vi-me sozinho com a patroa. Enquanto tive forças para me mexer fui trabalhando. Mas os anos passam e não perdoam. E veio o tempo em que já não era capaz, compadre. Com grande desgosto meu vendi o que tinha e vim mais a mulher aqui para a vila, para uma casita que comprámos, não iam ficar estes dois trastes sozinhos, lá pelo monte. Depois a patroa começou de me andar doente, cada vez mais doente, sei lá onde é que eu fui, de médico para médico, fartei-me de gastar dinheiro, que isto quando toca à saúde um homem não olha a gastos, mas de nada serviu. Morreu mirradinha, coitada. E eu ainda mais sozinho me vi, compadre. Ainda passei uns tempos em casa de cada uma das filhas mas elas têm lá a sua vida e eu não gosto de ser empecilho para ninguèm. Que elas nunca me trataram mal, mas eu gosto cá muito da minha independência e vai daí resolvi-me a vir cá p'ró asilo. Do mal o menos.
-Tal qual eu, compadre. Para onde é que eu havia de ir se nem filhos tenho?
-Sabe, compadre,. o meu pai e a minha mãe viveram sempre comigo até morrerem, já de velhinhos. Mas os tempos eram outros, as famílias eram mais unidas. Agora tudo é diferente. Há mais abastança, é verdade, mas ganharam-se umas coisas e perderam-se outras. Veja lá vocemessê, os moços hoje têm transportes que os trazem até à escola e os levam até casa. No tempo em que eu pus o moço nos estudos ainda nada disto havia. Que a gente já não fala do nosso tempo que então nem escolas havia.
-Pois não, compadre. Eu aprendi a ler quando fiz a tropa.
-Também eu! Mas deixe-me contar-lhe uma coisa. O meu moço era bom nas letras e quando fez a quarta classe a professora veio falar comigo e disse-me que era uma pena que o gaiato ficasse por ali. Eu comecei cá a pensar que para bruto bastava o pai e resolvi-me a metê-lo nos estudos aqui no colégio da vila. O gaiato tinha que cá ficar em casa de alguém conhecido, que o monte era longe e ele não podia ir e vir todos os dias p'rá vila, a coisa não me ia ficar barata mas o gaiato merecia o sacrifício e tudo se havia de arranjar. Vim à vila saber das coisas, da pensão, da matrícula, dos livros e vi que precisava de dois contos de réis para as despesas. Mas eu não os tinha, compadre, nem tinha a quem os pedir. Mas já tinha resolvido que o gaiato ia estudar e tinha mesmo de ir, desse lá por onde desse. Eu quando metia uma coisa na cabeça só se não pudesse de maneira nenhuma. Tinha um pedacito de terra, coisa pouca, com umas trinta oliveiras e alguma terra de semeadura que me ficava já um pouco despontada e resolvi-me a vendê-la. Vim à vila para arranjar comprador e fui ter com o Manuel António que eu sabia que anadva a comprar terras e era pessoa minha conhecida. "Porque assim e porque assado, agora não estou interessado em comprar terras, depois essa que o amigo me quer vender fica-me tão despontada, mas se fazemos negócio é só porque o amigo é quem é e está numa aflição e mais isto e mais aquilo", bom, resumindo e concluindo, o homem oferecia-me pela terra dois contos de réis. Ora eu contava vendê-la aí por uns seis. "Oh Manuel António, a terra vale bem uns seis contos de réis". "Não diga isso, homem, que a terra fica longe de bom caminho, e isto agora é má altura porque ninguém está a comprar, é como lhe digo, se lhe pus um preço é porque sou seu amigo e o vejo numa aflição!"
-E era o homem seu amigo, compadre!
-Pois está o compadre a ver o amigo que eu ali tinha. De maneira que lhe disse que ia ver se me davam mais alguma coisa noutro sítio. "O amigo faz aquilo que entender mas desde já o aviso que ninguém lhe dá mais do que aquilo que eu lhe ofereci."
-Aquilo estavam lá todos combinados, compadre!
-Nem mais. Desanimado, entro na venda do Chico Alberto para beber um copo. Quem havia de lá estar, o lavrador da Chaíça, pessoa com quem eu tinha convivência por já termos feito alguns negócios.
-Também o conheci, compadre. Pessoa séria!
-Pode dizê-lo. Mas escute, o homem viu-me com uma cara tão desanimada e meteu-se comigo. E eu lá desabafei. Pois sabe o que o homem me respondeu? "Sou eu que lhe vou emprestar os dois contos de réis. Paga-me depois quando puder!" E logo ali mos passou p'rá mão. E foi assim que lá mandei o gaiato p'rós estudos.
-O lavrador da Chaíça era homem muito sério. Havia poucos como ele!
-E hoje ainda há menos, compadre. De modo que lá paguei depois o dinheiro ao homem como pude. Nem um tostão de juros me cobrou.
-Outros tempos, outros tempos. Nem tudo era bom, é verdade, havia muita miséria por essas serras afora, mas os homens eram mais sérios!
-Bem, compadre, já se está a pôr fresco e já me começa a doer a porra do joelho. E quando estou assim muito tempo sentado ainda é pior. Mau, mau é quando me deito. Parece que a dor está lá debaixo do travesseiro à minha espera. Ainda ontem passei uma noite terrível!
-As malazengas já não nos largam, compadre. É o caruncho!
-Bom, vamos lá! Mas antes ainda vamos ali beber um copito que amanhã é outro dia!

 
|
Sexta-feira, Abril 08, 2005
 
CRISTAIS PARTIDOS


A bruxa do Monte Novo não tinha um ar andrajoso nem cavalgava uma vassoura; nem sequer tinha aquela inevitável verruga no nariz, como todas as bruxas que se prezam, isto conforme as histórias com as quais, num sentimento confuso de encanto e temor, povoámos a nossa imaginação no já distante reino da infância. Não senhor, a bruxa do Monte Novo vestia-se bem, dizia-se até que só comprava as suas roupas nas melhores lojas da capital, era frequentadora assídua do cabeleireiro, deslocava-se num carro daqueles que se dizem de gama alta e, naturalmente, usava telemóvel. Para além de tudo isto, que já não é pouco, era , nos seus já entrados quarenta anos, uma morena ainda viçosa que fazia virar a cabeça a muitos homens quando, num ar emproado de grande dama, deixava o seu retiro do Monte Novo e vinha fazer compras à cidade, ou fazia um pouco de vida social na pastelaria mais chique, frequentada pela boa sociedade. E ainda que se quedasse sozinha à mesa da pastelaria, pois que a gente de bem, por decoro e prosápia, com ela não se relacionava, publicamente desde já se diga, era vê-la com um ar de soberano desdém, sorvendo o seu chá com estudada elegância, detentora que era dos muitos segredos que as ditas boas casas escondiam e de que ela era profunda conhecedora. Algumas das damas que, com um ar senhoril, ostensivamente a ignoravam ou apenas e só lhe faziam uma muito subtil e quase imperceptível saudação, meneando levemente as pintadas cabecitas louras e batendo com suavidade as pestanas eram, foram ou seriam suas clientes.
E tanta era a freguesia que havia mandado construir, no terreiro do Monte, um aparcamento para os inúmeros automóveis que lhe demandavam a porta, em procura de remédio para os seus males, quase sempre males de amores. E alguns, com certeza muitos, vinham de paragens distantes, pois a sua fama havia chegado longe.
Nunca pôs anúncio na imprensa nem nas rádios locais. E de resto tinha, ou usaria como máscara, nunca ninguém o soube, um nome bem comezinho, nada daqueles nomes exóticos de consonâncias raras, lembrando longínquas, misteriosas e esotéricas culturas, já extintas, o que até tem mais sainete, onde estas capacidades, ao que se diz, teriam tido notável desenvolvimento, hoje presumivelmente só acessíveis a um número restrito de iniciados. Madame Margarida se chamava ela e, a não ser o uso de Madame, nada nos indicaria estarmos em presença de alguém que se dedicasse ou tivesse artes fora do alcance do comum dos mortais: recuássemos nós cinquenta anos e poder-se-ia supor que Madame Margarida seria porventura "patroa" de uma "casa de passe", pois de madames eram chamadas nesse tempo, ilação nada abonatória para a pessoa em causa. Mas onde é que tudo isso já vai!
Toda a gente sabe que as capacidades curativas, premonitórias, de adivinhação e outras, ou como ela dizia de forma sintética, capacidades extra-sensoriais, com o que muito impressionava os clientes, só são acessíveis a alguns eleitos: ou se têm ou não se têm, nascem connosco, não se aprendem, não se dão e não se vendem. Isto mesmo dizia ela, segundo me contaram.
Mas uma bruxa que se queira a par com a modernidade, que se queira aceite e, enfim, que se queira credível, não pode, desde logo, chamar-se de bruxa nem limitar-se a deitar maus olhados ou a lançar feitiços. Afinal já ninguém acredita nessas patranhas. E o mesmo se diga dos bruxos da modernidade, que até se chamam de doutores. O melhor será dar-se alguns atributos como os de astrólogo, parapsicólogo, cartomante, quiromante, tarólogo ou outros arrevesados nomes que tais. E se se possuir diploma emoldurado na parede tanto melhor. Se somos detentores de capacidades raras devemos decorá-las com algum saber académico, de outro modo não seremos mais do que autodidactas e toda a gente sabe que um autodidacta nunca é levado de todo a sério. E porque era avisada era assim mesmo que procedia Madame Margarida: tinha títulos e até tinha diploma comprovativo de que frequentara um curso de parapsicologia, no qual havia sido aprovada com elevada classificação. É óbvio que toda esta parafernália de saberes, atestados ainda por cima com diplomas, transformou a bruxa de antanho numa profissional, numa técnica, enfim.
Mas já vai longa a apresentação de Madame Margarida. E tudo isto vem a propósito de vos querer contar um caso singular que com ela ocorreu e que, desde já vos aviso, não concorre para abonar a sapiência da mesma nem a honestidade de processos utilizados. Longe de mim cometer o despautério de generalizar relativamente a tantos outros que a tais práticas se dedicam. Além de que, no caso que vos vou narrar, existe uma atenuante, uma atenuante que me parece merecer-nos alguma compreensão, pois que neste caso andou metida a mão de Eros, esse mesmo, o deus do amor. E só é de todo insensível e incapaz de compreensão aos devaneios do amor aquele que nunca amou. E quem nunca amou apenas nos poderá ser digno de lástima, por ser um ente humano truncado, incompleto, desconhecedor daquele sentimento doce e eterno que é capaz de nos elevar ao Olimpo celeste ou de nos rebaixar aos infernos profundos, e por isso é o mais humano de todos os sentimentos: sublime e torpe, grandioso e mesquinho, generoso e cruel.
Mas deixemo-nos de divagações e contemos o que se passou.
A Madame Margarida não se conhecia homem, pelo menos de há três ou quatro anos a esta parte. Quando aqui se estabeleceu, inicialmente numa pequena casa térrea, na parte antiga da cidade, numa zona de ruelas e becos, antigo bairro de mouros e judeus, trazia parceiro que, como ela, também se dedicava às artes esotéricas. Dava pelo nome de Doutor Kebir, assim mesmo, com kapa e tudo, este sim, um nome de sonoridades exóticas, a lembrar culturas distantes e saberes estranhos. Era um homem com um perfil aquilino, alto e magro, de cavanhaque e longa cabeleira, trajando sempre de negro. Era, como é bom de ver, uma personagem que cultivava um estilo misterioso e distante, de todo conveniente ao seu mister. Mas um dia as coisas parece que azedaram entre ambos, vá lá saber-se porquê, e o Doutor Kebir desapareceu, misteriosamente, da circulação. Não se sabe de onde tinha vindo nem para onde se teria ausentado este Doutor. Vidas misteriosas, já se sabe.
Quando se separaram já se haviam mudado há algum tempo para o Monte Novo, que compraram e recuperaram. É bom de ver que a compra do monte, situado nos arredores da cidade, fora ditada por razões de carácter profissional e não por mera ostentação, tão comum aos novos-ricos: o monte propiciava visitas discretas, longe dos olhares sempre incómodos e indagadores de amigos e conhecidos, pois aquilo que leva um comum mortal a fazer tais diligências é quase sempre assunto inconfessável, porque do foro mais íntimo. E eles, no louvável propósito de salvaguardarem a privacidade dos seus clientes, haviam optado pela compra do monte.
A vida tinha-lhes sorrido mas, pelos vistos, nem tudo lhes correria de feição.
As más-línguas locais bem que porfiavam em tentar encontrar homem para Madame Margarida. Podia lá ser, uma mulher ainda em tão boa idade e tão apetecível. Mas o certo é que até ao presente nem chus nem bus que apontar, para desespero de muitos que sempre se comprazem em esmiuçar a vida alheia, useiros e vezeiros que são em ver o argueiro no olho alheio e em não ver a trave no seu.
E os tempos foram correndo, calmos e prósperos para Madame Margarida, até que um dado dia lhe entra em casa uma cliente. Era mais um caso de esposa que se cuidava atraiçoada e vinha em busca de lenitivo e cura, cura para o mal do marido. Que este já não a procurava como dantes soía fazer, que por vezes chegava a casa a desoras, o que dantes não acontecia, que após longos períodos de afastamento e absoluta frieza a obsequiava com prendas surpreendentes, prova de que o remorso e o arrependimento por vezes prevaleciam sobre o seu mau proceder que, enfim, já não era o mesmo homem. Se tinha outras e mais fundadas provas de que outros amores o haviam desencaminhado dos seus deveres conjugais? Que não, que não tinha, e nem precisava, nestas coisas coração de mulher adivinha.
Qual a terapia recomendada não o sei. Nunca recorri a tais processos e aqueles que recorrem parece que têm algum pejo em desvendar aquilo que se passa entre eles e o conselheiro vidente. Também nunca o indaguei junto daqueles poucos que conheço que já foram à "bruxa". Procuro intrometer-me o menos possível na vida alheia. Mas estou em crer que muitos outros que conheço também já lá terão ido, só que sobre o assunto guardarão eles o mais profundo sigilo. Adiante.
As visitas continuaram, prova da pouca eficácia da terapia utilizada, dirá quem desconhece o fim da história.
Falta ainda esclarecer que a cliente de que falamos e o seu desencaminhado cônjuge eram, e ainda são, funcionários públicos e trabalhavam, à altura destes factos, na mesma repartição. Ele, mercê da sua actividade, fazia frequentes deslocações à capital onde por vezes se demorava dois a três dias. E era nessas ocasiões que o ciúme e a desconfiança irrompiam como lava ardente no peito da esposa. Sei, porque esta o contou, que se tinha proposto várias vezes segui-lo discretamente nessas saídas, mas que Madame Margarida sempre a dissuadiu de fazê-lo dizendo-lhe que seriam infrutíferas tais diligências, convencendo-a da quase impossibilidade de seguir alguém na grande cidade por muito tempo sem lhe perder o rasto, ainda mais quando se conhece mal essa mesma cidade, como era o seu caso.
E num determinado dia os acontecimentos precipitaram-se de forma irremediável. E por um conjunto de circunstâncias fortuitas, aquelas circunstâncias que, há falta de melhor, uns atribuem ao acaso, outros ao fado, outros à providência divina e que os antigos, tentando pôr um pouco de razão e ordem nas desordens do mundo, atribuíam aos caprichos dos deuses. Não me parece que tenhamos avançado, neste sentido, muito mais do que eles. Aconteceu que o marido se havia ausentado para a capital, em serviço, e por lá se iria demorar dois dias. Quando ela, ao segundo dia de ausência deste, comparece pela manhã no local de trabalho uma colega, intrigada, pergunta-lhe:
-Então, já regressaste de Lisboa?
-Se já regressei de Lisboa?
-Sim, é que o meu marido telefonou ontem à noite para o teu, creio que para combinarem uma caçada no próximo fim de semana, e do hotel responderam que ele tinha acabado de sair com a esposa.
Imaginem a comoção. Mas não se desmanchou. Conteve-se e respondeu-lhe que sim, havia acabado de chegar, que agora com a auto-estrada a viagem se fazia com mais rapidez e até com mais conforto e segurança.
Terá passado todo esse dia numa angústia profunda. Ele deveria regressar nessa noite. Segundo confessou mais tarde, dias depois, quando já havia serenado, desejou, desejou profundamente, que algo de mau lhe acontecesse, porque aquele desassossego íntimo em que a havia deixado era merecedor de alguma penosa contrapartida na pessoa dele.
Cerca das dez horas da noite encontrava-se em casa fervendo em amarga revolta, preparada para uma homérica disputa conjugal, quando recebe uma chamada telefónica das autoridades comunicando-lhe que o marido havia sofrido um acidente, já depois de ter deixado a auto-estrada. Supunha-se que o acidente havia sido causado pelo piso bastante molhado, devido às grandes chuvadas que haviam caído ao longo do dia e que aqui e ali formavam grandes poças. O estado do acidentado não inspirava cuidados. O acidente, embora aparatoso, não tivera consequências de maior: o carro havia saído da estrada e fora imobilizar-se a cerca de cinquenta metros da via, numa zona de cultivo, livre de obstáculos. O próprio solo, empapado pela água, teria amortecido o impacto. Que já havia seguido de ambulância para o hospital distrital.
Para lá se dirigiu aguardando ali a sua chegada. Sentia-se agora um tanto ou quanto culpada por tão intensamente haver desejado, ao longo do dia, que algo de mau lhe acontecesse. Mas do mal o menos, pela descrição das autoridades,apenas não ganhara para o susto. Oxalá assim fosse.
Quando a ambulância chegou olhou-o friamente. Poude confirmar que o estado dele, aparentemente, não inspirava grandes cuidados. Estava consciente e para além de algumas equimoses na cara e dores no peito, devido à pressão exercida pelo cinto de segurança, de nada mais se queixava. Iria ficar internado para observação e muito provavelmente teria alta no dia seguinte. Isto lhe dizia um dos bombeiros que o tinham transportado, para a confortar, quando chega uma outra ambulância. "Outro acidente?", perguntou-lhe ela. Que não, que era o mesmo acidente, a viatura trazia dois ocupantes.
Com o coração em sobressalto foi ver quem era o outro ocupante. Era Madame Margarida.
Olhou-a longamente, sem dizer palavra. A outra, que estava bem desperta, ao pressentir a sua presença fechou os olhos e adoptou uma pose de completo desfalecimento. Não lhe apeteciam cenas públicas com a esposa ofendida, tinha a sua reputação de mulher e de profissional a defender e ainda por cima, e isto era talvez o mais importante, jazia numa maca, toda dorida e incapaz de se defender.
Depois de muito a olhar voltou-lhe por fim as costas com desdenhosa altivez. Em seguida meteu-se no carro mas não se dirigiu para casa, tomou a direcção do Monte Novo.
No outro dia, pela manhã, os eventuais passantes e os clientes de Madame Margarida, desconhecedores do acidente e do seu internamento no hospital, intrigavam-se com o aspecto do Monte Novo: alguém havia quebrado, à pedrada, todos os vidros das janelas.





Madame Margarida já não reside na cidade. Mudou-se para o Algarve e, pelo que dizem, continua próspera. Aprendeu línguas e tem agora uma clientela cosmopolita.
O casal desavindo rompeu definitivamente. Ele pediu transferência e trabalha agora numa vila vizinha. Dizem que continua a encontrar-se ocasionalmente com Madame Margarida.

 
|
 
AMORAS SILVESTRES


Apeteciam-lhe amoras. E as melhores das redondezas sabia ele onde encontrá-las. Lá para baixo, debruçadas sobre a ribeira, num sítio tão pedregoso que nem mau caminho para lá havia, faziam as silvas um monturo tão espesso que o Sol mal podia penetrá-lo. E quem vinha pela outra margem, que fazia melhor andadura, se as quisesse provar tinha que atravessar a nado o pego de águas límpidas e profundas, que nem sequer em anos de menos chuvas secava. E era aquele silvado como que seu, ainda mais desejado por não ser secreto, pois que patente aos olhos cobiçosos dos viandantes da outra margem apenas era acessível a gaiatos como ele, ávidos dos seus frutos e lépidos como cabritos, a cuja gulodice nem as penedias e muito menos o prazer de um mergulho faziam embaraço.
Saciou-se. Encheu os bolsos. Ao trepar a margem da ribeira, alta naquele ponto em que o silvado caía em cachão sobre as águas límpidas do pego, escorregou e caiu. E o inevitável aconteceu: as amoras, esmagadas dentro dos bolsos, começaram a tingir-lhe os calções com duas manchas rosáceas que alastravam. Tirou as amoras dos bolsos, lassas e a desfazerem-se em suco, e logo pensou em como se havia de livrar dos ralhos da mãe. Sempre ouvira dizer que aquelas nódoas de fruta, e particularmente das amoras, eram difíceis de tirar. Pensou despir os calções e lavá-los na ribeira. A nódoa ainda era recente, não se havia de todo entranhado no tecido e talvez assim evitasse males maiores. Mas ficar de calças na mão à vista de qualquer passante? Afastou da mente, com um esgar, tão humilhante ideia. Poder-se-ia esconder enquanto as calças secavam. Mas essa antevista espera já o impacientava, mesmo antes de ter começado. E, apesar de escondido, quem lhe garantia que ninguém o veria? O melhor era lavar os calções mesmo vestidos. O calor do corpo e o calor do Sol, que a manhã já ia alta, mais depressa lhos secariam e ficaria liberto para fazer o que muito bem lhe apetecesse.
E assim fez. Achegou-se a um local onde lhe era mais fácil lavá-los e nessa tarefa se encontrava quando percebeu sons de areias pisadas e ramos que se afastavam para dar passagem a alguém. Ergueu-se e percebeu que eram duas pessoas, não uma, que se aproximavam daqueles sítios. Mas olha quem eles eram?! A Aninhas Perdigoa e o Aurélio. Mas já ele havia regressado da Suiça? E que faziam aqueles por ali àquela hora? Então a Aninhas não ia casar dentro de poucos dias com o Tonico Marujo? E vinham ambos com tantas cautelas, em tão grande silêncio, que aquilo não era decerto coisa boa. Escondeu-se para ver no que aquilo dava.
Viu-os vagabundearem ao acaso, pisa aqui, pisa acolá, como que procurando um local escondido de olhares estranhos. Não lhes era difícil encontrá-lo: naqueles sítios as moitas de loendreiros, de garridas flores rosáceas, eram densas e as cheias das invernias haviam escavado aqui, depositado monturos de areia mais além, descobrindo ali maciços taliscosos de bordos cortantes como navalhas, encobrindo-os acolá, aqui parede alterosa, ali alicerce encoberto, de modo que os baixios e os loendreiros ofereciam inúmeros esconderijos. Finalmente lá acharam um local que lhes pareceu mais a jeito, um baixio arenoso ainda ensombrado àquela hora matinal pelos arbustos de troncos grossos como árvores que o rodeavam.
Pé ante pé, escondido entre o denso matagal, ficou-se a observá-los.
Sentaram-se e por algum tempo dialogaram, mas tão baixo que ele apenas conseguia perceber uma que outra palavra, murmurada em tom mais emotivo. E enquanto falavam ele afagava-lhe os cabelos, em gestos longos e cariciosos. Depois atraiu-a si e começaram a beijar-se. Deitaram-se sobre a areia e a troca de carícias continuou, cada vez mais intensa e apaixonada. Ele sabia dos jogos amorosos e da sua mecânica, na rua e no pátio da Escola tudo se aprende, mas não sabia dos suspiros profundos, dos gemidos contidos, do êxtase. E um sentimento de desconforto começou por se apoderar dele. Sentia que um rubor lhe tingia as faces, que não era ali o seu lugar. E sentimentos contraditórios dentro dele se debatiam. Apesar do sentimento pudibundo sentia-se também atraído por uma curiosidade de menino para quem a novidade presencial do acto constituía como que uma iniciação àquela parte do mundo dos adultos ainda misteriosa e proibida para ele. Depois pensou que ao ausentar-se poderia trair a sua presença, por qualquer ruído provocado de forma inadvertida. Este pensamento, como se fosse desculpa, confortou-o. E deixou-se ficar, quieto, alapardado e fascinado.
Mas porque aquele sentimento de desconforto pudico de todo não se arredasse, deixou que os seus sentidos se deixassem envolver pelo mundo circundante que, embora familiar, sempre o fascinava, regurgitante de vida, pleno de cores e sons.
De onde estava divisava o pego de águas límpidas; atraiu-o o baque surdo de um peixe que pinchava nas águas tranquilas e caía, ainda lhe divisou o revérbero prateado do dorso, que o Sol matinal fez relampejar; mirou a passarada que volteava no ar, atarefada no seu governo de vida, antes que o calor apertasse e a modorra a abrigasse nos folhedos densos e aprazíveis; mais além um bando de pardais ladinos, envoltos numa leve poalha, desparasitava-se, esfregando com vigor contorcionista os corpos penugentos na areia, numa desbragada e alegre algazarra. O par amoroso serenara e trocava agora suaves carícias. Também ele serenara, o sentimento de pudor e a curiosidade mórbida já não tinham ali cabimento: o tranquilo espectáculo da Natureza onde cabia todo inteiro o par amoroso, e ele próprio, isso sim, fazia sentido.
Ela agora chorava. Via-lhe os ombros estremecerem com os soluços que tentava conter com ambas as mãos na boca. Ele falava e gesticulava de manso. Escondeu-lhe então o rosto contra o peito e os soluços foram-se espaçando, enfraquecendo. Colheu uma flor do loendreiro, que sobre eles caía em capela, e prendeu-lha no cabelo. Deu-lhe um beijo, um último beijo, e partiu. Ela ainda se ficou por longos minutos, sentada, fitando ora o chão ora o azul infinito do céu. Por fim também partiu, de ombros caídos, desalentada.
E só muito depois ele se atreveu a deixar o seu esconderijo e a regressar a casa, com uns olhos brilhantes de espanto e novidade.





-Mãe, não é verdade que a Aninhas Perdigoa vai casar com O Tonico Marujo?
-Não se fala noutra coisa. Mas por que perguntas isso?
-Por nada. Era só para confirmar. Mãe, sabes quem eu vi ontem? O Aurélio. Já veio da Suiça.
-Também já ouvi dizer.
-Mãe, nunca ouviste dizer que o Aurélio e a Aninhas gostavam um do outro?
-Ora! Isso foi coisa dos bancos da Escola. O Aurélio é um moço pobre, criado pela mãe com muitas dificuldades. Perdeu ele o pai tinha ainda meses. Muitas vezes a minha mãe valeu à mãe dele, a tia Mariana.
-E como é que sabes que eles não gostam ainda um do outro?
-E que gostem! O Bento Perdigão nunca iria permitir que a sua querida filhinha casasse com um pobretanas. Rico casa com rico e pobre casa com pobre.
-Mas nas telenovelas...
-Isso são tudo fantasias com que o povo se engana, filho.
-Olha que às vezes não são fantasias!
-Olha lá, mas o que é que tu sabes que eu não saiba, hem?
-Nada, mãe, nada.
E partiu deambulando ao acaso pelas ruas da aldeia. Rebentava por não revelar o seu segredo a alguém. Mas a quem? Sim, a quem? Aos colegas de Escola? Impensável! Tão certo como dois e dois serem quatro em como passada uma hora toda a aldeia o saberia; não passavam de um bando de fedelhos linguarudos e sem-vergonha. E ele tinha consciência, nos seus verdes anos, do escândalo retumbante que assolaria a aldeia e léguas em redor se tal se viesse a saber. Durante dias, semanas até, seria tema de conversa mais que obrigatório, saciaria bem a crónica de maledicência e mesquinhez a que muita daquela gente se dedicava com verrina e paixão doentia. E isso era a última coisa que ele desejava que acontecesse. Não é que ficara a simpatizar com o par? Bom, ele até que já há muito gostava da Aninhas Perdigoa, julgava-a até a moça mais bonita da aldeia: alta, com o seu cabelo castanho levemente ondulado, uma tez suavemente morena, enfim, seria ainda uma criança mas tinha olhos na cara e sabia perfeitamente distinguir o feio do bonito. E quanto ao Aurélio até que lhe tinha simpatia, sempre que vinha de férias, dos trabalhos sazonais na Suiça, metia-se com ele ao vê-lo na rua e ainda no Natal passado lhe trouxera um chocolate suiço, grande como nunca havia visto.
A sua mãe? Nunca o faria, não seria jamais capaz de contar-lhe o que havia presenciado, impedia-o um sentimento de vergonha e decoro. E pelas mesmas e acrescidas razões não seria capaz de contá-lo a seu pai. Só que o segredo era maior do que ele e rebentava se o não partilhasse com alguém.
E quase sem querer achou-se junto à loja de roupas finas para senhora que a Aninhas possuía, que lha havia montado o pai quando ela, com muitos rogos e insistências, lhe dizia que queria trabalhar na cidade, que a pasmaceira da aldeia a deprimia e que precisava de espairecer.
-Chega de mata-mata! - respondeu-lhe ele um dia, já colérico. - Se quer trabalhar trabalhe ao menos para si e não para os outros! Diga lá que negócio quer que eu lhe monte que eu trato já disso. Mas trabalhar para outros não trabalha, porque não precisa. Não tem tudo o que quer? Ora esta, onde é que já se viu?
E assim surgiu na aldeia a boutique de roupas de senhora, porque a filha de Bento Perdigão, no entender de seu esclarecido e abastado pai, jamais trabalharia em casa alheia.
Entrou. Encontrava-se sozinha, sem clientes E tinha um ar infelicíssimo, tão infeliz que até mesmo um coração duro dela se apiedaria. Quando o viu tentou esboçar um sorriso, que saiu frouxo, forçado.
-Bom dia, Aninhas!
-Bom dia, Carlinhos! Então, como têm decorrido essas férias?
- Bem! E como a minha tia Margarida já me convidou a ir passar duas semanas a casa dela, no Algarve, ainda vão ser melhores.
- Pois, a tua tia vive no Algarve...
Claramente não lhe apetecia conversar. Ele percebia-o pelo seu tom de voz, lamuriento e sumido. Só o fazia, a pobre coitada, para tentar ser simpática e disfarçar a tristeza que lhe transparecia nos olhos tristes e magoados.
E como uma névoa que lentamente se vai adensando, um sentimento de absurdo e de revolta se foi apossando do seu espírito. A cena que havia presenciado na véspera, a conversa com sua mãe, a infelicidade da Aninhas, e sobre tudo isso a figura de Bento Perdigão, pairando como uma hedionda ave negra, tudo lhe pareceu desconexo, ilógico, peças de um puzzle que ele não conseguia arrumar mas, o que era pior, não suportava ver desarrumadas.
E então, de forma tão irreflectida que ele próprio se surpreendeu, disse-lhe:
-Aninhas, ontem vi o Aurélio.
-Sim? Onde? - respondeu-lhe ela, laconicamente, num fio de voz tão ténue que era quase imperceptível.
-Vi-o ontem de manhã, junto à ribeira!
Ela ergueu a cabeça num gesto brusco, subitamente interessada.
-E também te vi a ti!
-E também me viste a mim?
-Aninhas, por que não casas com o Aurélio?
Viu-lhe o peito estremecer e grandes e copiosas lágrimas lhe despontaram dos olhos.
-Deixa-me, vai-te embora! Que sabes tu da vida? Deixa-me... - e as lágrimas deslizavam-lhe pela face, quase sem soluços.
Sentiu-se sem palavras e com um profundo sentimento de culpa por ter causado aquele tão lacrimoso transe. Mas quem o mandara meter-se na vida alheia? Afinal que tinha ele a ver com os amores e desamores dos outros, que tinha ele a ver com esse mundo adulto tão cheio de absurdos e incompreensões? E saiu rua fora revoltado contra si, contra a Aninhas, contra o Aurélio, contra tudo, contra todos.





Umas mãos, num gesto terno e suave, taparam-lhe os olhos. Aspirou lentamente o aroma que das mãos e do corpo se desprendia. Era o mesmo perfume que havia sentido, no dia anterior, na loja da Aninhas.
-Aninhas! - disse.
Ela soltou-o e virou-o para si.
-Como sabias que era eu? - perguntou-lhe risonha.
-Adivinhei!
-Tu adivinhas e vês demasiadas coisas!
E olhavam-se e sorriam um para o outro, num sorriso amigo e cúmplice.
Ela baixou-se e colocando-lhe as mãos sobre os ombros fitou-o, olhos nos olhos:
-Aquilo que tu viste é um segredo que fica entre nós, não é? Ou já contaste a alguém? - perguntou-lhe num tom meigo mas onde se notava também alguma apreensão e súplica.
-Não, não contei a ninguém!
-Nem vais contar, pois não?
-Não, não vou contar a ninguém! - disse-lhe, erguendo a cabeça num gesto resoluto e categórico.
Ela passou-lhe a mão pelo rosto, numa suave carícia de agradecimento, rindo mais os olhos do que o rosto, uns olhos de onde haviam quase desaparecido as trevas magoadas e a angústia que tanto o haviam impressionado no dia anterior.
-Não conto a ninguém mas tu prometes-me uma coisa. Se tiveres um menino ele há-de chamar-se Aurélio!
Ela riu-se, num riso prazenteiro e surpreso.
-Ora, que ideia a tua!?
-Prometes?
-Prometo! - disse-lhe num ar subitamente sério.
E ele soube que assim seria, no abraço forte e sentido que ela lhe deu.








Era sábado, não tinha aulas, e mesmo que tivesse, não deixaria nunca de comparecer ao baptizado do filho da Aninhas.
-Onde vais? - perguntou-lhe a mãe, estranhando vê-lo tão madrugador, ele que tanto gostava de ficar a preguiçar na cama nos fins de semana libertos dos trabalhos escolares.
-Vou ver o baptizado do filho da Aninhas!
-Mas alguém te convidou? Não sabes que a casamento e baptizado só vai quem é convidado?
-Ora mãe, vou só ver. Que mal tem?
E ali estava ele. Como se precisassem de o convidar para tal cerimónia, sim, a ele, que antes mesmo de o menino existir já estava convidado, ele que era o verdadeiro padrinho daquela criança pois, afinal, quem lhe pusera o nome?
A igreja encontrava-se repleta com os numerosos convidados. O templo até nem era muito grande mas, na verdade, os convivas eram muitos, pois Bento Perdigão queria que a cerimónia estivesse de acordo com os seus pergaminhos de homem influente e abastado e fosse digna do seu neto, o seu primeiro neto.
E o momento solene aconteceu. O velho Padre Anselmo, que já havia baptizado três ou quatro gerações de paroquianos, ergueu a concha nas suas mãos já trémulas, e pronunciou as palavras sacramentais:
-Aurélio, eu te baptizo em nome do Pai...
Respirou fundo. Sentiu-se subitamente reconciliado consigo e com o mundo. Até o Bento Perdigão, que olhava embevecido e com os olhos orvalhados o seu primeiro neto, que esbracejava e chorava incomodado com a água que sobre si derramavam, lhe parecia agora mais simpático.

 
|
Quinta-feira, Abril 07, 2005
 
A TIA CLEMENTINA


Quando naquela manhã viu a bandeira de leilão colocada no edifício da Caixa Geral de Depósitos e lá entrou para verificar se alguma coisa lhe poderia interessar, mal ele imaginava que aqueles passos o iriam conduzir a uma das histórias mais desconcertantes que lhe haviam acontecido ao longo de toda a sua vida.
De há muito que era frequentador daquele tipo de leilões. Ourives de profissão, de ascendência nortenha como quase todos os ourives que na região se haviam estabelecido, alguns há já várias gerações, quase sempre encontrava naqueles leilões um ou outro lote de jóias que lhe propiciavam um bom negócio. Algumas daquelas jóias esconderiam decerto histórias pungentes, de desespero e angústia, teriam sido o último dos recursos a que se teria jogado mão num momento de absoluta necessidade, quando todas as solidariedades falharam e o anónimo penhorante se achou só perante a adversidade. Tinha ele plena consciência disso e era com alguma incomodidade que olhava os lucros de tal negócio. Mas se não fosse ele outro seria, e com este pensamento confortava a consciência.
Mas naquele dia julgou reconhecer uma de entre as jóias constantes de um lote. E a ser aquela que ele julgava, não fazia grande sentido ali se encontrar. Conhecia os proprietários e, tanto quanto sabia, não teriam atravessado nem estariam a atravessar um qualquer transe difícil que os obrigasse a empenharem-se e, o que é mais, a verem-se desapossados de uma jóia que, e ele bem o sabia, era uma jóia de família.
Insondável mistério! Resolveu telefonar a um dos membros da família com o qual tinha um relacionamento mais próximo, médico de profissão, há alguns anos ausente em Lisboa e que, porventura, lhe poderia esclarecer a tão misteriosa presença de tal jóia num leilão de penhores.
A surpresa foi total. Não fazia a menor ideia de como é que a jóia fora parar ao leilão. A mesma tinha desaparecido, é certo. Há já alguns anos que nem ele nem nenhum dos familiares sabiam do seu paradeiro, tinha levado um completo e inexplicável sumiço. Mas que aguardasse que nesse mesmo dia lhe telefonaria, que iria entretanto contactar outros familiares para deliberarem sobre como haveriam de proceder acerca da jóia.
E assim aconteceu. Poucas horas passadas telefonava-lhe. Que adquirisse o lote de jóias onde aquela se encontrava, era um favor que lhe fazia, e que lha vendesse. Que de forma alguma iria sair prejudicado do negócio. Mas se tal não lhe fosse possível que desde logo lho dissesse, que ele mesmo procuraria outra maneira de ficar com o lote, embora só a jóia de família lhe importasse.
O lote seria necessariamente caro. O investimento de capital seria sempre vultuoso e sê-lo-ia ainda mais se aparecesse alguém no leilão particularmente interessado em adquiri-lo e o disputasse em licitação pública, possibilidade sempre em aberto. As jóias que o compunham eram, algumas delas, de razoável idade, cuja estética estava já bem fora dos gostos mais recentes e, por isso, a sua venda seria sempre problemática e decerto morosa. Por outro lado aliavam à preciosidade própria da sua condição uma outra, adveniente, nalgumas delas, da sua idade: eram peças de colecção o que, se tornava mais problemática a sua venda, as apreciava bastante. Tudo isto perpassou de relance pela sua mente de negociante experimentado. Respondeu afirmativamente, iria tentar comprar o lote, com uma salvaguarda: se aparecesse alguém a licitá-lo por valores exorbitantes ele não poderia acompanhar esses valores. Que o compreendesse, mas por muito que prezasse a amizade e consideração que há anos lhe devotava era um negociante. Com certeza, nem ele aceitaria outra coisa, já lá diz o velho rifão "amigos, amigos, negócios à parte", mas que tudo haveria de correr pelo melhor e que decerto conseguiria adquirir o lote por um preço razoável. Seria pouco provável aparecer alguém particularmente interessado pelo mesmo. E que de uma coisa poderia estar certo, o preço pelo qual ele lhe compraria a jóia, há tanto desaparecida, seria sempre compensador, pois ele não iria regateá-lo. E que dentro de breves dias se deslocaria à província e então mais e melhor falariam sobre o assunto.


II


-Agradeço-lhe ter-se interessado e comprado a jóia. Há muitos anos já que desconhecíamos o seu paradeiro. E na verdade continuamos sem saber como é que ela foi parar ao leilão.
Encontravam-se ambos sentados à mesa do Café, bem na baixa da cidade e que, de há muitos anos a esta parte, era frequentado pela boa sociedade local, em exclusividade em tempos de antanho, mas agora partilhado com turistas, estudantes e muitos indígenas, na sua grande maioria gente sem linhagem. Os tempos tudo mudam e as classes médias, paulatina, tenazmente, iam subvertendo a ordem herdada dos velhos tempos. Começara por frequentá-lo, a instâncias do pai, que raramente lá havia posto os pés, pois era seu entendimento que assim o filho não somente granjeava estatuto como dos bons relacionamentos que ali se poderiam estabelecer resultariam bons negócios. Ademais a ourivesaria situava-se nas proximidades. E de frequentador arrivista tornara-o o tempo cliente assíduo e banal, não no sentido de trivial, sem importância, entenda-se, mas no sentido de que aquele há muito deixara de ser para si um espaço estranho, onde se sentia como convidado tolerado, onde se entra como quem entra em casa alheia, para ser um espaço onde entrava como em casa própria. Mas nem tudo havia mudado assim tão completamente. A geopolítica das mesas, quem se sentava com quem, contavam ainda muito a quem tivesse olhos para ver.
Era ainda cedo, pela manhã, e raros eram os clientes que se espalhavam pelas mesas.
-Mas porquê um interesse tão grande por tal jóia? - perguntou-lhe.
Eram contos largos. A jóia encontrava-se na posse da família há várias gerações, tantas que nem ele sabia bem. Segundo era tradição familiar, a mesma fora mandada fazer por um seu distante antepassado que fora oficial de marinha e que por bastos anos se ficara pelo Brasil, donde regressara com alguns proventos. Desde então a jóia passava de geração em geração, sendo sempre entregue à primogénita filha do primogénito, com todas as variantes que daí se possam deduzir. Por exemplo, a jóia tinha sido pertença de sua tia Clementina, que morrera solteira e sem filhos. Seguindo a tradição, seria agora pertença de sua irmã Catarina, a mais velha das irmãs nascidas de seu pai, por sua vez o mais velho dos irmãos logo a seguir à tia Clementina. Tanto quanto sabia o sistema tinha sempre funcionado bem. Eram afinal resquícios de costumes antigos que a família ainda conservava. Ou melhor, tal costume não seria hoje senão um fetichismo, uma caturrice de família a que todos se haviam habituado e a que ninguém parecia desejar pôr cobro. As instituições humanas, e a família é porventura a mais antiga dessas instituições, vivem também destes cerimoniais, destas práticas às vezes sem sentido mas que lhes acabam por dar alguma coesão, alguma unidade, e será talvez esse o seu sentido final. Quanto à jóia era bem verdade que a mesma era já tão fora de moda que ninguém hoje se atreveria a usá-la. Tanto quanto sabia a última vez que fora usada em público, e com grande contrariedade de seu avô, tinha sido numa récita do Liceu pela tia Clementina, à altura jovem estudante, quando representara um qualquer papel num dramalhão cuja acção decorria no século XIX. O avô tinha-se oposto por considerar tal atitude um desrespeito, mas a avó, que se pelava pelas artes cénicas, tinha conseguido demovê-lo. Dizia-se que também a tia Clementina era gaiteira, enquanto jovem. Ele conhecera-a já entrada em anos, azeda, sorumbática. Desgostos de amor? Dizia-se que sim, mas não é sempre isso que dizem dos solteirões inveterados? Mas se desgosto de amor houve a tia soubera manter o segredo bem aferrolhado, pois se se falava em desgosto de amor nunca ele ouvira, nem a ela nem a qualquer outro membro da família, uma referência concreta a qualquer desvalido pretendente.
A jóia, uma gargantilha, hoje só teria valor como adereço de época. De qualquer maneira não deixava de ser uma peça valiosa e que ele bem conhecia. Um gordo e pesado entrançado de fios de ouro donde pendia um medalhão cravejado de diamantes e águas marinhas. Apreçara-a há já quase trinta anos, quando a família, assustada com o curso dos acontecimentos políticos, resolvera pô-la a recato, juntamente com outras jóias, no cofre de um banco, não sem que antes as tivesse apreçado, encarregando-o a ele desse trabalho. Passada a comoção dos momentos que então se viveram, as jóias tinham retornado ao seio familiar e é a partir dessa altura que a gargantilha leva sumiço.
E já havia tentado saber como tal tinha acontecido?
Que já, mas na Caixa nada lhe puderam dizer, havia normas de serviço que impediam que se divulgasse a particulares o nome dos penhorantes. Que nem mesmo tendo invocado as circunstâncias particulares que rodeavam a jóia conseguira que lhe dissessem o que quer que fosse.
Mas talvez que se entregasse essa diligência às autoridades fosse mais bem sucedido, propôs-lhe.
Que também já havia pensado nisso.
Pois porque não fazê-lo? Ele tinha um muito bom relacionamento com o comissário local da polícia e poderia dar-lhe uma palavra nesse sentido ou, se assim o entendesse, poderia acompanhá-lo nessa diligência e irem ambos falar com o dito comissário. Assim se combinou e assim se fez.


III


Vivamente interessado pelo decurso das investigações o médico demorava-se na cidade. Foram estas breves e inconclusivas, como naquele dia lhe contou. Encontravam-se de novo no Café, como já vinha sendo hábito, onde manhã, pelo cedo, ambos se deslocavam a tomar a costumeira bica.
-Então, ao certo, o que é que o nosso comissário apurou de concreto?
Que já se sabia quem tinha penhorado a jóia mas o mistério do seu desaparecimento persistia. Um jovem da terra, toxicodependente, indicado pelos responsáveis da Caixa como tendo sido o penhorante, instado pelo comissário a dizer como é que a jóia lhe tinha ido parar às mãos respondera que a havia encontrado em casa do pai, com quem vivia e que tinha falecido meses atrás. Tanto quanto o comissário apurou, o dito jovem já tinha vendido praticamente todos os trastes que o pai lhe deixara. Diria o rapaz a verdade? Muito provavelmente. Havia então que aceitar os factos tal como eles eram e que nessa mesma tarde regressaria à capital, onde o esperava muito trabalho.


IV


-Já sabe que o tal jovem que penhorou a jóia do seu amigo foi encontrado morto em casa? - cedo, encontrava-se no Café para a matinal bica, e o comissário Mendonça, também costumeiro naquele hábito, acercara-se da sua mesa para lhe dar tal notícia.
-Sente-se, sente-se, comissário! Então como é que isso foi?
-Foi "overdose", segundo o resultado da autópsia. Nos dois últimos meses já é o segundo caso verificado no concelho. Uma desgraça, meu amigo, uma desgraça. Foram os vizinhos que alertados pelos uivos do cão, fechado dentro de casa, e que parecia ser o seu único amigo, e depois de muito terem batido à porta nos alertaram, alarmados.
O pensamento fugiu-lhe para os dois filhos menores. Esteve vai-não-vai para perguntar ao comissário se a polícia fazia tudo o que estava ao seu alcance para combater a praga que, como uma maldição bíblica, alastrara até à mais recôndita aldeia. Ele sabia de casos dramáticos aos quais mais este se vinha juntar, tanto mais dramáticos para si quanto ocorridos com gente que ele perfeitamente conhecia. E quem não conhecia tais casos? Acaso não os conhecia a polícia melhor do que ele? Acaso não os conheciam todas as restantes autoridades?
O comissário pareceu ler-lhe os pensamentos.
-A polícia faz o que pode, meu amigo, a polícia faz o que pode...
Talvez. Mas será que todos faziam? Decidiu encaminhar a conversa num outro sentido, pois aquele não parecia ser grato nem a um nem a outro.
-Agora jamais se saberá como é que a tal jóia lhe foi parar às mãos.
-Nestas coisas não existe a palavra jamais. Talvez não saiba, mas ele há casos que só são descobertos muitos anos depois e quase sempre por mero acaso. Talvez que um dia se saiba como é que a jóia desapareceu e depois reapareceu nas mãos do rapaz. Talvez que ele me tenha falado verdade e nesse caso haveria era que saber como é que a jóia fora parar às mãos de seu pai. Sabe que o pai era o coveiro aqui do cemitério?
Que não, não sabia.
-Pois era. E sempre lhe vou contar uma história ocorrida aqui perto, há muitos anos atrás, tantos que nenhum de nós ainda era nascido. Esta história ouvi-a eu a meu pai. Pois aconteceu que uma jovem, filha de gente de posses, adoece e morre com tuberculose, uma doença fatídica nessa época e que ceifou famílias inteiras. Quando se procede ao enterramento da jovem não lhe conseguem tirar um anel que ela tinha, pois o cadáver havia como que inchado. Poderiam ter-lho cortado mas, fosse lá pelo que fosse, esses pormenores não me contou o meu pai ou me contou e eu já me não lembro, a defunta foi enterrada com o anel. Passados dias começa a soar que o coveiro tinha pretendido vender um anel na vila. Pobre como era, a origem do anel levantou suspeitas e não tarda eis que o coveiro cai nas mãos das autoridades. Sabedores da história e pela descrição que lhes fazem do anel os pais da dita jovem suspeitam que fosse aquele com que sua filha havia sido enterrada. Para se tirarem de cuidados comparecem no posto da autoridade e identificam o dito anel como sendo aquele que sua filha havia levado para a cova. O que tinha acontecido? Muito simplesmente o coveiro, sabedor do pormenor do anel, tinha desenterrado o cadáver e tinha-se apoderado do anel. Macabro, não é verdade? Pois aconteceu exactamente assim como acabo de lhe contar
-Seria possível que a dona Clementina tivesse sido enterrada com a jóia e o coveiro se viesse depois a apropriar dela? Não, não é possível. Não é possível porque se trata de uma jóia que a família tinha e tem em grande estimação. Nunca o cadáver seria enterrado com a jóia. Não sei se conhece a história...
-Conheço, conheço, contou-ma o seu amigo quando procedi a algumas averiguações, como sabe. Mas talvez não fosse de todo descabido contar-lhe você mesmo esta história, um dia que calhe a estar com ele. Talvez que ela lhe possa recordar alguma coisa que permita esclarecer todo este mistério.
E por mais algum tempo se quedaram tagarelando de coisas e loisas, dos roubos dos túmulos dos faraós egípcios e do tempo que não vinha propício para as fainas agrícolas, tema que importava particularmente ao ourives, proprietário que era de umas courelas herdadas e que ele, recentemente, havia ampliado com uma compra que reputava de boa. E era aqui notória a prosápia com que ele se referia à sua condição de lavrador, pois a terra era na região, desde o tempo dos afonsinos, a principal fonte de poder e riqueza e ainda hoje se não havia esmaecido de todo esse estadão, por isso que importava ao comerciante, como a qualquer outro burguês, dourar a sua condição social com o penacho de proprietário, modesto embora no seu dizer, e ao comissário, que não possuía terras, também não era de todo indiferente o tema, pois que opinar sobre a lavoura fazia-o participar desse mundo, dessa ruralidade ancestral que teimava em persistir, que tudo impregnava de uma aura pagã que unia e dividia amos e servos, agora como no passado fonte de conflitos sociais e insanáveis ódios, que de tempos a tempos ressurgiam, brutais, telúricos , mas também alfobre de cultura que a todos amarrava num comum sentimento de pertença a essa terra por vezes avara, por vezes úbere, que tudo dava mas tudo finalmente cobrava no pó em que transformava a vida, retorno inexorável que a todos condenava. Mas quando a conversa descambou para as políticas locais o comissário decidiu que era chegada a altura de bater em retirada. Como autoridade local dizia-se isento e independente e abstinha-se escrupulosamente de manifestar qualquer opinião, por inocente que fosse, sobre as intrigas citadinas. Ao nosso ourives é que parecia excessiva tal prosápia do polícia, pois que também ele era cidadão. Mas se o comissário a alguém manifestava as suas opiniões não era com certeza a ele, e isto deixava-o um tanto exasperado, vendo aí diminuída a amizade e a camaradagem que as andanças em pescarias e petisqueiras haviam de há algum tempo forjado.


V


-Pois está descoberto o imbróglio. Que história, meu amigo, que história...
-Mas como é que descobriu...
-Não fui eu, pois aí é que está, foi a minha irmã Catarina!
-Mas então como é que foi?
-Calma, vou contar-lhe tudo de princípio, mas já agora deixe chegar o nosso amigo comissário para eu não ter que me repetir.
O comissário empurrava já a porta giratória do Café, vindo da rua. O médico havia-os convocado para aquela reunião alguns minutos antes, dizendo ter grandes notícias a dar-lhes, deixando trair na voz alguma comoção. Deixara apressadamente o balcão da ourivesaria guloso da história que prometia.
-Sente-se, comissário, sente-se! Saiba que o senhor é em parte responsável pelo deslindar da meada. Pois quem afinal descobriu todo este mistério foi a minha irmã Catarina. Mas vamos lá começar pelo princípio, que é por onde se deve começar. Havia em casa de meus avós uma criada, a Luísa, que eu, desde as minhas mais remotas memórias, sempre lá conheci. Quando os meus avós faleceram a Luísa lá continuou em casa, com a minha tia Clementina, tinham as duas mais ou menos a mesma idade. Quando a Luísa foi lá para casa era ainda moça e pode dizer-se que a minha tia e ela se fizeram mulheres e envelheceram juntas, as duas eternas solteiras. Esta convivência de anos criou entre elas uma intimidade profunda, cheia de segredos, confidências e cumplicidades. Acabaram por criar um mundo só delas onde não permitiam que ninguém penetrasse. Após a morte de meus avós ainda viveram as duas largos anos, sozinhas, naquela casa que havia albergado tanta gente e agora era demasiado grande para elas.
-Pois a Luísa sobreviveu à minha tia Clementina. Ainda é viva, encontra-se num lar que nós, a família, lhe arranjámos e lhe pagamos. A Luísa tornou-se, a bem dizer, como que mais um membro da família. Sempre que a minha irmã Catarina aqui vem não deixa de visitá-la. Foi ela que a criou desde praticamente o momento em que nasceu. Ora a história que o comissário lhe contou e que o meu amigo depois me contou, contei-a eu a minha irmã Catarina que logo ficou com a pulga no ouvido. É que, e ela recordava-se disso bastante bem, foi logo após o falecimento da tia Clementina que a jóia levou completo sumiço.
-Quando aqui esteve, na semana passada, a minha irmã visitou a Luísa e interrogou-a sobre o desaparecimento da jóia e o seu súbito reaparecimento, coisa que ela desconhecia. E é então que a Luísa, lavada em lágrimas, lhe conta o sucedido.
-A minha irmã Catarina, à altura do 25 de Abril, frequentava a Universidade em Lisboa. Namorava então aquele que é hoje o seu marido e militavam ambos na extrema esquerda. Dizia ela então que havia feito a sua opção de classe, coisa que punha a tia Clementina completamente fora de si. Meus pais, mais compreensivos, encaravam a coisa mais como um devaneio juvenil que com o tempo iria passar, mas a tia Clementina sempre se mostrou intransigente para com aquela sobrinha que ela preferia a todos os outros. Quando as coisas serenaram e apesar de minha irmã, depois de ter vivido alguns anos com o meu cunhado, ter finalmente e burguesmente casado com o mesmo, pondo assim fim à eterna ladainha da tia Clementina, nem então esta lhe perdoou de todo. E quando sentiu o fim próximo obrigou a Luísa, sob juramento, a que lhe colocasse junto do corpo a gargantilha para que ela não fosse parar jamais às mãos de minha irmã e que nunca, mas nunca, contasse o que quer que fosse sobre o assunto.
-E porque contou agora? - interrompeu o comissário com um sorriso de satisfação na face, pois não fora graças à sua história, há tantos anos ocorrida, que todo este mistério se deslindara?
-Já que a gargantilha tinha reaparecido, e estava agora nas mãos de minha irmã, a Luísa sentiu-se desobrigada do juramento que havia feito a minha tia e por isso lhe contou tudo.
-Mas como é que a gargantilha foi parar às mãos do coveiro, não me diz?- perguntou o ourives, ainda meio incrédulo com tão fantástica história.
-Pois meu amigo, a tia Clementina, por sua expressa vontade, foi enterrada em campa rasa. Passados os anos devidos, procedeu-se à inumação das ossadas que foram trasladadas para o jazigo de família. Foi decerto nessa altura que o coveiro descobriu e se apoderou da gargantilha, que veio a guardar em sua casa e que, por fim, o filho penhorou. Aí tem.
-Traga-me uma aguardente. - pediu o ourives ao empregado que passava.
-Mas você não bebe?! - exclamou o comissário.
-Às vezes, como agora, apetece-me! - respondeu-lhe.
-Traga-me também uma para mim! - disse alto o comissário ao empregado que se afastava.
-Eu também quero uma! - quase gritou o médico, com um riso que contagiou os restantes.
 
|
 
FÉRIAS BRIOSAS


I


O outro olhava-o com um ar de troça e comiseração e ele bem o entendia: "Eu não lhe dizia? Eu não lhe dizia que isto havia de acabar assim?"
Coçava a nuca, com um ar desalentado. De facto, não tinha mais argumentos. Mas perante o sorriso triunfal do tunante, que superiormente o fitava, encheu-se de brios uma última vez:
-Digo-lhe que se torna a acontecer isto não fica assim! Sei muito bem a quem me hei-de dirigir!
-Como queirra, meu amigo, como queirra! - respondeu-lhe no seu característico arrastar de erres.
"Calma, calma! Não seria por isto que haveria de ficar com as férias estragadas. Não andava a sonhar com a quinzena de praia mal o Natal se despedia e entrava o Ano Novo, para se deixar enredar em questiúnculas menores. Mas que tudo isto lhe havia feito chegar a mostarda ao nariz, havia. Então não querem lá ver? Levanta-se um homem pela manhã e depara-se com um espectáculo daqueles mesmo, mesmo à porta da tenda? E com a mulher e as crianças a dormirem lá dentro? Uma pouca vergonha daquelas logo ao romper da manhã, ali, em pleno parque de campismo? Levantava-se sempre cedo, ficara-lhe o hábito desde menino, nado e criado até tarde no campo. Talvez por isso lhe agradasse tanto o campismo. Mas para começo de dia não estava mal, não senhor. Está o mundo bonito! Que a França é um país de costumes mais liberais do que o nosso é verdade. E que cada um faça em sua casa, ou no seu país, aquilo que muito bem entender, sem incomodar os outros, aceita-se. Mas ele conhecia a França, já por lá tinha estado, e mais do que uma vez, de férias, em casa de um cunhado que há bem mais de vinte anos se havia estabelecido na cidade de Tours e por lá havia constituído família, e nunca tal se lhe deparara em plena via pública, nem lhe constava que o fizessem. Nem em França nem em parte alguma do Mundo. Esta era demais!
O outro, o recepcionista, bem que o tinha avisado: "Nós chamamos cá o monitor mas desde já lhe digo que de pouco vai adiantar. O meu amigo não sabe mas esta gente, quando se desloca para outro país, prepara a coisa a sério e inclusivamente informam-se sobre as leis desse país. Vai dizer-lhe que eles estavam na rua a ter relações e ele vai dizer-lhe o contrário. Verá se não é como eu lhe digo." Mas se ele havia visto o casalinho a fazer o serviço, como é que o outro lhe ia dizer que não? E disse-lho. Mas calma, calma é que era preciso. Se aquilo não se repetisse mais, mesmo ali à porta da sua tenda, até que fosse lá longe, à porta de outro, isso bem lhe importava, que se importasse o outro. Mas à porta da sua tenda, não! Ele o que queria era gozar as suas férias, pacatas, com os amigos de há longos anos, alguns desde que para ali começara a ir a banhos, ainda solteiro, jogar uma suecada pelo fresco da tarde com os parceiros habituais e beber o seu whisky, ah, é verdade, hoje era ele que deveria levar a garrafa, possivelmente teria que comprar outra, a que tinha talvez não chegasse, enfim, não lhe amolassem o juízo, não o incomodassem que ele também não incomodava ninguém. Mas andarem a fornicar ali à porta da sua tenda isso nem pensar.
"Mas o senhorr viu se o pénis estava intrroduzido na vagina?" Não, não tinha visto, e nem era preciso. A não ser que fosse debruçar-se sobre o casal, para espreitar. Olha que pergunta. Nem era preciso ver tal coisa para saber o que é que estavam a fazer." Mas viu ou não viu?" Não, já tinha dito que não. "Pois então se não viu como é que pode afirrmarr que estavam a terr rrelações?" E com esta argumentação do outro tinha-se deixado enrolar.
Haviam chegado de véspera. Gente jovem, de algum colégio francês. Já se sabe o que é gente moça. Ele também já tinha passado por essa idade. Férias, longe dos olhares paternos, eles e elas juntos dias a fio, dormindo ao lado uns dos outros, o que é que se espera? Que aproveitassem enquanto tinham idade para isso. Mas que diabo, bem que podiam ser mais discretos."
E neste discorrer chegou junto da sua tenda, já a família o aguardava para irem para a praia.
-Por onde andaste que nem o pequeno almoço ainda tomaste? - perguntou-lhe a mulher.
Que tinha encontrado uns amigos que já não via há muito tempo e com os quais se tinha entretido a conversar, respondeu-lhe. Não lhe diria nada por enquanto, se é que lhe diria. Já sabia que ela não iria aprovar a sua atitude. Até lhe parecia que já a estava a ouvir: "Aí andas tu a querer endireitar o mundo!"


II


Sentia-se particularmente bem disposto. Vinha do habitual jogo de cartas com os amigos, cujo convívio sempre o dispunha bem, particularmente quando o jogo lhe corria a favor, como era o caso naquele dia. Era Verão, estava de férias na praia das suas preferências, tinha junto de si a família e o incidente da manhã era assunto para esquecer. Tudo lhe parecia perfeito. Bem, nem tudo.
Ao fundo da rua do parque, por entre os pinheiros, divisou a figura do monitor dos jovens franceses! Só agora notava, com alguma surpresa, que se tinham ambos entendido, pela manhã, em português. Mas onde raio teria ele aprendido a falar português? Melindrado que estava com o acontecido nem tinha reparado nesse pormenor. Bem, também há muitos portugueses que falam francês. Ele é que não iria perguntar-lho. Quanto menos conversas tivesse com o passarão melhor. Pensou em mudar de direcção e desse modo evitar cruzar-se com ele. Mas o outro também já o tinha avistado e estavam agora demasiado próximos, tão próximos que esse gesto já não poderia deixar de ser ostensivo e até o espertalhão considerar que ele agia assim por despeito ou cobardia. Divisava-lhe agora bem as feições e apercebeu-se de que trazia estampado no rosto o mesmo sorriso velhaco com que o tinha deixado pela manhã. O tipo queria desfrute. Pois bem, passaria por ele e se o cumprimentasse nem lhe responderia!
-Português, paneleiro! - disse-lhe, ao cruzarem-se.
Ficou estupefacto. Quando quis reagir já o outro se tinha afastado tanto que, para se fazer ouvir, ou gritava ou ia no encalço dele, em passo acelerado. Para graça era pesada, já que não existia entre ambos qualquer intimidade que justificasse ditos de tal espécie. E até mesmo entre amigos tais liberdades haveriam de ser sempre ponderadas e adequadas a circunstâncias determinadas, por forma a não redundarem em ofensa. Se o outro o havia dito por graça pois não tinha graça nenhuma. Havia ali, por muito benévolo que tentasse ser, o propósito evidente de amesquinhar e ofender. Ah, mas não ficaria sem resposta. Mas que resposta? Bem, quando o encontrasse teria que lhe dizer que não lhe admitia aquelas liberdades, que não tinham comido na mesma gamela e portanto cada um às suas. Não o iria procurar de propósito mas, quando o encontrasse, teria que dizer-lho.
-Homem, que cara é essa? - perguntou-lhe a mulher quando chegou junto da tenda. Que não era nada, respondeu-lhe num resmungo. Mas todos estranharam o seu mutismo e o seu ar agastado durante o resto do dia.


III


-"Português, paneleiro! - ouviu ciciar junto a si.
Voltou-se repentinamente. Era ele de novo e que já se afastava dando-lhe costas. Encontrava-se na bicha da caixa do supermercado. Havia ali demasiada gente, não era local propício para armar rebuliço. Foda-se, tinha hesitado, tinha hesitado, mas agora já não havia remédio, ia-lhe meter um susto dos antigos. Já a tinha pensado mas considerou que o caso não era para tanto. Não era para tanto até àquele ponto. Nem ele sabia com quem se havia metido. Porque naquela noite tinha-se aconselhado com o travesseiro e havia decidido que o assunto não merecia o incómodo de se ocupar mais dele. Que se lixasse o francês. Que se lixasse desde que não repetisse a gracinha. Mas repetiu-a. E iria repeti-la porventura mais vezes se ele nada fizesse. Pois não a repetiria mais. Pagou e dirigiu-se para a saída.
-Homem, que cara é essa?
-Olá, Fonseca! Ando chateado.
Nem de propósito. Juntaria mais dois ou três amigos de confiança, convidariam o francês para beber um copo e tratariam de ter com ele uma conversa a sério. Repentinamente decidiu que teria que tratar do assunto sozinho, como o havia delineado naquela noite. Tinha sido ele o ofendido e os amigos nada tinham que se meter num assunto que era de todo pessoal.
-Eu depois te conto. Adeus!
Dirigiu-se para a tenda. Sentou-se, a fazer tempo.
-Pai, então não vais preparar-te para ires para a praia connosco? - que não, que não ia. Talvez mais tarde, que sentia uma leve dor de cabeça e preferia ficar ali a descansar um pouco à sombra.
Viu-os sumirem-se por entre os campistas que faziam caminho para a praia. Levantou-se e entrou na tenda. Abriu o saco dos apetrechos da pesca e lá bem do fundo tirou algo envolvido num pequeno saco de plástico negro. Era um pequeno revólver que já havia pertencido a seu pai, cabia-lhe bem na palma da mão, com a coronha trabalhada com incrustações de madrepérola. Já um coleccionador lhe tinha oferecido um dinheirão pela arma. Mas não a venderia, era objecto de família e além disso tinha tirado licença de uso e porte de arma para a poder utilizar, embora raramente o fizesse. Nas suas tarefas profissionais muitas vezes tinha que se deslocar em viagem com somas de alguma importância mas raramente se lembrava de levar consigo o revólver. Trouxera-o agora, e bem escondido o mantinha dos olhares dos garotos e da mulher. Trouxera-o porque uns amigos o tinham avisado, e ele sabia-o por experiência própria, que o parque já não era como dantes, quando tudo se deixava à mão de semear e ninguém mexia no que não fosse seu, quando reinava um são companheirismo entre todos e era tudo uma família. Mas tinha o revólver tão bem guardado que os eventuais ladrões teriam tempo de chegar ao Alentejo antes que ele o pudesse utilizar. Mas o tê-lo consigo dava-lhe uma certa segurança, mais fictícia que real, é certo. No fundo era tudo uma questão psicológica, dizia ele para consigo. Mas agora iria servir.
O outro ainda por ali andaria. Os jovens franceses eram pouco madrugadores, perdiam grande parte da noite nas discotecas da praia e levantavam-se já bem tarde. E o monitor, que sempre os acompanhava na ida ao banho, tinha forçosamente que esperar por eles. Era manter os olhos bem abertos e aguardar uma ocasião propícia. A espera não foi longa. Ei-lo que vinha em direcção às tendas armadas junto da sua, onde se encontravam os jovens, ainda deitados. Escondeu-se entre os pinheiros por forma a passar-lhe despercebido. Viu-o espreitar para dentro de uma das tendas e dizer qualquer coisa. Dirigia-se agora para os lavabos, a cem metros dali. Foi-lhe no encalço, guardando uma razoável distância. Quando lá chegou espreitou à porta e não estava mais ninguém, a não ser o francês. Olhou em volta e apercebeu-se de que ninguém se aproximava. A ocasião era a ideal. Entrou resoluto. O outro urinava num dos mictórios de parede. Aproximou-se dele e encostou-lhe o cano do revólver aos rins. Sentiu-o hirto:
-Se me tornas a chamar paneleiro meto-te cinco balas nos cornos. Ficas avisado!
O outro quedou-se mudo e imóvel. Ele recuou até à porta, com a arma já metida no bolso, não fosse aparecer alguém. Toda aquela cena teria durado escassos segundos mas nunca ele saberia dizer quanto tinham durado aqueles instantes.


IV


E se ele se tivesse voltado, como iria reagir? Fora um gesto temerário, fora mesmo uma loucura. Poder-se-ia ter desgraçado, a ele e à família. Ora ali estava uma história que nunca eles deveriam conhecer. No fundo, no fundo, nada daquilo merecia a pena. Mas, enfim, estava feito. E se o diabo do francês se tivesse voltado? Mas não se voltou, quando sentiu a pistola encostada aos rins ficou mijado. Esta ideia e a circunstância em que tudo tinha ocorrido fê-lo sorrir.
-De que é que estás a rir?- perguntou-lhe a mulher.
-De nada, estou cá a lembrar-me de uma coisa! - respondeu-lhe.
Estava agora plantado à beira-mar, de braços cruzados. Observava os filhos que brincavam na água e recriminava-se por aquela atitude absurda. Deixara-se levar por um sentimento de pundonor ferido. Que se lixasse o francês mais o seu atrevimento, era assim que deveria ter levado a coisa de princípio. Ou então conversava com o homem e punha o assunto em pratos limpos. Aquilo do revólver fora mesmo uma criancice. Mas estava feito e não tinha corrido mal. Bom, era o que se iria ver. Como é que ele iria reagir? Se tivesse juízo deixava-se estar quieto.
E passou a manhã nestas cogitações.
-Ala, meninos, são horas de almoço!
E lá seguiram para o parque carregando a habitual tralha.
Uma ideia agora o atormentava. Como iria reagir o francês quando ambos se defrontassem? Porque era inevitável não se encontrarem de novo, mesmo que o tentasse evitar. Mas não iria evitá-lo. Na verdade, se estava um tanto ou quanto temeroso pelo reencontro estava ao mesmo tempo ansioso por que ele se concretizasse. Como reagiria o homem?
O filho, que na brincadeira se havia adiantado com a irmã, voltava agora para trás, em correria, e ao passar disse-lhe:
-Pai, os franceses já cá não estão!
-O quê? - e a criança repetiu o dito.
Surpreso e descrente apressou o passo para o verificar com os próprios olhos. Já lá não estavam, não senhor. Tinham partido nessa manhã.
Partiram porque já assim estava decidido ou pelo que entretanto se tinha passado? Nunca o saberia mas o certo é que já lá não estavam.
Desatou então a rir, a rir, como há muito tempo não ria nem a família, que o olhava boquiaberta, se lembrava de tal ter visto.


 
|
  O SANTO TROCADO

I


Francisco José Viegas de seu nome, mais conhecido pelo "Chico Manitas", era um homem singular. O apodo havia-o herdado de seu pai, o "Manuel Manitas", pastor uma vida inteira e as mãos mais habilidosas a trabalhar com um canivete que olhos humanos jamais tinham visto muitas léguas em redor: de uma raiz retorcida fazia um cachimbo, de um tanganho disforme fazia um cão, um borrego, um pastor, aquilo que muito bem lhe apetecesse, de um tronco de oliveira, laranjeira, limoeiro fazia colheres de pau com as mais variadas dimensões, decoradas com caprichosos arabescos, e de chavelhos fazia polvorinhos, azeitoneiras e galheteiros, alindados com não menos delicadas e fantasiosas figuras de bichos, dos existentes e de outros saídos da sua alquimia mental, que se não existiam agora talvez tivessem outrora existido, plantas, folhas, frutos e tudo o mais que a sua solitária imaginação era capaz de engendrar ao calcorrear, atrás do gado, a imensidão da campina despida de gentio ou até da fumarola de chaminé distante, vasta e solitária, tendo por limites a linha do horizonte para lá do qual ele só podia imaginar o que existiria por ouvir dizer, pois que esses horizontes foram, ao longo de toda a sua vida, as fronteiras que lhe balizaram a existência. Só, como num mar oceano, entre o céu e a terra, às vezes por dias seguidos, como não se lhe haviam de desatar naqueles ermos sem fim as asas de uma já de si fecunda e inventiva imaginação. E o filho havia-lhe herdado o jeito, que não a profissão, embora, criança ainda, acompanhasse o pai, em dias mais soalheiros, no pastoreio dos gados.
E foram talvez esses dias de contacto com os horizontes vastos que lhe marcaram o carácter, sempre avesso a compromissos de assalariado, a horários, a jornas a dez réis de mel coado e aos muitos salamaleques a que, ainda por cima, um homem se via obrigado para encontrar algum trabalho. E se manejava bem um canivete melhor manejaria uma faca de barbeiro. E foi no que se tornou. Era senhor de si próprio, os horários fazia-os ele e que chovesse, que ventasse, sempre estava debaixo de telha. Os horizontes sem fim, essa liberdade plena que só no campo soube encontrar não os perdera entre as quatro paredes da barbearia, procurava-os quando assim o entendia: o amor ao campo, as frescas brisas que, em fins de tarde de estiagem, livremente corriam a planície e lhe afagavam o rosto, as cores primaveris e até os ventos desabridos e as inclementes chuvadas das invernias prolongadas, como agora já não aconteciam, e que sempre associava ao conforto do braseiro de azinho e esteva a que se achegava, quando os pais ainda eram vivos e os irmãos todos ainda viviam debaixo do mesmo tecto, todas essas memórias não deixara que lhe esmorecessem no peito. Que outras tinha, menos agradáveis, aquelas da muita pobreza, da separação e da emigração a que os irmãos se viram compelidos. Mas preferia recordar as mais gratas, talvez não tão douradas quanto isso, mas um velho, quando recorda a meninice e a juventude recorda também o vigor, a esperança e a ilusão que o tempo foi levando, e por isso pinta sempre essas memórias com as cores risonhas daquela que foi a sua Primavera da vida.
Nas traseiras da barbearia, que era casa de uma só divisão, tinha montado, colada a esta, uma pequena oficina, um casebre com telhado de uma só água, onde se refugiava sempre que a clientela escasseava e se entregava à arte herdada de seu pai. Dali saíam não só as colheres de pau e os chavelhos trabalhados mas também figuras regionais, do passado é bom de ver, de ceifeiras e pastores, a quem a mulher ajudava a compor os trajos de lei. A produção vendia-a quase toda aos comerciantes de artigos regionais da cidade próxima e foi daí que começou a esculpir em madeira os ditos bonecos, pois que se vendiam tão bem que não chegavam para as encomendas. Renitente, a princípio, em submeter-se às leis do mercado, acabou por anuir já que o rendimento da barbearia sempre fora parco e agora era-o ainda mais, pois a juventude ou de todo nem o cabelo cortava ou se o fazia preferia as barbearias finas da cidade.
E tinha mesmo equipado a sua modesta oficina com algumas das ferramentas que o progresso engendrara. Se ainda utilizava o canivete para aqueles trabalhos mais delicados que só a perícia e o engenho do artista são capazes de concretizar, utilizava goivas, formões e quejandos e até um pequeno torno eléctrico, que muito jeito lhe fazia.
Ali passava os tempos mortos do ofício de barbeiro que ele, tantas vezes, desejava que se prolongassem quando mais ensimesmado se achava a trabalhar a madeira, até que algumas pancadas batidas na parede contígua da barbearia o vinham arrancar ao encantamento daquela que era a sua ocupação preferida. Como a oficina e a barbearia não tinham comunicação era daquela maneira que os clientes o chamavam a pegar nos outros apetrechos, aqueles de barbeiro.
E lá soaram as pancadas. Foi ver.
Era o João Venâncio, o único hortelão dos muitos que em tempos houve lá para os lados do Vale da Malhada Fria, terras úberes e que ressumavam água até em anos avaros de chuva. Aos poucos tinham ido desaparecendo, levados pela morte uns, ou por actividade mais lucrativa outros.
Os produtos hortícolas agora chegavam de longe, desenxabidos mas maquilhados de boas cores, conseguidas sabe-se lá como. E o pobre hortelão, que trabalhava como o seu longínquo antepassado mourisco, perecera ante a invasão da grande indústria e do grande comércio. Mas João Venâncio, por alcunha o João "Ouriço", devido à pelagem crespa e renitente ao pente que lhe cobria a cabeça, resistira.
Vendia os seus produtos no mercado semanal que se realizava na cidade próxima, cada sábado, e tinha os seus fregueses certos, pois que alguns ainda continuavam a preferir os produtos com cheiro e sabor a húmus, aquele cheiro e sabor que só a terra tratada com verdade é capaz de proporcionar.
Vinha ao barbeiro todas as sextas-feiras, já que se queria apresentável no mercado do dia seguinte. Trazia fome de conversa, pois que ele e a mulher pareciam entender-se por monossílabos, e uma insaciável sede de vinho, após uma semana de quase abstinência de ambas as coisas. Depois de muito palrar com mestre Chico "Manitas", conversa demorada como que a atiçar ainda mais a sede, abalava para a taberna do Raminhos onde apanhava monumentais carraspanas. Nesses dias vinha para a aldeia a pé para que a mulher, ao cair da tarde, o viesse buscar no pequeno tractor com que se auxiliavam nos trabalhos da horta. Estiraçado no reboque, de braços pendentes, lá ia invariavelmente cantando letras avulsas de fados, numa voz entaramelada e lacrimejante. Tinha feito tropa em Lisboa e por lá se ficara depois algum tempo, operário e boémio, até que a morte do pai, que sempre considerara a grande cidade um antro de vício e perdição e a cujos pedidos de regresso nunca atendera enquanto fora vivo, o chamara de vez para tomar posse dos poucos haveres que lhe tinha deixado. E desse tempo de boémia pobre lhe tinham ficado uma pungente saudade e um jeito fadista ao qual as suas raízes rurais, longe de depuradas, davam um ar histriónico para grande galhofa da malta que, sempre que o via avinhado, logo lhe puxava, com uma lisonja canalha, pela veia fadista.
-Sabe que andam para aí uns mafarricos a roubar os santos das igrejas?
-Você vive lá acoitado na sua horta, faz a barba de semana a semana e, rija como ela é, dá-me cabo das navalhas todas. Tenho que passar a cobrar-lhe mais caro do que ao resto da clientela, é o que é!
-Deixe-se lá de tretas. Não ouviu o que eu lhe disse?
-Ouvi, ouvi! E devo dizer-lhe que isso não me causa nenhuma admiração.
-Homessa, como é que não lhe causa nenhuma admiração?
-Não me causa nenhuma admiração porque hoje o pessoal já não tem medo aos santos. Medo ou respeito, o que para o caso dá o mesmo.
-Pois, o respeito já é pouco ou nenhum. Mas daí a roubarem os santos!?
-Roubam-nos porque é coisa que dá dinheiro. Não desse ele dinheiro e deixavam os santos em paz. Ou não sabe que depois os vendem por bom preço?
-E há por aí igrejas que estão muito abandonadas. Aquilo entra lá quem quer, de dia ou de noite.
-Pois há. Muito me admira como é que ainda não roubaram a capela de S. Luís, lá para o pé da sua horta. Já por lá não vive ninguém, a não ser você e a sua Bia Chica!
-Pois não! Mas aquilo é lugar tão ermo que ninguém lá chega. Bem pode o Santo estar descansado.
-Pois olhe que não sei, olhe que não sei!
João Venâncio fazia esgares de algum incómodo quando a navalha lhe passava pela cara, curtida de muitos sóis e geadas. E com alguma razão. Mestre "Manitas" usava com ele a mais embotada das navalhas para poupar as outras, já que o homem era de pêlo rijo.
Ao longe ouviu-se ganir um cão. João Venâncio, incomodado com um bote mais doloroso, diz-lhe:
-Oh mestre "Manitas", quer ver que também estão a fazer a barba àquele?


II


Mestre "Manitas" madrugara mais do que o costume. Ainda mal a manhã vinha rompendo da raia de Espanha e já ele ia montado na sua motorizada ronceira, lá para os lados da Malhada Velha. Resolvera que naquele dia haveria de comer um caldo de peixe da ribeira, e daí a sua visita tão madrugadora a um galrito que tinha armado na Ribeira Torta, não longe da horta do João Venâncio. De caminho avistou-o na rua do monte, cigarrando logo pela manhã. Acenou-lhe.
No galrito encontrou três barbos, nédios e lustrosos. Já tinha o caldo de peixe arranjado. De um saco de pano tirou uma boa mão-cheia de grãos cozidos que colocou no bojo da armadilha. Os barbos, forçados pela gulodice àquela acanhada prisão, decerto que por alguns dias, pois havia mais de uma semana que ele não a levantava, tinham tido tempo suficiente para devorar aqueles que lá tinha colocado. Voltou a ajustar a tampa de cortiça ao fundo do cesto e reforçou-a com um arame que cruzou sobre esta e prendeu solidamente às hastes de verga. Voltou a descer o galrito no negrume das águas até ele tocar o fundo, a uns dois metros. Prendeu a corda que o sustinha, com um nó dobrado, às raízes expostas pelas cheias de Inverno de um freixo que sombreava o sítio, em cujas hastes hirtas já despontava uma nova roupagem verde. De tal modo arranjou a atadura que quem viesse de caminho não a conseguiria ver. Estava-se em Abril e as águas da ribeira ainda fluíam com algum vigor a caminho do Guadiana próximo.
Olhou em volta e escondeu os barbos dentro de uma saca de serapilheira, após envolvê-los em ervas que colheu na margem e previamente molhou nas águas do pego. Assim sempre se conservavam mais frescos enquanto não chegasse a casa. O uso do galrito não era permitido e a época de pesca ao barbo só começaria lá para meados de Maio. Mestre "Manitas" cometia duas ilegalidades de uma assentada. Deixá-lo! Àquela hora da manhã as autoridades não iriam decerto incomodá-lo e a meia dúzia de barbos que ele comeria durante a época de defeso não iriam decerto fazer perigar a existência da espécie. Lembrou-se desta porque tinha visto na televisão, na noite anterior, um programa em que se falava da necessidade de limitar a captura de certas espécies de peixes, já que a sua pesca, feita de forma excessiva, podia provocar a sua extinção. Programa que falasse da Natureza não lhe falhava. Eram os seus preferidos.
Do local onde se encontrava avistava-se, a cerca de duzentos metros, no cimo de uma colina que suavemente subia a partir das margens da ribeira, a capela de S. Luís, templo singelo onde ele, em criança, se deslocava com os seus pais e irmãos à romaria que ali tinha lugar em Agosto e onde se procedia à bênção dos animais.
Naquele local juntavam-se romeiros vindos dos quatro pontos cardeais com os melhores exemplares dos seus gados, na impossibilidade de os trazerem todos. Chegados ao cair da tarde ali dormiam, aguardando a cerimónia religiosa que se realizava ao outro dia, pela manhã. Depois comia-se, bebia-se e dançava-se, regressando todos a Penates a meio da tarde, que para alguns a caminhada era longa e a chegada aconteceria já noite cerrada.
Mas eram aquelas noites da chegada que uma mais sentida saudade lhe deixavam: a multidão confusa e espessa de pessoas e gado, a apressada feitura de um aprisco para este, a procura de lenha pelas margens da ribeira já com o Sol a apagar-se no horizonte, a merenda que se comia sobre as camas preparadas com pastos e ervas tenras, o crepitar dos grandes lumaréus que iluminavam a noite como grandes tochas, o lento serenar do bulício e finalmente, o longo serão em redor do lume, com o sono a tardar, a tardar, pela excitação e pela curiosidade de ouvir as muitas histórias que uns e outros então se contavam, sentados aos magotes pelo chão, iluminados esparsamente pelas chamas súbitas. Histórias de bruxas, aparições e aventesmas e ele, com o coração muito pequenino, encostando-se às saias da mãe e ao aconchego do lume, temeroso até de fitar o escuro da noite, tão próximo que se lhe podia tocar esticando o braço, aquele escuro alforjado de mistérios e temores de que ele finalmente se protegia, já vencido pelo sono, escondendo a cabeça debaixo da grossa e pesada manta com que se tapava das branduras da noite.
Não sendo ele homem devoto, deixava a incumbência de solicitar os favores da divindade à mulher, tinha contudo aquele S. Luís de Tolosa em particular simpatia; enlevo da sua meninice, protector dos animais e que naquele local, como tantas vezes tinha ouvido contar, livrara el-rei D. Dinis de um transe difícil quando por ali caçava. Sendo acometido por um urso logo invocou o Santo, que ademais era primo de sua mulher, a Rainha Santa Isabel, embora Mestre "Manitas", que não era versado em genealogia e muito menos em hagiologia, desconhecesse este pormenor. E de tal modo o Santo lhe valeu, sabe-se lá se mais pela devoção ou mais pelo parentesco, que o Rei não só evitou a investida como matou a fera, apunhalando-a. E foi por mercê desse favor que no local mandou erguer a capela em seu perpétuo louvor e agradecimento.
É verdade que igual história se contava relativamente a outros locais onde se erguiam capelas dedicadas a S. Luís. Mas isso que importava? A história era tão bonita que não se poderia levar a mal que outros se quisessem dela apropriar.
Um ruído vindo dos lados da capela arrancou-o a estas cogitações. Firmando melhor a vista achou que era um automóvel que tinha estacado ao lado dela. Bem, era verdade que a capela recebia os seus raros visitantes. O João Venâncio possuía uma chave da dita e era ele que muitas vezes franqueava a entrada da mesma aos visitantes que, avisados, lha solicitavam. Mas lembrado da conversa que com aquele havia tido sobre os roubos de igrejas que agora se perpetravam na região, decidiu aproximar-se para melhor tirar a pinta a visitantes tão matinais. E para não parecer abelhudo, aproximou-se como que por acaso, debruçado sobre o solo, catando aqui e ali uma erva como se procurasse planta mais rara que lhe servisse de mezinha ou tempero. Os outros, que eram três, só tardiamente se aperceberam daquela improvável vizinhança em descampado tão ermo. Mas nestes entrementes viu mestre Chico "Manitas" que eles rodearam o edifício, fitando porta por onde entrassem e experimentando-lhe a solidez, que era pouca, quer a porta de entrada com seu arquinho gótico sobrepujado por uma alpendrada, quer uma porta lateral. Ao verem-no, precipitadamente se meteram na viatura e se fizeram ao caminho de terra batida.
Mestre "Manitas" não gostou da novidade. Haveria de ir contá-la ao João Venâncio, que lhe ficava de caminho.
Achou-o armando canas para o feijão. A mulher, sempre loquaz para as visitas, pois que aqueles dois seres que pareciam já ter conversado tudo o que tinham para conversar um com o outro, se derramavam em palavras para um qualquer fugaz visitante que lhes demandasse o solitário reino, depois que ouviu a história, também lhe pareceu que havia ali cheiro a esturro. E lá veio à baila a conversa que dias antes haviam tido na barbearia sobre os roubos cometidos em várias igrejas. E visitantes tão matinais não era usual e raros eram aqueles que não passavam pela horta a pedir os préstimos para a abertura da capela.
Foi aí que ocorreu a João Venâncio uma ideia, foi aí que ele fez uma revelação da qual só a sua mulher tinha conhecimento.
-Ouça lá, João Venâncio, e se trocássemos o Santo?
-Se trocássemos o Santo? - ele e a mulher olhavam-no com cara de quem duvidava da sua sanidade mental.
-Isso mesmo, podíamos trocar o Santo!
-Mas oh compadre "Manitas", o que é que se lhe meteu na cabeça?
Este olhava-os com um ar divertido, perante tanto pasmo e incredulidade.
-Eu explico. Sabem que eu não sou homem de igrejas mas também sabem que eu tenho cá um fraquinho por este Santo. E vai daí meteu-se-me na cabeça fazer um igual a este, que tenho guardado lá na minha casa. Para evitar dichotes e perguntas nunca o disse a ninguém, a não ser à minha mulher.
-Fez outro S. Luís igual àquele que ali está na capela?
-Pois fiz!
A admiração tinha sucedido ao pasmo incrédulo.
-Mas mesmo , mesmo igual?
-Bom, aquele que ali está é já bastante velho, o meu parece mais novo, e é mais novo, quero dizer, o aspecto. Mas pintei-o com as mesmas cores, e a feição e o tamanho estão tal e qual.
-Mas como é que você fez isso?
-Então!? Entrava ali na capela, também eu tenho uma chave que abre a porta, na verdade a fechadura está tão lassa que qualquer chave a abre, venho para aqui à pesca muitas vezes, como sabe, pois entrava na capela, mirava-o, tirava-lhe as medidas e lá o fui fazendo.
-Essa agora! Se fosse outro a contar-me eu não acreditava!
-Pois é verdade. Lá o tenho em casa, bem guardado.
Mestre Chico "Manitas" tinha feito, com paciente engenho, uma réplica exacta do S. Luís de Tolosa. De cores mais brilhantes, é verdade, sem a pátina que só o tempo traz, mas na obscuridade em que o interior da capela sempre se encontrava mergulhado, quem o iria notar?
Isto mesmo já havia magicado Bia Chica que, sem nada ainda ter dito, deixava transparecer no rosto uma alegria quase infantil, aquela alegria travessa que transparece do rosto do miúdo traquinas quando congemina alguma diabrura.
-Se os ladrões o vierem roubar o mais certo é virem de noite. No escuro sabem lá eles se é aquele o santo ou não é? - pensava ela em voz alta.
João "Ouriço" sentiu-se em minoria.
-Oh mulher, e onde é que ias pôr o outro, o verdadeiro?
Esta e mestre Chico "Manitas" olharam-se com ar de mútuo entendimento.
-Podíamos pô-lo aqui na sua horta! - alvitrou ele.
-Ah sim!? E se depois tudo se sabe quem é que se vê às aranhas com a justiça?
-Qual sabe, nem meio sabe. Sabemos nós e há-de saber a minha mulher. Quem mais poderá saber?
João Venâncio coçava furiosamente a cabeça hirsuta. Queria argumentar e não sabia como, a dialéctica não era o seu forte. E não tardaram a convencê-lo.
E ao findar desse dia, ainda a passarada voltejava em grande algazarra por sobre as árvores do pomar da horta, em procura do lugar da pernoita, já o S. Luís de Tolosa, o autêntico, descansava debaixo de umas sacas de serapilheira, no casão onde se guardavam as poucas alfaias agrícolas e o outro, o de empréstimo, se alçava sobre a mísula do altar-mor da Capela de S. Luís, que se a imagem era outra o santo continuava o mesmo, porque, conforme explicava mestre "Manitas" à Bia Chica, que na hora decisiva da troca se pusera com escrúpulos, a imagem de um santo é como uma fotografia, tanto dá pôr-se uma como outra, a pessoa é a mesma na fotografia e o santo é o mesmo na imagem.


III


Quando João Venâncio entrou esbaforido na barbearia já a manhã ia alta e já a casa se encontrava repleta de gente. A notícia alastrara como fogo em pasto seco. Tinham assaltado a Capela de S. Luís e de lá tinham roubado a imagem do Santo e um quadro, já muito repintado, que se cuidava ser seiscentista, em que se representava a cena do salvamento miraculoso do rei "Lavrador" da investida do urso, com o rei caído por terra fitando o céu em ar de prece e a fera, de horrendas presas abertas, investindo em vão contra uma ténue cortina de luz que descia do espaço celeste.
Na barbearia encontravam-se alguns dos clientes habituais e outros menos vezeiros que comentavam o grande assunto do dia. Sempre assim tinha sido ao longo dos anos: sucesso que perturbasse a modorra aldeã haveria de se ver dissecado na loja de mestre "Manitas". Sempre assim fora, ainda que por muito tempo a assembleia fosse mais reduzida e as conversas mais circunspectas e até algo codificadas. Coisas do tempo da outra senhora. Mestre "Manitas" chegou mesmo a ver-se incomodado pelas autoridades de então, com ameaços de que lhe encerravam a loja por ali se terem conversas que atentavam contra a segurança do Estado. Vejam só! Tudo porque se lastimava o desemprego sazonal e a miséria que alastrava como lepra pelas casas dos mais humildes. Tempos obscuros esses em que por assuntos tão comezinhos um homem arriscava a prisão e a desgraça dos seus.
Mostrava mestre "Manitas" um ar de grande consternação pelo sucedido. João Venâncio admirava-lhe a matreirice. Havia na sua pose e na sua prosápia algo de excessivo, de teatral e irónico que só ele podia entender.
-Roubaram o Santo e o quadro e se mais coisas houvesse mais tinham roubado! - dizia um.
-Só é pena o mestre "Manitas não ser pintor! - arriscou o João Venâncio.
Aquele olhou-o com um ar de reprovação. Decerto que ninguém tinha entendido o aparte, de tal modo que nenhum o questionou, mas aquele cabeça dura do João "Ouriço" era insensato. E se o era agora como seria depois de se ter encharcado em vinho na adega do Raminhos? Tal ideia deixou mestre "Manitas" preocupado. Tinha que lhe dar uma ensaboadela antes que se escapulisse.
-Ouça lá, João Venâncio, não se vá embora sem falar comigo, que eu tenho um recado para lhe dar!
Pouco tempo tinha decorrido desde aquele dia em que avistara os tais figurões rondando a capela. Teriam sido eles os larápios? Vá lá saber-se. João Venâncio havia dado pelo roubo naquela mesma manhã, quando lá fora levar visitantes, um grupo de professores interessados por estas coisas da arte e do património. Tinham ligado de imediato à autoridade e esta chega que não chega, pergunta daqui, pergunta dali, o tempo passou e, para grande decepção deste, quando chegou à aldeia com tão momentosa notícia já toda a gente sabia.
Mas o tempo ia passando e ninguém arredava pé, antes pelo contrário, mais curiosos iam entrando e metendo a sua colherada. Mestre "Manitas" já desesperava por não conseguir ir à fala com o João "Ouriço"!
-João Venâncio, vossemecê não me disse que queria comprar um polvorinho para fazer oferta lá a não sei quem? Pois venha ali à oficina que aprontei um que é capaz de ser do seu agrado!
-Eu encomendei-lhe um polvorinho? - e olhava-o com uma cara de espanto.
-Sim, homem, aqui há dias. Isto é que ele anda esquecido! - e agarrando-o por um braço puxava-o para a rua, com tal decisão que o outro o acompanhou.
-O que eu quero é dar-lhe uma palavra e não quero que os outros nos ouçam. Arre, que é preciso que lhe expliquem tudo tintim por tintim!
Contornaram a barbearia por uma azinhaga e alcançaram a pequena oficina.
-Ouça, não se ponha p'raí com palpites que os outros não são parvos e de alguma coisa podem desconfiar.
-Mas o que é que eu fiz, mestre "Manitas"?
-Por enquanto ainda nada, mas o meu compadre mete-se nos copos e depois não tem tento na língua!
-Não tenho tento na língua? Ora essa! Não me queira dizer que eu não sei aquilo que faço. Oh compadre "Manitas", olhe que eu não sou nenhuma criança! Ora essa!
-Não se enfade. É que temos que ter muito cuidado, não venham a pensar que temos alguma coisa a ver com o roubo do Santo. Afinal, quem o tem, o verdadeiro, somos nós. E agora temos de pensar muito bem o que é que havemos de fazer.
-Olhe, sabe que mais? Se eu estou metido neste enrolo é mais por sua vontade do que por minha. Se tivéssemos deixado o Santo em paz não estávamos agora com ralações.
-Pois eu continuo a achar que fizemos muito bem. Enfiámos um barrete aos gatunos, sejam lá eles quem forem, e conservámos connosco o Santo verdadeiro, que está naquela capela desde a era dos Afonsinos. Se vossemecê não dá importância a isso eu dou!
-Pois está claro que dou importância a isso. Mas como não sou autoridade e não tenho grande fé nas virtudes dos santos, bem escusava agora de estar com apoquentações.
-O que está feito, está feito! Agora temos que pensar muito bem nos passos que havemos de dar!
-Ora, vamos entregar o Santo ao Padre da Freguesia e está o assunto arrumado! - dizia, agastado, João Venâncio.
-Se fosse o Padre Januário não lhe digo que não. Era homem para ouvir a nossa história, havia de se fartar de rir, bebia um copo à nossa saúde e à saúde do S. Luís, arranjava uma desculpa qualquer para o aparecimento do santo e estava o assunto arrumado. Mas já cá não está, tantos enterrou que um dia chegou a vez dele. E esse que agora aí está é moço novo, não tenho nenhum conhecimento com ele, como é que ele vai enfrentar tudo isto? Há-de começar com perguntas e mais perguntas, há-de meter a autoridade e nós, que fizemos isto com boas intenções, ainda nos vemos metidos em trabalhos.
-Então o que é que se há-de fazer?
-Ouça, vá pensando no assunto que eu faço a mesma coisa. Eu depois passo lá pela sua horta para falarmos com mais calma.


IV


Quando mestre "Manitas" viu entrar o novo Padre da Freguesia na sua loja sentiu-se um tanto ou quanto inquieto. A que viria o homem? Mas, respondendo à saudação daquele , logo atacou com o seu melhor sorriso:
-Segundo me disseram a sua graça é Luís, Luís Amaro, não é verdade? Luís como o santo que nos roubaram. Pois sente-se, sente-se. Então o que vai, barba e cabelo? Cabelo, está visto, o senhor está bem escanhoado e é um jovem, ainda é um jovem, e os jovens não têm o hábito de fazer a barba no barbeiro. Veja lá que até já pensei em mudar o nome da profissão. Sou barbeiro por fazer barbas mas como já faço tão poucas e o que mais corto são cabelos, penso que o melhor é deixar de me chamar barbeiro e passar a chamar-me cabeleireiro. Não concorda?
O Padre Luís sentou-se, com um sorriso, agradado pela loquacidade prazenteira de mestre "Manitas"
-Não deixa de ter razão, não senhor, mas na verdade o que quero é cortar o cabelo. Dê-lhe um bom desbaste que estamos quase no Verão e ainda é forma de eu poupar algum dinheiro.
-Poupa-o o senhor, perco-o eu. Mas sempre lhe digo que o seu antecessor foi meu freguês habitual ao longo de muitos e muitos anos. A bem dizer desde que veio pregar aqui para a Freguesia, se é que o posso dizer assim. Era um bom homem, não desfazendo dos presentes. Posso dizer-lhe que para além de freguês habitual fazia-me o favor de ser meu amigo, apesar de eu não ser homem de ir à missa.
-Esse seu hábito de não ir à missa é comum à maioria dos homens aqui da região. Em sua opinião a que é que isso se deve? - perguntou-lhe o Padre, num tom cordato.
Mestre "Manitas" deu consigo a supor que um padre que não julga e não condena aqueles que não seguem os ditames da sua religião, mas antes procura compreender o porquê das suas atitudes, há-de ser por força um homem tolerante. Decerto que ele nada sabia acerca das peripécias do roubo do Santo, por aí podia estar descansado. E talvez encontrasse naquele padre um aliado para pôr um arranjo na situação. Com tacto e alguma blandícia talvez o conseguisse. E porque as razões que, segundo ele, explicavam os poucos missalizantes que na região existiam, em particular entre os homens, eram pouco gratas à Igreja, absteve-se de as desfiar e, dando-se por não entendido, perguntou:
-Então e o que me diz do roubo do S. Luís, senhor Padre?
-Que lhe hei-de dizer? Que estou muito pesaroso com o sucedido e peço a Deus que o assunto chegue a bom termo!
-Bom termo, isto é, que se encontre ainda o Santo? Sabe quantos foram encontrados daqueles que por aí têm roubado e que já não são poucos? Nenhum! E ainda tem esperanças de que este volte a aparecer?
-Tenho esperança, sim senhor. Eu sou um homem da Igreja e a esperança está sempre em mim presente, esperança que me é dada pela fé.
Mestre "Manitas" fora educado na sua juventude pela cartilha republicano-positivista, a mesma de mestre Joaquim Batista, seu professor nas artes de barbeiro e um quase segundo pai. Fora ele e os habituais amigos de tertúlia da barbearia que o haviam iniciado nas sendas da filosofia e do pensamento político, fora ele que o incitara a frequentar a escola nocturna e o orientara nas suas primeiras leituras e fora ainda ele que, já trôpego e no ocaso da vida, lhe trespassara a loja de barbeiro por um preço quase simbólico. Por tudo isso mestre "Manitas" guardava de mestre Batista uma memória reverencial.
O Padre Luís Amaro era, obviamente, mais versado do que ele em matérias de religião e deologia e acabara de conhecer o homem, pelo que qualquer altercação, mesmo que travada em tom de amena cavaqueira, seria sempre algo despropositada e petulante; depois a idade havia-lhe dado algum distanciamento crítico quanto às paixões políticas e às disputas filosóficas e ensinara-o a apreciar os homens mais pelos seus actos e menos pelos ideais que diziam professar e, finalmente, porque procurava no Padre Luís um aliado, não um antagonista, por tudo isto mestre "Manitas" resolveu não se meter nas sendas de uma discussão sobre verdades teologais, mais assentes no plano da fé do que no plano racional, por isso de difícil contestação, mormente se a disputa tem por adversário um mestre do ofício, como era o caso.
-Tem então esperança!? Pois eu digo-lhe que, apesar de poucos ou nenhuns destes roubos terem bom fim, tenho cá um pressentimento de que o S. Luís ainda há-de aparecer. É cá um pressentimento meu...
- Mas se a minha esperança radica na fé onde fundamenta o senhor o seu pressentimento?
Mestre "Manitas" teve a percepção de que aquele era um interlocutor difícil e perigoso. Teria de redobrar de cuidados.
-Não me expliquei bem. Não é bem um pressentimento, sabe... é mais um desejo, sim, é isso, desejo que o Santo seja encontrado. E sabe porquê?
E lá lhe narrou a história de toda a sua meninice.
Teve por fim uma ousadia.
-Depois de lhe acabar o corte de cabelo, que já está quase, quero mostrar-lhe uma coisa que tenho na minha outra oficina, que é já aqui atrás da barbearia.
Foram então à outra oficina.
Lá chegados, Mestre "Manitas", sem mais delongas, disparou:
-Temos aqui o S. Luís! - e dizendo isto, destapava uma imagem do santo, coberta com um pano, imagem que ele havia começado a esculpir, no maior dos segredos, logo após o roubo.
O Padre Luís ficou-se a olhá-la, boquiaberto.
-Ainda não está acabada. Faltam-lhe os retoques finais e a pintura. Não sei se o senhor Padre conhecia bem a outra imagem mas esta está tal e qual, isto é, quase, que a estou a fazer de memória.
Mestre "Manitas" esculpia o S. Luís pela segunda vez, o que não lhe era difícil, com os esboços, as medidas e as memórias que lhe tinham ficado do primeiro. Mas dos esboços e medidas nada disse.
-O senhor é um artista. Um artista...!
-Nunca tive mestre que me ensinasse este ofício. Tivesse tido eu posses e outro galo cantaria, lhe digo eu, teria ido para sítio onde aprendesse com aqueles que sabem mais do que eu.
-É então um intuitivo. E que mãos que o senhor tem. Agora percebo por que razão lhe chamam mestre "Manitas", com o seu perdão pela intimidade.
-Não tem importância, já ao meu pai assim lhe chamavam. Dele herdei o apelido e a habilidade, que o meu pai era homem sem letras mas nunca se viu ninguém mais habilidoso do que ele para talhar um bocado de madeira com um canivete. Eu até nem me importo que me chamem o "Manitas". Na verdade até gosto, dá-me um certo orgulho pela minha arte.
-Devo então entender que esta escultura de S. Luís, não sendo o senhor um homem devoto, como já me disse, é uma homenagem à memória de seu pai, é uma forma de reviver as suas memórias de infância...?
-O senhor é um homem instruído e a mim agrada-me falar com gente assim. É por tudo isso mas é também cá por uma vaidade pessoal, para mostrar a mim mesmo e aos outros que, quando quero, também sei fazer uma obra mais complicada.
-E o que pretende fazer depois com a imagem? Vendê-la?
-Não senhor. Depois de acabada levo-a para minha casa.
-Mas se vende, ao que sei, tantas outras imagens por si fabricadas, de ceifeiros, pastores e outras, por que não vende também esta?
- Não a vendo por uma questão de respeito!
-De respeito? Mas não me disse que não tem devoção?
-Bem, bem, senhor Padre! Um padre é sempre padre, não é? Está sempre de serviço. Pois um barbeiro também é sempre barbeiro e também está sempre de serviço. Vamos lá andando que já ali tenho na loja fregueses à espera.
E lá foram, com mestre "Manitas" satisfeito com a ideia de que aquela primeira abordagem lhe tinha corrido de feição. Mas que outros passos se haveriam de seguir? No outro dia, pela manhã, bem cedinho, teria que ir conferenciar com a Bia Chica e o João "Ouriço".


V

-Mas que vamos nós dizer ao homem?
-Deixe a coisa por minha conta, compadre João. Deixe a coisa por minha conta e não diga nada a não ser que lhe perguntem.
Mestre "Manitas e João Venâncio esperavam, no adro da Igreja, que o Padre Luís Amaro se desparamentasse após a missa e saísse à rua. Era Domingo e alguns poucos missalizantes, na sua maioria mulheres, iam aos poucos saindo, sinal de que ele não tardaria. O hortelão coçava com fúria a cabeça, visivelmente nervoso e contrariado.
-E você não podia falar sozinho com o Padre? É que nem sei o que hei-de dizer!
-Acalme-se lá, que tudo há-de correr bem. Vamos dizer ao Padre como é que as coisas se passaram, sem lhe dizermos.
-Dizemos sem lhe dizermos? Oh mestre "Manitas", olhe que eu não presto para adivinhas! Isso já você me tinha dito. Sempre quero ver como é que você vai dizer isso ao homem sem lhe dizer. Você não está bom da cabeça!
Eis que o Padre surgia da fresca obscuridade do templo, parando um pouco junto à porta, piscando os olhos à intensa luminosidade que se derramava do céu azul e límpido.
-Bom dia, senhor Padre! - cumprimentou mestre "Manitas".
-Bom dia, Mestre. Então o que o traz por cá?
-Eu não lhe tinha dito que tinha cá um pressentimento de que o S. Luís haveria de aparecer? Pois já apareceu!
-Já apareceu? Mas apareceu como?
E o Padre fitava ambos com um ar descrente.
-Apareceu lá na ermida. Aqui este meu amigo, de seu nome João Venâncio, mora por lá perto, tem lá uma horta, e esta manhã, vendo que a ermida tinha a porta aberta, foi ver o que se passava e lá encontrou o Santo no altar.
-Tudo isso me parece muito estranho. Não será antes o santo que o meu amigo estava a fazer? Está-me cá a parecer que isto se trata de uma brincadeira!
-Qual brincadeira, qual carapuça. Vínhamos mesmo agora aqui convidá-lo a ir connosco à capela ver com os seus próprios olhos se é ou não o santo verdadeiro.
-Vamos lá então! Vamos todos no meu carro, se não se importam.
E lá foram.
O Padre Luís, não sendo perito em arte sacra, não teve contudo dificuldades em asseverar-se de que aquela seria decerto a imagem roubada, dada a sua vetustez.
-E os senhores têm alguma explicação para o sucedido? - era visível que o Padre desconfiava de algo.
-Talvez tenha sido um milagre! - ironizou mestre "Manitas".
-Bem Mestre, Deus não tira coelhos da cartola, se é a isso que se refere. Nem você nem eu acreditamos nisso. Talvez a resposta seja mais terrena!
João Venâncio ensaiava, em passo miúdo, uma aliviadora fuga para fora da capela.
-Compadre João, não se vá embora. Venha cá. Vou-lhe então contar como é que eu penso que as coisas se passaram. É como eu penso que elas se passaram, note bem.
-Pois bem, exponha lá então a sua teoria! - respondeu-lhe o Padre, com um leve sorriso irónico na face.
-Suponha que alguém viu ou ouviu alguma coisa que o levou a desconfiar que queriam roubar o Santo da capela. Vai daí resolveu guardar este santo bem guardado e pôs aqui um outro, uma imitação, quero eu dizer. E aquilo que se pensava que podia acontecer, aconteceu. Roubaram a capela e levaram o santo que não era. Essa pessoa resolveu então colocar aqui o santo de verdade à espera que alguém o viesse a descobrir e desse parte disso. É assim que eu penso que as coisas se passaram.
-E quem é essa pessoa? Posso saber?
-Contei-lhe como é que eu penso que as coisas se passaram. O senhor aceita ou não a minha ideia, mas peço-lhe uma coisa, não me faça mais perguntas!
-Compreendo. Mas responda-me só a mais esta pergunta. Para além da imagem de S. Luís, que está agora a fazer, já tinha feito mais alguma?
-Já sim senhor!
O Padre calou-se por instantes, fitando o S. Luís com ar divertido.
-Mas responda-me só a mais esta pergunta. E onde está essa primeira imagem que o mestre esculpiu?
-Calcule que a roubaram!
-E logo calhou que aquela pessoa que desconfiou que pretendiam roubar a imagem do santo tivesse logo ali à mão uma imitação para que pudesse proceder à substituição.
-Pois foi, isto é, suponho que foi. Mas vamos parar com as perguntas, quem muito pergunta arrisca-se a que lhe mintam - rematou mestre "Manitas" já agastado.
O Padre fitou-o, subitamente sério.
-Mas essa intuição que o levou a trocar os santos foi de facto notável!
-Se calhar foi a Divina Providência que o inspirou!
-Quem sabe, mestre, quem sabe!?

VI

O povo andava levantado, particularmente o mulherio. Agora que S. Luís havia regressado à sua morada pretendiam levá-lo e pô-lo a bom recato na cidade, no Museu de Arte Sacra, ao que se dizia.
Se os ladrões haviam intentado levá-lo uma vez, conservá-lo em local tão ermo era um convite a que o tentassem uma segunda, argumentavam as autoridades. Mas então por que não se faziam obras na capela, por forma a torná-la mais segura, dando ao povo tranquilidade e ao santo um repouso mais que merecido, respondiam os vizinhos da Freguesia?
Que sim, que as obras se fariam e então se veria. Mas sobre as obras de restauro era a trapalhada habitual: as instituições empurravam as responsabilidades de umas para as outras e se alguma se via mais encalacrada havia sempre o supremo argumento da falta de disponibilidades financeiras. E se secular era a permanência do santo na capela mais velha ainda era a desconfiança do povoléu quanto às promessas de quem manda. E alguns mais exaltados, no caso mais algumas, diziam mesmo que se o santo havia regressado à sua capela, sem ninguém atinar como, levá-lo de lá seria contrariar a vontade do mesmo, porque ele havia voltado, não havia? E se não se sabia como é que o regresso do santo tinha acontecido tanto melhor, estava assim aberto o caminho à crendice e à superstição, que a capela, antes tão esquecida e abandonada, era agora lugar de romarias mais ou menos furtivas que a deposição quase diária de flores em seu redor atestava, com grande contrariedade do Padre Luís, avesso a tais manifestações.
A hierarquia bem que o pressionava a pôr cobro a tais práticas, contrárias à doutrina hodierna da Igreja. Mas parecia que neste caso a Igreja, sempre lenta a acompanhar as evoluções dos tempos, havia passado à frente da religiosidade popular, ingénua, crédula e aferrada a atavismos seculares. E que podia ele fazer? Afrontar abertamente a vontade de uma população já de si arredia das práticas religiosas? Também ele não entendia o porquê de não se iniciarem de imediato obras de restauro na velha orada. Talvez assim os ânimos serenassem.
Mestre "Manitas", da sua loja de barbeiro, que era também a sua janela para o mundo, de tudo ia dando conta. Não se surpreendeu por isso com a visita do Padre Luís.
-Então, senhor Padre, o que vai hoje?
-Hoje não vai nada, ou por outra, vai mas não são os seus préstimos de barbeiro o que eu pretendo.
-Não me diga! E em que lhe posso eu ser útil? Não me diga que vem trocar comigo dois dedos de conversa sobre o que pr'aí vai.
-Nem mais. Lembrei-me de vir conversar consigo sobre o assunto, já que me parece que é homem avisado!
-É favor que me faz. Mas diga lá então!
Encontravam-se sós, altura propícia para a conversa, não fora a entrada intempestiva de alguém que soprava, esbaforido, o que fez o Padre Luís voltar-se, com um esgar de contrariedade. Era o João Venâncio. Mestre "Manitas" com um leve aceno de cabeça deu-lhe a entender que a conversa poderia continuar sem qualquer inconveniente, o recém-chegado de tudo era conhecedor e cúmplice.
-Já não governo vida. A toda a hora me desinquietam pedindo-me a chave da capela. Ainda bem que o encontro senhor Padre, tenho aqui a chave que lha venho entregar. Se quiserem que eu continue com ela só se me pagarem um ordenado, que agora nem tenho licença de mondar uma leira de coentros.
-Acalme-se lá, compadre João, que nós estamos aqui a tentar resolver esse e outros problemas! - redarguiu-lhe mestre "Manitas". - Mas diga então, senhor Padre!
-Sejamos breves. O meu amigo sabe do pandemónio que por aí vai. A mim, o que mais me preocupa, pelas funções que desempenho, são as manifestações de religiosidade menos próprias que vêm sendo incentivadas por alguns, bem-intencionados com certeza, mas cujas práticas não são conformes à doutrina da Igreja. Espero que me esteja a compreender.
-Compreendo-o, compreendo-o. Mas há-de reconhecer que eu sou pessoa pouco recomendada para lhe valer nesse assunto.
-Ora aí é que se engana. É-o e muito!
Mestre "Manitas" olhava o tecto, acenando afirmativamente com a cabeça e com um largo sorriso na face.
-Pois bem, senhor Padre, se quer um conselho de uma ruim cabeça aí vai: quando se tira alguma coisa a alguém deve dar-se-lhe outra em troca, que é para as duas partes ficarem satisfeitas.
-É exactamente assim que eu penso!
-Senhor Padre Luís, devo dizer-lhe que nós os dois nos entendemos muito bem. E sem muitas palavras. Mas aqui quem o poderá valer não é o barbeiro, mas o artista, com sua licença para a minha vaidade.
-Mais uma vez confirmo que o senhor é homem perspicaz e que me está a entender perfeitamente.
João "Ouriço" olhava um e outro tentando descortinar algo daquela nebulosa conversa.
-Pois troca-se , sim senhor. Troca-se que o ofereço eu, em desconto dos meus pecados. Mas há uma coisa senhor Padre, e aqueles que em si mandam irão concordar com a solução?
-Nem eu teria vindo falar consigo sem ter falado previamente com os meus superiores, mestre Viegas. Eu sou um simples soldado. E para a aceitação da troca por parte dos paroquianos há um factor, de carácter psicológico, que me parece de ter em conta: é que a nova imagem é de alguém cá da terra, é alguém de cá que a fez.
João Venâncio, que descortinava agora o acordo, arriscou então uma pergunta:
-E quando é que se faz a troca?
-Em breve. Eu depois vos direi. Aliás, os senhores parece que já têm alguma prática disso!
-Nós? - retorquiu com ar sonso João Venâncio.
-Olhe, senhor Padre! Às vezes é melhor não perguntarmos que é para não ouvirmos mentiras. Ao senhor, que é homem de fé, torno a dizer-lhe que foi a Divina Providência que fez com que aquele que trocou o santo o tivesse feito em devido tempo!- acrescentou mestre "Manitas".
-E quem poderá afirmar o contrário? Ela age através de nós, mestre Viegas, sem que o saibamos. Os caminhos de Deus são-nos por vezes bastante misteriosos!
-Ora, senhor Padre, não gaste cera com ruins defuntos e convide-nos mas é a beber um copito ali na adega! - redarguiu João Venâncio. E acrescentou:
-O que mais me alegra é que quando lá pusermos o santo feito pelo mestre "Manitas", acaba-se aquela procissão de gente que não me tem deixado trabalhar.
-E sabe porquê, senhor Padre? - perguntou mestre "Manitas".
-Porquê?
-Porque ao contrário do que o senhor poderá pensar, santos de casa não fazem milagres. Ora aí tem!



 
|
  A CASA MORTUÁRIA

A casa mortuária, a sua grande promessa de campanha eleitoral, tivera uma inauguração digna, ainda que sem os folguedos por ele pretendidos. Vozes avisadas haviam-no dissuadido de tal: não se inaugura uma casa mortuária, ou um jazigo, com música e foguetório, diziam-lhe. Mas essa inauguração, ainda que a seu gosto triste como o dia invernoso e morrinhento em que acontecera, abrira-lhe ainda mais o sorriso de bem-aventurança que trazia afivelado desde o dia da vitória eleitoral e ainda mais ufano e emproado se passeava desde então pelas ruas da aldeia, cumprimentando a esmo à esquerda e à direita, conhecidos e menos conhecidos, correligionários e adversários, vizinhos e forasteiros, como se ainda estivesse em campanha.
Batendo forte no empedrado da calçada com a bota de salto de prateleira, o que em nada favorecia a sua meã estatura, adornada com um bojudo ventre a que as muitas cervejas e um apetite voraz haviam abolado os contornos, era a imagem da suprema ventura ao passear-se, ao findar da tarde, pelas ruas do povoado. A cada passo tremelicavam-lhe as duas untuosas regueifas que lhe ocultavam o colarinho e com tal prosápia ele as procurava disfarçar, erguendo o intumescido pescoço, que a oposição, escarninha quanto só o sabe ser a maledicência aldeã, lhe havia posto a alcunha de o "peru", ou "pirun", para sermos fieis ao linguarejar provinciano.
Que a luta fora renhida e a vitória escassa, por isso tanto mais saborosa para uns quanto amarga para outros. Diziam os analistas locais, que para tudo os há e em todos os sítios, ter sido a vitória dos velhos, assim mesmo, que para aquelas bandas ainda não havia chegado a moda do politicamente correcto, contra a gente moça. Não andariam longe da verdade estes analistas, já que por ali a pirâmide etária se encontrava claramente invertida, com a persistente fuga dos jovens em busca de paragens onde encontrassem o ganha-pão e perspectivas de um futuro mais ridente. Por aquelas paragens ridente só mesmo o novel presidente da Junta de Freguesia.
Havemos de convir que uma casa mortuária não será tema que entusiasme a juventude, que o mesmo já não se poderá dizer dos idosos ao verem o seu fim tanto mais chegado quanto vão somando familiares e amigos desaparecidos. Mas há mais: é que este também era assunto que interessava a outros menos idosos e, muito particularmente, às mulheres, pois o caso é que defunto tem direito a velório e, conforme aos costumes ancestrais, este dura até que o cadáver seja transportado para o cemitério e soe o som cavo e lúgubre das pazadas de terra sobre a urna. E velório é coisa mais participada pelo elemento feminino, que os homens ficam cá por fora, na rua, e não tarda a que às recordações e elogios que o defunto suscita se sucedam as mais desvairadas conversas, com muito anedotário e risos contidos de permeio e até, se calha ser Inverno, com um ou outro bochecho em botija de aguardente que alguém sempre providencia, para acalentar os ossos e animar o espírito. E para muitos, não tarda, ala que se faz tarde a caminho de vale de lençóis. Por isso que o tema da casa mortuária interessava mais ao mulherio, que estoicamente suportava a maratona do velório, habituado que estava a uma vida de muito trabalho e sacrificadas esperas, falamos das idosas, bem entendido, que com a gente moça a história já é outra. Velório tão prolongado quer dizer noite perdida. E se assim há-de ser pois que se passe esse tempo com aqueles confortos, os mínimos que sejam, que a civilização nos soube proporcionar.
Que dantes os velórios se faziam em casa de cada um, mas as casas nunca têm condições para albergar muita gente, muita ou pouca, depende isso da importância do defunto, da qual por sua vez depende o tamanho da casa e por isso ou se poderá dizer que as casas são sempre pequenas ou que a gente é sempre demais, que as duas asserções estão correctas.
Nalgumas aldeias vizinhas já havia casas mortuárias, com bons cadeirões estofados, ar condicionado e até com instalações sanitárias, o que nem é demais, pois se ao morto já nada falta e tudo sobra, o velador continua amarrado à sua condição de ser vivente e às necessidades daí decorrentes. E se as aldeias vizinhas tinham casa mortuária, com todos os cómodos, por que não haveriam eles de ter também uma?
E o facto é que a promessa eleitoral da casa mortuária, pois campanha eleitoral sem promessas é como jardim sem flores, havia resultado em pleno.
Haviam-se proposto os adversários o arranjo do campo de futebol: piso melhorado e construção de balneários, para a equipa da casa, para a equipa visitante e para o trio de arbitragem. Além disso, também se haveriam de construir abrigos junto ao campo para que suplentes e equipa técnica assistissem aos jogos aconchegados dos caprichos do tempo. Tudo seria feito em tijolo e cimento, pintadas as paredes com as cores do clube, obra asseada cujo projecto até andara impresso nos papéis da propaganda eleitoral. Ora adeus! Os idosos eram mais do que os jovens e bem importavam àqueles a fortuna da equipa de futebol. E, contas feitas, no fim a casa mortuária ganhara ao desporto.
Mas a real, verdadeira inauguração da dita casa mortuária tardava. Meses haviam já decorrido e ninguém por ali se finava. A morte fazia a sua ronda habitual pelos povoados vizinhos, levando aqui um, além outro, mas parecia ter-se de todo esquecido da aldeia. E já, de forma irreflecida, o novo presidente da Junta, Manuel Catarino Fortunato era a sua graça, fizera notar tal facto, mais do que uma vez, em banais conversas de rua. Aconteceu o que era mais que provável que acontecesse; ao dar costas aos munícipes mais idosos, após muitos sorrisos e cerimoniosos cumprimentos, ficavam estes a fazer-lhe figas e a rogar-lhe pragas. Pois que lhes quisera os votos e agora lhes queria a vida. Abrenúncio, t'arrenego.
E passaram os meses de Inverno, por sinal de muitas chuvas e desacostumados frios, tempo propício a que a morte segasse com a sua foice entre os mais velhos. Mas estes, como que avelados, passaram a tormenta do tempo sem perdas e agora, quando já há longas semanas fazia vencimento uma prazenteira e calorosa Primavera, era de todo improvável que a autêntica inauguração da casa mortuária tivesse lugar nos tempos mais próximos. Para desespero de Manuel Catarino Fortunato e gáudio de toda a aldeia, pois já se tornara pública a causa do ar macambúzio com que por vezes o surpreendiam fitando a dita. Mas os motivos das suas preocupações não eram apenas o da longa inutilidade da sua obra; mais do que isso era agora o facto de o clube local estar em vias de se tornar, pela primeira vez, campeão da segunda divisão distrital de futebol. E ele, malquisto pelas gentes do desporto-rei, ele, a principal autoridade administrativa de toda a freguesia, via-se agora impedido de participar do vibrante entusiasmo que havia contagiado toda a aldeia, ele, que se queria à frente de todo o tipo de manifestação ou empreendimento que lhe granjeasse simpatia e aplauso, via-se agora compelido a assistir de longe à festa que os outros faziam.
Bem que tentara aproximar-se das gentes do futebol, mas fora mal recebido. Claramente lhe demonstraram que o não queriam ver participar das festividades. E até os seus correligionários o abandonavam, entusiasmados com a perspectiva do êxito futebolístico, misturados com a turbamulta, dessolidários de todo consigo. Abandonavam-no agora, quando fora ele que os levara à vitória, gastando na campanha dinheiro do seu, uma quantia calada que se em casa soubessem haveria decerto mosquitos por cordas. Esqueciam-se que fora ele que tornara possível o cumprimento da promessa eleitoral ao doar à Junta de Freguesia uma velha casa que possuía na aldeia e que havia comprado por bom preço, é verdade, com as primeiras economias que fizera na sua vida de emigrante. Mas nada o obrigava a tal, poderia muito bem tê-la transformado em casa de habitação e vendido por bom dinheiro. Esqueciam-se ainda de que dera, sim, dera, materiais para a construção, embora alguns tivessem querido metê-lo em embrulhadas com os tribunais, dizendo que os tinha vendido ao empreiteiro, quando afinal os havia dado. E ele mesmo se teria encarregado da sua construção, não fora os impedimentos legais. E se a tivesse construído, mais barata ainda teria ficado, porque disso sabia ele. Os muitos anos passados a labutar na construção civil lá pelas estranjas tinham-lhe dado para isso os ensinamentos precisos. Vendia agora materiais de construção, tinha um bom negócio, e em nada precisava da política para governar a sua vida. Se se metera em políticas fora apenas com o propósito de ser útil. Bem, verdade, verdadinha, ele gostava do reconhecimento alheio. Partira pobre, era então o Manel Catarino, regressara e era agora o senhor Fortunato. Até os amigos de escola se lhe dirigiam com alguma deferência. Tinha dinheiro, mas queria também a respeitabilidade e o estatuto a que se julgava com direito entre os seus paisanos. Ser presidente de Junta era uma via possível para aí chegar. E ele conseguira-o. Bem se importava agora que o chamassem de vaidoso. Vozes ditadas pelo despeito. E depois, presunção e água-benta cada um toma a que quer.
Até que nem lhe fora difícil chegar a Presidente da Junta. Começara por fazer constar, à boca pequena, que até nem se importava de ser ele o candidato. Depois soprara que a ser ele o candidato a campanha eleitoral seria feita a expensas suas. E não tardou que as forças da oposição mordessem o isco. Primeiro mandaram um peão de brega sondá-lo. Ele disse que sim e mais que talvez, que era preciso discutir bem o assunto e que estava disponível para futuras conversas. Vieram depois alguns elementos do estado-maior do Partido oposicionista, que como ele andava necessitado de granjear estatuto e peso político. Pareceu-lhes que a candidatura teria pernas para andar. Poder-se-ia ali ganhar mais uma Junta, mais uma flor para pôr na lapela e ainda por cima a custo zero.
Mas Manuel Catarino pusera condições: os homens que o acompanhassem na lista seriam inteiramente escolhidos por si e se acaso fosse eleito seria a Junta quem decidiria sobre quaisquer assuntos respeitantes à administração da Freguesia. Se a segunda condição fora facilmente aceite, já a primeira levantou amargos de boca aos partidocratas, sempre interessados em arranjar um lugarzinho, pequeno que seja, aos seus clientes. Manuel Catarino fora inflexível; ou seria assim ou nada feito. E depois de muita discussão, de muitos avanços e recuos, a condição fora aceite. Ele bem os entendia; de pouco lhes importava a sorte ou fortuna dos seus paisanos, mais importante do que isso era a conquista de mais uma Junta, era colocar ali a bandeira com a cor partidária. Os Partidos disputavam as eleições autárquicas como se de um jogo se tratasse, no qual os pontos ou os golos marcados eram representados pelas Câmaras e Juntas conquistadas. E ele isso não entendia: afinal o jogo político-partidário fazia esquecer aquilo que era deveras importante, as pessoas. E se em abono da verdade não eram de todo inocentes os seus propósitos políticos, também não seria de todo verdade dizer-se que lhe era indiferente a sorte dos seus conterrâneos.


II


A vitória naquele jogo equivalia à vitória no campeonato distrital da segunda divisão, o máximo galardão a que uma equipa com as dimensões da equipa local poderia aspirar. Disputava-se naquele Domingo a penúltima jornada do campeonato e com uma vantagem de quatro pontos sobre o segundo classificado parecia a todos impossível que o êxito final não estivesse de todo assegurado. E não estava. Mas todos se recusavam, naqueles dias, a acreditar que também ali pudesse ocorrer uma daquelas partidas cruéis que a vida por vezes nos prega, porque da vida se tratava, da vida colectiva, das aspirações comuns, da vaidade e prosápia de toda uma aldeia, de momentos de excitação e felicidade comunitária, da possibilidade de dar um pontapé, breve que fosse, nas agruras, nos desgostos, nas humilhações, nas incapacidades que cada um transportava consigo.
Por isso que naquele Domingo a aldeia marchou em peso para o campo da equipa adversária, o jogo era fora. Lá abalaram todos, em transporte próprio, à boleia, nos dois autocarros alugados pela Junta de Freguesia, sim , que depois de muito matutar sobre a forma de também ele poder participar na festa, Manuel Catarino achou aquela, simples, um autêntico ovo de Colombo, que os outros, os donos da bola e sua oposição política, não poderiam recusar. Olharam de soslaio, apoucaram, mas tiveram que engolir as duas camionetas. E Manuel Catarino, todo ufano, lá ia numa delas, misturado com o povo, dizia ele, demagogo e populista. A família deslocava-se no seu automóvel, com a filha ao volante.
E aquele foi um Domingo memorável na história da aldeia. A equipa não venceu, empatou, apesar dos porfiados esforços e do delirante apoio dos seus adeptos, pois os adversários bateram-se com denodo, dispostos a não facilitar e a vender cara a pele. Manuel Catarino, contagiado pela excitação e desejoso de dar nas vistas prometeu, ao intervalo, um chorudo prémio de jogo em caso de vitória. Não venceram, empataram, mas também os segundos classificados tinham empatado. Os jogos realizaram-se à mesma hora e aquilo foi sofrer a bom sofrer até ao apito final. E quando o jogo acabou aconteceu a inevitável invasão de campo com a autoridade a fazer vista grossa. Havia quem chorasse e havia quem tivesse agora às costas o pagamento das promessas feitas em hora de maior delírio clubístico.
Mas estavam em terra alheia. E numa pressa abalaram para a sua aldeia, a fazer a festa em sua casa, pois que acontecimento como aquele haveria de ser celebrado somente entre eles, sem o concurso de forasteiros, como se um egoísmo colectivo os houvesse a todos invadido e não lhes permitisse repartir a sua alegria com estranhos, ou seria talvez o ciúme de que outros também pudessem desfrutar da felicidade que os inundava. Seja lá pelo que seja o que é facto é que as festas de família celebramo-las em nossa casa e não em casa alheia. E aquela era uma festa da família aldeã.
E os folguedos decorreram noite fora. Já era madrugada quando soou a notícia de que José Sebastião da Cruz, presidente do clube local e anterior presidente da Junta de Freguesia, tinha sido acometido por uma apoplexia e, transportado de urgência para o Hospital da capital de distrito, já lá havia chegado cadáver. Era um homem rubicundo, hipertenso, a quem o coração já havia pregado algumas partidas. Vivesse ele noutras eras e a medicina de então decerto lhe aplicaria periódicas sangraduras. Hoje as medicações são outras e dizia-se que ele as aplicava com escrúpulo. Mas as comoções daquele dia extraordinário haviam sido excessivas para o seu frágil realejo.
A perplexidade, o sentimento amargo da transitoriedade da glória, a consciência acabrunhante do absurdo da existência, de todos se apossou. A festa havia acabado em tragédia.


III


-Era o que faltava. Depois de tudo aquilo que fizeram, ou melhor, que ele fez, pois foi ele o autor de todas aquelas calúnias, pois quem mais havia de ser?
-O tio não está a ver bem o problema. Essa atitude vai virar-se contra si!
-Não estou a ver bem o problema? Então esqueces-te que me quiseram pôr em tribunal, dizendo que eu tinha vendido materiais para a construção da casa mortuária, como se eu necessitasse disso para meu governo de vida? Desde que perderam as eleições que têm andado com velhacarias para ver se me complicam a vida. Pensavam que só eles é que conheciam as leis. Como se eu não soubesse que a lei não me permite meter a mão em qualquer obra promovida pela Junta. Velhacos, não passam de velhacos!
-O tio tem toda a razão, tem toda a razão desse ponto de vista. Mas isso não lhe permite impedir que o corpo vá agora para a casa mortuária. A casa mortuária é da Junta, tudo bem, mas é para ser utilizada pela população. Seja lá quem for o defunto todos têm direito a lá serem velados.
-Mas logo tinha que ser ele o primeiro. Logo tinha que ser o Zé Sebastião a estreá-la.
-A coisa seria grave se ele o soubesse. Mas tio, parece-me que colocá-lo na casa mortuária ou no meio da rua para ele já é indiferente. O tio não está a ver as coisas politicamente!
-Não estou a ver as coisas politicamente?! Então diz lá tu, tu que és o político!
Aquele era o seu sobrinho preferido. Andava a cursar Direito. Seria o primeiro da família a tirar um curso superior. Gostava dele como se fosse seu filho e quando dizia "o meu sobrinho Augusto", elevava sempre um pouco o tom de voz, tom em que se misturavam indistintamente o afecto e o orgulho. Quisera que ele integrasse a sua equipa para a Junta mas o rapaz recusara com o argumento, razoável, de que estava a maior parte do tempo ausente e que isso o iria impedir de participar de forma séria nos trabalhos da autarquia. Mas sempre que alguma questão mais difícil se lhe punha era ao sobrinho que recorria. E quando este soube que o tio se aprestava a impedir que o corpo de José Sebastião da Cruz fosse velado na nova casa mortuária, com o argumento de que a mesma se encontrava em obras, obras que eram apenas a instalação de um sistema de ar condicionado, logo se apressou a contactá-lo para o tentar impedir de tal propósito.
-As obras que estão a ser feitas na casa mortuária são obras menores que em nada impedem que lá se faça o velório. O tio sabe disso tão bem como eu, e toda a gente sabe que é assim. O que se irá dizer é que o tio é rancoroso. E sabe como o povo é, sabe como o povo guarda respeito aos seus mortos.
-Já sei, já sei que depois de mortos todos passam a ser boas pessoas. Mesmo que tenham sido uns pulhas em vida!
-Esqueça o passado e olhe em frente. Em que é que a morte do Zé Sebastião lhe poderá aproveitar?
-Em que é que me pode aproveitar? Olha, aproveita-me que é menos um caluniador que anda cá ao cimo da terra!
-Ouça, o homem era o presidente do clube de futebol, não era? O tio ganhou as eleições por uma unha negra porque muita desta gente é fanática da bola. A sua prioridade foi a construção de uma casa mortuária e com isso ganhou. Mas qual será a sua próxima prioridade, qual a grande obra que pretende realizar e com a qual ganhará votos? Está a ver qual é, não está? Pois há-de ser o melhoramento do parque desportivo da aldeia.
O sobrinho tinha razão.
-Há outras coisas mais importantes a fazer. Olha, o arranjo de algumas calçadas.
-O seu a seu tempo, tio. Daqui a pouco terão que ser convocadas eleições para a direcção do clube. Faça desde já constar qual será a próxima obra que se propõe realizar, candidate-se à direcção, prometa que irá auxiliar o clube e verá como ganha facilmente. E daí a ganhar a reeleição para a Junta são favas contadas.
O sobrinho tinha razão. Mas ele é que não lha poderia dar assim, de mão beijada, ele, homem maduro, experimentado pela vida, não se poderia dar assim por vencido, logo às primeiras. Os seus brios e a juventude do sobrinho impediam-lho.
-Daqui a pouco estás a propor-me que lhe envie flores!
-Não digo que seja o tio a enviar-lhas, mas porque não a Junta? Seria um gesto cortês. Afinal o homem foi presidente durante alguns anos e essa atitude cairia bem.
-Mas tu não tens orgulho? Estarás tu doido? Não vês que isso seria interpretado como uma atitude cínica da minha parte?
-Tomando em consideração aquilo que se passou entre ambos seria cínico, seria até ridículo, se o presidente da Junta enviasse um ramo de flores a felicitar o presidente do clube de futebol pela vitória no campeonato. Agora com o homem morto o caso muda completamente de figura.
-Queres então que eu mostre aquilo que não sou, que se pense que eu sinto aquilo que de facto não sinto?
-Estou só a dizer-lhe para que actue como político. Se assim não o quer entender, paciência!
-Mas isso não é ser político, é ser velhaco!
-Diria que é as duas coisas. Mas também foram velhacos para consigo quando tentaram entalá-lo com a questão dos materiais de construção.
-E queres então que eu combata a velhacaria com mais velhacaria?
-Quero apenas que o tio enfrente esta questão de uma forma política. Já lhe dei a minha opinião, agora o tio fará como melhor entender.
Subitamente calado, Manuel Catarino passava as mãos pelas faces nédias, num gesto nervoso. O sobrinho levantou-se.
-Já te vais embora?
-Vou, tio, penso que já lhe disse tudo o que tinha a dizer. Se quiser seguir os meus conselhos é bom apressar-se porque o corpo chega logo à tarde.
-Sabes o que vou fazer? Vou reunir a Junta!...Vou reunir a Junta!...
-Pois reúna, tio, e decida bem. Até logo.


lV


Toda a equipa de futebol estava presente e até fardada a rigor. Tal parecerá ridículo a olhos mais circunspectos, mas o entusiasmo pela recente conquista do campeonato não havia esmorecido, apenas se havia nublado de melancolia e toucado de redobrado afecto pelo defunto que atingira, pelo seu estado, o limbo dos consagrados. Todo o rancor, todo o azedume que alguns lhe houvessem devotado em vida deveria agora ser bem guardado, aferrolhado num recanto obscuro da memória. O luto assim o ordenava. E mais que o luto o evento desportivo, que outro não havia, de espécie alguma, mais importante nos anais da história aldeã. Fosse ele Inverno e decerto que os jogadores apareceriam em trajo mais próprio para enfrentar o barbeiro que, em tal sazão, quase sempre corre desenfreado pela vasta campina e, sem anteparo que o detenha, parece arreganhar ainda mais o dente quando assola a desnudada colina onde a aldeia se desdobra em ruas e ruelas. Mas era quase Verão e os jovens prestavam assim guarda de honra ao dirigente que, de forma tão trágica e efémera, havia provado o doce sabor da glória e, ao mesmo tempo, eram também eles, ocasionais heróis, alvos da adulação dos seus conterrâneos, ampliada pela cerimónia fúnebre, ocasião sempre propícia ao devaneio e à exaltação dos sentimentos de afecto e gratidão.
Também Manuel Fortunato se aliava ao préstito, de resto toda a aldeia ali se encontrava. A faltar algum só mesmo por impossibilidade física. Manuel Fortunato também depôs coroa de flores a juntar às muitas outras que, amontoadas, já sobrepujavam o féretro. Nela se lia, em fita com as cores do município, "A Junta de Freguesia". Apenas. Mas aquelas singelas palavras provocaram horas de discussão entre os elementos da Junta. Foi mesmo aquele pormenor o que mais celeuma levantou na reunião que se havia realizado naquela manhã. Foi aquela a fórmula encontrada para, de maneira condigna, mas sem concessões, homenagear o morto. Porque qualquer outra fórmula, tenuemente laudatória que fosse, deparava com a intransigente oposição de Manuel Fortunato.
Divisou o sobrinho Augusto,de pesarosa e solene gravata preta, à conversa com os dirigentes desportivos locais. Será que nem ali aquele seu sobrinho deixava em paz as tramóias da política?. Pois de que falaria ele afinal? Por fim acercou-se.
-Tio, depois do funeral vá ter ao clube da bola. Já tenho o assunto conversado.- disse-lhe, em voz ciciada, ao ouvido.
O rosto crispou-se-lhe e não respondeu.
A mulher, que o acompanhava de perto, perguntou-lhe:
-O que foi?
-Nada, é o Augusto que quer falar comigo depois do funeral.
Esta olhou-o, surpresa. Pela primeira vez ele não se havia referido ao sobrinho como "o meu sobrinho Augusto".

 
|
  LADRÃO POR ENCOMENDA

Lá vinha ele. Coado pela distância e pelo nevoeiro cerrado que tudo envolvia com o seu branco manto, já se fazia ouvir o ruído, ainda ténue, do motor do automóvel.
O homem era de hábitos sólidos. Todos os dias, fizesse chuva ou fizesse sol, manhã cedo, lá partia em visita aos seus domínios, tão certo como um relógio.
Bem sabia que ele era tão rico de bens como pobre de bondade. Mas ele há dias! E depois o homem havia de se lembrar que os seus pais haviam labutado para ele uma vida inteira a troco de mau passadio e muitas canseiras. E ele próprio também já para ele trabalhara, moço ainda, antes de ir para a tropa. E depois não lhe vinha pedir nada dado. Que ele depois lhe pagaria, pelas alminhas de seus pais. Até lhe pagava em trabalho, se isso fosse o ajustado. Mas agora ia tudo de mal a pior. Os cobres que ajuntara durante o Verão já se tinham ido, trabalho não havia, os fiados já eram muitos e aquela vida não podia continuar.
Bem... na verdade muito do dinheiro tinha sido gasto em copos e patuscadas. Mas também, que diabo, o que há-de um homem fazer? Sem companheira que o prenda, de alguma maneira um homem há-de matar o tempo. Mas ainda bem que não tinha arranjado mulher, mulher e filhos, senão era maior a desgraça.
Já tinha ido à Câmara pedir trabalho, qualquer trabalho, mas também aí lhe disseram que não tinham nada para lhe dar. Que só lá mais para a frente, para a Primavera, quando o tempo melhorasse. Começariam então com o arranjo das estradas e que nessa altura aparecesse. Era bom de dizer! E até lá como é que se iria governar?
O automóvel aproximava-se. O ruído do motor era agora mais nítido embora não o conseguisse ainda enxergar. O nevoeiro cerrado, que só levantaria lá mais para o meio da manhã, não deixava ver mais que um palmo adiante do nariz. E se ele não o visse? Com o nevoeiro que estava vá lá saber-se! Adiantou-se mais para o meio da estrada. Agora só se lhe passasse por cima. E daí a instantes ei-lo que surgia. Deu um salto repentino para a berma da estrada. Por pouco não era atropelado.
- Senhor Ildefonso! Eh senhor Ildefonso!
O carro guinou para o lado e parou poucos metros adiante.
- Tu queres que te matem? Com este nevoeiro e pões-te aí plantado no meio da estrada? - gritou-lhe, saindo do carro de forma brusca.
Aproximou-se. Passou a mão pelo cabelo e sentiu-a húmida das gotículas de água. Afinal já ali estava há um bom pedaço de tempo.
- É que pensei que não me visse!
- Que não te visse? Mas para que querias tu que eu te visse? Queres alguma coisa de mim?
- Quero... sim senhor! - tartamudeou, olhos no chão, as mãos contorcendo-se e agarrando-se num gesto nervoso.
- Então diz lá o que é, que eu tenho mais que fazer!
- Bem... sabe... senhor Ildefonso... os meus pais trabalharam para si uma vida inteira... e eu...
-E tu o quê? Não me faças perder tempo, diz lá o que queres!
-Encheu-se de coragem. Levantou a cabeça, fitou-o de frente, olhos nos olhos, e sem vacilar disse:
- Há algum tempo que não tenho trabalho, estou sem dinheiro e queria-lhe pedir algum emprestado!
O outro fitou-o, de olhos incrédulos.
- Querias o quê? Querias pedir-me algum dinheiro emprestado?
- Foi isso mesmo que eu disse!
- Com que então!? - cruzou os braços sobre o peito, descansando-os sobre a barriga proeminente, num gesto de desafio. - Com que então dinheiro emprestado! E depois como é que me pagavas?
- Sou um homem honesto, senhor Ildefonso. Em tendo pagava-lhe, pelas alminhas de meus pais que para si trabalharam uma vida inteira e nunca ficaram a dever nada a ninguém.
- Pois trabalharam e eu sempre lhes paguei o que era ajustado. E que eu saiba nunca pediram emprestado.
- Eu também nunca pedi! Mas uma vez é a primeira.
- Sabes que mais? Quem quer dinheiro emprestado vai ao banco. E um homem como tu devia ter vergonha de andar por aí a pedir emprestado aos outros. Um homem são e escorreito não precisa de pedir, trabalha!
- Mas é que eu não consigo arranjar trabalho. Já corri tudo e não consigo. O senhor Ildefonso sabe que eu não sou um homem preguiçoso.
- O que eu sei é que quando um homem quer trabalhar acaba sempre por lhe aparecer alguma coisa. E um homem, quando é homem, não pede. Não pede, ouviste? Se não tem nem que roube, mas pedir nunca!
- Roubar? Então você quer que eu me torne um ladrão?
- Tudo é preferível a pedir!
- Ladrão, eu? Então agora manda-me roubar? - e avançou um passo em direcção ao outro, os punhos cerrados, o cenho franzido de cólera.
Ildefonso, vendo-o assim de ar furibundo, meteu-se no carro, precipitado, e arrancou com grande estrépito.
Ficou-se especado no meio da estrada, murmurando consigo próprio.
Sentia um fogo intenso dentro de si, um calor que lhe provocava formigueiros nos dedos e o fazia abrir e fechar repetidas vezes as mãos, em gestos violentos de quem quer agarrar algo como se fora para estrangular.
Pagava-lhas, ah pagava-lhas com certeza! Não se chamasse ele Manuel António.
Regressou à vila em passo lento. O nevoeiro ia-se dissipando lentamente, como poalha soprada pelo vento. Gente passava, alguém o cumprimentou. Respondeu num resmungo.

*

Ao outro dia, ainda mal clareava, levantou-se. Vestiu-se com vagares. Lavou a cara numa bacia de esmalte. Olhou-se ao espelho do lavatório colocado a um canto da cozinha e repetidas vezes passou as mãos pela cara sentindo os pêlos rijos da barba de três dias. Logo a faria. Tinha agora coisas mais importantes a tratar. Aqueceu, no bico do gás, um pouco do café que lhe tinha ficado de véspera. Enquanto o sorvia em pausados goles olhava em volta. Casa pobre, desarrumada, naquele desleixo próprio de homem solteiro. Fora a única herança que seus pais lhe haviam deixado. Uma casa pobre, térrea, nos arrabaldes da vila. A casa e a espingarda, dependurada na parede, assente em dois pregos. A espingarda com que seu pai, caçador de se lhe tirar o chapéu, durante tantos anos atirara, sem respeito maior pelos períodos de caça que a lei mandava, e assim provera à mesa, pobre embora, mas bastas vezes alegrada com sua perdiz e seu coelho. Bons tempos esses.
Retirou a espingarda da parede e sentou-se com ela ao colo, afagando-a, de olhos perdidos no rememorar de antigas lembranças.
Levantou-se de súbito, decidido, abriu uma gaveta de um velho aparador de onde tirou dois cartuchos. Várias vezes os sopesou. Depositou-os depois, suavemente, no local de onde os havia retirado. Não, não necessitava dos cartuchos.

*

Ei-lo que aí vinha de novo. Sempre à mesma hora. Assim fosse ele tão certo na bondade como era nos hábitos.
Postou-se no meio da estrada de braços no ar. O dia estava límpido, daquela transparência própria dos dias de Inverno, os ares lavados pela chuvada que ao longo da noite caíra.
O carro estacou já a roçar-lhe o corpo. Tentava assustá-lo. Nem ele sabia com quem se tinha metido.
- Então o que é que temos hoje? Parece-me que ontem tínhamos ficado conversados. Se vens ao mesmo podes tirar o cavalo da chuva! - disse-lhe de dentro do automóvel.
Deu dois passos repentinos para a berma da estrada, agachou-se e da valeta retirou a espingarda, firme, resoluto.
- Saia do carro! - disse.
- Mas o que é que tu queres? - perguntou, os olhos abertos num espanto.
- Saia do carro, já disse! Tire as mãos do volante e saia do carro!
O outro obedeceu, com gestos custosos, a papada caída sobre o colarinho da camisa num treme-treme.
- Ouve lá, oh Manel António, eu cá não sou homem para brincadeiras dessas! - tentou, num falar calmo e conciliador que os olhos assustados traíam.
- Quem brincou ontem foi você! Isto hoje é a sério!
- Ouve lá, oh Manel António...
- Hoje até o meu nome sabe! Mas ontem mandou-me roubar! - retorquiu-lhe, sarcástico.
- Ouve lá, homem, isso são coisas que se dizem por dizer! Coisas que se dizem sem se sentirem! Não te queiras agora desonrar...
- Não é a gente que se quer desonrar. São vocês que nos obrigam! - interrompeu-o, abrupto. - P'ra cá a carteira!
- Mas tu 'tás maluco ou quê?
- P'ra cá a carteira, já disse! - e encostou-lhe o cano da espingarda ao peito. O outro recuou, atabalhoado, lívido, encostando-se ao carro. Bagas de suor começavam a perlar-lhe a testa.
- Vê bem no que te metes! - retorquiu-lhe, a voz sumida pelo susto.
- P'ra cá a carteira! - gritou-lhe.
Lentamente, com a respiração opressa, meteu a mão ao bolso interior do casaco e de lá tirou a carteira, a mão tremelicante.
Arrebatou-lha num gesto brusco.
- E agora o relógio! E os anéis!
O outro obedeceu-lhe, resignado, submisso, o beiço em ar de choro.
- E agora desande!
- Hás-de pagá-las! Hás-de pagá-las! - murmurava numa voz ciciada, medrosa, enquanto punha o carro em andamento.

*

Malandro. Tivesse ele menos vinte anos e até a espingarda lhe metia pelas goelas abaixo. Roubá-lo, assim, daquela maneira. Nenhum filho da puta se podia gabar de o ter assim achincalhado. Nenhum! Duma vez, na feira de Castro, há tantos anos já, dera ele boa conta de dois que o tentaram roubar. Mas era então outro homem! Fosse ele hoje o mesmo e outro galo cantaria.
Bom, mas a perda até nem havia sido grande. A carteira tinha pouco dinheiro, o pior eram os documentos, nem os documentos lhe tinha deixado, malandro dum cabrão. Denunciá-lo à guarda? Nem pensar! Quando aquela gentinha da vila soubesse toda a história o que não haviam de gozar. E havia por ali gente que se pelava por histórias assim. Nada, nem pensar...
Passeava-se dentro do escritório, jogando as pernas curtas em passadas coléricas, uma escuma de raiva assomando aos cantos da boca.
Bateram à porta.
- Entre!
- Oh patrão, trago-lhe aqui a sua carteira, o relógio e os anéis que me entregou o Manel António, o patrão há-de saber quem é!
- O Manel António! Sei lá quem é o Manel António! E isso não é meu! Afinal que história vem a ser essa? Ao Ildefonso ninguém rouba! Nenhum homem é capaz de o roubar, ouviste? - gritava, colérico, de olhos congestionados.
O outro recuou, medroso.
- Oh patrão, eu cá não sei se isto é ou não é roubado. Mas que isto é seu não tenho dúvidas. E depois o Manel António disse-me que tinha achado...
- Achou? Ele disse-te que achou isso? Ah bom! Deixa-me cá ver... pois, parece que sim...pois, é meu, é meu sim senhor!
- Mas como é que o patrão perdeu tudo assim? É esquisito...
- E a ti que te importa? Ora vai lá mas é trabalhar que é para isso que eu te pago! - e revolvia a carteira, de dedos sôfregos, verificando se o dinheiro estava certo. E estava.
Deixou-se cair pesadamente numa cadeira como se tivesse feito um esforço violento. Por várias vezes limpou o rosto molhado por pequenas gotículas de suor. Depois semicerrou os olhos e por largos minutos se quedou inerte, como que mergulhado em profundo sono. Levantou-se então, lentamente, entorpecido.
- Oh Inácio! Chamem-me lá o Inácio!
Ouviram-se rumores de vozes pela casa. Passados instantes ei-lo que surgia.
- Oh Inácio, leva lá este dinheiro ao Manel António. É a paga de me ter achado tudo isto.
E estendia-lhe algumas notas. O outro olhava-o, olhava o dinheiro, franzido, assarapantado. Este era um dia de prodígios.
- Pega lá no dinheiro! Pega lá no dinheiro e desaparece antes que eu me arrependa!
 
|
Segunda-feira, Abril 04, 2005
  O SEMENTAL

A merda do velho não me quis emprestar o semental mas bem o tramei.O meu primo Leocádio fez bem a sua parte. Os ucranianos fecharam a boca a troco de alguns euros, bem entendido, que também não dão ponto sem nó, mas o que eles estavam era assustados com a ideia de desagradarem ao meu primo Leocádio, tinha-os empregado no monte, eram dois, a cuidarem das vacas, um monte sem água nem luz, longe da aldeia, mas quem é que queria trabalhar hoje num monte sem água nem luz?, nem os ciganos, passavam dias sem verem vivalma, só as vacas e as azinheiras, era por isso se calhar que apanhavam carraspanas de caixão à cova segundo me disse o meu primo Leocádio, até já os tinha aconselhado a beberem só ao fim de semana e à vez, embebedava-se um, curtia a piela e a seguir embebedava-se o outro, que era para ver se não deixavam o monte e o gado completamente ao desamparo, mas qual quê? apanhavam-nas ao mesmo tempo, também que piada tem um homem beber sozinho? de maneira que segundo me contou o meu primo Leocádio já os tinha ido encontrar caídos de borco, na rua do monte, sem darem acordo de si, e nenhum deles tinha trabalhado no campo, tinham habilitações para outras coisas, um até tinha sido professor lá na sua terra, conforme me contou o meu primo Leocádio, mas aqui foi o que conseguiram arranjar, o meu primo Leocádio dizia que era uma pena que gente com tantas capacidades não fosse melhor aproveitada, que o país necessitava de quadros médios e que não os tinha, que a população não tinha suficientes qualificações escolares e profissionais e que esta gente poderia ser melhor aproveitada, diz ele que lê o jornal todos os dias, gosta de falar difícil e passa por saber de política, também já diziam o mesmo do pai, o meu tio António, e de que é que lhe aproveitou?, no tempo da outra senhora ainda foi malhar com os ossos à prisão por causa das políticas, por sinal quem socorreu os meus primos e a minha tia na altura foi a minha mãe e o meu pai, e agora os que se tinham amanhado no tempo da outra senhora amanhados continuam e o meu tio António nem antes nem depois nunca passou da cepa torta, o meu primo Leocádio é que tem medrado, tem sido mais esperto do que o pai, mas estes desgraçados dos ucranianos é que a tudo se sujeitam a troco de pouco. Pois os ucranianos, depois de bem ensinados, tinham ido falar com os outros que trabalhavam para o velho Piteira, eram três, um deles era romeno, falaram com eles, eu e o meu primo Leocádio untámos-lhes as mãos, que para isso já íamos prevenidos, e naquela mesma noite fomos buscar o semental à pastagem, quer dizer, a gente só o pôs em cima da carrinha, quem o foi buscar foram os ucranianos, os cães já os conheciam e nada iriam contar, se fosse a gente estávamos à rasca com os cães, ainda pensámos em levar uma cadela ressaída mas onde é que a íamos buscar? temos cães e cadelas mas naquela altura nenhuma delas estava ressaída, só se esperássemos que alguma se pusesse, a gente lançava-a aos cães e podíamos fazer o trabalhinho descansados que os cães logo haveriam de desalvorar campo fora atrás da bicha, mas com mais umas coroas os ucranianos não se importaram de apanhar o carneiro, que o bicho era valente e não dava mão a qualquer um, mas lá o apanharam com a promessa de que o devolvíamos daí a dez ou doze dias. E o patrão, o que diziam ao patrão? diziam-lhe que tinham roubado o semental, era o que lhe diziam, que o tinham roubado quando eles foram fazer compras à cidade, que quando foram ainda lá estava o bicho e que quando voltaram já o tinham levado, mas o patrão não ia acreditar, diziam, roubarem o carneiro de dia, com os cães soltos não ia acreditar, que acreditava, que remédio senão acreditar, dizia-lhes eu, que agora isto é uma pouca vergonha, já roubam o gado à luz do dia, que não era a primeira nem seria a última vez que isto acontecia e ele que ficasse bravo uns dias que depois logo amansava quando lhe devolvessem o carneiro, e não é que no outro dia a porra dos ucranianos tinham desaparecido? tinham ido para o Algarve ou para Espanha ou pr'á terra deles, vá lá saber-se, os gajos já a tinham fisgada, quando nos pediram o dinheiro para nos irem buscar o carneiro já a tinham preparada para o outro dia, aquela preocupação com o que o patrão haveria de dizer no outro dia era tudo fita, cagando estavam eles para o patrão, o velho Piteira foi sempre um cão para o pessoal, foi no outro tempo e continua a ser agora, tinha lá os ucranianos ilegais, quando lá chegou e não os viu, com o gado todo tresmalhado e a falta do semental, ia-lhe dando uma coisa, foi queixar-se às autoridades, o velho ainda por cima é parvo, foi queixar-se de que os ucranianos lhe tinham roubado um semental, e como é que sabe que foram ucranianos? perguntaram-lhe, que os tinha lá empregados e que tinham desaparecido com o bicho, assim sem mais nem menos, depois quando lhe pediram os papéis com os contratos de trabalho e com os descontos para a Segurança Social o velho ainda perguntou para que eram os papéis, era para os identificarem ou ele sabia todos aqueles nomes esquisitos de cor? não tinha consigo os papéis, respondeu já atarantado o velho, mas que os ia buscar, claro que não foi buscar nada e nem voltou ao posto, ia buscar lã e veio tosquiado, ia apresentar queixa contra os homens quando os trazia lá ilegais, que parvo o velho me saiu, e a coisa não deu mais para o torto porque quando saiu do posto e contou a história a outros, que apanharam uma barrigada de riso, logo o aconselharam a ir dali falar com um advogado que lhe disse para contar às autoridades que os ucranianos tinham chegado no dia anterior e que por isso ainda não tinha tido tempo de tratar da papelada, e lá se conseguiu escapar à coima. Mas já lá tem outros a trabalhar, e ilegais outra vez, o velho é um safado. Daí a uns dias fomos, de noite, eu e o meu primo, soltar o semental na pastagem, já o tinha lançado às ovelhas, eu já tinha o que queria e o semental a barriga cheia, de maneira que lá o soltámos, o velho Piteira, quando lhe contaram que o carneiro já estava de novo na pastagem nem queria acreditar, e fartou-se de dar tratos à imaginação para descobrir que porra de história era aquela, o velho tem o bicho em grande estimação, teve um primeiro prémio numa exposição de merinos aqui há três anos, e era por isso que eu também queria que ele mo emprestasse mas qual quê? não o empresta a ninguém, mas comigo fodeu-se.
Beberricava encostado ao balcão do bar, perorando para uns quantos que, como ele, bebiam e chasqueavam, de momento, do velho Piteira.
Era a feira, mas já não era uma feira como as de antigamente, com muito pó, muito calor, tendas de pechisbeques, carrocel, carrinhos de choque e circo, mais umas quantas tendas de comes e bebes, com copos de vinho aviados da pipa e pataniscas e uma corredoura anexa, onde se realizavam os negócios do gado. E ciganos, naturalmente, podia-se lá imaginar à época uma feira sem ciganos? Esta não os tinha, nem nuvens de poeira levantadas pelos passantes que a ela se deslocavam em grandes ranchos familiares, tinha as ruas calcetadas, as tendas de comes e bebes eram agora restaurantes de gastronomia regional, os vinhos eram de marca, tudo com um ar finório, meninas de olho pintado vigiavam as muitas exposições e as tendas atabernadas de antanho eram agora bares onde se bebiam uísques, caipirinhas, panachés e outros modernismos. A feira até tinha um programa cultural, enfim, assim lhe chamavam, com a participação daqueles que no momento ocupavam o top-ten nacional e com muitos colóquios e conferências. Não, agora a feira fiava mais fino. E a bem dizer o visitante quase escusava de andar com a moleirinha ao Sol ou à chuva, para tudo havia pavilhões, amplos, airosos e até, imagine-se, alguns deles com ar condicionado. A feira agora era outra loiça. Até lhe tinham deslocado a data. A polémica que isso levantou. Então uma feira que há mais de quinhentos anos se realizava naquela data ia-se lá agora mudá-la? Mas naquela data já ninguém lá ia. Aquela data era a data do fim do ano agrícola, a feira encerrava um ciclo económico, era tão natural a feira como o são as estações do ano. Ceifavam-se as searas, vendiam-se os gados, os lavradores saldavam as suas contas, os trabalhadores recebiam a sua soldada, e naquele intermédio de final de Verão e princípios de Outono se fazia a feira, quando homens e terra enfim descansavam de um ano de labor e suor e ganhavam forças para o reinício da sempiterna luta contra uma Natureza por vezes pródiga mas tantas mais vezes avara e madrasta. Mas isso era quando a vida dos homens se pautava ao ritmo da Natureza.
Os gasómetros e os petromaxes, que prolongavam a vida da feira em cada dia até à meia noite, e upa-upa, e de que só os mais velhos tinham memória, cediam agora lugar à electricidade, electricidade a jorros, luzes multicores, faiscantes, berrantes, intermitentes, e a vida da feira até parecia que ganhava mais animação já a madrugada ia alta. De maneira que ao ritmo da Natureza só mesmo os irracionais, os bravios que não os domesticados que esses, que também tinham direito a pavilhão, onde os orgulhosos donos os expunham na mira gulosa de algum prémio, andavam decerto tresnoitados e de ouvidos azamboados de tanto barulho.
E para esse pavilhão se dirigia agora em animada súcia, já acompanhado pelo primo Leocádio que avistara e chamara em altos brados, modos já destemperados de quem vai de grão-na-asa, o que parecia ser comum ao resto da malta. O júri havia deliberado, no segredo dos deuses, quais os mais nédios e puros exemplares das variadas raças a concurso. Ir-se-ia em breve saber quem haviam sido os premiados, os donos, entenda-se, não as pobres alimárias que ali penavam, durante dias, os quatro penados, sem outro merecimento no final da função senão o de serem propriedade de beltrano ou sicrano que esses, sim , se aboletavam ufanos com o prémio. Pois tinha a concurso um carneiro merino, uma bisarma de bicho que tratara com desvelo e sobre o qual pairava um segredo de que só ele e o primo Leocádio tinham conhecimento. Ou tinham até à conversa anterior, que isto de álcool e discrição nunca deram bom casamento.
O grande momento chegara. O júri, muito circunspecto, com o ar sério das grandes ocasiões, avançava agora para o palanque colocado a meio do pavilhão. Eram três. O que parecia ser o mandante avançou para o microfone. Trazia casaco verde azeitona, de cheviote, gravata em xadrez, de cores vivas e chapéu adornado com pena de faisão, todo ele muito gentleman-farmer. Pigarreou várias vezes até que se fez silêncio. Ouviam-se agora apenas os mugidos das vacas e os balidos das ovelhas. E lá principiou o discurso. Que a feira tinha sido mais uma vez um estrondoso êxito, que o concurso e o empenhamento de muitos tinham tornado possível este grandioso evento cujo nome já tinha ultrapassado fronteiras e elevara bem alto o nome da terra, e lá desfiou uma série interminável de entidades a quem se devia incondicional agradecimento, que a feira se constituía como o mais importante factor de afirmação da região e da sua economia no todo nacional, que a feira tinha sido visitada até ao momento por tais e tais personalidades, e lá veio mais uma chusma delas, que o número de participantes no concurso tinha ultrapassado as previsões mais optimistas, que as raças a concurso eram estas e aquelas e aqueloutras e que os criadores representados eram estes e mais aqueles, e lá desfiou toda aquela série de lugares comuns que são usuais em tais ocasiões. O discurso alongava-se e o silêncio inicial estava definitivamente desfeito. Aos seus constantes pigarros já a multidão não obedecia. Finalmente, finalmente ia anunciar os premiados. E de novo se fez silêncio. A cada anúncio correspondiam manifestações de júbilo que irrompiam aqui e acolá. O primeiro prémio para o carneiro de raça merino coube-lhe a ele. Grande algazarra surdiu do local onde estava com a sua súcia. Sonoras palmadas nas costas, gritaria e uma marcha apressada para a baia onde se encontrava o carneiro coroaram o momento de glória. Pousou-lhe a mão na cabeça, entre os chavelhos e acariciou-o. O bicho era avesso a tais mimos mas conhecia-o demasiado bem para qualquer bote brusco. O mesmo não ocorreu com um penetra que, ensaiando a mesma carícia, acabou por levar tal testada que por pouco não partia o braço, comprimido entre a córnea do animal e as barras da baia.

II

Surdia forte dos lados dos bares e restaurantes a animação. A noite ia alta e fria mas se esquentada a tragos de cerveja e outras pomadas mais espirituosas que importava lá isso? Mais animado era o regabofe no grupo que comemorava o primeiro prémio ao carneiro merino. O velho Piteira olhava-os de longe, cofiando o bigode e bamboleando o corpo, ora para a esquerda ora para a direita. Os amigos de estúrdia e que dessas andanças lhe conheciam as peculiaridades diziam que isso era sinal de estar carregado de álcool até aos gorgomilos. A modos que aquele balancear seria para melhor centrar o campo de visão, já de si enevoado e que ainda por cima lhe parecia fugir para os lados. Finalmente aproximou-se do grupo em passadas hirtas, lançando-se para a frente em lances bruscos que melhor lhe equilibrariam o corpanzil.
-Que merda vem a ser esta? O que é que estão para aqui a comemorar?
A balbúrdia era grande e ninguém lhe prestou atenção. Um houve que lhe agarrou no braço e o puxou para o meio do grupo, sempre era mais um sócio para a função. Com um gesto brusco e violento libertou-se da mão do outro. E tão inesperada e brusca foi a acção que o outro cairia não se amparasse aos companheiros mais próximos. E isto já não passou despercebido. Lentamente o silêncio foi-se estabelecendo no grupo, calando-se uns aos outros por simpatia, se de repente emudeces eu também emudeço porque algo se passará.
-Que merda de comemoração vem a ser esta? - perguntou de novo, a voz entaramelada pela muita morraça já bebida. - Vocês não passam de um bando de ladrões que comemoram uma coisa que era minha e que vocês me roubaram.
-Ó amigo Piteira, que destempero vem a ser esse?- perguntou-lhe, suspeitando já do que tinha acontecido. Ele há amigos.... Tinha falado demais, foi o que foi. Escutam aqui, contam acolá e arranjam apoquentações sem as quais bem se podia passar.
-O que se passa é que o prémio que te deram é meu! Ouviste bem? É meu! Ficaste com um prémio que era meu! - gritava, colérico.
-O prémio quem mo deu foi o júri, ó amigo Piteira, que eu saiba não lhe tirei nada! - respondeu-lhe, tentando manter uma serenidade que sentia ir faltando aos outros.
-Não me queiras endrominar, ó palhaço, há-de nascer o primeiro que me endromine. Ou tu cuidas que eu não sei o que se passou?
-Vai deitá-la! - alguém de entre o grupo gritou, logo apoiado por outras vozes.
-Vai tu deitá-la, cabrão!
-Ó Piteira, olhe que há aqui senhoras. Tento na língua! - gritou-lhe outro.
Tentou pôr água na fervura. Afinal o homem estava bêbedo e com mais três ou quatro bebidas ficava na conta.
-Então o que é que quer beber?
-Não quero beber nada, só quero o que é meu!
-Ele a dar-lhe e a burra a fugir. Vá lá aí uma bebida para o meu amigo Piteira. - pediu ao balcão.
Se lha pusessem na mão haveria de bebê-la, estava naquele ponto em que beberia tudo o que lhe pusessem na frente.
Lá veio a bebida.
-Mas então o que aconteceu? Qual é o seu problema?
-O problema é que o carneiro premiado é filho do meu carneiro premiado aqui há três anos, é filho do meu semental e que eu saiba não to emprestei!
-Mas quem é que lhe foi contar essa?
-Quem me contou não me mentiu. Agora é que eu percebo como é que o carneiro desapareceu e depois me apareceu na pastagem sem mais aquelas!
-E faltava-lhe alguma coisa? Estava maltratado?
-Abusaste, abusaste, roubaste o que não era teu.
-Mas afinal o que é que eu roubei? Já aqui me acusou de dois roubos, o prémio e o carneiro. Começo a achar que são roubos a mais.
-Nem a mais nem a menos. Roubaste-me o carneiro primeiro e o prémio depois. Vá lá aí outra bebida, mas sou eu que pago, não quero nada com vocês! - pediu, a voz cada vez mais pastosa.
-Não foi um roubo, foi uma partida. E bem pregada até, por sinal! - bradou um de entre o grupo.
-Estás com dor de corno! - gritou outro.
-Dor de cornos tem o teu pai! - respondeu-lhe.
_Ó amigo Piteira, tenha lá mais respeito pelos presentes. E para lhe provar que sou melhor do que você, que já aqui me acusou de ladrão em frente de todos estes amigos, vou repartir o prémio consigo. Pronto, aí tem, considero que o prémio é dos dois. Venham lá daí esses ossos.
O Piteira, de olhos arremelgados, pendendo agora para trás e para diante num aparente mais do que real tem-te não caias, que aquilo era odre que suportava muita bebida, renitente, levantou a mão vagarosa e lá apertou e sacudiu a do outro. E logo irrompeu forte gritaria, com muitas palmadas nas costas do Piteira, que só não caía porque as palmadas eram tantas e tão desencontradas que acabavam por equilibrá-lo e com muitas pilhérias à mistura tais como "O Piteira é o maior da Feira", "Piteira é tua a Feira", "Piteira, vai cozer a bebedeira" e outras mais chulas que me dispenso de aqui reproduzir por decoro para com os leitores.
Ia alta a madrugada foram encontrá-lo deitado dentro da baia do carneiro, ressonando que nem um ogre. Indiferente, o carneiro ruminava. 
|
Sábado, Abril 02, 2005
  Que Cultura? Que Política Cultural?

De que falamos quando falamos de cultura?
De um ponto de vista antropológico falamos de um conjunto de padrões de comportamentos, crenças, conhecimentos, costumes, etc., que distinguem um grupo social. De um ponto de vista de política cultural autárquica, que adiante procuraremos definir, não será de todo esta a vertente que mais nos importará. Não será? Mas se a comunidade em que nos inserimos tem tais especificidades culturais, ainda tão claramente marcadas que nos tornam um caso singular no todo nacional? Se somos hoje uma comunidade na fronteira entre um mundo rural que fenece e um mundo urbano que debilmente desponta, não será nossa incumbência e responsabilidade a salvaguarda desse modelo cultural já hoje crepuscular?
Mas talvez que nos importe mais a cultura como o complexo de actividades e instituições ligadas à criação e difusão das belas-artes, ciências humanas e afins. E aqui caberá também a tarefa que anteriormente nos propusemos.
Mas se é nossa incumbência a salvaguarda das formas culturais passadas, patrimoniais, é também responsabilidade nossa adoptar uma postura receptiva ao novo, ao que desponta, ao que ainda é informe e dificilmente se divisa.
Mas neste caso, mais do que em relação à vertente patrimonial, um problema se nos coloca. Que postura adoptar? É bom lembrar que aqui sempre aflora a tentação dirigista. A História está cheia de exemplos de políticas culturais oficiais que mais não foram do que políticas coarctivas de criatividade que degeneraram em modelos canónicos academicistas e medíocres e em reles práticas propangadísticas. Mas se, e lembrando Roland Bhartes, não existe o grau zero da escrita, muito menos existirá o grau zero das políticas culturais. Nem ele é desejável, sequer aceitável, pois que uma política cultural autárquica deverá estar ao serviço das populações e atender às especificidades culturais das mesmas.
Mas deverá propiciar-se às comunidades que se servem apenas aquilo que elas desejam, deverá seguir-se uma política cultural de cariz popular? Por outras palavras, deverá propiciar-se o contacto com objetos culturais que respondam ao gosto fácil e imediato ou deverá procurar-se, entretanto, proporcionar o contacto e usufruto de modelos culturais mais elaborados e de mais difícil fruição? Não será que uma política de serviço de uma qualquer comunidade também deverá comportar uma vertente didáctica? Parece-nos óbvio que sim.
Mas cuidado. Que sentido pode ter a promoção de eventos onde poucos compareçam? Os gastos que tais eventos acarretam são suportados com dinheiros públicos o que pressupõe uma responsabilidade social na sua gestão. Eventos de cariz elitista que, para além do seu custo, se revelam ineficazes e de todo inúteis de um ponto de vista didáctico? Obviamente não.
Por outro lado que sentido tem a promoção de actividades de todo desfasadas da sensibilidade e adesão comunitárias, ainda que aparentemente possam assumir uma feição popular? Por exemplo, que sentido tem a promoção de um conjunto de actividades designado por Bejalternativa, que a Câmara vem patrocinando e pagando de há alguns anos a esta parte? Que gastos acarreta, qual o grau de adesão da comunidade local? Em que é que essa iniciativa responde a um real e sentido anseio comunitário? Que práticas culturais alternativas ocorrem em Beja ao longo do resto do ano? Existe suficiente massa crítica comunitária fautora de tais práticas culturais alternativas que justifiquem esse conjunto de iniciativas como seu corolário lógico? Em nosso entender não.
Aqui chegados somos levados a outra reflexão. Que público ou públicos privilegiar? Em nosso entender a todos e a nenhum. Expliquemo-nos: na verdade não há um público para consumo, usufruto e criação de produtos culturais, há públicos, tão diversos quanto o pode ser a sociedade, diversos e heterogéneos em termos geracionais, de escolarização e de inserção económica na tessitura social. Tem havido uma crescente tendência para o privilegiar de uma faixa etária que poderemos designar por adolescente-juvenil, fruto de um certo modismo, razões económicas e calculismo político. Este é um público disponível em tempos livres, tem poder económico e seduzível, em termos político-partidários, entenda-se. A desmesura de atenção dedicada a este público pela chamada indústria de cultura de massas e pelos poderes políticos remonta já a algumas décadas atrás. Surge quando o jovem, mercê do desenvolvimento económico verificado no pós-guerra, tem suficiente dinheiro de bolso para ascender à categoria de consumidor de produtos culturais, entre outros, tem ainda tempo e predisposição para tais consumos e tem em mãos o abre-te sésamo das democracias representativas, o voto, pois que progressivamente foi baixando a idade legal para tal exercício. Data pois de então a conceptualização progressiva da muito discutível cultura jovem, cujas realizações, encaradas que são como produtos de consumo imediato, são quase sempre superficiais, de fácil acesso e fugaz durabilidade.
Há então que quebrar rotinas e modismos e ensaiar uma política diversificada que atenda aos vários públicos, à sua sensibilidade, motivações e interesses.

 
|

Artigos Recentes
Arquivos
Links


Powered by Blogger

Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com