<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><rss xmlns:atom='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' version='2.0'><channel><atom:id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476</atom:id><lastBuildDate>Sat, 23 May 2009 21:18:25 +0000</lastBuildDate><title>O Pacense</title><description></description><link>http://opacense.blogspot.com/</link><managingEditor>noreply@blogger.com (Joaquim Filipe Mósca)</managingEditor><generator>Blogger</generator><openSearch:totalResults>96</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>25</openSearch:itemsPerPage><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-1893081039571377307</guid><pubDate>Wed, 02 Jan 2008 17:29:00 +0000</pubDate><atom:updated>2008-01-02T20:38:23.282Z</atom:updated><title>Abaixo a Nicotina</title><description>Entrámos em 2008 e entrámos definitivamente na modernidade. Ao proibirmos o tabaco em todo e qualquer espaço público, com apertadas excepções, é verdade, equiparámo-nos por fim a todos aqueles aqueles povos que decisivamente caminham para o futuro abrindo caminho, quais pioneiros, a todos os outros, a maioria, que ainda vegetam nas trevas dos costumes passados, como nós o éramos ainda há tão pouco tempo.&lt;br /&gt;É verdade que alguns pobres desgraçados andam pelas ruas a contestar as políticas de saúde, que os caminhos que a educação anda a trilhar não auguram nada de bom, que a sinistralidade rodoviária nos é pouco abonatória, que a economia patina e não descola, mas não sejamos maximalistas: cada coisa a seu tempo. Há bem pouco tempo os jornais noticiavam que haveremos de crescer 0.1% acima da média do crescimento médio dos nossos parceiros mais desenvolvidos. Como estamos a cerca de 30% dessa média, por este andar haveremos de lá estar daqui a 300 anos. Mas não desesperemos, isto vai decerto melhorar.&lt;br /&gt;Há quem diga que estas medidas de higiene social têm laivos fascistóides, que são uma intromissão abusiva na minha esfera privada. Nada de mais aleivoso. A mim desvanece-me esta tão profunda preocupação dos nossos governantes com a minha saúde e os meus vícios privados. É verdade que o primeiro País a demonstrar tais preocupações anti-tabágicas foi a Alemanha hitleriana. E a glorificar a beleza dos corpos musculados e bem nutridos, numa manifestação neo-pagã que a cineasta Leni Riefenstahl tão bem soube documentar. Mas é óbvio que isto não é mais do que mera coincidência histórica.&lt;br /&gt;É provável que a seguir se modere o consumo de álcool, se anatematizem os gordos, quiçá nos imponham horas de frequência mínima dos ginásios. E depois? Tudo isto será demonstrativo das legítimas preocupações dos nossos governantes com a saúde pública.&lt;br /&gt;Vejam como o nosso primeiro-ministro dá um claro exemplo ao mundo de vera preocupação com a saúde e bem estar dos cidadãos ao fazer o seu &lt;em&gt;jogging&lt;/em&gt; matinal, onde quer que esteja e faça o tempo que fizer. Isso a mim enche-me de patriótico orgulho. Até George Bush já o cumprimentou pelo exemplo de vida saudável que tal prática transmite. Bem, as pernas do nosso primeiro-ministro não ajudam muito, concordo. São um tanto ou quanto escanzeladas, dotadas de pouca massa muscular, "perninhas de alicate", dizemos nós aqui na minha parvónia. Mas e isso desmerece-o? Antes pelo contrário. Eu, se tivesse tais pernas, faria &lt;em&gt;jogging&lt;/em&gt; de calças, nunca de calções, mas reconheço a coragem e o altruísmo que tal exibição revela no nosso primeiro-ministro.&lt;br /&gt;Dirigentes políticos houve, no passado, que não se coibiam de fumar em público e até transformavam esse seu nefando acto em marca distintiva, pessoal. Churchill fazia-o e a sua imagem é hoje inseparável de um gordo e comprido charuto que sempre o acompanhava. Também a imagem de Clinton se associa ao charuto, que gostava de fumar o seu havano, contrabandeado decerto, mas o charuto de Clinton tornou-se famoso não por ser fumado mas por ser utilizado em práticas menos próprias. Até Mário Soares aparecia de quando em vez, publicamente, fumando o seu puro. Mas Mário Soares era claramente um diletante do charuto, um fumador de fim-de-semana, sempre lhe faltou a harmonia e a elegância de gestos, a naturalidade enfim, de um verdadeiro fumador.&lt;br /&gt;É provável que estes homens se arrependam hoje de ter praticado em público tão condenável acto. E Churchill, se ainda fosse vivo, tentaria decerto lavar a sua imagem mandando, quem sabe, retocar as infindáveis fotografias em que surgia envolto no fumo do seu inseparável charuto.&lt;br /&gt;Confesso, amargurado, que sou fumador e que neste começo de ano me fenece a vontade de deixar de sê-lo. Sou um fraco. Mesmo agora, que estou a terminar esta croniqueta, me apetece fumar um cigarro. Mas no entanto gritarei a plenos pulmões, fazendo coro com os nossos governantes, a bem da saúde pública, "Abaixo a Nicotina".&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-1893081039571377307?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://opacense.blogspot.com/2008/01/abaixo-nicotina.html</link><author>noreply@blogger.com (Joaquim Filipe Mósca)</author></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-2228666460505417515</guid><pubDate>Sun, 09 Dec 2007 16:46:00 +0000</pubDate><atom:updated>2007-12-09T18:12:46.218Z</atom:updated><title>Vêm aí os Chineses</title><description>Recordo-me vagamente, dentre as já longínquas e esmaecidas memórias de infância, de ver um a vender gravatas numa feira. E tão misteriosamente como tinham aparecido assim esses pitorescos vendedores de gravatas desapareceram. Mais tarde, já nos anos oitenta do século passado, via-os frequentes vezes, ali para as bandas das Portas de Mértola, em plena rua, fazendo a sua veniaga, pano de seda no chão, mostruário do pechisbeque que humildemente ofereciam ao transeunte. Depois surgiu uma loja, depois outra e outra e outra, e as lojas dos chineses inundaram a cidade, inundaram o país, amedrontaram os comerciantes locais, tornaram-se assunto de debate público, motivo para agenda de reunião camarária.&lt;br /&gt;Nada me lembra mais a fábula da cigarra e da formiga do que a actividade incessante, discreta, destes chineses. É Domingo, é feriado, que importa? A loja lá continua aberta para desespero dos nossos comerciantes e conforto de algum cliente retardatário. Mas, ele há sempre um mas, aquilo que vendem é de fraca qualidade, muitas vezes o artigo é de contrafacção, imitação barata e fraudulenta e aqui já estamos no campo da concorrência desleal.&lt;br /&gt;Desde que os dirigentes chineses proclamaram que é glorioso enriquecer a China como que acordou da sua já secular letargia e prosperou a olhos vistos, tornou-se a fábrica do mundo. A mão-de-obra conta-se por centenas de milhões, o seu preço é o da uva mijona, para deleite dos nossos capitalistas, enriquecimento do nosso léxico, quem conhecia o vocábulo deslocalização? e empobrecimento das economias menos preparadas para esta globalização alinhada por baixo, muito por baixo, no que respeita a direitos laborais e sociais.&lt;br /&gt;Nós marcamos passo há já penosos sete anos. A passagem de uma economia de mão-de-obra barata e intensiva para uma economia de maior valor acrescentado e maior incorporação tecnológica, num processo ainda não terminado, custou-nos, custa-nos, recessão económica, desemprego, perda de direitos laborais, divergência com a média de desenvolvimento económico dos nossos parceiros europeus e um sentimento geral de desânimo e tristeza. Podiam os governantes ter feito mais e melhor? Decerto que sim, outros, mais previdentes, a seu tempo o fizeram, v. g. a vizinha Espanha.&lt;br /&gt;Mas a preocupação não há-de ser apenas nossa: recentemente os jornais davam-se eco de que sendo a Europa o maior parceiro comercial da China, a balança comercial era-lhe tão desfavorável que as suas vendas à China eram inferiores às feitas à Suiça. E face à crescente presença chinesa em África, lembrou-se agora na recente cimeira em Lisboa aos dirigentes africanos que o maior parceiro económico de África foi e é a Europa.&lt;br /&gt;A China parece ter reunido o pior de dois mundos, o mundo dito socialista e o mundo capitalista: a uma total ausência de liberdade e de direitos laborais, supridos estes pela atenta vigilância de um Estado omnipotente e que se diz representante do proletariado, juntou-se uma insensibilidade social e ambiental própria do capitalismo europeu do século XIX. Milhões labutam nos campos, em condições tão precárias que as precárias condições de trabalho que encontram nas cidades lhes são tão aliciantes que estamos a assistir ao maior êxodo rural jamais visto na história da humanidade.&lt;br /&gt;Mas até quando suportarão estes milhões tais condições de trabalho, até quando a imagem futurista e luxuosa de cidades como Xangai se compatibilizará com a miséria que se esconde por detrás dessa fachada e com a miséria campesina? Que colossais convulsões sociais e políticas nos reservará no futuro essa tão misteriosa e surpreendente China?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-2228666460505417515?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://opacense.blogspot.com/2007/12/recordo-me-vagamente-dentre-as-j.html</link><author>noreply@blogger.com (Joaquim Filipe Mósca)</author></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-7693707280953078251</guid><pubDate>Sun, 25 Nov 2007 17:28:00 +0000</pubDate><atom:updated>2007-11-25T18:27:51.905Z</atom:updated><title>Não poderíamos ficar só com o fundo sonoro?</title><description>Escrever sobre futebol foi algo que nunca me cativou: não sou leitor de jornais desportivos, limito-me a ler as maiores na banca, serei dos portugueses menos informados sobre o desporto dito rei e para além disso, o que será o mais importante, já há algum tempo concluí que até nem gosto muito de futebol, sou apenas e só um pacífico adepto do Benfica. Porquê? Porque na minha meninice o Benfica foi Campeão Europeu, conquistou então um lugar proeminente no futebol europeu e mundial, lugar que a custo só hoje mantém, parecendo-se cada vez com um velho fidalgo arruinado que vive das glórias do passado. Mas porque sou do Benfica vejo todos os jogos televisionados em que a equipa participe. E é tudo, não vejo mais jogos nenhuns, para mim é pura perda de tempo, ver um outro jogo é para mim um longo bocejo. E se assim é só posso concluir que gosto do Benfica mas de futebol nem por isso.&lt;br /&gt;Vem tudo isto a propósito do jogo de ontem, o Académica-Benfica, e dos apartes que os senhores comentadores vão debitando ao longo do jogo. Porque é meu entendimento que esses comentários primam, a maior parte das vezes, por uma repreensível parcialidade em favor das equipas adversárias do Benfica. Exagero? Penso que não. E se exagero deixá-lo, também tenho direito às minhas paixões, e as paixões são sempre parciais. Mas afirmo e mantenho que os comentários sobre o Benfica são parciais e até, por vezes, jocosos. E ontem a coisa começou logo mal. Tinham decorrido cerca de três minutos de jogo e já um dos comentadores encartados de serviço dizia que a Académica estava a tomar conta do jogo. Como é possível concluir-se e dizer-se tal com três minutos de jogo decorridos?&lt;br /&gt;Mas os apartes continuam-se e são constantes: as opções do treinador são sempre incorrectas, os jogadores jogam sempre nos lugares que não lhes são os mais próprios e se golos surgem por parte do Benfica são sempre fruto do demérito do adversário, nunca mérito do Benfica. E depois há sempre aquelas doutas afirmações sobre os esquemas de jogo: ele é o 4-3-3, o 4-3-2-1,o 4 já não sei que mais, as substituições que se fazem ou se deviam fazer e que, regra geral, são feitas a desoras e sempre mal feitas, o diabo a quatro. E a volubilidade dos comentários, como são mutáveis em função dos resultados: passam os comentadores da adjectivação de bestial a besta tão facilmente como trocam de camisa.&lt;br /&gt;Que fazer? Retirar o som à televisão? Já o fiz mas o resultado é uma tristeza, futebol é emoção, paixão, e sem esse fundo sonoro que, embora atenuado, nos chega da multidão no estádio, lá se vai grande parte do calor, da emoção.&lt;br /&gt;Que fazer? Pois que sejam os senhores comentadores mais parcos e mais objectivos nos seus comentários e que nos deixem ver, sem nos irritarem, os jogos, porque para irritação já bastam as peripécias desfavoráveis dos jogos.&lt;br /&gt;A solução ideal seria, quanto a mim, que se recriasse tanto quanto possível, o ambiente do estádio: para isso teriam que chegar até nós, de forma perfeitamente audível, os incitamentos, os comentários, os cânticos, o bruá-bruá da multidão nos estádios. E sem comentários, esses faríamos nós. Mas a ser assim lá ficariam os senhores comentadores desempregados e com o que já para aí vai esta não seria decerto a melhor solução.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-7693707280953078251?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://opacense.blogspot.com/2007/11/no-poderamos-ficar-s-com-o-fundo-sonoro.html</link><author>noreply@blogger.com (Joaquim Filipe Mósca)</author></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-6514565232367041016</guid><pubDate>Sun, 04 Nov 2007 17:30:00 +0000</pubDate><atom:updated>2007-11-05T13:13:26.924Z</atom:updated><title>A Cruzada continua</title><description>Historicamente sempre os governos de esquerda mantiveram relações mais próximas do movimento sindical do que das associações patronais, isto é, sempre valorizaram mais o trabalho do que o capital. O que é estranho é o contrário, e o contrário é o que vem acontecendo com o actual governo do Partido Socialista, que governa sob o aplauso geral do patronato e mantém com os sindicatos um clima de permanente conflitualidade.&lt;br /&gt;A sanha com que trata os professores é outro paradoxo de difícil compreensão. Depois da habitual profissão de fé na educação, comum a todos os governantes, como penhor e garante do futuro da comunidade, como a mais nobre das profissões e actividade de maior retorno em termos de investimento e blá-blá-blá, é vê-lo, praticamente desde que entrou em funções, cercear direitos adquiridos ao longo de anos como se fossem benesses ilegítimas, privilégios indecorosos. Ao mesmo tempo que capricha em diminuir mais e mais a autoridade dos docentes, de que o caso do novo estatuto do aluno é apenas o último episódio, submerge-os em exigências burocráticas tais que a aula, o momento de aula, que deveria ser a sua primeira e principal preocupação, passa a tarefa que se executa no meio dos breves intervalos que a burocracia lhes permite. &lt;br /&gt;A avaliação dos professores, de que já chegou diploma legal às escolas, é a última peça desta persecutória cruzada. A partir de agora passam a estar os professores sob permanente suspeita. E a complexidade da execução dessa avaliação é tal que o bom senso aconselharia que se concedesse às escolas um período de adaptação, até pelas várias regulamentações internas a que obriga. No entanto tal execução será feita no imediato, a sangue-frio. De feição empresarial, obriga o docente ao compromisso de atingir determinadas percentagens de sucesso dos seus alunos, cujo incumprimento repercutirá na sua avaliação final. Mais um óbvio passo no caminho do facilitismo.&lt;br /&gt;A história mais recente da educação neste País não é uma história bonita, e como todas as histórias feias não  creio que venha a acabar bem.&lt;br /&gt;Sobre o &lt;em&gt;ranking&lt;/em&gt; das escolas, recentemente analisado e publicado nos órgãos de comunicação social, não resisto a transcrever as palavras avisadas de António Barreto, publicadas no jornal "Público", de 4 de Novembro: "O que verdadeiramente está em causa é a mediocridade do sistema. A sua inspiração doutrinária. As modas científicas que afectam a pedagogia. O desinteresse das autarquias. A abstenção dos pais. A instabilidade dos docentes. Os conteúdos dos programas. A vulgaridade dos manuais. A falta de autonomia das escolas. De quase todos estes males, sofrem tanto as escolas privadas como as públicas. Mesmo se as privadas conseguem, em certos destes factores, uma melhoria relativa. Seria bom que não nos deixássemos distrair."&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-6514565232367041016?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://opacense.blogspot.com/2007/11/cruzada-continua.html</link><author>noreply@blogger.com (Joaquim Filipe Mósca)</author></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-3094523695139689217</guid><pubDate>Fri, 05 Oct 2007 15:38:00 +0000</pubDate><atom:updated>2007-10-06T10:36:37.972+01:00</atom:updated><title>Em Defesa de Aquilino</title><description>Não passou sem alguma polémica a trasladação dos restos mortais de Aquilino Ribeiro para o Panteão Nacional. Desde o brado de vergonha nacional, traição aos valores pátrios e mau exemplo para os nossos jovens, até à acusação final de terrorista e regicida, nada faltou a desmerecer a memória do nosso maior prosador do século passado.&lt;br /&gt;Regicida? Está por provar que Aquilino tenha participado no assassinato do rei D. Carlos e do príncipe herdeiro Luís Filipe. Sempre ele o desdisse e mesmo após a implantação da República, quando lhe teria sido fácil colher os louros de tal acto, decerto enaltecido e premiado pelo radicalismo jacobino da época, mesmo então ele o continuou a negar. Segundo o "Expresso", datado de hoje, cinco de Outubro, o escritor e jornalista Jorge Morais, autor do livro "Regicídio, A Contagem Decrescente", tanto mais insuspeito quanto é homem de ideais monárquicos e que foi conselheiro do gabinete do Duque de Bragança, em entrevista concedida ao mesmo semanário afirma, a propósito, que "Aquilino foi carbonário, panfletário, conspirador do Café Gelo, amigo pessoal de Costa e de Buiça. Mas não se conhece prova de que tenha estado nos locais do regicídio. Encontrava-se refugiado nas águas-furtadas de um prédio da rua Nova do Almada desde o dia 14 de Janeiro. E terá chegado a tentar convencer um dos regicidas, Alfredo Costa, de que o assassínio do rei seria contraproducente para a causa republicana...".&lt;br /&gt;À falta de provas recorre-se ao anátema e à calúnia.&lt;br /&gt;Terrorista que conspirou contra um Estado de Direito? Decerto que a monarquia então vigente, velha de sete séculos, era um estado de direito. Mas se Aquilino conspirou contra um estado de direito o que fizeram todos aqueles de quem ele foi &lt;em&gt;compagnon de &lt;/em&gt;&lt;em&gt;route&lt;/em&gt;? O que foram então Afonso Costa, Bernardino Machado, Manuel de Arriaga, Teófilo Braga e tantos outros, que têm o seu nome em ruas e praças e vêm mencionados nos compêndios de História? Levado ao absurdo este raciocínio teremos que concluir pela ilegitimidade da República  e teremos que remeter para o limbo das &lt;em&gt;personae non gratae &lt;/em&gt;da nossa História todos os obreiros do regime republicano. E no mesmo rol haveremos de meter aqueles que fizeram o 25 de Abril, pois que também eles conspiraram contra um estado de direito, representado pelo regime autoritário de então, do mesmo modo que estes também haviam por sua vez conspirado contra um estado de direito, representado pela 1ª República, e seguindo esta senda haveremos de condenar Afonso Henriques por se ter rebelado contra a mãe e ter-se mais tarde proclamado rei, desrespeitando o acordo feudatário celebrado por seu pai com os reis de Leão e Castela.&lt;br /&gt;Mas que importa tudo isto perante a grandeza e a glória do prosador? Não foi essa a  razão que levou à sua trasladação para o Panteão Nacional? O que se poderá questinar é se o escritor será merecedor de tal honraria, a maior que a Nação poderá conceder a um dos seus filhos. E o escritor Aquilino Ribeiro merece-a decerto. Dizer eu que Aquilino foi o maior prosador português do século passado terá o valor tributável a um escrevinhador de blogs, a quem decerto não se reconherá sapiência para emitir tais juízos de valor, nem eu me arrogo tal autoridade. Mas encontro-me bem escudado. Assim o disse, aquando das cerimónias de trasladação, Urbano Tavares Rodrigues e José Saramago, quando lhe noticiaram ter sido o vencedor do Prémio Nobel, terá dito mais ou menos isto: "Sou um homem de sorte, se o Aquilino ainda fosse vivo seria ele a ganhá-lo".&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-3094523695139689217?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://opacense.blogspot.com/2007/10/em-defesa-de-aquilino.html</link><author>noreply@blogger.com (Joaquim Filipe Mósca)</author></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-4687762977605997247</guid><pubDate>Sun, 10 Jun 2007 12:07:00 +0000</pubDate><atom:updated>2007-06-11T13:44:37.489+01:00</atom:updated><title>10 de Junho</title><description>Hoje é Dia das Comunidades Portuguesas. Já lhe chamámos Dia de Portugal e até Dia da Raça. Da raça convenhamos que não era bem achado. Que raça? A portuguesa? Estudos científicos dizem-nos que não há raças entre a espécie humana e se as houvesse nós não seríamos seguramente uma delas: esta nossa &lt;em&gt;finis terrae&lt;/em&gt; foi povoada por tantos e tão desvairados povos que acabámos por ser uma miscelâneas de todos quantos por cá aportaram e ficaram: a um primitivo substracto ibérico teremos que juntar fenícios, gregos cartagineses, celtas, romanos, suevos, visigodos, árabes, berberes e nos dias de hoje, com o advento das correntes imigratórias para o País, filhas da globalização, ainda lhe haveremos de juntar mais uns quantos. Por isso, raças portuguesas só a dos equídeos de Alter, que até nem nos deixam ficar mal, ou as dos vários canídeos, que até ganham prémios em confrontos internacionais: o nosso Rafeiro Alentejano, mas também o Serra de Aires, o Serra da Estrela, o Cão de Água, que até parece que foi marujo das nossas caravelas que deram novos mundos ao mundo, e algumas outras.&lt;br /&gt;Era Dia da Raça pois, no tempo da outra senhora, que vivia num embevecimento laudatório e acrítico pelo passado, fruto de ideologias nacionalistas e anti-democráticas que fizeram vencimento na Europa até ao final da Segunda Grande Guerra e que entre nós se prolongaram até tarde, demasiado tarde, com a cumplicidade das democracias ocidentais, adeptas do mal menor e quanto ao povo pois que se lixasse, claro está.&lt;br /&gt;Mas Dia de Portugal não vejo qual fosse o mal: nem seríamos originais, longe disso, pois tantos e tantos países comemoram o seu Dia. O mais conhecido será porventura o &lt;em&gt;quatorze Juillet &lt;/em&gt;francês, das marchas militares, dos discursos sobre a &lt;em&gt;grandeur&lt;/em&gt; gaulesa e dos bailes populares, mais conhecido pelas evocações históricas e porque a França era, até um passado recente, ainda capaz de impor essa mesma grandeza de nação fautora de ideologias e cultura. &lt;br /&gt;Mas nós, portugueses, lidamos mal com o nosso passado: ao acriticismo do ante-25 de Abril sucedeu o hiper-criticismo do pós-25 de Abril, quando parecia que nada, absolutamente nada, do nosso passado seria de molde a nele nos revermos. E assim chegámos ao Dia das Comunidades. Do mal o menos: continuamo-nos a celebrar e, pois que temos uma tão grande diáspora, celebramos as comunidades que ao longo dos séculos espalhámos e continuamos a espalhar pelo mundo.&lt;br /&gt;Mas estimaremos nós o nosso País? Não creio. Um País, onde os cidadãos arvoram em esperteza e motivo de orgulho toda a táctica de evasão ao fisco, não se estima verdadeiramente. Há aqui um notabilíssimo défice de educação cívica que manda que a todos incumbem responsabilidades pelo todo e que essa responsabilidade se traduz particularmente pelo pagamento das obrigações fiscais. E o grau de sinistralidade verificado nas nossas estradas, um dos mais elevados da União Europeia? Obviamente que o típico condutor lusitano bem que se está borrifando para a integridade física dos seus concidadãos e até, cúmulo da estupidez, para a sua. E este velho e arreigado hábito de lançar na via pública toda e qualquer porcaria? E o desordenamento urbano? E a forma como muitas vezes somos atendidos nos serviços públicos? E, e, e...&lt;br /&gt;Não, nós verdadeiramente não gostamos do País porque não gostamos uns dos outros. É pena, mas que querem, é a vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;P.S.: o jornal "Público" de hoje, dia 11, fala-nos do dia anterior como de "Portugal, de Camões e das Comunidades". Afinal também comemoramos o País, embora, envergonhadamente, de mistura com outras comemorações. Porque não haveremos de comemorar apenas e só, o que é muito, Portugal?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-4687762977605997247?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://opacense.blogspot.com/2007/06/10-de-junho.html</link><author>noreply@blogger.com (Joaquim Filipe Mósca)</author></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-7049646727419625726</guid><pubDate>Sun, 27 May 2007 21:23:00 +0000</pubDate><atom:updated>2007-06-09T10:55:27.650+01:00</atom:updated><title>O Deserto a Sul do Tejo</title><description>Alguns membros do actual governo parecem ter uma irresistível atracção para a asneira e como não há uma sem duas nem duas sem três, costumam elas vir em catadupa. Então não é que o senhor ministro Mário Lino, em argumentário pobre justificativo da opção Ota para o futuro aeroporto internacional de Lisboa, nos vem dizer que a construção do mesmo &lt;em&gt;jamais&lt;/em&gt;, em francês, será na margem sul do Tejo, pois ali não há mais do que um deserto, sem escolas, hospitais, rodovias e ferrovias, sem hotéis?&lt;br /&gt;Sabia eu que vivia em terra sempre tratada como parente pobre e deserdado pelos sucessivos governos que têm ocupado o Terreiro do Paço, mas chamar deserto a metade do País? Digo bem, metade do País, pois se o senhor ministro considera desérticos territórios que distam escassas dezenas de quilómetros de Lisboa, então onde viverei eu, que habito a quase duzentos quilómetros a sul da preclara e civilizadíssima capital?&lt;br /&gt;Mas se a região é um deserto que têm feito ou o que fazem os senhores governantes para que assim não seja? Mandam as boas regras da administração política cuidar da coesão e boa harmonia territorial pelo que os investimentos, aqueles capazes de gerar desenvolvimento, como será o caso vertente,deverão privilegiar as regiões mais desfavorecidas. Parece não ser esse o juízo do senhor ministro.&lt;br /&gt;E depois o senhor ministro revela-se ainda ignorante da geografia nacional, ao referir-se a esses territórios da margem sul do Tejo como pertencentes ao norte alentejano. Ora acontece que não são tal, pois já integram a província da Estremadura. E acresce ainda que o argumentário utilizado, na forma e no conteúdo, não revela a necessária elevação, aquela que é própria da dignidade da função ministerial.&lt;br /&gt;Não sei qual a localização ideal para o futuro aeroporto. Não tenho nem informação nem formação suficientes para opinar sobre o assunto. Mas sei que tal projecto, pela sua dimensão, custos, impacto ambiental e características estruturantes para o futuro desenvolvimento económico nacional, terá que ser muito bem ponderado. Suponho que uma decisão final sobre onde deverá ser construído o futuro aeroporto, mais do que uma decisão política, será sempre uma decisão de carácter técnico, apoiada em estudos e pareceres sólidos feitos por entidades credenciadas e sérias. Deveria ser assim, mas quando o senhor Presidente da República vem dizer que é necessário, sobre esta matéria, um debate "sério" em sede parlamentar, parece que tal ainda estará por fazer.&lt;br /&gt;Por vezes tenho a incómoda impressão de viver num país com estranhas idiossincrasias.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-7049646727419625726?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://opacense.blogspot.com/2007/05/o-deserto-sul-do-tejo.html</link><author>noreply@blogger.com (Joaquim Filipe Mósca)</author></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-5895061504271480472</guid><pubDate>Sun, 13 May 2007 16:03:00 +0000</pubDate><atom:updated>2007-05-13T18:28:05.454+01:00</atom:updated><title>O Fiel Amigo</title><description>&lt;div align="justify"&gt;Muito se tem dito e escrito, nos últimos dias, acerca do abate de 16 cães, segundo li, pelos serviços municipais de veterinária. Contudo a polémica parece-me estar descentrada, pois que se discutem os efeitos em detrimento das causas.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O abate de cães, seja em que circunstâncias for, não vai sem alguns engulhos de consciência. Ele é o &lt;em&gt;fiel amigo&lt;/em&gt;, sobre ele se contam inúmeras histórias de abnegação, sacrifício e lealdade, desde tempos imemoriais que connosco vive, desempenhando as mais variadas e úteis tarefas. Mas isso não basta para o tornar sujeito de direitos, nomeadamente o mais importante de todos, o direito à vida. Por isso a lei prevê o seu abate em circunstâncias determinadas e presumo que, no caso vertente, o tenha sido dentro do estipulado na lei. Todos os dias se abatem no País milhares de animais destinados à nossa alimentação e, por denúncia já bastas vezes feita nos &lt;em&gt;media&lt;/em&gt;, nem sempre o seu transporte e abate se processa nas devidas condições, provocando nos animais sofrimentos moral e legalmente condenáveis. E no entanto nunca tais factos têm na opinião pública as repercussões que o abate do &lt;em&gt;fiel amigo&lt;/em&gt; sempre provoca. E contudo deveriam tê-las.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Por muito que nos doa é inviável ao canil municipal, bem como ao canil sustentado pelo &lt;em&gt;Cantinho dos Animais&lt;/em&gt;, acolher todos os cães que se lhes deparem abandonados, por óbvias razões de espaço e finidade de recursos. Alguns acabam adoptados mas a maioria jamais o será. Que fazer então? Esperar que morram de velhice? Seria essa a solução mais conforme com os nossos sentimentos mas, sabemo-lo todos, tal solução é inviável.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Assim não foi esta a primeira vez que cães foram abatidos, ou eutanasiados, usando uma expressão mais conforme aos usos politicamente correctos, tão em voga, nem, infelizmente, será a última vez que tal prática será cometida pelos serviços municipalizados. O próprio &lt;em&gt;Cantinho dos Animais&lt;/em&gt; já o terá feito, decerto que como último recurso.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E era aqui que todo este debate deveria ser centrado: nos motivos que levam a que cães tenham periodicamente que ser abatidos. E o motivo é apenas um: o abandono dos animais por energúmenos que os adoptam e depois, as mais das vezes por motivos fúteis, os abandonam. Aqui onde vivo, já o disse em blog anterior, as épocas críticas para o aparecimento de cães abandonados são a época venatória e a época de veraneio. Leva-se o cão à caça; não provou, amedrontou-se com os tiros? Abandona-se. A família parte de férias; não há com quem deixar o animal, é um empecilho que não entra em praia nem em restaurante. Que fazer? Abandona-se. Afinal o cão não é propriamente um &lt;em&gt;bibelot&lt;/em&gt; que se põe na estante e de vez em quando se limpa do pó com um espanador: o cão defeca, urina, suja-se, adoece e o capricho inicial começa a revelar-se muito trabalhoso. Afinal o cão é um trambolho que só causa problemas. Que fazer? Abandona-se.&lt;br /&gt;E é a esta lastimável prática que urge pôr cobro. Como? Instituindo a obrigatoriedade de registo do animal e identificando-o através da inserção de um chip. Assim se saberá a quem pertence e assim se poderá penalizar quem abandona ou é negligente na forma como trata o seu cão. O que não é nenhuma novidade pois em muitos países já é feito.&lt;br /&gt;Só é sujeito de direitos quem é sujeito de deveres e se o cão o não é somo-lo nós, sujeito de deveres que implicam, entre tantos, o de não usarmos de crueldade para com os animais.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-5895061504271480472?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://opacense.blogspot.com/2007/05/o-fiel-amigo.html</link><author>noreply@blogger.com (Joaquim Filipe Mósca)</author></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-6209988445938009874</guid><pubDate>Tue, 01 May 2007 15:21:00 +0000</pubDate><atom:updated>2007-05-14T19:35:50.325+01:00</atom:updated><title>24.ª Ovibeja</title><description>&lt;div align="justify"&gt;Decorre a 24.ª edição da Ovibeja. A todas assisti e, com agrado, fui verificando o seu constante crescimento até se transformar naquilo que hoje é, o maior mostruário das actividades económicas da região e, creio, a maior feira a sul do País. Incipiente, titubeante nos seus inícios, ocupando apenas o antigo Pavilhão das Lãs, sendo quase somente uma exposição ovina, pois foram ovinicultores que a iniciaram, medrou, cresceu e atingiu uma maioridade pujante e assertiva.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A outra grande feira, a Feira de Agosto, de S. Lourenço e Santa Maria mais propriamente dita, foi definhando e acabou definitivamente. Era já um anacronismo. O mundo rural, que era a sua matriz, mudou, transformou-se, e a Feira perdeu a sua razão de ser. Assinalava ela o fim do ano agrícola, quando patrões e assalariados saldavam as suas contas. Era por Santa Maria que se tabelavam os preços dos cereais que eram, à falta de numerário, utilizados também como moeda de troca. Era ela o corolário do ano agrícola e a sua grande festa final.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A centenária Feira morreu Mas o tempo, e particularmente o tempo económico, não se compadece com nostalgias e tradições. Havia que mudar e em boa hora se soube mudar para um outro tipo de evento mais conforme com as novas realidades económicas.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Olhando o programa dos espectáculos previstos para a presente Ovibeja verificamos que, para além da tradicional corrida de touros, tão do agrado de um público fiel, fiel ao espectáculo e às suas raízes rurais, há todo um conjunto de actividades previstas que privilegiam exactamente esse público e o público dito jovem. Compreende-se, a feira existe em função do mundo rural e porque a cidade, com o surgimento do ensino superior politécnico, viu subir exponencialmente a sua população juvenil, compreender-se-á também que se tenha em atenção a população jovem, que além de numerosa tem algum poder de compra, pois assim se viabiliza a animação até altas horas e se viabiliza também o sustento económico das numerosas tascas e tasquinhas que sempre pontuam o recinto da Feira. Menos compreensíveis serão as libações alcoólatras a que grande parte dessa juventude se devota madrugada adiante, mas enfim, calemo-nos antes que nos chamem moralistas, coisa que obviamente não pretendemos ser.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Pessoalmente sinto-me arredado de toda essa programação cultural. Não tenho raízes rurais, sou mais &lt;em&gt;urbanus&lt;/em&gt; que &lt;em&gt;paganus&lt;/em&gt;, e por outro lado já atingi aquilo que se denomina por meia-idade. Decerto que não estou sozinho. Em suma, cuido que ficará por contemplar uma grossa fatia da população citadina, pois que a cidade já terá hoje uma dimensão média e a maior parte da sua população não tem vínculos à ruralidade, são gente dos serviços e de hábitos urbanos, com exigências que a programação cultural prevista de todo não contempla. Ele há públicos e públicos. E a realidade atrás descrita será cada vez mais saliente, pois o crescimento da cidade, que não sendo rápido, se vem revelando gradual e constante, assim o ditará. Não seria pois tempo de em futuras edições da Ovibeja ter um maior cuidado na sua programação cultural, tendo em atenção tais públicos? Aqui fica a sugestão.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-6209988445938009874?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://opacense.blogspot.com/2007/05/24-ovibeja.html</link><author>noreply@blogger.com (Joaquim Filipe Mósca)</author></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-3442569349172575146</guid><pubDate>Sun, 15 Apr 2007 15:06:00 +0000</pubDate><atom:updated>2007-04-15T17:32:58.700+01:00</atom:updated><title>Problemas e Problemas</title><description>&lt;div align="justify"&gt;O caso das habilitações académicas do senhor primeiro-ministro tem feito correr rios de tinta, como diria o chavão, hoje anacrónico, pois já ninguém escreve molhando, diligente, a pena no tinteiro. Mas à falta de hipérbole ao gosto mais hodierno, tem de facto feito correr rios de tinta tal polémica.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Para além dos seus contornos políticos, revela-nos tal polémica dois aspectos ambos bem desagradáveis: a notória falta de qualidade do ensino privado público e o nosso persistente e pacóvio deslumbramento perante os títulos académicos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;É-nos agora mais evidente a degradação pedagógica e o caos administrativo em que se afundou algum do ensino superior privado. Para os arautos da excelência da iniciativa privada face ao sector público, espera-se que estes recentes acontecimentos sirvam de motivo para séria reflexão. A iniciativa privada pautar-se-á sempre pela busca do lucro e, pelos vistos, lucro e educação não casam bem. A raiz de todo o mal está na captação da clientela estudantil. E se inicialmente a procura era muita, bastou que ela decrescesse para que os vários estabelecimentos de ensino superior privado baixassem a fasquia do necessário rigor pedagógico. E que fique de aviso à navegação: uma eventual liberalização do ensino básico e secundário, como algumas luminárias constantemente proclamam, levaria ainda a uma sua maior degradação. Dizer e pensar o contrário é próprio de quem não sabe do que está a falar por desconhecimento das realidades do sector educativo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas se o senhor primeiro-ministro não queria exercer a profissão de engenheiro para quê a procura do título? Porque um título académico fica sempre bem, traz estatuto e respeitabilidade, perante o doutor ou o engenheiro logo o indígena se desbarreta e adopta uma postura de formal respeito. Curiosa prática esta no país da União Europeia com menos licenciados. Imaginaríamos nós um primeiro-ministro, ministro ou secretário de estado sem a auréola do título académico? Não, impensável. E no entanto muita gente, muita mesmo, em muitos sectores da vida nacional triunfa, prospera sem atavios académicos. O senhor Leonel Cameirinha é o empresário de maior sucesso na região e, tanto quanto sei, tem a instrução básica.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Tudo isto poderá não ter consequências políticas imediatas, provavelmente se a oposição continuar a bater nesta tecla sofrerá as suas consequências por ricochete; a escassas semanas de Portugal assumir a presidência da União Europeia e porque carecemos de estabilidade política como de pão para a boca, decerto que o passo seguinte não será o pedir-se a demissão do governo e o antecipar de eleições. Mas que esta mancha ficará apegada ao primeiro-ministro e ao seu governo isso ficará. E sempre que, futuramente, nos vierem falar de disciplina e rigor não evitaremos que ao menos nos aflore ao rosto um breve sorriso de comiseração, já que o caso não é propriamente para rirmos às gargalhadas.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E com tudo isto nos distraímos e se distraem os governantes dos reais problemas do País: por exemplo, em conferência recente, realizada em Santarém e patrocinada pelo senhor Presidente da República, o investigador e professor Carlos Farinha Rodrigues denunciou que os nossos pobres estão cada vez mais pobres e que a distância que os separa dos ricos aumentou nos últimos anos. Querem mais? O Eurostat, em números relativos a 2005, constata que Portugal tem o índice de desigualdade mais elevado de toda a Europa. São estes os reais problemas com que nos deveríamos preocupar.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-3442569349172575146?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://opacense.blogspot.com/2007/04/o-caso-das-habilitaes-acadmicas-do.html</link><author>noreply@blogger.com (Joaquim Filipe Mósca)</author></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-5706883157446325597</guid><pubDate>Sun, 25 Mar 2007 17:34:00 +0000</pubDate><atom:updated>2007-03-25T20:14:50.994+01:00</atom:updated><title>50 Anos do Tratado de Roma</title><description>&lt;div align="justify"&gt;Comemora-se hoje o quinquagésimo aniversário do Tratado de Roma, acto fundador da então denominada Comunidade Económica Europeia. Portugal ficou de fora, não apenas porque as democracias fundadoras não nos aceitavam mas porque Salazar não o queria. Estávamos então "orgulhosamente sós" e como tal haveríamos de ficar por mais 17 anos. Integraríamos mais tarde, em Julho de 1959, a EFTA, Associação Europeia de Comércio Livre, fundada sob a égide do Reino Unido, rejeitado na CEE pela oposição irredutível de De Gaulle, e que terá como membros, além daquele e de Portugal, a Áustria, Islândia, Suécia, Noruega e Suiça e como membro associado a Finlândia. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A adesão à EFTA, sigla inglesa de &lt;em&gt;European Free Trade Association,&lt;/em&gt; revelar-se-ia prenhe de consequências para o nosso futuro desenvolvimento industrial, com o incremento das exportações e o surgimento do investimento estrangeiro, até então praticamente inexistente.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas seria a CEE de então e não a EFTA o motor da unificação europeia, a construção política mais bem sucedida da segunda metade do século passado.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Fitando as figuras dos visionários pais fundadores, Jean Monnet, Robert Schuman, Alcide de Gasperi, Paul-Henri Spaak, Konrad Adenauer, Winston Churchill, fica-nos a nostalgia dos líderes que então a Europa possuía e hoje claramente não tem. Eram todos eles homens nascidos no século XIX, que tinham atravessado duas guerras mundiais, a grande depressão dos anos 30, homens que tinham vivido momentos excepcionais e por eles tinham sido formados e temperados. Diz-se que só momentos excepcionais produzem líderes excepcionais e olhando o passado tal asserção tem o seu quê de verdade. E só um insensato desejaria que sobreviessem agora momentos de grandes dificuldades, como esses do passado, para que surgissem os tais líderes excepcionais. Mas que falta liderança à Europa falta.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O que se pretende que essa Europa seja? Um gigante económico e um anão político como o é actualmente? Mas ter protagonismo político implicará sacrifícios. Estarão os europeus dispostos a pagar tais sacrifícios? E que respostas dar aos desafios da globalização, o maior dos quais será, em minha opinião, o de conseguir manter esse aporte civilizacional do pós-guerra que é a instituição &lt;em&gt;do wellfare state&lt;/em&gt;, o estado-providência, agora posto em causa e até ridicularizado por um neo-liberalismo triunfante e imbecil, algo que nos importa particularmente a nós portugueses, onde o estado providência chegou tarde e ainda hoje, sob múltiplos aspectos, de forma incipiente, e porque habitamos o espaço europeu de mais profundas e injustas assimetrias sociais? O que queremos ser, apenas o &lt;em&gt;soft power&lt;/em&gt; ante o &lt;em&gt;hard power&lt;/em&gt; americano, os gregos dos tempos modernos? E a Turquia, que resposta lhe dar? Relativamente ao problema turco andou-se até agora a encanar a perna à rã, mas algum dia terá que se tomar uma decisão, decisão que não terá apenas implicações ao nível económico mas outras, mais profundas e duradouras, de cariz civilizacional e, há que dizê-lo, militar.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas haverá uma consciência europeia? Falta-me o distanciamento, não viajo para outros continentes, mas quem o faz diz que sim, que isso é perceptível quando se está em África, na Ásia, nas Américas. Mas sinto-me eu europeu? Que outra coisa me poderia sentir? Dentro de mim coexistem pacificamente as duas condições de português e europeu, entre ambas não há contradição, foi sob os valores civilizacionais europeus que me formei e o meu país é parte cultural e geográfica dessa Europa, à qual deu um notável contributo histórico. Relembro aqui, à laia de conclusão, os versos pessoanos:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;A Europa jaz, posta nos cotovelos:&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;De Oriente a Ocidente jaz, fitando,&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;E toldam-lhe românticos cabelos&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Olhos gregos, lembrando.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;O cotovelo esquerdo é recuado;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;O direito é em ângulo disposto.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Aquele diz Itália onde é pousado;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Este diz Inglaterra onde, afastado,&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;A mão sustenta, em que se apoia o rosto.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Fita, com olhar esfíngico e fatal, &lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;O Ocidente, futuro do passado.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;O rosto com que fita é Portugal.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-5706883157446325597?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://opacense.blogspot.com/2007/03/comemora-se-hoje-o-quinquagsimo.html</link><author>noreply@blogger.com (Joaquim Filipe Mósca)</author></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-4571736900900202560</guid><pubDate>Fri, 16 Mar 2007 22:17:00 +0000</pubDate><atom:updated>2007-03-16T22:56:33.166Z</atom:updated><title>Mudar é Preciso</title><description>&lt;div align="justify"&gt;Um dos temas mais sensíveis que se põem nos tempos presentes e que se porá particularmente nos tempos futuros é o do paradigma energético e política ambiental.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O recurso predominante aos combustíveis de origem fóssil, o carvão primeiro, que marcou o arranque da revolução industrial e posteriormente o petróleo, tem cobrado factura elevada em termos ambientais e de tal modo que este paradigma energético começa agora a ser posto em causa, não apenas porque danoso mas mesmo comprometedor de sobrevivência futura.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Os cenários que nos são propostos são catastróficos: a concretizarem-se a sua minimização comportará custos superiores aos ocasionados pela Segunda Guerra Mundial; a subida do nível médio dos oceanos poderá obrigar à deslocação de 200 a 300 milhões de seres. Para onde, perguntar-se-á? Países e ilhas há que estarão irremediavelmente condenados ao desaparecimento.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas poderá esta mudança de paradigma energético ocorrer de forma tão célere quanto o desejável? Obviamente não. Os colossais interesses económicos ligados ao petróleo, à indústria automóvel, a fiscalidade dos estados, a dependência umbilical de toda uma economia desta fonte energética levarão a que tal mudança se processe de forma lenta, talvez demasiado lenta para que possa ocorrer a reversibilidade dos danos ambientais entretanto causados.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Alguns sinais positivos vão-nos entretanto chegando; recentemente a União Europeia deliberou diminuir até 2020 as emissões de CO2 em 20%, bem como substituir os combustíveis fósseis por energia proveniente da fontes renováveis, ambientalmente limpas, também em 20%. Importante era que igual propósito fosse enunciado por outros grandes poluidores, nomeadamente o maior de todos eles, os Estados Unidos. E serão tais medidas suficientes?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Provavelmente o recurso a fontes de energia renováveis será sempre insuficiente face aos crescentes consumos energéticos. Para além desta alternativa outras terão que ser ponderadas: o nuclear, o biodisel, o hidrogéneo?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E provavelmente todos teremos de mudar de hábitos mais depressa do que pensamos. E ou o fazemos voluntariamente ou a dura realidade nos obrigará a adoptá-los.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Se toda a humanidade tivesse os padrões de consumo médio do cidadão médio do dito mundo desenvolvido, teríamos que seriam necessários vários planetas Terra para os suportar. E com que legitimidade poderemos nós, os do feliz e consumista mundo desenvolvido, dizer à esmagadora maioria da humanidade que não poderá jamais ascender aos nossos níveis de consumo e bem-estar porque os recursos existentes não chegam para todos?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Há pois que mudar. E essa mudança não competirá somente aos governantes mas terá que implicar cada um de nós. Utilizar com parcimónia, reutilizar, reciclar terão de ser preocupações permanentes. Práticas que, para aqueles da minha geração, não são absoluta novidade: as carências económicas em que então a generalidade vivia a isso compeliam, é verdade. Mas nem por isso deixavam de ser boas práticas: em minha casa sempre o lixo orgânico se transformou em ovos e carne de galináceos, e que saborosos eram. Não estou obviamente a sugerir que tenhamos capoeiras na varanda do apartamento, onde hoje viverá a maioria.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas esta mudança de paradigma a todos terá de implicar. Dizem os especialistas que os recursos hidrícos estão entre nós subaproveitados, que era possível duplicar a produção energética daí proveniente. E isso lembra-me que se o engenho dos nossos antepassados engendrou, no vizinho Guadiana, os açudes e correlativos moinhos onde ao longo de séculos se moeu o grão que alimentou sucessivas gerações, não será hoje possível aproveitar tais estruturas para a instalação de centrais mini-hídricas? Poderá ser tal sugestão um disparate de um diletante voluntarista, mas seja ou não seja aí a deixo à consideração de quem me ler.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-4571736900900202560?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://opacense.blogspot.com/2007/03/mudar-preciso.html</link><author>noreply@blogger.com (Joaquim Filipe Mósca)</author></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-6886208839426433873</guid><pubDate>Sun, 25 Feb 2007 20:51:00 +0000</pubDate><atom:updated>2007-02-26T00:15:03.675Z</atom:updated><title>A Rainha</title><description>&lt;div align="justify"&gt;Passou recentemente no "Pax-Julia" o filme "A Rainha". Para além da estória sobressai a assombrosa interpretação da actriz Helen Mirren, cujo mimetismo com a personagem representada, a Rainha Isabel II, é absoluto. Provavelmente será agraciada com o "Óscar" para melhor actriz pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, e se assim acontecer raras vezes na história dos "Óscares" tal honra terá sido tão merecida.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A estória narra-nos os dias subsequentes à morte, em Paris, de Diana Spencer, Lady Dy, a Princesa do Povo, cognome encontrado para a designar por um dos assessores de Tony Blair, então recém-empossado primeiro-ministro e que melhor que a família real terá compreendido os sinais do tempo e daquele momento tão particular. De uma forma oportunista, mas que poderia ele fazer, decidiu cavalgar a onda de comoção populista que extravasou mesmo as fronteiras britânicas e daí colher dividendos políticos, em oposição a uma atitude, mais que contida, de frio distanciamento de uma família real desorientada e perplexa com a aura popular da defunta e o crescente repúdio de muitos dos seus súbditos face à sua atitude de ausência. A Inglaterra mudara e mudara a tal ponto que a fleuma, a contenção dos sentimentos, o nunca perder a face perante a adversidade, os valores de traça vitoriana, enfim, em que a rainha e a família real haviam sido educados, eram agora de todo desadequados para poder compreender aqueles momentos. Como poderia acontecer tal comoção popular perante a morte de uma mulher de comportamento tão repreensível quanto o da ex-mulher do herdeiro do trono inglês? Blair, que se queria moderno, compreendeu-o e terá então evitado um hiato talvez irreversível entre a monarquia e o povo britânico.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Terá sido Diana Spencer vítima da sua excessiva exposição mediática, que ela não soube, ou não quis, evitar? Há quem o afirme e os &lt;em&gt;media &lt;/em&gt;britânicos, decerto mais do que os continentais, canibalizam as suas figuras públicas numa devassa permanente e por vezes indecorosa das suas vidas privadas. Compare-se com a atitude dos &lt;em&gt;media &lt;/em&gt;franceses face à vida privada de François Mitterrand ou com os espanhóis face à sua família real, de quem se murmura mas sempre com recato e discrição.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Entre nós, e tanto quanto me lembro, a indiscrição mediática terá atingido o seu auge, pela falta de decoro quando, no pós 25 de Abril, se explorou com fins políticos menos dignos a relação que entre si mantinham Sá Carneiro e Snu Abecassis. Curiosamente, pois outros casos se poderiam apontar acontecidos aquando da Ditadura e nos finais do regime monárquico, este tipo de indiscrições mediáticas visam entre nós quase sempre objectivos políticos explícitos de lançar o labéu da imoralidade sobre o adversário e desse modo desacreditá-lo. Recorde-se, a propósito, a insinuação lançada pela propaganda republicana de que o suicídio de Mouzinho de Albuquerque seria consequência da relação adúltera que este manteria com a Rainha D. Maria Amélia.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Diz-se que quando o rei egípcio Faruk, em 1952, se viu exilado após um golpe de Estado organizado por um movimento militar denominado &lt;em&gt;Os Oficiais Livres&lt;/em&gt;, dirigido pelo major e futuro presidente Gamal Abdul Nasser, terá dito que no final do século XX apenas existiriam à face da Terra quatro reis: o de paus, o de copas, o de ouros e o de espadas. Enganou-se, as monarquias continuam a existir e algumas delas sólidas e prósperas. Mas sobreviverá a monarquia inglesa ao fatal desaparecimento de Isabel II? Espero ainda por cá andar para ver.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-6886208839426433873?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://opacense.blogspot.com/2007/02/rainha.html</link><author>noreply@blogger.com (Joaquim Filipe Mósca)</author></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-3792762060507949777</guid><pubDate>Mon, 12 Feb 2007 20:53:00 +0000</pubDate><atom:updated>2007-02-24T00:23:08.391Z</atom:updated><title>O "Sim " venceu</title><description>&lt;div align="justify"&gt;O "sim" venceu. Está despenalizado o aborto até às dez semanas, quando feito em estabelecimento de saúde autorizado e por vontade expressa da mulher.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Parece que o povo português não é particular adepto destas formas de democracia directa; embora a abstenção tenha diminuído relativamente ao anterior referendo não votaram metade dos eleitores, condição necessária para que o resultado do mesmo seja vinculativo. Não importa. Está estabelecido o consenso entre vencedores e vencidos para que o artigo do Código Penal que criminalizava tal prática seja alterado.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Votei "sim". Fui sensível aos argumentos de carácter social e económico pois, na verdade, quem acabava sendo penalizada era a mulher de mais baixo extracto social.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ficaram por explicar algumas das minhas dúvidas: porquê dez semanas? Por que razão a lei, decalque da nossa, funcionou em Espanha e entre nós não funcionou?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Espero que agora funcione. É evidente que o aborto clandestino não desaparecerá de todo. Se não desapareceu na civilizada e organizada Suécia como iria desaparecer entre nós? E é claro que haverá mulheres que irão ser criminalizadas; todas aquelas que praticarem o aborto após as dez semanas. Ou talvez não. Cá estaremos para ver.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas será bom que a coisa agora funcione. Até porque entre nós se as coisas não funcionam não é por falta de leis; elas existem, só que somos relutantes em aplicá-las. Votei "sim", fui até onde a minha consciência mo permitiu. Garanto que a haver outro referendo sobre a mesma matéria, sejam quais forem os seus pressupostos, votarei "não".&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O dado mais relevante a extrair deste referendo, para além da vitória do "sim" foi, na minha modesta opinião, o protagonismo dos muitos movimentos cívicos, quer pelo "sim" quer pelo "não", que obnubilou em grande parte o protagonismo dos partidos políticos. E muito bem. Será isto sinal de um maior vigor da nossa sociedade civil? Era bom que fosse e se expressasse futuramente em novas matérias. Os partidos são estruturantes da vida democrática mas não se esgota neles a participação cívica dos cidadãos. Até porque, e isto é inteiramente verdade, os partidos transformaram-se em máquinas de conquista do poder e distribuição de sinecuras pelas suas clientelas. Poucos são hoje aqueles que neles militam que têm um correcto sentido de serviço público. Creio que foi Churchill que disse que a guerra era um assunto demasiado sério para ficar entregue somente aos militares; parafraseando o ilustre estadista direi eu que a política é um assunto também demasiado sério para ficar entregue apenas aos partidos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-3792762060507949777?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://opacense.blogspot.com/2007/02/o-sim-venceu.html</link><author>noreply@blogger.com (Joaquim Filipe Mósca)</author></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-487866093608477631</guid><pubDate>Sun, 28 Jan 2007 16:48:00 +0000</pubDate><atom:updated>2007-01-28T22:55:50.821Z</atom:updated><title>A Propósito da Despenalização do Aborto</title><description>&lt;div align="justify"&gt;Gostaria que o debate sobre a interrupção voluntária da gravidez decorresse sem a intervenção dos partidos políticos; gostaria que o debate decorresse sem alaridos, sem insultos gratuitos, sem demonizações; mas gostaria ainda mais que não houvesse debate nem houvesse referendo, pois os homens e mulheres do meu País haveriam de ser suficientemente informados e particularmente responsáveis para, utilizando todos os meios contraceptivos de que hoje dispomos, evitarem toda a gravidez indesejada.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Gostaria que a Igreja adoptasse uma posição menos hipócrita: que seja estrénua defensora da vida entende-se, o contrário é que resultaria incompreensível, mas ser ao mesmo tempo opositora à adopção de todo e qualquer método contraceptivo é no mínimo contraditório.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Gostaria que a actual lei funcionasse como funciona na vizinha Espanha, sendo como se diz um decalque da nossa. Nela se tipificam os casos em que é possível, sem penalização, a prática do aborto: malformação do feto, violação, perigo de vida para a mulher, danos irreversíveis para a saúde física e psiquíca da mesma. E porque não funciona a lei entre nós?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Pela interpretação restritiva que da mesma faz grande parte da classe médica. Não sei há quantos anos foram redigidos os estatutos da Ordem dos Médicos mas decerto que há muitos, tantos que de um ponto de vista deontológico, e é isso que importa, estarão desadequados ao mundo de hoje e, o que é mais, estarão desadequados, neste particular, às leis da República o que, não sendo eu jurista, me parece juridicamente de difícil sustentação, ao ameaçar de expulsão da Ordem e cassação da carteira profissional a todo o seu associado que cometa práticas abortivas, com a única ressalva de que as mesmas serão lícitas em caso de perigosidade de vida para a mãe, interpretação que contraria o disposto na actual lei. Não obstante, os médicos têm todo o direito de recusar tais práticas invocando objecção de consciência. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Esta não é uma questão de esquerda, nem de centro, nem de direita: é uma questão transversal à sociedade e é uma questão de ética e de consciência: por isso os partidos deveriam ter adoptado uma posição de recato e distanciamento, os partidos deveriam ter-se abstido de tomar partido, doutro modo os seus directórios estão a arrogar-se o direito de mandar na consciência dos seus militantes e simpatizantes. E com que direito, perguntaremos nós?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A questão é difícil e conflitual, de um ponto de vista colectivo e individual. Há perguntas que careceriam de uma resposta mais convincente. Porquê o aborto só até às dez semanas e não às dez semanas e um dia? Consideram os proponentes que é a partir de então que o feto passa a ter dignidade humana? E porque não antes, e porque não depois? A partir de quando é legítimo falarmos de vida humana? Não há resposta, pois não? Nem a ética, nem a religião, nem a ciência nos respondem de forma convincente.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A questão não é preta e branca, nem sequer é fracturante, é dilacerante, e eu gostaria que não houvesse referendo para não ter que optar.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-487866093608477631?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://opacense.blogspot.com/2007/01/propsito-da-despenalizao-do-aborto.html</link><author>noreply@blogger.com (Joaquim Filipe Mósca)</author></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-5589219829265005834</guid><pubDate>Sun, 21 Jan 2007 17:07:00 +0000</pubDate><atom:updated>2007-02-01T12:53:45.440Z</atom:updated><title>Notícias da Lusolândia</title><description>&lt;div align="justify"&gt;- A Justiça indígena, tão pronta a deixar prescrever processos incómodos, foi agora célere em condenar a seis anos de prisão, seis, um sargento do exército, Luís Gomes de seu nome, cujo único crime é o de tentar ser pai, pai responsável e carinhoso. A criança, uma menina de cinco anos, deverá ser entregue ao pai biológico, um senhor ausente todo este tempo e que terá mesmo posto em dúvida a sua paternidade, quando a sua parceira, ocasional parece, lhe disse estar grávida. O que não nos merece dúvidas é que tal decisão acarretará para a criança sequelas psíquicas porventura irreversíveis. Assim se protege o superior interesse da criança, tal como está escarrapachado na lei. Esperemos que o movimento de opinião entretanto surgido em torno desta aberração consiga atalhar males maiores.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- O inefável Manuel Maria Carrilho deixou o seu lugar de vereador da Câmara Municipal de Lisboa por manifesta falta de vocação para tais lides, pois que a sua verdadeira vocação é parlamentar. Quer dizer, o homem não tem vocação para vereador mas tê-la-ia para presidente da autarquia. Perante o dito seria de supor que iria trocar a Câmara de Lisboa pela Assembleia da República. Pois não foi assim. Será futuramente embaixador junto da Unesco, junto de um outro exilado de luxo, Ferro Rodrigues. Parece que o homem tem mesmo vocação é para prima-dona.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-O deputado socialista João Cravinho, por sua vez, irá para o BERD. Acontece que Cravinho tinha em mãos um projecto de combate à corrupão que, pelos vistos, estava a causar engulhos dentro do seu próprio partido. O P.S. tem nesta matéria muitos &lt;em&gt;rabos de palha&lt;/em&gt;, Cravinho &lt;em&gt;dixit&lt;/em&gt;. Bem afirma o deputado que não se trata de nenhuma troca, mas em política o que parece é, já alguém o disse. Ele há exílios e exílios.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- O Instituto da Droga e da Toxicodependência aplicou um inquérito a mais de 100.000 jovens no qual incita os mesmos ao voierismo e à denúncia dos seus progenitores. Mas caberá na cabeça de alguém, sensato diga-se, perguntar a um jovem de doze anos, entre outras preciosidades, se o pai tem relações sexuais com a mãe contra a vontade desta? Resta dizer que tal inquérito teve o aval do Ministério da Saúde e do Ministério da Educação.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Na recente apresentação do QREN, Quadro de Referência Estratégica Nacional, que vigorará entre 2007 e 2013, que irá bafezar o País com a astronómica quantia de 21 mil milhões de euros vindos da União Europeia, disse o primeiro-ministro, José Sócrates, que a grande aposta seria agora na formação e qualificação profissional dos portugueses. Mas este discurso já é velho e revelho. Ouvimo-lo ao longo de três Quadros Comunitários de Apoio e ouvimo-lo agora, muitos anos e muitos milhares de milhões de euros passados. O que é que andámos a fazer entretanto? Senhor primeiro-ministro, o modo como o seu Governo tem tratado os professores não augura nada de bom nesse seu desígnio político, ou não são estes os principais responsáveis pela formação de base dos portugueses?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-O entretenimento televisivo que procura eleger o maior de todos os portugueses, seja lá isso o que for, apresentou-nos agora os dez mais votados para que se proceda à eleição final. Quem são eles? D. Afonso Henriques, Infante D. Henrique, D. João II, Vasco da Gama, Camões, Marquês de Pombal, Salazar, Álvaro Cunhal, Fernando Pessoa e Aristides de Sousa Mendes. Isto é, entre os dez finalistas encontram-se quatro cujo traço comum é uma concepção autoritária, mesmo despótica, do exercício do poder: D. João II, Pombal, Salazar e Cunhal. Talvez que isto seja exemplificativo do nosso carácter, talvez que isto, em parte, explique por que é que Salazar governou o País durante quase meio século com a complacência de quase todos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-5589219829265005834?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://opacense.blogspot.com/2007/01/notcias-da-lusolndia.html</link><author>noreply@blogger.com (Joaquim Filipe Mósca)</author></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-8596420202393037163</guid><pubDate>Mon, 08 Jan 2007 13:49:00 +0000</pubDate><atom:updated>2007-01-08T13:52:36.783Z</atom:updated><title></title><description>O Blog "Praça da República" teve a amabilidade de me informar que o munícipe que procedeu ao restauro do moinho  junto da rotunda dita de Évora é o senhor Francisco Soares. O meu obrigado.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-8596420202393037163?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://opacense.blogspot.com/2007/01/o-blog-praa-da-repblica-teve.html</link><author>noreply@blogger.com (Joaquim Filipe Mósca)</author></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-6833828358964627940</guid><pubDate>Sun, 07 Jan 2007 16:37:00 +0000</pubDate><atom:updated>2007-01-07T17:43:59.735Z</atom:updated><title>Moinhos</title><description>&lt;div align="justify"&gt;Não é a primeira vez que me ocupo deste assunto e creio que não será a última: já em Setembro de 2005 havia aqui publicado uma crónica sobre os moinhos do Guadiana, lastimando o estado de incúria e abandono em que os mesmos se encontravam e encontram, alertando então para a necessidade imperiosa de se proceder à recuparação de ao menos um, testemunho que são do esforço de gerações passadas e peças de arqueologia industrial de inegável interesse.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas o que me leva a voltar hoje ao assunto é a recuperação de um moinho sito junto à rotunda dita de Évora, cujo proprietário em boa hora empreendeu, tarefa merecedora de elogio e agradecimento. Soube, em conversa de pé de orelha, que tal recuperação terá merecido o interesse da Câmara Municipal para, suponho, se proceda à valorização e aproveitamento turístico e, quiçá, pedagógico do edifício.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas seria bom que o exemplo deste munícipe, cujo nome aqui gostaria de deixar explícito mas que ignoro, frutificasse e servisse de incentivo e exemplo à edilidade e outras instituições no sentido de se proceder à recuperação de um dos moinhos do Guadiana. Cuido tal ainda ser possível por serem ainda vivos alguns mestres moleiros que em tal tarefa seriam imprescindíveis. De um sei eu, na freguesia de Brinches, que um particular recuperou e pôs a funcionar, a expensas suas, e que visitei há meia dúzia de anos. Mais uma vez um particular, um carola, foi obreiro de uma tarefa que, reafirmo, deveria ser incumbência de instituições oficiais.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Para além do inegável interesse histórico, técnico e monumental de tais edificações são elas passíveis de interesse turístico. Vejamos: ao turista recém-chegado à cidade e a quem apenas tenhamos para mostrar o património edificado da mesma é óbvio que a estada do mesmo se resumirá a horas, quando o que importa é que essa estada se prolongue. Pois não nos atenhamos apenas à cidade e levemos esse turista a visitar outros pontos de interesse, entre os quais, por exemplo, o fazer uma rota que se poderia denominar "Rota do Pão" e que o levaria a visitar um moinho dos ditos de vento, eólico, e um outro junto ao Guadiana, hidráulico, e um forno de lenha e veria, quando possível, os mesmos a funcionar e compraria o pão feito com a farinha moída nesses moinhos e tantas outras actividades que se poderiam engendrar em torno desta "Rota do Pão", não apenas com os turistas mas com as escolas, pois as potencialidades pedagógicas de tais iniciativas parecem-me evidentes.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Somos pobres em património? Não é verdade. Não sabemos apenas valorizá-lo. Outras cidades, Évora por exemplo, melhor do que nós o souberam preservar através dos tempos. Mas uma cidade com dois mil anos de história forçoso é que seja patrimonialmente rica, por muitos dislates que se hajam cometido no passado. A recente inauguração do Museu Episcopal é disso prova e é prova ainda de que algo está a mudar no relacionamento de Beja com o seu património, edificado e móvel.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A recuperação dos moinhos é uma tarefa imperiosa e de inegável interesse turístico. Não vamos edificá-los de raiz, vamos apenas recuperá-los, o que nos poupará a eventuais guerras com alguns fundamentalistas do ambiente que tanto gostam de armar ao pingarelho e logo haveriam de inventar mil e um artifícios para obstar a tal tarefa, não obstante o respeito que nos merecem as associações ambientalistas, &lt;em&gt;honni soit qui mal y pense!&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-6833828358964627940?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://opacense.blogspot.com/2007/01/moinhos.html</link><author>noreply@blogger.com (Joaquim Filipe Mósca)</author></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-116750551215671661</guid><pubDate>Sat, 30 Dec 2006 17:53:00 +0000</pubDate><atom:updated>2006-12-30T19:14:13.233Z</atom:updated><title>Fim de Ano</title><description>&lt;div align="justify"&gt;O ano está a findar e é-nos agora dito que doravante passaremos a servir de exemplo aos novos aderentes da União Europeia de como não se deverão comportar. De bons alunos nos anos 90 passámos a cábulas, de bestiais passámos a bestas. Coragem. Afinal servimos uma meritória função de carácter pedagógico. E se assim é somos úteis, e ser útil não é nenhuma desgraça. E já lá diz o faducho que não é desgraça ser pobre.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Pobretes mas alegretes. Viram os níveis de consumo verificados neste período natalício? Gastaram-se milhões e milhões em prendas, trocaram-se milhões e milhões de mensagens via telemóvel. Que outro povo, sim, que outro povo seria capaz de tanta generosidade, de tanta solidariedade, de demonstrar tal espírito natalício em tempos de crise? Nenhum, estou em crer. Não há dúvida que somos únicos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Faz alguns anos ouvi ao então primeiro-ministro António Guterres, numa cerimónia pública realizada no Auditório dos Serviços Comuns do Instituto Politécnico de Beja, um veemente discurso sobre os destinos pátrios: dizia ele, e que bem que ele falava, que havíamos tido duas oportunidades no nosso já longo e glorioso passado, duas oportunidades de nos desenvolvermos economicamente, de largarmos esta carepa de miséria ancestral, quais foram o que ele denominou por &lt;em&gt;ciclo da pimenta&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;ciclo do ouro&lt;/em&gt; &lt;em&gt;brasileiro&lt;/em&gt;: ambas se goraram. Dispúnhamos agora de uma terceira e talvez derradeira oportunidade, a dos f&lt;em&gt;undos&lt;/em&gt; &lt;em&gt;comunitários.&lt;/em&gt; Agora não podíamos falhar, tal seria imperdoável. Pois daí a tempos, não muitos, o homem foi-se embora e deixou a tarefa por cumprir. Acho que nunca lhe irei perdoar.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Perdemos a oportunidade nos finais do século XV e primeira metade do século XVI, a pimenta esvaíu-se-nos por entre os dedos como areia. Mas a corte de D. Manuel era então a mais faustosa da Europa e a embaixada enviada ao Papa Leão X, em 1513, era tão magnificente que o mesmo decretou que enquanto os portugueses permanecessem nos reinos pontifícios não haveriam de pagar nada. Claro que alguns portugueses foram demorando a sua estada. Pudera, com cama, mesa e roupa lavada à borla. Acontece que alguns italianos, que também são uns bons tratantes, logo começaram a fazer-se passar por portugueses para também se sentarem à manjedoura. Conclusão: lançaram sobre nós tanta lama que ainda hoje em Itália &lt;em&gt;português&lt;/em&gt; é sinónimo de &lt;em&gt;caloteiro&lt;/em&gt;. Mas tudo isto não passa de inveja, é claro, só por sermos mais espertos do que eles.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Depois perdemos a oportunidade do ouro e da pedraria preciosa que nos chegava do Brasil em quantidades até então, e ainda hoje, pelo menos para mim, inimagináveis, ao longo de toda a primeira metade do século XVIII. Mas não é verdade que a corte do senhor D. João V ombreava então com as mais ricas cortes europeias? Não é verdade que se construiu o Aqueduto das Águas Livres? E o Palácio-Convento de Mafra? Para quê, perguntam? Não vos basta ter servido tal faraónico edifício de inspiração ao nosso Nobel José Saramago?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Por causa desta história do ouro brasileiro ainda hoje por lá há uma elite bem-pensante que nos acusa de lhes termos roubado o metal amarelo. Alto lá! O ouro fomos nós que o achámos e depois só vinha para cá a quinta parte, a quintalada, do ouro extraído, que nós não somos assim tão gananciosos. E o que é que por lá fizeram aos restantes quatro quintos desse ouro? Mas disto não falam eles.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Haja esperança. Na sua mensagem televisiva natalícia, o nosso agora primeiro-ministro, José Sócrates, com um ar seráfico, de todo adequado à quadra festiva, veio dizer-nos, olhos nos olhos (ou seria na cábula que ia passando num quadro electrónico?), que íamos agora no bom caminho, que a situação se haveria de recompor. Penso que ele sabe do que fala, pois não foi ele ministro de António Guterres? Alguma coisa o nosso primeiro-ministro terá aprendido com o desgoverno de então. E entretanto confortemo-nos com a ideia de que, se para outra coisa não servimos, servimos pelo menos para exemplo de outros, tarefa educativa bastante meritória.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-116750551215671661?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://opacense.blogspot.com/2006/12/fim-de-ano.html</link><author>noreply@blogger.com (Joaquim Filipe Mósca)</author></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-116644289682424972</guid><pubDate>Mon, 18 Dec 2006 11:47:00 +0000</pubDate><atom:updated>2006-12-18T11:54:56.823Z</atom:updated><title>Agradecimentos</title><description>&lt;div align="justify"&gt;O Blog "Praça da República" resolveu agraciar este "O Pacense" com um "Pelourinho" de Bronze, na categoria Regional. O meu obrigado ao João Espinho pela deferência.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Quanto a ostentá-lo no "O Pacense" fá-lo-ei, mas para tal terei que pedir a ajuda de alguém mais competente do que eu no domínio das TIC, pois que nestas artes, a ser merecedor de algum "Pelourinho", só se fosse de cortiça.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-116644289682424972?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://opacense.blogspot.com/2006/12/agradecimentos.html</link><author>noreply@blogger.com (Joaquim Filipe Mósca)</author></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-116638323342329583</guid><pubDate>Sun, 17 Dec 2006 18:41:00 +0000</pubDate><atom:updated>2006-12-18T19:40:00.796Z</atom:updated><title>Natal</title><description>&lt;div align="justify"&gt;Quando eu era criança esta era a altura de se armar o presépio. Na minha escola, uma daquelas do chamado plano centenário, ainda estou para saber por que eram assim designadas, numa chaminé existente na sala de aula, chaminé que nunca se acendia suponho que por falta de verba para a compra da lenha, se armava então o presépio, com o musgo que nós, alunos, íamos buscar aos locais sombrios já por todos demais conhecidos, e com todas aquelas figurinhas pitorescas que o compunham. E com as searinhas, bem entendido, podia-se lá conceber um presépio sem as searinhas, para nós nados e criados em terras de pão? E o que eram as searinhas, perguntarão os mais jovens, criados já na tradição do pinheiro natalício? Pois as searinhas obtinham-se colocando grãos de trigo numa lata de conserva a que se adicionava água; o trigo germinava e dele brotavam folhas até à altura de uma mão travessa, de um verde viçoso que fazia um lindo contraste com o verde escuro do musgo. Bem entendido, as searinhas eram plantadas três ou quatro semanas antes de se armar o presépio.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas o pinheiro natalício é agora imperante, exemplo cabal de como a globalização não é apenas económica, também impregna e modela as práticas culturais, com óbvia prevalência daquelas que nos chegam da Europa do Norte. Parece que a primeira Árvore de Natal terá sido erguida em terras lusitanas no Paço Real, por D. Fernando II, esposo de D. Maria II, Fernando de Saxe-Coburgo Gotha, alemão como o seu apelido o indica, e que da sua Germânia natal trouxe até nós tal tradição arbórea. Não terá feito vencimento tal prática, mau grado a força impositiva das modas cortesãs, mormente entre as classes altas, e por muitos e bons anos o indígena continou a preferir a celebração do Natal através do presépio.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ainda recentemente os meios de comunicação social davam conta da exposição de um presépio setecentista no Museu do Azulejo, presépio que por muitos anos esteve patente no Museu Nacional de Arte Antiga e que agora, após demorado e profundo restauro, foi levado para o dito. Ora tal presépio é uma das mais notáveis peças escultóricas do barroco nacional, atribuído à escola de Machado de Castro e, a meu ver, exemplo notável de como, entre nós, o presépio constituía peça central das comemorações natalícias. Para aqueles que ainda o não saibam a palavra presépio provém do latim&lt;em&gt; praesepes, is&lt;/em&gt;, que significava estábulo, curral e também manjedoura. Ora se, segundo a tradição, o Menino nasceu numa gruta que servia de estábulo e, nascituro, foi colocado sobre as palhas de uma manjedoura, que palavra mais adequada para designar tal quadro haveríamos de arranjar? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E quem diz Árvore de Natal diz Pai Natal, esse ícone planetário deste período festivo e cuja formatação final de ancião rubicundo, de fartas barbas brancas e ventre proeminente, com um traje vermelho de talhe vagamente lapão, resultou de uma campanha publicitária, pasme-se, da Coca-Cola.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas a Árvore de Natal finalmente venceu o presépio da nossa infância. A Câmara Municipal de Lisboa capricha em erguer na mais emblemática praça da capital e do país, uma estrutura em ferro, com muitas luzes faiscantes e multicores, que passa por ser a Árvore de Natal mais alta da Europa. E tal como em minha casa, por esse país fora muitas famílias também ergueram a sua, à medida das posses e do bom gosto de cada um.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;É insofismável que a quadra natalícia, época de reflexão e de celebração de valores, está inquinada pelos interesses comerciais e por uma pulsão consumista desenfreada. Também eu, também eu, &lt;em&gt;mea culpa&lt;/em&gt;, não me escapo a tais desmandos. Os nossos vizinhos espanhóis, mais ciosos das suas tradições culturais e religiosas, libertam essa pulsão consumista nos Reis, procedendo então à troca de prendas, o que a meu ver está correcto, pois não foi então que os Reis Magos ofertaram ao Menino o ouro, o incenso e a mirra?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Natal é sempre que um homem quiser? Será. Mas esta é a época para recordar e reviver o espírito natalício. Desejo pois a todos os meus eventuais leitores um Natal de paz e harmonia.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-116638323342329583?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://opacense.blogspot.com/2006/12/natal.html</link><author>noreply@blogger.com (Joaquim Filipe Mósca)</author></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-116517454775436325</guid><pubDate>Sun, 03 Dec 2006 18:18:00 +0000</pubDate><atom:updated>2006-12-03T19:40:16.583Z</atom:updated><title>Recordações</title><description>&lt;div align="justify"&gt;O meu avô paterno, nascido no último quartel do século XIX e tendo cumprido o serviço militar ainda em tempos de Monarquia, foi contudo educado dentro dos mais estritos preceitos republicanos, políticos e éticos. Homem do seu tempo não logrou escapar ao anti-clericalismo que enformava a propaganda republicana, anti-clericalismo que transparecia em algumas das histórias que me contava e que eu escutava com tanto encanto e delícia. Dessas histórias recordo uma, de sabor popular e colorida com vocábulos de sonoridades raras e extravagantes, de que particularmente gostava.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Vou contar-vo-la:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Um pobre rapaz, órfão e sem amparo, procurou trabalho junto do padre- cura da vila que o aceitou e logo o industriou nos seus afazeres e no novo vocabulário que deveria passar a usar portas adentro. E assim perguntou-lhe:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Que trago eu calçado?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-As botas, senhor padre-cura!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Não, idiota, são os bonifrates.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-E que tenho nos pés? (o padre-cura calçava meias vermelhas, como era então de tom os padres calçarem.)&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-São as meias!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Não palerma, são as titrenitas. E como se chama a senhora que comigo vive? (a alusão ao estado de mancebia em que viviam à época muitos membros do clero haveria de estar presente.)&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Chama-se Aldegundes, padre-cura.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Não, campaniço, chama-se Liquitates. (campaniço era para o meu avô palavra singularmente ofensiva pois que nado e criado na vila.) E quem sou eu?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-É o senhor padre-cura.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Não, paspalhão, sou o papa-cristos. E como se chama esse animal? - perguntou, apontando o gato.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-É um gato.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Não, imbecil, é o papa-ratos. E como se chama isto que eu tenho na mão?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-É uma vara.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Não, grande parvo, é a ciência. E como se chama aquilo?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O padre vivia em casa ampla, com uma grande chaminé onde dependurados estavam dezenas e dezenas de lustrosos chouriços e linguiças que, gulosos, fitavam o rapaz a quem uma fome cruel e eterna atormentava, sempre de barriga a dar horas.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-São chouriços e linguiças.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Não, grande estúpido, são os padres-eternos e as almas-santas.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Depois de assim industriado lá começou a trabalhar para o senhor padre-cura. Mas o passadio era mau e os maus tratos eram muitos e quando chegou o Inverno deram-lhe só uma saca com que se tapar. E mesmo dormindo junto ao borralho o frio era tanto que o não deixava pregar olho.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Padre-cura, tenho frio! - bradava-lhe o rapaz.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Onde tens a saca?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Tenho-a em baixo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Pois põe-na em cima.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Padre-cura, tenho frio! - de novo lhe gritava.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Onde tens a saca?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Tenho-a em cima.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Pois põe-na debaixo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Farto daquele viver o rapaz, uma dada noite, encheu a saca de linguiças, pregou uma varada no rabo do anafado gato, que abalou soltando miados que era mesmo um dó de alma, e gritou para o padre-cura:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Levanta-te, ó papa-cristos, dos braços da Liquitates, e vai acudir ao papa-ratos que leva a ciência no rabo, e fica-te com os padres-eternos que eu cá levo as almas-santas.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E abalou para nunca mais voltar.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Em tempos de escola primária, como então se dizia, era obrigado a assistir à missa dominical a que se seguia, depois do almoço, a catequese, sob pena de ficar sem recreio toda a semana. Ao anti-clericalismo da Primeira República, e que tão nefasto lhe foi, seguia-se o ensino religioso e doutrinário do Estado Novo. Acabei assim beneficiário de duas influências. O intenso debate que desde o século XVIII, o século das Luzes, afrontou o sagrado e o profano, o laicismo e a religiosidade, permite-nos hoje um olhar sereno e desapaixonado perantes tais realidades, com guerras e ódios à mistura ultrapassámos a dicotomia. Será este o grande debate civilizacional que o mundo muçulmano algum dia terá que fazer.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-116517454775436325?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://opacense.blogspot.com/2006/12/recordaes.html</link><author>noreply@blogger.com (Joaquim Filipe Mósca)</author></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-116456767573935475</guid><pubDate>Sun, 26 Nov 2006 17:50:00 +0000</pubDate><atom:updated>2006-11-26T19:02:41.780Z</atom:updated><title>Açordas</title><description>&lt;div align="justify"&gt;Hoje vou falar-vos de açordas.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Quando, em meados de Setembro, o Verão cede lugar ao tempo outonal, com os dias minguando e as garridas cores estivais desmaiam em tons de pastel e sépia, quando a paisagem lembra uma gravura já velha que o tempo desbotou e as primeiras aragens frescas anunciam as primeiras águas, eis que é chegado o tempo das açordas.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E porque é assim? Porque é quando elas apetecem. Porque é um prato dos tempos frios tanto quanto o gaspacho o é dos tempos quentes. A cozinha tradicional tem destas coisas, tem vagares e tem tempos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Se elegéssemos o mais típico prato alentejano eu nem pensaria duas vezes; elegia decerto a açorda. Ela tem tudo aquilo que a identifica com a província: tem o pão, tem o azeite, tem as ervas aromáticas, o coentro e o poejo, tem a simplicidade e a rusticidade próprias do indígena e tem uma tão perfeita conjugação de sabores que só uma sapiência culinária caldeada por séculos de experimentações poderia encontrar; tem pois a genialidade dos nossos cantares e da nossa arquitectura populares, o saber e a cultura depurados por gerações que muito viram e muito ouviram. Mas ela é também, na sua humildade, símbolo de uma pobreza ancestral e lição prática de como a necessidade sempre aguça o engenho: com tão parcos meios fazer um prato tão oloroso e sápido é obra.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Hoje fazêmo-la mais rica, embora os tempos em que comê-la de ovos já era um pau por um olho não vão assim tão distantes. E alguns decerto que a continuarão a comer na sua mais extrema e pobre simplicidade, pois que o progresso que lentamente nos foi bafejando, não o de agora que se afigura incerto, tarda em bafejar todos com maior equidade. Mas fazêmo-la mais rica, com bacalhau, com pescada, até há quem lhe junte amêijoas e até camarão, mas confesso que esta última variante não me agrada de todo. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Muitas vezes, em tempos de juventude, as comi de ovo, não como refeição principal mas para confortar o estômago, noite adiante, depois de alguma estúrdia, para desenratar, dizíamos nós.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Devíamos internacionalizar a nossa açorda. Se os italianos internacionalizaram a piza, os alemães o hambúrguer, os espanhóis a &lt;em&gt;paella&lt;/em&gt; e tantos mais exemplos poderíamos dar, pois nós deveríamos internacionalizar a açorda. Provavelmente perderia a sua genuína referência à terra alentejana, como a piza a perdeu relativamente a Nápoles, o hambúrguer a Hamburgo ou a &lt;em&gt;paella&lt;/em&gt; a Valência. A açorda perderia assim cunho regional e ganharia foros de nacionalidade. Mas nós somos generosos. Até porque, creio, iria acabar num qualquer sucedâneo mais ou menos adaptado ao paladar internacional cuja característica mais saliente é não ter paladar nenhum. E quem quisesse comer a genuína, a autêntica, a única, teria que vir até nós.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Conta-se que em tempos da outra senhora, algures no Alentejo, um grupo de dignitários do regime se encontrava em grande almoçarada com os notáveis locais. Depois de bem bebidos e bem comidos alguém lembrou que ali próximo estaria um trabalhador rural com fama de poeta repentista: pois que se chamasse o homem para aquilatar do seu engenho e arte, tanto mais notáveis quanto era analfabeto. Chamado à presença de tão distinta assembleia saiu-se com esta:&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Anda toda esta canalha&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;De banquete p'ra banquete,&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;E quem produz e quem trabalha&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Come açordas sem azeite.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Escusado será dizer que o sarau de poesia acabou logo ali.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-116456767573935475?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://opacense.blogspot.com/2006/11/aordas.html</link><author>noreply@blogger.com (Joaquim Filipe Mósca)</author></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-116395799609826038</guid><pubDate>Sun, 19 Nov 2006 16:47:00 +0000</pubDate><atom:updated>2006-11-26T19:46:11.146Z</atom:updated><title>BLOGS</title><description>&lt;div align="justify"&gt;Quando principiei este &lt;em&gt;blog&lt;/em&gt; assumi comigo próprio o compromisso de nele publicar um post por semana, isto dentro da medida em que tal me fosse possível. Poderia não ter assunto, poderia simplesmente não me apetecer fazê-lo ou não ter para tal oportunidade, porque para compromissos absolutos bastam-nos aqueles que a vida nos vai entretecendo ao longo dos anos: os familiares, os profissionais e tantos, tantos outros decorrentes de vivermos em comunidade. Em suma, este seria um compromisso apenas pessoal, lato, flexível, despreocupado, sujeito apenas e só aos meus humores, nada que tolhesse com a minha liberdade de fazer o que me desse na real gana, o que incluiria fazer ou não fazer mais um &lt;em&gt;post&lt;/em&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Afinal passamos a vida a fazer aquilo que outros nos mandam fazer. Quando é que somos inteiramente livres? Suponho que o somos apenas no início da nossa existência, enquanto não entramos para a escola, e no final da mesma: primeiro porque protegidos pela inocência e fragilidade dos tenros anos, depois pela quase inimputabilidade que nos é concedida pela nossa qualidade de anciãos diminuídos ou incapazes, quer o estejamos ou não, pois assim somos vistos pelos outros, os activos. Faz muito tempo li uma entrevista com um escritor espanhol, tanto tempo foi que já não sei quem era, em que dizia ele, quando perguntado sobre se se sentia livre, que sim, que nunca tão livre se havia sentido, pois tinha atingido uma tal idade que já nada ambicionava, nem carreira, nem dinheiro, nem estatuto. E não proclamam os seguidores do budismo que é o querer a fonte de todos os males e de toda a infelicidade? Que só o estado de despojamento absoluto, o nirvana, nos concede a liberdade ou, neste caso, a libertação do ciclo do eterno retorno? E não procuravam também os místicos cristãos a total liberdade e o encontro com o divino no despojamento total?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Bem, mas voltemos a realidades mais terrenas e mais comuns aos comuns dos mortais, como é o meu caso. Pois este meu &lt;em&gt;blog&lt;/em&gt; que como pura diversão começou e nessa condição se deverá manter, não escapa de todo à condição compromissória: comigo e com alguns poucos leitores, que entretanto granjeei, que já me têm interpelado quando alguma semana, poucas é certo, deixo de publicar o habitual &lt;em&gt;post&lt;/em&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Acaso isto me desagrada? Obviamente que não, muito humanamente envaidece-me. Certo é que esses leitores não são muitos, mas também não ambiciono ter um blog &lt;em&gt;best-seller&lt;/em&gt;. Mais leitores poderia ter se desse a este blog um carácter diferente, tratando de temas mais apelativos, não sei se me entendem. Não o faço nem o farei: a espuma dos dias, a politiquice, a maledicência, o &lt;em&gt;voieurismo&lt;/em&gt; pseudo-erótico não me interessam de todo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas este fenómeno recente que são os &lt;em&gt;blogs&lt;/em&gt; cresceu de forma exponencial: são milhares no País, são milhões por esse mundo fora. Tantos são e tal importância assumiram como meio de comunicação que começam a ser objecto de estudo e tese. Neles se encontra de tudo como em qualquer quiosque de jornais, como dizia Pacheco Pereira em  interessante artigo publicado recentemente no jornal "Público".&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E como tudo o que é novo e tem um carácter eminentemente democrático não deixam também de colher o repúdio de alguns eruditos, elitistas e encartados intelectuais da nossa praça, tal como o foi o cinema nos seus primórdios, encarado como mero entretenimento de feira.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Tenho para mim que a haver blogs em tempos do salazarismo este não teria durado tanto tempo. Quem e como se controlaria então a liberdade de expressão, quem e como se controlaria então a publicação livre da livre opinião pública?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Eu por mim irei continuar a escrever no meu blog enquanto tal me der prazer.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-116395799609826038?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://opacense.blogspot.com/2006/11/blogs.html</link><author>noreply@blogger.com (Joaquim Filipe Mósca)</author></item><item><guid isPermaLink='false'>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-116336207306529008</guid><pubDate>Sun, 12 Nov 2006 19:05:00 +0000</pubDate><atom:updated>2006-11-13T10:20:37.193Z</atom:updated><title>Será Sócrates de Esquerda?</title><description>&lt;div align="justify"&gt;José Sócrates é de esquerda? Eis a grande interrogação que perpassa pelo espírito dos portugueses e os inquieta, mormente daqueles que nele votaram. Pois não é e nem sequer disfarça. É vê-lo no Congresso que os socialistas celebram em Santarém. Acaso já o viram, nas imagens que as televisões nos têm dado, de punho esquerdo no ar dando vivas ao seu Partido? Eu ainda não. Os delegados, timidamente, lá vão entoando os gritos rituais, de punho erguido, mas o secretário-geral "moita, carrasco". Prefere erguer o polegar em jeito de "tudo bem", "tudo fixe, meu". Portanto, Sócrates nem mimeticamente é de esquerda.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Conta-se que alguém se queixava a Willy Brandt de que a juventude alemã era demasiado radical, que não se reconhecia na social-democracia; respondeu este que tal não o preocupava, pois era-se radical aos 18 para se ser social-democrata aos 30, pois se não se é radical em jovem quando é que se será? Pois este homem, José Sócrates, nem na sua juventude foi radical, toda a gente sabe que começou a sua vida política por militar nas juventudes sociais-democratas. Pois se assim foi de que se admiram? É bem verdade que nem todos seguem o périplo preconizado por Brandt; vejam o caso de Durão Barroso, que começou por ser maoísta e acabou no centro-direita. Esse passou à frente das lebres.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E depois não é verdade que Sócrates governa com o aplauso geral da direita? Não é verdade que a oposição de direita vê-se e deseja-se para ser oposição? Que as reformas encetadas por este Governo e que a direita sempre reclamou, nunca por ela poderiam ser feitas por não ter força social para as impôr? Força social e uma boa imprensa, que são coisas de que até agora este Governo desfrutou. Resta saber até quando.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Sinais de esquerda? Poucos e cirúrgicos. Esta investida contra a banca e os seus escandalosos lucros num País em crise profunda caiu que nem sopa no mel, em vésperas de Congresso. Nisto o homem é exímio, tiro-lhe o chapéu.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas estas espertezas duram enquanto duram, duram até que um dia o pessoal se cansa. E quando o pessoal se cansar vai querer mudar de governo. Mas mudar para onde, em que sentido? Se somos governados à direita e a opção que nos resta será votar contra quem nos governa presentemente, que nos governa à direita, vamos votar na institucional direita, aquela sem máscaras? Este vai ser o grande dilema do eleitorado já que o voto nos comunistas, que andam agora em tão más companhias, e é claramente um partido do passado, é um voto sem futuro; só atrai os já convertidos e que votam com a mesma devoção com que um católico se persigna e um muçulmano jejua no Ramadão, isto é, vota porque não votar no glorioso Partido é pecado.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Porque o Partido Socialista vai sair desta governação esfrangalhado, descaracterizado, vazio social e ideologicamente. Claro que outros virão dizer que o P.S. sempre foi de esquerda e num outro Congresso, igualzinho a este, outros delegados dirão que sim e entronizarão entusiasticamente o secretário-geral que se segue. E proporão que se faça exactamente o contrário daquilo que presentemente fazem. Porque tem sido sina dos socialistas fazerem e desfazerem. Aparecem sempre tarde, depois de durante muito tempo, demasiado tempo, preferirem o "nim" ao "sim" ou ao "não". Foram grandes, sob a batuta de Mário Soares, quando foram assertivos e claramente disseram não a aventuras totalitárias nos anos de brasa que se seguiram ao 25 de Abril. A partir daí andaram sempre mais ou menos "às aranhas".&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Repare-se: para a promoção dos professores na carreira havia um obstáculo na passagem do sétimo para o oitavo escalão; havia que realizar um trabalho original, de carácter pedagógico, com um mínimo de 50 páginas, e defendê-lo publicamente perante um júri. Que fez o primeiro governo de Guterres dois ou três meses após tomar posse? Acabou com esta barreira por solicitação insistente dos sindicatos. E com esta e outras semelhantes manteve o "estado de graça" durante mais de quatro anos, com a óbvia cumplicidade, estranhe-se, da livre, isenta e responsável comunicação social. O que fazem agora? Criam uma barreira de obstáculos para impedir a progressão na carreira aos docentes a que, simpaticamente, poderemos chamar de draconiana. Esta é a sina dos socialistas: fazem e desfazem. Acaso saberão o que andam a fazer?&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-116336207306529008?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</description><link>http://opacense.blogspot.com/2006/11/ser-scrates-de-esquerda.html</link><author>noreply@blogger.com (Joaquim Filipe Mósca)</author></item></channel></rss>