<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476</id><updated>2011-04-21T21:00:11.086+01:00</updated><title type='text'>O Pacense</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://opacense.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>96</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-1893081039571377307</id><published>2008-01-02T17:29:00.000Z</published><updated>2008-01-02T20:38:23.282Z</updated><title type='text'>Abaixo a Nicotina</title><content type='html'>Entrámos em 2008 e entrámos definitivamente na modernidade. Ao proibirmos o tabaco em todo e qualquer espaço público, com apertadas excepções, é verdade, equiparámo-nos por fim a todos aqueles aqueles povos que decisivamente caminham para o futuro abrindo caminho, quais pioneiros, a todos os outros, a maioria, que ainda vegetam nas trevas dos costumes passados, como nós o éramos ainda há tão pouco tempo.&lt;br /&gt;É verdade que alguns pobres desgraçados andam pelas ruas a contestar as políticas de saúde, que os caminhos que a educação anda a trilhar não auguram nada de bom, que a sinistralidade rodoviária nos é pouco abonatória, que a economia patina e não descola, mas não sejamos maximalistas: cada coisa a seu tempo. Há bem pouco tempo os jornais noticiavam que haveremos de crescer 0.1% acima da média do crescimento médio dos nossos parceiros mais desenvolvidos. Como estamos a cerca de 30% dessa média, por este andar haveremos de lá estar daqui a 300 anos. Mas não desesperemos, isto vai decerto melhorar.&lt;br /&gt;Há quem diga que estas medidas de higiene social têm laivos fascistóides, que são uma intromissão abusiva na minha esfera privada. Nada de mais aleivoso. A mim desvanece-me esta tão profunda preocupação dos nossos governantes com a minha saúde e os meus vícios privados. É verdade que o primeiro País a demonstrar tais preocupações anti-tabágicas foi a Alemanha hitleriana. E a glorificar a beleza dos corpos musculados e bem nutridos, numa manifestação neo-pagã que a cineasta Leni Riefenstahl tão bem soube documentar. Mas é óbvio que isto não é mais do que mera coincidência histórica.&lt;br /&gt;É provável que a seguir se modere o consumo de álcool, se anatematizem os gordos, quiçá nos imponham horas de frequência mínima dos ginásios. E depois? Tudo isto será demonstrativo das legítimas preocupações dos nossos governantes com a saúde pública.&lt;br /&gt;Vejam como o nosso primeiro-ministro dá um claro exemplo ao mundo de vera preocupação com a saúde e bem estar dos cidadãos ao fazer o seu &lt;em&gt;jogging&lt;/em&gt; matinal, onde quer que esteja e faça o tempo que fizer. Isso a mim enche-me de patriótico orgulho. Até George Bush já o cumprimentou pelo exemplo de vida saudável que tal prática transmite. Bem, as pernas do nosso primeiro-ministro não ajudam muito, concordo. São um tanto ou quanto escanzeladas, dotadas de pouca massa muscular, "perninhas de alicate", dizemos nós aqui na minha parvónia. Mas e isso desmerece-o? Antes pelo contrário. Eu, se tivesse tais pernas, faria &lt;em&gt;jogging&lt;/em&gt; de calças, nunca de calções, mas reconheço a coragem e o altruísmo que tal exibição revela no nosso primeiro-ministro.&lt;br /&gt;Dirigentes políticos houve, no passado, que não se coibiam de fumar em público e até transformavam esse seu nefando acto em marca distintiva, pessoal. Churchill fazia-o e a sua imagem é hoje inseparável de um gordo e comprido charuto que sempre o acompanhava. Também a imagem de Clinton se associa ao charuto, que gostava de fumar o seu havano, contrabandeado decerto, mas o charuto de Clinton tornou-se famoso não por ser fumado mas por ser utilizado em práticas menos próprias. Até Mário Soares aparecia de quando em vez, publicamente, fumando o seu puro. Mas Mário Soares era claramente um diletante do charuto, um fumador de fim-de-semana, sempre lhe faltou a harmonia e a elegância de gestos, a naturalidade enfim, de um verdadeiro fumador.&lt;br /&gt;É provável que estes homens se arrependam hoje de ter praticado em público tão condenável acto. E Churchill, se ainda fosse vivo, tentaria decerto lavar a sua imagem mandando, quem sabe, retocar as infindáveis fotografias em que surgia envolto no fumo do seu inseparável charuto.&lt;br /&gt;Confesso, amargurado, que sou fumador e que neste começo de ano me fenece a vontade de deixar de sê-lo. Sou um fraco. Mesmo agora, que estou a terminar esta croniqueta, me apetece fumar um cigarro. Mas no entanto gritarei a plenos pulmões, fazendo coro com os nossos governantes, a bem da saúde pública, "Abaixo a Nicotina".&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-1893081039571377307?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/1893081039571377307'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/1893081039571377307'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2008/01/abaixo-nicotina.html' title='&lt;strong&gt;Abaixo a Nicotina&lt;/strong&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-2228666460505417515</id><published>2007-12-09T16:46:00.000Z</published><updated>2007-12-09T18:12:46.218Z</updated><title type='text'>Vêm aí os Chineses</title><content type='html'>Recordo-me vagamente, dentre as já longínquas e esmaecidas memórias de infância, de ver um a vender gravatas numa feira. E tão misteriosamente como tinham aparecido assim esses pitorescos vendedores de gravatas desapareceram. Mais tarde, já nos anos oitenta do século passado, via-os frequentes vezes, ali para as bandas das Portas de Mértola, em plena rua, fazendo a sua veniaga, pano de seda no chão, mostruário do pechisbeque que humildemente ofereciam ao transeunte. Depois surgiu uma loja, depois outra e outra e outra, e as lojas dos chineses inundaram a cidade, inundaram o país, amedrontaram os comerciantes locais, tornaram-se assunto de debate público, motivo para agenda de reunião camarária.&lt;br /&gt;Nada me lembra mais a fábula da cigarra e da formiga do que a actividade incessante, discreta, destes chineses. É Domingo, é feriado, que importa? A loja lá continua aberta para desespero dos nossos comerciantes e conforto de algum cliente retardatário. Mas, ele há sempre um mas, aquilo que vendem é de fraca qualidade, muitas vezes o artigo é de contrafacção, imitação barata e fraudulenta e aqui já estamos no campo da concorrência desleal.&lt;br /&gt;Desde que os dirigentes chineses proclamaram que é glorioso enriquecer a China como que acordou da sua já secular letargia e prosperou a olhos vistos, tornou-se a fábrica do mundo. A mão-de-obra conta-se por centenas de milhões, o seu preço é o da uva mijona, para deleite dos nossos capitalistas, enriquecimento do nosso léxico, quem conhecia o vocábulo deslocalização? e empobrecimento das economias menos preparadas para esta globalização alinhada por baixo, muito por baixo, no que respeita a direitos laborais e sociais.&lt;br /&gt;Nós marcamos passo há já penosos sete anos. A passagem de uma economia de mão-de-obra barata e intensiva para uma economia de maior valor acrescentado e maior incorporação tecnológica, num processo ainda não terminado, custou-nos, custa-nos, recessão económica, desemprego, perda de direitos laborais, divergência com a média de desenvolvimento económico dos nossos parceiros europeus e um sentimento geral de desânimo e tristeza. Podiam os governantes ter feito mais e melhor? Decerto que sim, outros, mais previdentes, a seu tempo o fizeram, v. g. a vizinha Espanha.&lt;br /&gt;Mas a preocupação não há-de ser apenas nossa: recentemente os jornais davam-se eco de que sendo a Europa o maior parceiro comercial da China, a balança comercial era-lhe tão desfavorável que as suas vendas à China eram inferiores às feitas à Suiça. E face à crescente presença chinesa em África, lembrou-se agora na recente cimeira em Lisboa aos dirigentes africanos que o maior parceiro económico de África foi e é a Europa.&lt;br /&gt;A China parece ter reunido o pior de dois mundos, o mundo dito socialista e o mundo capitalista: a uma total ausência de liberdade e de direitos laborais, supridos estes pela atenta vigilância de um Estado omnipotente e que se diz representante do proletariado, juntou-se uma insensibilidade social e ambiental própria do capitalismo europeu do século XIX. Milhões labutam nos campos, em condições tão precárias que as precárias condições de trabalho que encontram nas cidades lhes são tão aliciantes que estamos a assistir ao maior êxodo rural jamais visto na história da humanidade.&lt;br /&gt;Mas até quando suportarão estes milhões tais condições de trabalho, até quando a imagem futurista e luxuosa de cidades como Xangai se compatibilizará com a miséria que se esconde por detrás dessa fachada e com a miséria campesina? Que colossais convulsões sociais e políticas nos reservará no futuro essa tão misteriosa e surpreendente China?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-2228666460505417515?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/2228666460505417515'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/2228666460505417515'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2007/12/recordo-me-vagamente-dentre-as-j.html' title='&lt;strong&gt;Vêm aí os Chineses&lt;/strong&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-7693707280953078251</id><published>2007-11-25T17:28:00.000Z</published><updated>2007-11-25T18:27:51.905Z</updated><title type='text'>Não poderíamos ficar só com o fundo sonoro?</title><content type='html'>Escrever sobre futebol foi algo que nunca me cativou: não sou leitor de jornais desportivos, limito-me a ler as maiores na banca, serei dos portugueses menos informados sobre o desporto dito rei e para além disso, o que será o mais importante, já há algum tempo concluí que até nem gosto muito de futebol, sou apenas e só um pacífico adepto do Benfica. Porquê? Porque na minha meninice o Benfica foi Campeão Europeu, conquistou então um lugar proeminente no futebol europeu e mundial, lugar que a custo só hoje mantém, parecendo-se cada vez com um velho fidalgo arruinado que vive das glórias do passado. Mas porque sou do Benfica vejo todos os jogos televisionados em que a equipa participe. E é tudo, não vejo mais jogos nenhuns, para mim é pura perda de tempo, ver um outro jogo é para mim um longo bocejo. E se assim é só posso concluir que gosto do Benfica mas de futebol nem por isso.&lt;br /&gt;Vem tudo isto a propósito do jogo de ontem, o Académica-Benfica, e dos apartes que os senhores comentadores vão debitando ao longo do jogo. Porque é meu entendimento que esses comentários primam, a maior parte das vezes, por uma repreensível parcialidade em favor das equipas adversárias do Benfica. Exagero? Penso que não. E se exagero deixá-lo, também tenho direito às minhas paixões, e as paixões são sempre parciais. Mas afirmo e mantenho que os comentários sobre o Benfica são parciais e até, por vezes, jocosos. E ontem a coisa começou logo mal. Tinham decorrido cerca de três minutos de jogo e já um dos comentadores encartados de serviço dizia que a Académica estava a tomar conta do jogo. Como é possível concluir-se e dizer-se tal com três minutos de jogo decorridos?&lt;br /&gt;Mas os apartes continuam-se e são constantes: as opções do treinador são sempre incorrectas, os jogadores jogam sempre nos lugares que não lhes são os mais próprios e se golos surgem por parte do Benfica são sempre fruto do demérito do adversário, nunca mérito do Benfica. E depois há sempre aquelas doutas afirmações sobre os esquemas de jogo: ele é o 4-3-3, o 4-3-2-1,o 4 já não sei que mais, as substituições que se fazem ou se deviam fazer e que, regra geral, são feitas a desoras e sempre mal feitas, o diabo a quatro. E a volubilidade dos comentários, como são mutáveis em função dos resultados: passam os comentadores da adjectivação de bestial a besta tão facilmente como trocam de camisa.&lt;br /&gt;Que fazer? Retirar o som à televisão? Já o fiz mas o resultado é uma tristeza, futebol é emoção, paixão, e sem esse fundo sonoro que, embora atenuado, nos chega da multidão no estádio, lá se vai grande parte do calor, da emoção.&lt;br /&gt;Que fazer? Pois que sejam os senhores comentadores mais parcos e mais objectivos nos seus comentários e que nos deixem ver, sem nos irritarem, os jogos, porque para irritação já bastam as peripécias desfavoráveis dos jogos.&lt;br /&gt;A solução ideal seria, quanto a mim, que se recriasse tanto quanto possível, o ambiente do estádio: para isso teriam que chegar até nós, de forma perfeitamente audível, os incitamentos, os comentários, os cânticos, o bruá-bruá da multidão nos estádios. E sem comentários, esses faríamos nós. Mas a ser assim lá ficariam os senhores comentadores desempregados e com o que já para aí vai esta não seria decerto a melhor solução.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-7693707280953078251?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/7693707280953078251'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/7693707280953078251'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2007/11/no-poderamos-ficar-s-com-o-fundo-sonoro.html' title='&lt;strong&gt;Não poderíamos ficar só com o fundo sonoro?&lt;/strong&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-6514565232367041016</id><published>2007-11-04T17:30:00.000Z</published><updated>2007-11-05T13:13:26.924Z</updated><title type='text'>A Cruzada continua</title><content type='html'>Historicamente sempre os governos de esquerda mantiveram relações mais próximas do movimento sindical do que das associações patronais, isto é, sempre valorizaram mais o trabalho do que o capital. O que é estranho é o contrário, e o contrário é o que vem acontecendo com o actual governo do Partido Socialista, que governa sob o aplauso geral do patronato e mantém com os sindicatos um clima de permanente conflitualidade.&lt;br /&gt;A sanha com que trata os professores é outro paradoxo de difícil compreensão. Depois da habitual profissão de fé na educação, comum a todos os governantes, como penhor e garante do futuro da comunidade, como a mais nobre das profissões e actividade de maior retorno em termos de investimento e blá-blá-blá, é vê-lo, praticamente desde que entrou em funções, cercear direitos adquiridos ao longo de anos como se fossem benesses ilegítimas, privilégios indecorosos. Ao mesmo tempo que capricha em diminuir mais e mais a autoridade dos docentes, de que o caso do novo estatuto do aluno é apenas o último episódio, submerge-os em exigências burocráticas tais que a aula, o momento de aula, que deveria ser a sua primeira e principal preocupação, passa a tarefa que se executa no meio dos breves intervalos que a burocracia lhes permite. &lt;br /&gt;A avaliação dos professores, de que já chegou diploma legal às escolas, é a última peça desta persecutória cruzada. A partir de agora passam a estar os professores sob permanente suspeita. E a complexidade da execução dessa avaliação é tal que o bom senso aconselharia que se concedesse às escolas um período de adaptação, até pelas várias regulamentações internas a que obriga. No entanto tal execução será feita no imediato, a sangue-frio. De feição empresarial, obriga o docente ao compromisso de atingir determinadas percentagens de sucesso dos seus alunos, cujo incumprimento repercutirá na sua avaliação final. Mais um óbvio passo no caminho do facilitismo.&lt;br /&gt;A história mais recente da educação neste País não é uma história bonita, e como todas as histórias feias não  creio que venha a acabar bem.&lt;br /&gt;Sobre o &lt;em&gt;ranking&lt;/em&gt; das escolas, recentemente analisado e publicado nos órgãos de comunicação social, não resisto a transcrever as palavras avisadas de António Barreto, publicadas no jornal "Público", de 4 de Novembro: "O que verdadeiramente está em causa é a mediocridade do sistema. A sua inspiração doutrinária. As modas científicas que afectam a pedagogia. O desinteresse das autarquias. A abstenção dos pais. A instabilidade dos docentes. Os conteúdos dos programas. A vulgaridade dos manuais. A falta de autonomia das escolas. De quase todos estes males, sofrem tanto as escolas privadas como as públicas. Mesmo se as privadas conseguem, em certos destes factores, uma melhoria relativa. Seria bom que não nos deixássemos distrair."&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-6514565232367041016?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/6514565232367041016'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/6514565232367041016'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2007/11/cruzada-continua.html' title='A Cruzada continua'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-3094523695139689217</id><published>2007-10-05T16:38:00.000+01:00</published><updated>2007-10-06T10:36:37.972+01:00</updated><title type='text'>Em Defesa de Aquilino</title><content type='html'>Não passou sem alguma polémica a trasladação dos restos mortais de Aquilino Ribeiro para o Panteão Nacional. Desde o brado de vergonha nacional, traição aos valores pátrios e mau exemplo para os nossos jovens, até à acusação final de terrorista e regicida, nada faltou a desmerecer a memória do nosso maior prosador do século passado.&lt;br /&gt;Regicida? Está por provar que Aquilino tenha participado no assassinato do rei D. Carlos e do príncipe herdeiro Luís Filipe. Sempre ele o desdisse e mesmo após a implantação da República, quando lhe teria sido fácil colher os louros de tal acto, decerto enaltecido e premiado pelo radicalismo jacobino da época, mesmo então ele o continuou a negar. Segundo o "Expresso", datado de hoje, cinco de Outubro, o escritor e jornalista Jorge Morais, autor do livro "Regicídio, A Contagem Decrescente", tanto mais insuspeito quanto é homem de ideais monárquicos e que foi conselheiro do gabinete do Duque de Bragança, em entrevista concedida ao mesmo semanário afirma, a propósito, que "Aquilino foi carbonário, panfletário, conspirador do Café Gelo, amigo pessoal de Costa e de Buiça. Mas não se conhece prova de que tenha estado nos locais do regicídio. Encontrava-se refugiado nas águas-furtadas de um prédio da rua Nova do Almada desde o dia 14 de Janeiro. E terá chegado a tentar convencer um dos regicidas, Alfredo Costa, de que o assassínio do rei seria contraproducente para a causa republicana...".&lt;br /&gt;À falta de provas recorre-se ao anátema e à calúnia.&lt;br /&gt;Terrorista que conspirou contra um Estado de Direito? Decerto que a monarquia então vigente, velha de sete séculos, era um estado de direito. Mas se Aquilino conspirou contra um estado de direito o que fizeram todos aqueles de quem ele foi &lt;em&gt;compagnon de &lt;/em&gt;&lt;em&gt;route&lt;/em&gt;? O que foram então Afonso Costa, Bernardino Machado, Manuel de Arriaga, Teófilo Braga e tantos outros, que têm o seu nome em ruas e praças e vêm mencionados nos compêndios de História? Levado ao absurdo este raciocínio teremos que concluir pela ilegitimidade da República  e teremos que remeter para o limbo das &lt;em&gt;personae non gratae &lt;/em&gt;da nossa História todos os obreiros do regime republicano. E no mesmo rol haveremos de meter aqueles que fizeram o 25 de Abril, pois que também eles conspiraram contra um estado de direito, representado pelo regime autoritário de então, do mesmo modo que estes também haviam por sua vez conspirado contra um estado de direito, representado pela 1ª República, e seguindo esta senda haveremos de condenar Afonso Henriques por se ter rebelado contra a mãe e ter-se mais tarde proclamado rei, desrespeitando o acordo feudatário celebrado por seu pai com os reis de Leão e Castela.&lt;br /&gt;Mas que importa tudo isto perante a grandeza e a glória do prosador? Não foi essa a  razão que levou à sua trasladação para o Panteão Nacional? O que se poderá questinar é se o escritor será merecedor de tal honraria, a maior que a Nação poderá conceder a um dos seus filhos. E o escritor Aquilino Ribeiro merece-a decerto. Dizer eu que Aquilino foi o maior prosador português do século passado terá o valor tributável a um escrevinhador de blogs, a quem decerto não se reconherá sapiência para emitir tais juízos de valor, nem eu me arrogo tal autoridade. Mas encontro-me bem escudado. Assim o disse, aquando das cerimónias de trasladação, Urbano Tavares Rodrigues e José Saramago, quando lhe noticiaram ter sido o vencedor do Prémio Nobel, terá dito mais ou menos isto: "Sou um homem de sorte, se o Aquilino ainda fosse vivo seria ele a ganhá-lo".&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-3094523695139689217?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/3094523695139689217'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/3094523695139689217'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2007/10/em-defesa-de-aquilino.html' title='Em Defesa de Aquilino'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-4687762977605997247</id><published>2007-06-10T13:07:00.000+01:00</published><updated>2007-06-11T13:44:37.489+01:00</updated><title type='text'>10 de Junho</title><content type='html'>Hoje é Dia das Comunidades Portuguesas. Já lhe chamámos Dia de Portugal e até Dia da Raça. Da raça convenhamos que não era bem achado. Que raça? A portuguesa? Estudos científicos dizem-nos que não há raças entre a espécie humana e se as houvesse nós não seríamos seguramente uma delas: esta nossa &lt;em&gt;finis terrae&lt;/em&gt; foi povoada por tantos e tão desvairados povos que acabámos por ser uma miscelâneas de todos quantos por cá aportaram e ficaram: a um primitivo substracto ibérico teremos que juntar fenícios, gregos cartagineses, celtas, romanos, suevos, visigodos, árabes, berberes e nos dias de hoje, com o advento das correntes imigratórias para o País, filhas da globalização, ainda lhe haveremos de juntar mais uns quantos. Por isso, raças portuguesas só a dos equídeos de Alter, que até nem nos deixam ficar mal, ou as dos vários canídeos, que até ganham prémios em confrontos internacionais: o nosso Rafeiro Alentejano, mas também o Serra de Aires, o Serra da Estrela, o Cão de Água, que até parece que foi marujo das nossas caravelas que deram novos mundos ao mundo, e algumas outras.&lt;br /&gt;Era Dia da Raça pois, no tempo da outra senhora, que vivia num embevecimento laudatório e acrítico pelo passado, fruto de ideologias nacionalistas e anti-democráticas que fizeram vencimento na Europa até ao final da Segunda Grande Guerra e que entre nós se prolongaram até tarde, demasiado tarde, com a cumplicidade das democracias ocidentais, adeptas do mal menor e quanto ao povo pois que se lixasse, claro está.&lt;br /&gt;Mas Dia de Portugal não vejo qual fosse o mal: nem seríamos originais, longe disso, pois tantos e tantos países comemoram o seu Dia. O mais conhecido será porventura o &lt;em&gt;quatorze Juillet &lt;/em&gt;francês, das marchas militares, dos discursos sobre a &lt;em&gt;grandeur&lt;/em&gt; gaulesa e dos bailes populares, mais conhecido pelas evocações históricas e porque a França era, até um passado recente, ainda capaz de impor essa mesma grandeza de nação fautora de ideologias e cultura. &lt;br /&gt;Mas nós, portugueses, lidamos mal com o nosso passado: ao acriticismo do ante-25 de Abril sucedeu o hiper-criticismo do pós-25 de Abril, quando parecia que nada, absolutamente nada, do nosso passado seria de molde a nele nos revermos. E assim chegámos ao Dia das Comunidades. Do mal o menos: continuamo-nos a celebrar e, pois que temos uma tão grande diáspora, celebramos as comunidades que ao longo dos séculos espalhámos e continuamos a espalhar pelo mundo.&lt;br /&gt;Mas estimaremos nós o nosso País? Não creio. Um País, onde os cidadãos arvoram em esperteza e motivo de orgulho toda a táctica de evasão ao fisco, não se estima verdadeiramente. Há aqui um notabilíssimo défice de educação cívica que manda que a todos incumbem responsabilidades pelo todo e que essa responsabilidade se traduz particularmente pelo pagamento das obrigações fiscais. E o grau de sinistralidade verificado nas nossas estradas, um dos mais elevados da União Europeia? Obviamente que o típico condutor lusitano bem que se está borrifando para a integridade física dos seus concidadãos e até, cúmulo da estupidez, para a sua. E este velho e arreigado hábito de lançar na via pública toda e qualquer porcaria? E o desordenamento urbano? E a forma como muitas vezes somos atendidos nos serviços públicos? E, e, e...&lt;br /&gt;Não, nós verdadeiramente não gostamos do País porque não gostamos uns dos outros. É pena, mas que querem, é a vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;P.S.: o jornal "Público" de hoje, dia 11, fala-nos do dia anterior como de "Portugal, de Camões e das Comunidades". Afinal também comemoramos o País, embora, envergonhadamente, de mistura com outras comemorações. Porque não haveremos de comemorar apenas e só, o que é muito, Portugal?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-4687762977605997247?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/4687762977605997247'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/4687762977605997247'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2007/06/10-de-junho.html' title='&lt;strong&gt;10 de Junho&lt;/strong&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-7049646727419625726</id><published>2007-05-27T22:23:00.000+01:00</published><updated>2007-06-09T10:55:27.650+01:00</updated><title type='text'>O Deserto a Sul do Tejo</title><content type='html'>Alguns membros do actual governo parecem ter uma irresistível atracção para a asneira e como não há uma sem duas nem duas sem três, costumam elas vir em catadupa. Então não é que o senhor ministro Mário Lino, em argumentário pobre justificativo da opção Ota para o futuro aeroporto internacional de Lisboa, nos vem dizer que a construção do mesmo &lt;em&gt;jamais&lt;/em&gt;, em francês, será na margem sul do Tejo, pois ali não há mais do que um deserto, sem escolas, hospitais, rodovias e ferrovias, sem hotéis?&lt;br /&gt;Sabia eu que vivia em terra sempre tratada como parente pobre e deserdado pelos sucessivos governos que têm ocupado o Terreiro do Paço, mas chamar deserto a metade do País? Digo bem, metade do País, pois se o senhor ministro considera desérticos territórios que distam escassas dezenas de quilómetros de Lisboa, então onde viverei eu, que habito a quase duzentos quilómetros a sul da preclara e civilizadíssima capital?&lt;br /&gt;Mas se a região é um deserto que têm feito ou o que fazem os senhores governantes para que assim não seja? Mandam as boas regras da administração política cuidar da coesão e boa harmonia territorial pelo que os investimentos, aqueles capazes de gerar desenvolvimento, como será o caso vertente,deverão privilegiar as regiões mais desfavorecidas. Parece não ser esse o juízo do senhor ministro.&lt;br /&gt;E depois o senhor ministro revela-se ainda ignorante da geografia nacional, ao referir-se a esses territórios da margem sul do Tejo como pertencentes ao norte alentejano. Ora acontece que não são tal, pois já integram a província da Estremadura. E acresce ainda que o argumentário utilizado, na forma e no conteúdo, não revela a necessária elevação, aquela que é própria da dignidade da função ministerial.&lt;br /&gt;Não sei qual a localização ideal para o futuro aeroporto. Não tenho nem informação nem formação suficientes para opinar sobre o assunto. Mas sei que tal projecto, pela sua dimensão, custos, impacto ambiental e características estruturantes para o futuro desenvolvimento económico nacional, terá que ser muito bem ponderado. Suponho que uma decisão final sobre onde deverá ser construído o futuro aeroporto, mais do que uma decisão política, será sempre uma decisão de carácter técnico, apoiada em estudos e pareceres sólidos feitos por entidades credenciadas e sérias. Deveria ser assim, mas quando o senhor Presidente da República vem dizer que é necessário, sobre esta matéria, um debate "sério" em sede parlamentar, parece que tal ainda estará por fazer.&lt;br /&gt;Por vezes tenho a incómoda impressão de viver num país com estranhas idiossincrasias.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-7049646727419625726?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/7049646727419625726'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/7049646727419625726'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2007/05/o-deserto-sul-do-tejo.html' title='O Deserto a Sul do Tejo'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-5895061504271480472</id><published>2007-05-13T17:03:00.000+01:00</published><updated>2007-05-13T18:28:05.454+01:00</updated><title type='text'>O Fiel Amigo</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Muito se tem dito e escrito, nos últimos dias, acerca do abate de 16 cães, segundo li, pelos serviços municipais de veterinária. Contudo a polémica parece-me estar descentrada, pois que se discutem os efeitos em detrimento das causas.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O abate de cães, seja em que circunstâncias for, não vai sem alguns engulhos de consciência. Ele é o &lt;em&gt;fiel amigo&lt;/em&gt;, sobre ele se contam inúmeras histórias de abnegação, sacrifício e lealdade, desde tempos imemoriais que connosco vive, desempenhando as mais variadas e úteis tarefas. Mas isso não basta para o tornar sujeito de direitos, nomeadamente o mais importante de todos, o direito à vida. Por isso a lei prevê o seu abate em circunstâncias determinadas e presumo que, no caso vertente, o tenha sido dentro do estipulado na lei. Todos os dias se abatem no País milhares de animais destinados à nossa alimentação e, por denúncia já bastas vezes feita nos &lt;em&gt;media&lt;/em&gt;, nem sempre o seu transporte e abate se processa nas devidas condições, provocando nos animais sofrimentos moral e legalmente condenáveis. E no entanto nunca tais factos têm na opinião pública as repercussões que o abate do &lt;em&gt;fiel amigo&lt;/em&gt; sempre provoca. E contudo deveriam tê-las.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Por muito que nos doa é inviável ao canil municipal, bem como ao canil sustentado pelo &lt;em&gt;Cantinho dos Animais&lt;/em&gt;, acolher todos os cães que se lhes deparem abandonados, por óbvias razões de espaço e finidade de recursos. Alguns acabam adoptados mas a maioria jamais o será. Que fazer então? Esperar que morram de velhice? Seria essa a solução mais conforme com os nossos sentimentos mas, sabemo-lo todos, tal solução é inviável.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Assim não foi esta a primeira vez que cães foram abatidos, ou eutanasiados, usando uma expressão mais conforme aos usos politicamente correctos, tão em voga, nem, infelizmente, será a última vez que tal prática será cometida pelos serviços municipalizados. O próprio &lt;em&gt;Cantinho dos Animais&lt;/em&gt; já o terá feito, decerto que como último recurso.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E era aqui que todo este debate deveria ser centrado: nos motivos que levam a que cães tenham periodicamente que ser abatidos. E o motivo é apenas um: o abandono dos animais por energúmenos que os adoptam e depois, as mais das vezes por motivos fúteis, os abandonam. Aqui onde vivo, já o disse em blog anterior, as épocas críticas para o aparecimento de cães abandonados são a época venatória e a época de veraneio. Leva-se o cão à caça; não provou, amedrontou-se com os tiros? Abandona-se. A família parte de férias; não há com quem deixar o animal, é um empecilho que não entra em praia nem em restaurante. Que fazer? Abandona-se. Afinal o cão não é propriamente um &lt;em&gt;bibelot&lt;/em&gt; que se põe na estante e de vez em quando se limpa do pó com um espanador: o cão defeca, urina, suja-se, adoece e o capricho inicial começa a revelar-se muito trabalhoso. Afinal o cão é um trambolho que só causa problemas. Que fazer? Abandona-se.&lt;br /&gt;E é a esta lastimável prática que urge pôr cobro. Como? Instituindo a obrigatoriedade de registo do animal e identificando-o através da inserção de um chip. Assim se saberá a quem pertence e assim se poderá penalizar quem abandona ou é negligente na forma como trata o seu cão. O que não é nenhuma novidade pois em muitos países já é feito.&lt;br /&gt;Só é sujeito de direitos quem é sujeito de deveres e se o cão o não é somo-lo nós, sujeito de deveres que implicam, entre tantos, o de não usarmos de crueldade para com os animais.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-5895061504271480472?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/5895061504271480472'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/5895061504271480472'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2007/05/o-fiel-amigo.html' title='O Fiel Amigo'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-6209988445938009874</id><published>2007-05-01T16:21:00.000+01:00</published><updated>2007-05-14T19:35:50.325+01:00</updated><title type='text'>24.ª Ovibeja</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Decorre a 24.ª edição da Ovibeja. A todas assisti e, com agrado, fui verificando o seu constante crescimento até se transformar naquilo que hoje é, o maior mostruário das actividades económicas da região e, creio, a maior feira a sul do País. Incipiente, titubeante nos seus inícios, ocupando apenas o antigo Pavilhão das Lãs, sendo quase somente uma exposição ovina, pois foram ovinicultores que a iniciaram, medrou, cresceu e atingiu uma maioridade pujante e assertiva.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A outra grande feira, a Feira de Agosto, de S. Lourenço e Santa Maria mais propriamente dita, foi definhando e acabou definitivamente. Era já um anacronismo. O mundo rural, que era a sua matriz, mudou, transformou-se, e a Feira perdeu a sua razão de ser. Assinalava ela o fim do ano agrícola, quando patrões e assalariados saldavam as suas contas. Era por Santa Maria que se tabelavam os preços dos cereais que eram, à falta de numerário, utilizados também como moeda de troca. Era ela o corolário do ano agrícola e a sua grande festa final.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A centenária Feira morreu Mas o tempo, e particularmente o tempo económico, não se compadece com nostalgias e tradições. Havia que mudar e em boa hora se soube mudar para um outro tipo de evento mais conforme com as novas realidades económicas.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Olhando o programa dos espectáculos previstos para a presente Ovibeja verificamos que, para além da tradicional corrida de touros, tão do agrado de um público fiel, fiel ao espectáculo e às suas raízes rurais, há todo um conjunto de actividades previstas que privilegiam exactamente esse público e o público dito jovem. Compreende-se, a feira existe em função do mundo rural e porque a cidade, com o surgimento do ensino superior politécnico, viu subir exponencialmente a sua população juvenil, compreender-se-á também que se tenha em atenção a população jovem, que além de numerosa tem algum poder de compra, pois assim se viabiliza a animação até altas horas e se viabiliza também o sustento económico das numerosas tascas e tasquinhas que sempre pontuam o recinto da Feira. Menos compreensíveis serão as libações alcoólatras a que grande parte dessa juventude se devota madrugada adiante, mas enfim, calemo-nos antes que nos chamem moralistas, coisa que obviamente não pretendemos ser.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Pessoalmente sinto-me arredado de toda essa programação cultural. Não tenho raízes rurais, sou mais &lt;em&gt;urbanus&lt;/em&gt; que &lt;em&gt;paganus&lt;/em&gt;, e por outro lado já atingi aquilo que se denomina por meia-idade. Decerto que não estou sozinho. Em suma, cuido que ficará por contemplar uma grossa fatia da população citadina, pois que a cidade já terá hoje uma dimensão média e a maior parte da sua população não tem vínculos à ruralidade, são gente dos serviços e de hábitos urbanos, com exigências que a programação cultural prevista de todo não contempla. Ele há públicos e públicos. E a realidade atrás descrita será cada vez mais saliente, pois o crescimento da cidade, que não sendo rápido, se vem revelando gradual e constante, assim o ditará. Não seria pois tempo de em futuras edições da Ovibeja ter um maior cuidado na sua programação cultural, tendo em atenção tais públicos? Aqui fica a sugestão.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-6209988445938009874?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/6209988445938009874'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/6209988445938009874'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2007/05/24-ovibeja.html' title='24.ª Ovibeja'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-3442569349172575146</id><published>2007-04-15T16:06:00.000+01:00</published><updated>2007-04-15T17:32:58.700+01:00</updated><title type='text'>Problemas e Problemas</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;O caso das habilitações académicas do senhor primeiro-ministro tem feito correr rios de tinta, como diria o chavão, hoje anacrónico, pois já ninguém escreve molhando, diligente, a pena no tinteiro. Mas à falta de hipérbole ao gosto mais hodierno, tem de facto feito correr rios de tinta tal polémica.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Para além dos seus contornos políticos, revela-nos tal polémica dois aspectos ambos bem desagradáveis: a notória falta de qualidade do ensino privado público e o nosso persistente e pacóvio deslumbramento perante os títulos académicos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;É-nos agora mais evidente a degradação pedagógica e o caos administrativo em que se afundou algum do ensino superior privado. Para os arautos da excelência da iniciativa privada face ao sector público, espera-se que estes recentes acontecimentos sirvam de motivo para séria reflexão. A iniciativa privada pautar-se-á sempre pela busca do lucro e, pelos vistos, lucro e educação não casam bem. A raiz de todo o mal está na captação da clientela estudantil. E se inicialmente a procura era muita, bastou que ela decrescesse para que os vários estabelecimentos de ensino superior privado baixassem a fasquia do necessário rigor pedagógico. E que fique de aviso à navegação: uma eventual liberalização do ensino básico e secundário, como algumas luminárias constantemente proclamam, levaria ainda a uma sua maior degradação. Dizer e pensar o contrário é próprio de quem não sabe do que está a falar por desconhecimento das realidades do sector educativo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas se o senhor primeiro-ministro não queria exercer a profissão de engenheiro para quê a procura do título? Porque um título académico fica sempre bem, traz estatuto e respeitabilidade, perante o doutor ou o engenheiro logo o indígena se desbarreta e adopta uma postura de formal respeito. Curiosa prática esta no país da União Europeia com menos licenciados. Imaginaríamos nós um primeiro-ministro, ministro ou secretário de estado sem a auréola do título académico? Não, impensável. E no entanto muita gente, muita mesmo, em muitos sectores da vida nacional triunfa, prospera sem atavios académicos. O senhor Leonel Cameirinha é o empresário de maior sucesso na região e, tanto quanto sei, tem a instrução básica.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Tudo isto poderá não ter consequências políticas imediatas, provavelmente se a oposição continuar a bater nesta tecla sofrerá as suas consequências por ricochete; a escassas semanas de Portugal assumir a presidência da União Europeia e porque carecemos de estabilidade política como de pão para a boca, decerto que o passo seguinte não será o pedir-se a demissão do governo e o antecipar de eleições. Mas que esta mancha ficará apegada ao primeiro-ministro e ao seu governo isso ficará. E sempre que, futuramente, nos vierem falar de disciplina e rigor não evitaremos que ao menos nos aflore ao rosto um breve sorriso de comiseração, já que o caso não é propriamente para rirmos às gargalhadas.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E com tudo isto nos distraímos e se distraem os governantes dos reais problemas do País: por exemplo, em conferência recente, realizada em Santarém e patrocinada pelo senhor Presidente da República, o investigador e professor Carlos Farinha Rodrigues denunciou que os nossos pobres estão cada vez mais pobres e que a distância que os separa dos ricos aumentou nos últimos anos. Querem mais? O Eurostat, em números relativos a 2005, constata que Portugal tem o índice de desigualdade mais elevado de toda a Europa. São estes os reais problemas com que nos deveríamos preocupar.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-3442569349172575146?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/3442569349172575146'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/3442569349172575146'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2007/04/o-caso-das-habilitaes-acadmicas-do.html' title='Problemas e Problemas'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-5706883157446325597</id><published>2007-03-25T18:34:00.000+01:00</published><updated>2007-03-25T20:14:50.994+01:00</updated><title type='text'>50 Anos do Tratado de Roma</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Comemora-se hoje o quinquagésimo aniversário do Tratado de Roma, acto fundador da então denominada Comunidade Económica Europeia. Portugal ficou de fora, não apenas porque as democracias fundadoras não nos aceitavam mas porque Salazar não o queria. Estávamos então "orgulhosamente sós" e como tal haveríamos de ficar por mais 17 anos. Integraríamos mais tarde, em Julho de 1959, a EFTA, Associação Europeia de Comércio Livre, fundada sob a égide do Reino Unido, rejeitado na CEE pela oposição irredutível de De Gaulle, e que terá como membros, além daquele e de Portugal, a Áustria, Islândia, Suécia, Noruega e Suiça e como membro associado a Finlândia. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A adesão à EFTA, sigla inglesa de &lt;em&gt;European Free Trade Association,&lt;/em&gt; revelar-se-ia prenhe de consequências para o nosso futuro desenvolvimento industrial, com o incremento das exportações e o surgimento do investimento estrangeiro, até então praticamente inexistente.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas seria a CEE de então e não a EFTA o motor da unificação europeia, a construção política mais bem sucedida da segunda metade do século passado.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Fitando as figuras dos visionários pais fundadores, Jean Monnet, Robert Schuman, Alcide de Gasperi, Paul-Henri Spaak, Konrad Adenauer, Winston Churchill, fica-nos a nostalgia dos líderes que então a Europa possuía e hoje claramente não tem. Eram todos eles homens nascidos no século XIX, que tinham atravessado duas guerras mundiais, a grande depressão dos anos 30, homens que tinham vivido momentos excepcionais e por eles tinham sido formados e temperados. Diz-se que só momentos excepcionais produzem líderes excepcionais e olhando o passado tal asserção tem o seu quê de verdade. E só um insensato desejaria que sobreviessem agora momentos de grandes dificuldades, como esses do passado, para que surgissem os tais líderes excepcionais. Mas que falta liderança à Europa falta.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O que se pretende que essa Europa seja? Um gigante económico e um anão político como o é actualmente? Mas ter protagonismo político implicará sacrifícios. Estarão os europeus dispostos a pagar tais sacrifícios? E que respostas dar aos desafios da globalização, o maior dos quais será, em minha opinião, o de conseguir manter esse aporte civilizacional do pós-guerra que é a instituição &lt;em&gt;do wellfare state&lt;/em&gt;, o estado-providência, agora posto em causa e até ridicularizado por um neo-liberalismo triunfante e imbecil, algo que nos importa particularmente a nós portugueses, onde o estado providência chegou tarde e ainda hoje, sob múltiplos aspectos, de forma incipiente, e porque habitamos o espaço europeu de mais profundas e injustas assimetrias sociais? O que queremos ser, apenas o &lt;em&gt;soft power&lt;/em&gt; ante o &lt;em&gt;hard power&lt;/em&gt; americano, os gregos dos tempos modernos? E a Turquia, que resposta lhe dar? Relativamente ao problema turco andou-se até agora a encanar a perna à rã, mas algum dia terá que se tomar uma decisão, decisão que não terá apenas implicações ao nível económico mas outras, mais profundas e duradouras, de cariz civilizacional e, há que dizê-lo, militar.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas haverá uma consciência europeia? Falta-me o distanciamento, não viajo para outros continentes, mas quem o faz diz que sim, que isso é perceptível quando se está em África, na Ásia, nas Américas. Mas sinto-me eu europeu? Que outra coisa me poderia sentir? Dentro de mim coexistem pacificamente as duas condições de português e europeu, entre ambas não há contradição, foi sob os valores civilizacionais europeus que me formei e o meu país é parte cultural e geográfica dessa Europa, à qual deu um notável contributo histórico. Relembro aqui, à laia de conclusão, os versos pessoanos:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;A Europa jaz, posta nos cotovelos:&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;De Oriente a Ocidente jaz, fitando,&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;E toldam-lhe românticos cabelos&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Olhos gregos, lembrando.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;O cotovelo esquerdo é recuado;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;O direito é em ângulo disposto.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Aquele diz Itália onde é pousado;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Este diz Inglaterra onde, afastado,&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;A mão sustenta, em que se apoia o rosto.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Fita, com olhar esfíngico e fatal, &lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;O Ocidente, futuro do passado.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;O rosto com que fita é Portugal.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-5706883157446325597?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/5706883157446325597'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/5706883157446325597'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2007/03/comemora-se-hoje-o-quinquagsimo.html' title='50 Anos do Tratado de Roma'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-4571736900900202560</id><published>2007-03-16T22:17:00.000Z</published><updated>2007-03-16T22:56:33.166Z</updated><title type='text'>Mudar é Preciso</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Um dos temas mais sensíveis que se põem nos tempos presentes e que se porá particularmente nos tempos futuros é o do paradigma energético e política ambiental.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O recurso predominante aos combustíveis de origem fóssil, o carvão primeiro, que marcou o arranque da revolução industrial e posteriormente o petróleo, tem cobrado factura elevada em termos ambientais e de tal modo que este paradigma energético começa agora a ser posto em causa, não apenas porque danoso mas mesmo comprometedor de sobrevivência futura.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Os cenários que nos são propostos são catastróficos: a concretizarem-se a sua minimização comportará custos superiores aos ocasionados pela Segunda Guerra Mundial; a subida do nível médio dos oceanos poderá obrigar à deslocação de 200 a 300 milhões de seres. Para onde, perguntar-se-á? Países e ilhas há que estarão irremediavelmente condenados ao desaparecimento.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas poderá esta mudança de paradigma energético ocorrer de forma tão célere quanto o desejável? Obviamente não. Os colossais interesses económicos ligados ao petróleo, à indústria automóvel, a fiscalidade dos estados, a dependência umbilical de toda uma economia desta fonte energética levarão a que tal mudança se processe de forma lenta, talvez demasiado lenta para que possa ocorrer a reversibilidade dos danos ambientais entretanto causados.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Alguns sinais positivos vão-nos entretanto chegando; recentemente a União Europeia deliberou diminuir até 2020 as emissões de CO2 em 20%, bem como substituir os combustíveis fósseis por energia proveniente da fontes renováveis, ambientalmente limpas, também em 20%. Importante era que igual propósito fosse enunciado por outros grandes poluidores, nomeadamente o maior de todos eles, os Estados Unidos. E serão tais medidas suficientes?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Provavelmente o recurso a fontes de energia renováveis será sempre insuficiente face aos crescentes consumos energéticos. Para além desta alternativa outras terão que ser ponderadas: o nuclear, o biodisel, o hidrogéneo?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E provavelmente todos teremos de mudar de hábitos mais depressa do que pensamos. E ou o fazemos voluntariamente ou a dura realidade nos obrigará a adoptá-los.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Se toda a humanidade tivesse os padrões de consumo médio do cidadão médio do dito mundo desenvolvido, teríamos que seriam necessários vários planetas Terra para os suportar. E com que legitimidade poderemos nós, os do feliz e consumista mundo desenvolvido, dizer à esmagadora maioria da humanidade que não poderá jamais ascender aos nossos níveis de consumo e bem-estar porque os recursos existentes não chegam para todos?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Há pois que mudar. E essa mudança não competirá somente aos governantes mas terá que implicar cada um de nós. Utilizar com parcimónia, reutilizar, reciclar terão de ser preocupações permanentes. Práticas que, para aqueles da minha geração, não são absoluta novidade: as carências económicas em que então a generalidade vivia a isso compeliam, é verdade. Mas nem por isso deixavam de ser boas práticas: em minha casa sempre o lixo orgânico se transformou em ovos e carne de galináceos, e que saborosos eram. Não estou obviamente a sugerir que tenhamos capoeiras na varanda do apartamento, onde hoje viverá a maioria.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas esta mudança de paradigma a todos terá de implicar. Dizem os especialistas que os recursos hidrícos estão entre nós subaproveitados, que era possível duplicar a produção energética daí proveniente. E isso lembra-me que se o engenho dos nossos antepassados engendrou, no vizinho Guadiana, os açudes e correlativos moinhos onde ao longo de séculos se moeu o grão que alimentou sucessivas gerações, não será hoje possível aproveitar tais estruturas para a instalação de centrais mini-hídricas? Poderá ser tal sugestão um disparate de um diletante voluntarista, mas seja ou não seja aí a deixo à consideração de quem me ler.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-4571736900900202560?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/4571736900900202560'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/4571736900900202560'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2007/03/mudar-preciso.html' title='Mudar é Preciso'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-6886208839426433873</id><published>2007-02-25T20:51:00.000Z</published><updated>2007-02-26T00:15:03.675Z</updated><title type='text'>A Rainha</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Passou recentemente no "Pax-Julia" o filme "A Rainha". Para além da estória sobressai a assombrosa interpretação da actriz Helen Mirren, cujo mimetismo com a personagem representada, a Rainha Isabel II, é absoluto. Provavelmente será agraciada com o "Óscar" para melhor actriz pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, e se assim acontecer raras vezes na história dos "Óscares" tal honra terá sido tão merecida.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A estória narra-nos os dias subsequentes à morte, em Paris, de Diana Spencer, Lady Dy, a Princesa do Povo, cognome encontrado para a designar por um dos assessores de Tony Blair, então recém-empossado primeiro-ministro e que melhor que a família real terá compreendido os sinais do tempo e daquele momento tão particular. De uma forma oportunista, mas que poderia ele fazer, decidiu cavalgar a onda de comoção populista que extravasou mesmo as fronteiras britânicas e daí colher dividendos políticos, em oposição a uma atitude, mais que contida, de frio distanciamento de uma família real desorientada e perplexa com a aura popular da defunta e o crescente repúdio de muitos dos seus súbditos face à sua atitude de ausência. A Inglaterra mudara e mudara a tal ponto que a fleuma, a contenção dos sentimentos, o nunca perder a face perante a adversidade, os valores de traça vitoriana, enfim, em que a rainha e a família real haviam sido educados, eram agora de todo desadequados para poder compreender aqueles momentos. Como poderia acontecer tal comoção popular perante a morte de uma mulher de comportamento tão repreensível quanto o da ex-mulher do herdeiro do trono inglês? Blair, que se queria moderno, compreendeu-o e terá então evitado um hiato talvez irreversível entre a monarquia e o povo britânico.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Terá sido Diana Spencer vítima da sua excessiva exposição mediática, que ela não soube, ou não quis, evitar? Há quem o afirme e os &lt;em&gt;media &lt;/em&gt;britânicos, decerto mais do que os continentais, canibalizam as suas figuras públicas numa devassa permanente e por vezes indecorosa das suas vidas privadas. Compare-se com a atitude dos &lt;em&gt;media &lt;/em&gt;franceses face à vida privada de François Mitterrand ou com os espanhóis face à sua família real, de quem se murmura mas sempre com recato e discrição.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Entre nós, e tanto quanto me lembro, a indiscrição mediática terá atingido o seu auge, pela falta de decoro quando, no pós 25 de Abril, se explorou com fins políticos menos dignos a relação que entre si mantinham Sá Carneiro e Snu Abecassis. Curiosamente, pois outros casos se poderiam apontar acontecidos aquando da Ditadura e nos finais do regime monárquico, este tipo de indiscrições mediáticas visam entre nós quase sempre objectivos políticos explícitos de lançar o labéu da imoralidade sobre o adversário e desse modo desacreditá-lo. Recorde-se, a propósito, a insinuação lançada pela propaganda republicana de que o suicídio de Mouzinho de Albuquerque seria consequência da relação adúltera que este manteria com a Rainha D. Maria Amélia.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Diz-se que quando o rei egípcio Faruk, em 1952, se viu exilado após um golpe de Estado organizado por um movimento militar denominado &lt;em&gt;Os Oficiais Livres&lt;/em&gt;, dirigido pelo major e futuro presidente Gamal Abdul Nasser, terá dito que no final do século XX apenas existiriam à face da Terra quatro reis: o de paus, o de copas, o de ouros e o de espadas. Enganou-se, as monarquias continuam a existir e algumas delas sólidas e prósperas. Mas sobreviverá a monarquia inglesa ao fatal desaparecimento de Isabel II? Espero ainda por cá andar para ver.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-6886208839426433873?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/6886208839426433873'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/6886208839426433873'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2007/02/rainha.html' title='A Rainha'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-3792762060507949777</id><published>2007-02-12T20:53:00.000Z</published><updated>2007-02-24T00:23:08.391Z</updated><title type='text'>O "Sim " venceu</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;O "sim" venceu. Está despenalizado o aborto até às dez semanas, quando feito em estabelecimento de saúde autorizado e por vontade expressa da mulher.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Parece que o povo português não é particular adepto destas formas de democracia directa; embora a abstenção tenha diminuído relativamente ao anterior referendo não votaram metade dos eleitores, condição necessária para que o resultado do mesmo seja vinculativo. Não importa. Está estabelecido o consenso entre vencedores e vencidos para que o artigo do Código Penal que criminalizava tal prática seja alterado.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Votei "sim". Fui sensível aos argumentos de carácter social e económico pois, na verdade, quem acabava sendo penalizada era a mulher de mais baixo extracto social.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ficaram por explicar algumas das minhas dúvidas: porquê dez semanas? Por que razão a lei, decalque da nossa, funcionou em Espanha e entre nós não funcionou?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Espero que agora funcione. É evidente que o aborto clandestino não desaparecerá de todo. Se não desapareceu na civilizada e organizada Suécia como iria desaparecer entre nós? E é claro que haverá mulheres que irão ser criminalizadas; todas aquelas que praticarem o aborto após as dez semanas. Ou talvez não. Cá estaremos para ver.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas será bom que a coisa agora funcione. Até porque entre nós se as coisas não funcionam não é por falta de leis; elas existem, só que somos relutantes em aplicá-las. Votei "sim", fui até onde a minha consciência mo permitiu. Garanto que a haver outro referendo sobre a mesma matéria, sejam quais forem os seus pressupostos, votarei "não".&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O dado mais relevante a extrair deste referendo, para além da vitória do "sim" foi, na minha modesta opinião, o protagonismo dos muitos movimentos cívicos, quer pelo "sim" quer pelo "não", que obnubilou em grande parte o protagonismo dos partidos políticos. E muito bem. Será isto sinal de um maior vigor da nossa sociedade civil? Era bom que fosse e se expressasse futuramente em novas matérias. Os partidos são estruturantes da vida democrática mas não se esgota neles a participação cívica dos cidadãos. Até porque, e isto é inteiramente verdade, os partidos transformaram-se em máquinas de conquista do poder e distribuição de sinecuras pelas suas clientelas. Poucos são hoje aqueles que neles militam que têm um correcto sentido de serviço público. Creio que foi Churchill que disse que a guerra era um assunto demasiado sério para ficar entregue somente aos militares; parafraseando o ilustre estadista direi eu que a política é um assunto também demasiado sério para ficar entregue apenas aos partidos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-3792762060507949777?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/3792762060507949777'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/3792762060507949777'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2007/02/o-sim-venceu.html' title='O &quot;Sim &quot; venceu'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-487866093608477631</id><published>2007-01-28T16:48:00.000Z</published><updated>2007-01-28T22:55:50.821Z</updated><title type='text'>A Propósito da Despenalização do Aborto</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Gostaria que o debate sobre a interrupção voluntária da gravidez decorresse sem a intervenção dos partidos políticos; gostaria que o debate decorresse sem alaridos, sem insultos gratuitos, sem demonizações; mas gostaria ainda mais que não houvesse debate nem houvesse referendo, pois os homens e mulheres do meu País haveriam de ser suficientemente informados e particularmente responsáveis para, utilizando todos os meios contraceptivos de que hoje dispomos, evitarem toda a gravidez indesejada.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Gostaria que a Igreja adoptasse uma posição menos hipócrita: que seja estrénua defensora da vida entende-se, o contrário é que resultaria incompreensível, mas ser ao mesmo tempo opositora à adopção de todo e qualquer método contraceptivo é no mínimo contraditório.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Gostaria que a actual lei funcionasse como funciona na vizinha Espanha, sendo como se diz um decalque da nossa. Nela se tipificam os casos em que é possível, sem penalização, a prática do aborto: malformação do feto, violação, perigo de vida para a mulher, danos irreversíveis para a saúde física e psiquíca da mesma. E porque não funciona a lei entre nós?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Pela interpretação restritiva que da mesma faz grande parte da classe médica. Não sei há quantos anos foram redigidos os estatutos da Ordem dos Médicos mas decerto que há muitos, tantos que de um ponto de vista deontológico, e é isso que importa, estarão desadequados ao mundo de hoje e, o que é mais, estarão desadequados, neste particular, às leis da República o que, não sendo eu jurista, me parece juridicamente de difícil sustentação, ao ameaçar de expulsão da Ordem e cassação da carteira profissional a todo o seu associado que cometa práticas abortivas, com a única ressalva de que as mesmas serão lícitas em caso de perigosidade de vida para a mãe, interpretação que contraria o disposto na actual lei. Não obstante, os médicos têm todo o direito de recusar tais práticas invocando objecção de consciência. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Esta não é uma questão de esquerda, nem de centro, nem de direita: é uma questão transversal à sociedade e é uma questão de ética e de consciência: por isso os partidos deveriam ter adoptado uma posição de recato e distanciamento, os partidos deveriam ter-se abstido de tomar partido, doutro modo os seus directórios estão a arrogar-se o direito de mandar na consciência dos seus militantes e simpatizantes. E com que direito, perguntaremos nós?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A questão é difícil e conflitual, de um ponto de vista colectivo e individual. Há perguntas que careceriam de uma resposta mais convincente. Porquê o aborto só até às dez semanas e não às dez semanas e um dia? Consideram os proponentes que é a partir de então que o feto passa a ter dignidade humana? E porque não antes, e porque não depois? A partir de quando é legítimo falarmos de vida humana? Não há resposta, pois não? Nem a ética, nem a religião, nem a ciência nos respondem de forma convincente.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A questão não é preta e branca, nem sequer é fracturante, é dilacerante, e eu gostaria que não houvesse referendo para não ter que optar.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-487866093608477631?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/487866093608477631'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/487866093608477631'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2007/01/propsito-da-despenalizao-do-aborto.html' title='A Propósito da Despenalização do Aborto'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-5589219829265005834</id><published>2007-01-21T17:07:00.000Z</published><updated>2007-02-01T12:53:45.440Z</updated><title type='text'>Notícias da Lusolândia</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;- A Justiça indígena, tão pronta a deixar prescrever processos incómodos, foi agora célere em condenar a seis anos de prisão, seis, um sargento do exército, Luís Gomes de seu nome, cujo único crime é o de tentar ser pai, pai responsável e carinhoso. A criança, uma menina de cinco anos, deverá ser entregue ao pai biológico, um senhor ausente todo este tempo e que terá mesmo posto em dúvida a sua paternidade, quando a sua parceira, ocasional parece, lhe disse estar grávida. O que não nos merece dúvidas é que tal decisão acarretará para a criança sequelas psíquicas porventura irreversíveis. Assim se protege o superior interesse da criança, tal como está escarrapachado na lei. Esperemos que o movimento de opinião entretanto surgido em torno desta aberração consiga atalhar males maiores.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- O inefável Manuel Maria Carrilho deixou o seu lugar de vereador da Câmara Municipal de Lisboa por manifesta falta de vocação para tais lides, pois que a sua verdadeira vocação é parlamentar. Quer dizer, o homem não tem vocação para vereador mas tê-la-ia para presidente da autarquia. Perante o dito seria de supor que iria trocar a Câmara de Lisboa pela Assembleia da República. Pois não foi assim. Será futuramente embaixador junto da Unesco, junto de um outro exilado de luxo, Ferro Rodrigues. Parece que o homem tem mesmo vocação é para prima-dona.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-O deputado socialista João Cravinho, por sua vez, irá para o BERD. Acontece que Cravinho tinha em mãos um projecto de combate à corrupão que, pelos vistos, estava a causar engulhos dentro do seu próprio partido. O P.S. tem nesta matéria muitos &lt;em&gt;rabos de palha&lt;/em&gt;, Cravinho &lt;em&gt;dixit&lt;/em&gt;. Bem afirma o deputado que não se trata de nenhuma troca, mas em política o que parece é, já alguém o disse. Ele há exílios e exílios.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- O Instituto da Droga e da Toxicodependência aplicou um inquérito a mais de 100.000 jovens no qual incita os mesmos ao voierismo e à denúncia dos seus progenitores. Mas caberá na cabeça de alguém, sensato diga-se, perguntar a um jovem de doze anos, entre outras preciosidades, se o pai tem relações sexuais com a mãe contra a vontade desta? Resta dizer que tal inquérito teve o aval do Ministério da Saúde e do Ministério da Educação.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Na recente apresentação do QREN, Quadro de Referência Estratégica Nacional, que vigorará entre 2007 e 2013, que irá bafezar o País com a astronómica quantia de 21 mil milhões de euros vindos da União Europeia, disse o primeiro-ministro, José Sócrates, que a grande aposta seria agora na formação e qualificação profissional dos portugueses. Mas este discurso já é velho e revelho. Ouvimo-lo ao longo de três Quadros Comunitários de Apoio e ouvimo-lo agora, muitos anos e muitos milhares de milhões de euros passados. O que é que andámos a fazer entretanto? Senhor primeiro-ministro, o modo como o seu Governo tem tratado os professores não augura nada de bom nesse seu desígnio político, ou não são estes os principais responsáveis pela formação de base dos portugueses?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-O entretenimento televisivo que procura eleger o maior de todos os portugueses, seja lá isso o que for, apresentou-nos agora os dez mais votados para que se proceda à eleição final. Quem são eles? D. Afonso Henriques, Infante D. Henrique, D. João II, Vasco da Gama, Camões, Marquês de Pombal, Salazar, Álvaro Cunhal, Fernando Pessoa e Aristides de Sousa Mendes. Isto é, entre os dez finalistas encontram-se quatro cujo traço comum é uma concepção autoritária, mesmo despótica, do exercício do poder: D. João II, Pombal, Salazar e Cunhal. Talvez que isto seja exemplificativo do nosso carácter, talvez que isto, em parte, explique por que é que Salazar governou o País durante quase meio século com a complacência de quase todos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-5589219829265005834?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/5589219829265005834'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/5589219829265005834'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2007/01/notcias-da-lusolndia.html' title='Notícias da Lusolândia'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-8596420202393037163</id><published>2007-01-08T13:49:00.000Z</published><updated>2007-01-08T13:52:36.783Z</updated><title type='text'></title><content type='html'>O Blog "Praça da República" teve a amabilidade de me informar que o munícipe que procedeu ao restauro do moinho  junto da rotunda dita de Évora é o senhor Francisco Soares. O meu obrigado.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-8596420202393037163?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/8596420202393037163'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/8596420202393037163'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2007/01/o-blog-praa-da-repblica-teve.html' title=''/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-6833828358964627940</id><published>2007-01-07T16:37:00.000Z</published><updated>2007-01-07T17:43:59.735Z</updated><title type='text'>Moinhos</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Não é a primeira vez que me ocupo deste assunto e creio que não será a última: já em Setembro de 2005 havia aqui publicado uma crónica sobre os moinhos do Guadiana, lastimando o estado de incúria e abandono em que os mesmos se encontravam e encontram, alertando então para a necessidade imperiosa de se proceder à recuparação de ao menos um, testemunho que são do esforço de gerações passadas e peças de arqueologia industrial de inegável interesse.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas o que me leva a voltar hoje ao assunto é a recuperação de um moinho sito junto à rotunda dita de Évora, cujo proprietário em boa hora empreendeu, tarefa merecedora de elogio e agradecimento. Soube, em conversa de pé de orelha, que tal recuperação terá merecido o interesse da Câmara Municipal para, suponho, se proceda à valorização e aproveitamento turístico e, quiçá, pedagógico do edifício.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas seria bom que o exemplo deste munícipe, cujo nome aqui gostaria de deixar explícito mas que ignoro, frutificasse e servisse de incentivo e exemplo à edilidade e outras instituições no sentido de se proceder à recuperação de um dos moinhos do Guadiana. Cuido tal ainda ser possível por serem ainda vivos alguns mestres moleiros que em tal tarefa seriam imprescindíveis. De um sei eu, na freguesia de Brinches, que um particular recuperou e pôs a funcionar, a expensas suas, e que visitei há meia dúzia de anos. Mais uma vez um particular, um carola, foi obreiro de uma tarefa que, reafirmo, deveria ser incumbência de instituições oficiais.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Para além do inegável interesse histórico, técnico e monumental de tais edificações são elas passíveis de interesse turístico. Vejamos: ao turista recém-chegado à cidade e a quem apenas tenhamos para mostrar o património edificado da mesma é óbvio que a estada do mesmo se resumirá a horas, quando o que importa é que essa estada se prolongue. Pois não nos atenhamos apenas à cidade e levemos esse turista a visitar outros pontos de interesse, entre os quais, por exemplo, o fazer uma rota que se poderia denominar "Rota do Pão" e que o levaria a visitar um moinho dos ditos de vento, eólico, e um outro junto ao Guadiana, hidráulico, e um forno de lenha e veria, quando possível, os mesmos a funcionar e compraria o pão feito com a farinha moída nesses moinhos e tantas outras actividades que se poderiam engendrar em torno desta "Rota do Pão", não apenas com os turistas mas com as escolas, pois as potencialidades pedagógicas de tais iniciativas parecem-me evidentes.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Somos pobres em património? Não é verdade. Não sabemos apenas valorizá-lo. Outras cidades, Évora por exemplo, melhor do que nós o souberam preservar através dos tempos. Mas uma cidade com dois mil anos de história forçoso é que seja patrimonialmente rica, por muitos dislates que se hajam cometido no passado. A recente inauguração do Museu Episcopal é disso prova e é prova ainda de que algo está a mudar no relacionamento de Beja com o seu património, edificado e móvel.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A recuperação dos moinhos é uma tarefa imperiosa e de inegável interesse turístico. Não vamos edificá-los de raiz, vamos apenas recuperá-los, o que nos poupará a eventuais guerras com alguns fundamentalistas do ambiente que tanto gostam de armar ao pingarelho e logo haveriam de inventar mil e um artifícios para obstar a tal tarefa, não obstante o respeito que nos merecem as associações ambientalistas, &lt;em&gt;honni soit qui mal y pense!&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-6833828358964627940?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/6833828358964627940'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/6833828358964627940'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2007/01/moinhos.html' title='Moinhos'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-116750551215671661</id><published>2006-12-30T17:53:00.000Z</published><updated>2006-12-30T19:14:13.233Z</updated><title type='text'>Fim de Ano</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;O ano está a findar e é-nos agora dito que doravante passaremos a servir de exemplo aos novos aderentes da União Europeia de como não se deverão comportar. De bons alunos nos anos 90 passámos a cábulas, de bestiais passámos a bestas. Coragem. Afinal servimos uma meritória função de carácter pedagógico. E se assim é somos úteis, e ser útil não é nenhuma desgraça. E já lá diz o faducho que não é desgraça ser pobre.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Pobretes mas alegretes. Viram os níveis de consumo verificados neste período natalício? Gastaram-se milhões e milhões em prendas, trocaram-se milhões e milhões de mensagens via telemóvel. Que outro povo, sim, que outro povo seria capaz de tanta generosidade, de tanta solidariedade, de demonstrar tal espírito natalício em tempos de crise? Nenhum, estou em crer. Não há dúvida que somos únicos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Faz alguns anos ouvi ao então primeiro-ministro António Guterres, numa cerimónia pública realizada no Auditório dos Serviços Comuns do Instituto Politécnico de Beja, um veemente discurso sobre os destinos pátrios: dizia ele, e que bem que ele falava, que havíamos tido duas oportunidades no nosso já longo e glorioso passado, duas oportunidades de nos desenvolvermos economicamente, de largarmos esta carepa de miséria ancestral, quais foram o que ele denominou por &lt;em&gt;ciclo da pimenta&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;ciclo do ouro&lt;/em&gt; &lt;em&gt;brasileiro&lt;/em&gt;: ambas se goraram. Dispúnhamos agora de uma terceira e talvez derradeira oportunidade, a dos f&lt;em&gt;undos&lt;/em&gt; &lt;em&gt;comunitários.&lt;/em&gt; Agora não podíamos falhar, tal seria imperdoável. Pois daí a tempos, não muitos, o homem foi-se embora e deixou a tarefa por cumprir. Acho que nunca lhe irei perdoar.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Perdemos a oportunidade nos finais do século XV e primeira metade do século XVI, a pimenta esvaíu-se-nos por entre os dedos como areia. Mas a corte de D. Manuel era então a mais faustosa da Europa e a embaixada enviada ao Papa Leão X, em 1513, era tão magnificente que o mesmo decretou que enquanto os portugueses permanecessem nos reinos pontifícios não haveriam de pagar nada. Claro que alguns portugueses foram demorando a sua estada. Pudera, com cama, mesa e roupa lavada à borla. Acontece que alguns italianos, que também são uns bons tratantes, logo começaram a fazer-se passar por portugueses para também se sentarem à manjedoura. Conclusão: lançaram sobre nós tanta lama que ainda hoje em Itália &lt;em&gt;português&lt;/em&gt; é sinónimo de &lt;em&gt;caloteiro&lt;/em&gt;. Mas tudo isto não passa de inveja, é claro, só por sermos mais espertos do que eles.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Depois perdemos a oportunidade do ouro e da pedraria preciosa que nos chegava do Brasil em quantidades até então, e ainda hoje, pelo menos para mim, inimagináveis, ao longo de toda a primeira metade do século XVIII. Mas não é verdade que a corte do senhor D. João V ombreava então com as mais ricas cortes europeias? Não é verdade que se construiu o Aqueduto das Águas Livres? E o Palácio-Convento de Mafra? Para quê, perguntam? Não vos basta ter servido tal faraónico edifício de inspiração ao nosso Nobel José Saramago?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Por causa desta história do ouro brasileiro ainda hoje por lá há uma elite bem-pensante que nos acusa de lhes termos roubado o metal amarelo. Alto lá! O ouro fomos nós que o achámos e depois só vinha para cá a quinta parte, a quintalada, do ouro extraído, que nós não somos assim tão gananciosos. E o que é que por lá fizeram aos restantes quatro quintos desse ouro? Mas disto não falam eles.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Haja esperança. Na sua mensagem televisiva natalícia, o nosso agora primeiro-ministro, José Sócrates, com um ar seráfico, de todo adequado à quadra festiva, veio dizer-nos, olhos nos olhos (ou seria na cábula que ia passando num quadro electrónico?), que íamos agora no bom caminho, que a situação se haveria de recompor. Penso que ele sabe do que fala, pois não foi ele ministro de António Guterres? Alguma coisa o nosso primeiro-ministro terá aprendido com o desgoverno de então. E entretanto confortemo-nos com a ideia de que, se para outra coisa não servimos, servimos pelo menos para exemplo de outros, tarefa educativa bastante meritória.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-116750551215671661?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/116750551215671661'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/116750551215671661'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2006/12/fim-de-ano.html' title='Fim de Ano'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-116644289682424972</id><published>2006-12-18T11:47:00.000Z</published><updated>2006-12-18T11:54:56.823Z</updated><title type='text'>Agradecimentos</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;O Blog "Praça da República" resolveu agraciar este "O Pacense" com um "Pelourinho" de Bronze, na categoria Regional. O meu obrigado ao João Espinho pela deferência.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Quanto a ostentá-lo no "O Pacense" fá-lo-ei, mas para tal terei que pedir a ajuda de alguém mais competente do que eu no domínio das TIC, pois que nestas artes, a ser merecedor de algum "Pelourinho", só se fosse de cortiça.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-116644289682424972?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/116644289682424972'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/116644289682424972'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2006/12/agradecimentos.html' title='Agradecimentos'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-116638323342329583</id><published>2006-12-17T18:41:00.000Z</published><updated>2006-12-18T19:40:00.796Z</updated><title type='text'>Natal</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Quando eu era criança esta era a altura de se armar o presépio. Na minha escola, uma daquelas do chamado plano centenário, ainda estou para saber por que eram assim designadas, numa chaminé existente na sala de aula, chaminé que nunca se acendia suponho que por falta de verba para a compra da lenha, se armava então o presépio, com o musgo que nós, alunos, íamos buscar aos locais sombrios já por todos demais conhecidos, e com todas aquelas figurinhas pitorescas que o compunham. E com as searinhas, bem entendido, podia-se lá conceber um presépio sem as searinhas, para nós nados e criados em terras de pão? E o que eram as searinhas, perguntarão os mais jovens, criados já na tradição do pinheiro natalício? Pois as searinhas obtinham-se colocando grãos de trigo numa lata de conserva a que se adicionava água; o trigo germinava e dele brotavam folhas até à altura de uma mão travessa, de um verde viçoso que fazia um lindo contraste com o verde escuro do musgo. Bem entendido, as searinhas eram plantadas três ou quatro semanas antes de se armar o presépio.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas o pinheiro natalício é agora imperante, exemplo cabal de como a globalização não é apenas económica, também impregna e modela as práticas culturais, com óbvia prevalência daquelas que nos chegam da Europa do Norte. Parece que a primeira Árvore de Natal terá sido erguida em terras lusitanas no Paço Real, por D. Fernando II, esposo de D. Maria II, Fernando de Saxe-Coburgo Gotha, alemão como o seu apelido o indica, e que da sua Germânia natal trouxe até nós tal tradição arbórea. Não terá feito vencimento tal prática, mau grado a força impositiva das modas cortesãs, mormente entre as classes altas, e por muitos e bons anos o indígena continou a preferir a celebração do Natal através do presépio.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Ainda recentemente os meios de comunicação social davam conta da exposição de um presépio setecentista no Museu do Azulejo, presépio que por muitos anos esteve patente no Museu Nacional de Arte Antiga e que agora, após demorado e profundo restauro, foi levado para o dito. Ora tal presépio é uma das mais notáveis peças escultóricas do barroco nacional, atribuído à escola de Machado de Castro e, a meu ver, exemplo notável de como, entre nós, o presépio constituía peça central das comemorações natalícias. Para aqueles que ainda o não saibam a palavra presépio provém do latim&lt;em&gt; praesepes, is&lt;/em&gt;, que significava estábulo, curral e também manjedoura. Ora se, segundo a tradição, o Menino nasceu numa gruta que servia de estábulo e, nascituro, foi colocado sobre as palhas de uma manjedoura, que palavra mais adequada para designar tal quadro haveríamos de arranjar? &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E quem diz Árvore de Natal diz Pai Natal, esse ícone planetário deste período festivo e cuja formatação final de ancião rubicundo, de fartas barbas brancas e ventre proeminente, com um traje vermelho de talhe vagamente lapão, resultou de uma campanha publicitária, pasme-se, da Coca-Cola.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas a Árvore de Natal finalmente venceu o presépio da nossa infância. A Câmara Municipal de Lisboa capricha em erguer na mais emblemática praça da capital e do país, uma estrutura em ferro, com muitas luzes faiscantes e multicores, que passa por ser a Árvore de Natal mais alta da Europa. E tal como em minha casa, por esse país fora muitas famílias também ergueram a sua, à medida das posses e do bom gosto de cada um.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;É insofismável que a quadra natalícia, época de reflexão e de celebração de valores, está inquinada pelos interesses comerciais e por uma pulsão consumista desenfreada. Também eu, também eu, &lt;em&gt;mea culpa&lt;/em&gt;, não me escapo a tais desmandos. Os nossos vizinhos espanhóis, mais ciosos das suas tradições culturais e religiosas, libertam essa pulsão consumista nos Reis, procedendo então à troca de prendas, o que a meu ver está correcto, pois não foi então que os Reis Magos ofertaram ao Menino o ouro, o incenso e a mirra?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Natal é sempre que um homem quiser? Será. Mas esta é a época para recordar e reviver o espírito natalício. Desejo pois a todos os meus eventuais leitores um Natal de paz e harmonia.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-116638323342329583?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/116638323342329583'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/116638323342329583'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2006/12/natal.html' title='Natal'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-116517454775436325</id><published>2006-12-03T18:18:00.000Z</published><updated>2006-12-03T19:40:16.583Z</updated><title type='text'>Recordações</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;O meu avô paterno, nascido no último quartel do século XIX e tendo cumprido o serviço militar ainda em tempos de Monarquia, foi contudo educado dentro dos mais estritos preceitos republicanos, políticos e éticos. Homem do seu tempo não logrou escapar ao anti-clericalismo que enformava a propaganda republicana, anti-clericalismo que transparecia em algumas das histórias que me contava e que eu escutava com tanto encanto e delícia. Dessas histórias recordo uma, de sabor popular e colorida com vocábulos de sonoridades raras e extravagantes, de que particularmente gostava.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Vou contar-vo-la:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Um pobre rapaz, órfão e sem amparo, procurou trabalho junto do padre- cura da vila que o aceitou e logo o industriou nos seus afazeres e no novo vocabulário que deveria passar a usar portas adentro. E assim perguntou-lhe:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Que trago eu calçado?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-As botas, senhor padre-cura!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Não, idiota, são os bonifrates.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-E que tenho nos pés? (o padre-cura calçava meias vermelhas, como era então de tom os padres calçarem.)&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-São as meias!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Não palerma, são as titrenitas. E como se chama a senhora que comigo vive? (a alusão ao estado de mancebia em que viviam à época muitos membros do clero haveria de estar presente.)&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Chama-se Aldegundes, padre-cura.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Não, campaniço, chama-se Liquitates. (campaniço era para o meu avô palavra singularmente ofensiva pois que nado e criado na vila.) E quem sou eu?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-É o senhor padre-cura.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;- Não, paspalhão, sou o papa-cristos. E como se chama esse animal? - perguntou, apontando o gato.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-É um gato.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Não, imbecil, é o papa-ratos. E como se chama isto que eu tenho na mão?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-É uma vara.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Não, grande parvo, é a ciência. E como se chama aquilo?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O padre vivia em casa ampla, com uma grande chaminé onde dependurados estavam dezenas e dezenas de lustrosos chouriços e linguiças que, gulosos, fitavam o rapaz a quem uma fome cruel e eterna atormentava, sempre de barriga a dar horas.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-São chouriços e linguiças.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Não, grande estúpido, são os padres-eternos e as almas-santas.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Depois de assim industriado lá começou a trabalhar para o senhor padre-cura. Mas o passadio era mau e os maus tratos eram muitos e quando chegou o Inverno deram-lhe só uma saca com que se tapar. E mesmo dormindo junto ao borralho o frio era tanto que o não deixava pregar olho.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Padre-cura, tenho frio! - bradava-lhe o rapaz.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Onde tens a saca?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Tenho-a em baixo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Pois põe-na em cima.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Padre-cura, tenho frio! - de novo lhe gritava.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Onde tens a saca?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Tenho-a em cima.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Pois põe-na debaixo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Farto daquele viver o rapaz, uma dada noite, encheu a saca de linguiças, pregou uma varada no rabo do anafado gato, que abalou soltando miados que era mesmo um dó de alma, e gritou para o padre-cura:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Levanta-te, ó papa-cristos, dos braços da Liquitates, e vai acudir ao papa-ratos que leva a ciência no rabo, e fica-te com os padres-eternos que eu cá levo as almas-santas.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E abalou para nunca mais voltar.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Em tempos de escola primária, como então se dizia, era obrigado a assistir à missa dominical a que se seguia, depois do almoço, a catequese, sob pena de ficar sem recreio toda a semana. Ao anti-clericalismo da Primeira República, e que tão nefasto lhe foi, seguia-se o ensino religioso e doutrinário do Estado Novo. Acabei assim beneficiário de duas influências. O intenso debate que desde o século XVIII, o século das Luzes, afrontou o sagrado e o profano, o laicismo e a religiosidade, permite-nos hoje um olhar sereno e desapaixonado perantes tais realidades, com guerras e ódios à mistura ultrapassámos a dicotomia. Será este o grande debate civilizacional que o mundo muçulmano algum dia terá que fazer.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-116517454775436325?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/116517454775436325'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/116517454775436325'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2006/12/recordaes.html' title='Recordações'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-116456767573935475</id><published>2006-11-26T17:50:00.000Z</published><updated>2006-11-26T19:02:41.780Z</updated><title type='text'>Açordas</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Hoje vou falar-vos de açordas.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Quando, em meados de Setembro, o Verão cede lugar ao tempo outonal, com os dias minguando e as garridas cores estivais desmaiam em tons de pastel e sépia, quando a paisagem lembra uma gravura já velha que o tempo desbotou e as primeiras aragens frescas anunciam as primeiras águas, eis que é chegado o tempo das açordas.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E porque é assim? Porque é quando elas apetecem. Porque é um prato dos tempos frios tanto quanto o gaspacho o é dos tempos quentes. A cozinha tradicional tem destas coisas, tem vagares e tem tempos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Se elegéssemos o mais típico prato alentejano eu nem pensaria duas vezes; elegia decerto a açorda. Ela tem tudo aquilo que a identifica com a província: tem o pão, tem o azeite, tem as ervas aromáticas, o coentro e o poejo, tem a simplicidade e a rusticidade próprias do indígena e tem uma tão perfeita conjugação de sabores que só uma sapiência culinária caldeada por séculos de experimentações poderia encontrar; tem pois a genialidade dos nossos cantares e da nossa arquitectura populares, o saber e a cultura depurados por gerações que muito viram e muito ouviram. Mas ela é também, na sua humildade, símbolo de uma pobreza ancestral e lição prática de como a necessidade sempre aguça o engenho: com tão parcos meios fazer um prato tão oloroso e sápido é obra.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Hoje fazêmo-la mais rica, embora os tempos em que comê-la de ovos já era um pau por um olho não vão assim tão distantes. E alguns decerto que a continuarão a comer na sua mais extrema e pobre simplicidade, pois que o progresso que lentamente nos foi bafejando, não o de agora que se afigura incerto, tarda em bafejar todos com maior equidade. Mas fazêmo-la mais rica, com bacalhau, com pescada, até há quem lhe junte amêijoas e até camarão, mas confesso que esta última variante não me agrada de todo. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Muitas vezes, em tempos de juventude, as comi de ovo, não como refeição principal mas para confortar o estômago, noite adiante, depois de alguma estúrdia, para desenratar, dizíamos nós.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Devíamos internacionalizar a nossa açorda. Se os italianos internacionalizaram a piza, os alemães o hambúrguer, os espanhóis a &lt;em&gt;paella&lt;/em&gt; e tantos mais exemplos poderíamos dar, pois nós deveríamos internacionalizar a açorda. Provavelmente perderia a sua genuína referência à terra alentejana, como a piza a perdeu relativamente a Nápoles, o hambúrguer a Hamburgo ou a &lt;em&gt;paella&lt;/em&gt; a Valência. A açorda perderia assim cunho regional e ganharia foros de nacionalidade. Mas nós somos generosos. Até porque, creio, iria acabar num qualquer sucedâneo mais ou menos adaptado ao paladar internacional cuja característica mais saliente é não ter paladar nenhum. E quem quisesse comer a genuína, a autêntica, a única, teria que vir até nós.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Conta-se que em tempos da outra senhora, algures no Alentejo, um grupo de dignitários do regime se encontrava em grande almoçarada com os notáveis locais. Depois de bem bebidos e bem comidos alguém lembrou que ali próximo estaria um trabalhador rural com fama de poeta repentista: pois que se chamasse o homem para aquilatar do seu engenho e arte, tanto mais notáveis quanto era analfabeto. Chamado à presença de tão distinta assembleia saiu-se com esta:&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Anda toda esta canalha&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;De banquete p'ra banquete,&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;E quem produz e quem trabalha&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;Come açordas sem azeite.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Escusado será dizer que o sarau de poesia acabou logo ali.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-116456767573935475?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/116456767573935475'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/116456767573935475'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2006/11/aordas.html' title='Açordas'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-116395799609826038</id><published>2006-11-19T16:47:00.000Z</published><updated>2006-11-26T19:46:11.146Z</updated><title type='text'>BLOGS</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Quando principiei este &lt;em&gt;blog&lt;/em&gt; assumi comigo próprio o compromisso de nele publicar um post por semana, isto dentro da medida em que tal me fosse possível. Poderia não ter assunto, poderia simplesmente não me apetecer fazê-lo ou não ter para tal oportunidade, porque para compromissos absolutos bastam-nos aqueles que a vida nos vai entretecendo ao longo dos anos: os familiares, os profissionais e tantos, tantos outros decorrentes de vivermos em comunidade. Em suma, este seria um compromisso apenas pessoal, lato, flexível, despreocupado, sujeito apenas e só aos meus humores, nada que tolhesse com a minha liberdade de fazer o que me desse na real gana, o que incluiria fazer ou não fazer mais um &lt;em&gt;post&lt;/em&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Afinal passamos a vida a fazer aquilo que outros nos mandam fazer. Quando é que somos inteiramente livres? Suponho que o somos apenas no início da nossa existência, enquanto não entramos para a escola, e no final da mesma: primeiro porque protegidos pela inocência e fragilidade dos tenros anos, depois pela quase inimputabilidade que nos é concedida pela nossa qualidade de anciãos diminuídos ou incapazes, quer o estejamos ou não, pois assim somos vistos pelos outros, os activos. Faz muito tempo li uma entrevista com um escritor espanhol, tanto tempo foi que já não sei quem era, em que dizia ele, quando perguntado sobre se se sentia livre, que sim, que nunca tão livre se havia sentido, pois tinha atingido uma tal idade que já nada ambicionava, nem carreira, nem dinheiro, nem estatuto. E não proclamam os seguidores do budismo que é o querer a fonte de todos os males e de toda a infelicidade? Que só o estado de despojamento absoluto, o nirvana, nos concede a liberdade ou, neste caso, a libertação do ciclo do eterno retorno? E não procuravam também os místicos cristãos a total liberdade e o encontro com o divino no despojamento total?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Bem, mas voltemos a realidades mais terrenas e mais comuns aos comuns dos mortais, como é o meu caso. Pois este meu &lt;em&gt;blog&lt;/em&gt; que como pura diversão começou e nessa condição se deverá manter, não escapa de todo à condição compromissória: comigo e com alguns poucos leitores, que entretanto granjeei, que já me têm interpelado quando alguma semana, poucas é certo, deixo de publicar o habitual &lt;em&gt;post&lt;/em&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Acaso isto me desagrada? Obviamente que não, muito humanamente envaidece-me. Certo é que esses leitores não são muitos, mas também não ambiciono ter um blog &lt;em&gt;best-seller&lt;/em&gt;. Mais leitores poderia ter se desse a este blog um carácter diferente, tratando de temas mais apelativos, não sei se me entendem. Não o faço nem o farei: a espuma dos dias, a politiquice, a maledicência, o &lt;em&gt;voieurismo&lt;/em&gt; pseudo-erótico não me interessam de todo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas este fenómeno recente que são os &lt;em&gt;blogs&lt;/em&gt; cresceu de forma exponencial: são milhares no País, são milhões por esse mundo fora. Tantos são e tal importância assumiram como meio de comunicação que começam a ser objecto de estudo e tese. Neles se encontra de tudo como em qualquer quiosque de jornais, como dizia Pacheco Pereira em  interessante artigo publicado recentemente no jornal "Público".&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E como tudo o que é novo e tem um carácter eminentemente democrático não deixam também de colher o repúdio de alguns eruditos, elitistas e encartados intelectuais da nossa praça, tal como o foi o cinema nos seus primórdios, encarado como mero entretenimento de feira.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Tenho para mim que a haver blogs em tempos do salazarismo este não teria durado tanto tempo. Quem e como se controlaria então a liberdade de expressão, quem e como se controlaria então a publicação livre da livre opinião pública?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Eu por mim irei continuar a escrever no meu blog enquanto tal me der prazer.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-116395799609826038?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/116395799609826038'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/116395799609826038'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2006/11/blogs.html' title='BLOGS'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-116336207306529008</id><published>2006-11-12T19:05:00.000Z</published><updated>2006-11-13T10:20:37.193Z</updated><title type='text'>Será Sócrates de Esquerda?</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;José Sócrates é de esquerda? Eis a grande interrogação que perpassa pelo espírito dos portugueses e os inquieta, mormente daqueles que nele votaram. Pois não é e nem sequer disfarça. É vê-lo no Congresso que os socialistas celebram em Santarém. Acaso já o viram, nas imagens que as televisões nos têm dado, de punho esquerdo no ar dando vivas ao seu Partido? Eu ainda não. Os delegados, timidamente, lá vão entoando os gritos rituais, de punho erguido, mas o secretário-geral "moita, carrasco". Prefere erguer o polegar em jeito de "tudo bem", "tudo fixe, meu". Portanto, Sócrates nem mimeticamente é de esquerda.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Conta-se que alguém se queixava a Willy Brandt de que a juventude alemã era demasiado radical, que não se reconhecia na social-democracia; respondeu este que tal não o preocupava, pois era-se radical aos 18 para se ser social-democrata aos 30, pois se não se é radical em jovem quando é que se será? Pois este homem, José Sócrates, nem na sua juventude foi radical, toda a gente sabe que começou a sua vida política por militar nas juventudes sociais-democratas. Pois se assim foi de que se admiram? É bem verdade que nem todos seguem o périplo preconizado por Brandt; vejam o caso de Durão Barroso, que começou por ser maoísta e acabou no centro-direita. Esse passou à frente das lebres.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E depois não é verdade que Sócrates governa com o aplauso geral da direita? Não é verdade que a oposição de direita vê-se e deseja-se para ser oposição? Que as reformas encetadas por este Governo e que a direita sempre reclamou, nunca por ela poderiam ser feitas por não ter força social para as impôr? Força social e uma boa imprensa, que são coisas de que até agora este Governo desfrutou. Resta saber até quando.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Sinais de esquerda? Poucos e cirúrgicos. Esta investida contra a banca e os seus escandalosos lucros num País em crise profunda caiu que nem sopa no mel, em vésperas de Congresso. Nisto o homem é exímio, tiro-lhe o chapéu.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas estas espertezas duram enquanto duram, duram até que um dia o pessoal se cansa. E quando o pessoal se cansar vai querer mudar de governo. Mas mudar para onde, em que sentido? Se somos governados à direita e a opção que nos resta será votar contra quem nos governa presentemente, que nos governa à direita, vamos votar na institucional direita, aquela sem máscaras? Este vai ser o grande dilema do eleitorado já que o voto nos comunistas, que andam agora em tão más companhias, e é claramente um partido do passado, é um voto sem futuro; só atrai os já convertidos e que votam com a mesma devoção com que um católico se persigna e um muçulmano jejua no Ramadão, isto é, vota porque não votar no glorioso Partido é pecado.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Porque o Partido Socialista vai sair desta governação esfrangalhado, descaracterizado, vazio social e ideologicamente. Claro que outros virão dizer que o P.S. sempre foi de esquerda e num outro Congresso, igualzinho a este, outros delegados dirão que sim e entronizarão entusiasticamente o secretário-geral que se segue. E proporão que se faça exactamente o contrário daquilo que presentemente fazem. Porque tem sido sina dos socialistas fazerem e desfazerem. Aparecem sempre tarde, depois de durante muito tempo, demasiado tempo, preferirem o "nim" ao "sim" ou ao "não". Foram grandes, sob a batuta de Mário Soares, quando foram assertivos e claramente disseram não a aventuras totalitárias nos anos de brasa que se seguiram ao 25 de Abril. A partir daí andaram sempre mais ou menos "às aranhas".&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Repare-se: para a promoção dos professores na carreira havia um obstáculo na passagem do sétimo para o oitavo escalão; havia que realizar um trabalho original, de carácter pedagógico, com um mínimo de 50 páginas, e defendê-lo publicamente perante um júri. Que fez o primeiro governo de Guterres dois ou três meses após tomar posse? Acabou com esta barreira por solicitação insistente dos sindicatos. E com esta e outras semelhantes manteve o "estado de graça" durante mais de quatro anos, com a óbvia cumplicidade, estranhe-se, da livre, isenta e responsável comunicação social. O que fazem agora? Criam uma barreira de obstáculos para impedir a progressão na carreira aos docentes a que, simpaticamente, poderemos chamar de draconiana. Esta é a sina dos socialistas: fazem e desfazem. Acaso saberão o que andam a fazer?&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-116336207306529008?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/116336207306529008'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/116336207306529008'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2006/11/ser-scrates-de-esquerda.html' title='Será Sócrates de Esquerda?'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-116274950568840331</id><published>2006-11-05T16:37:00.000Z</published><updated>2006-11-05T17:58:25.763Z</updated><title type='text'>A Senhora Ministra errou o alvo</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;A Senhora Ministra errou o alvo. Tomou os professores pelos maus da fita e cometeu um erro crasso.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Primeiro: nenhuma reforma positiva será implementada na educação sem o concurso dos professores e muito menos o será com a sua permanente hostilização;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Segundo: o estado caótico a que chegou a educação neste País não é da responsabilidade dos docentes, senhora Ministra, estes são apenas funcionários, não são eles que delineiam as políticas educativas, os verdadeiros responsáveis encontram-se no Ministério, são aqueles que há trinta anos definem quais são essas políticas, são esses que terão que ser julgados. Até se poderia começar esse julgamento pela inefável ex-secretária de Estado Ana Benavente, porque não? A verdade é que o actual descalabro se fica a dever a políticas profundamente erróneas, assentes em pressupostos pedagógicos fantasistas e por tal desligados de toda e qualquer realidade não só pedagógica como sociológica. A aparente bondade de tais políticas, e ao contrário do que seria o seu principal objectivo, em nada tem contribuído para a correcção das assimetrias sociais numa sociedade profundamente injusta como era e continua sendo a sociedade portuguesa, antes tem contribuído para agravá-las;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Terceiro: a Senhora Ministra esquece que nesta equação da política educativa existem não somente os docentes mas também os discentes e seus agregados familiares. E esquece que os tais fantasistas pressupostos pedagógicos têm minado de forma constante a autoridade, sim a autoridade, de que  o professor deve estar investido para bem desempenhar a sua missão: a cultura de escola que se instalou, marcada pela indisciplina, irresponsabilidade e laxismo são um dos principais óbices ao sucesso educativo. E é incrível como, ao longo de todos estes anos, governantes e sindicatos, aqui claramente cúmplices porque formatados pela mesma cartilha pedagógica, ignoraram esta realidade. E porque a realidade não corresponde às suas expectativas ignoram-na ou consideram-na errada, e porque os docentes são parte dessa realidade são eles, agora, Senhora Ministra, o erro, a mancha nefasta dessa realidade.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Senhora Ministra, é necessário restituir a autoridade ao professor, é necessário declarar o espaço escolar como um local de trabalho e auto-responsabilização, não como espaço de práticas lúdicas irresponsáveis. E é necessário, Senhora Ministra, chamar as famílias à co-responsabilização pelo comportamento e assiduidade dos seus educandos. Decerto não ignora que tal prática, iniciada há alguns anos em Inglaterra, teve como imediata consequência uma substancial melhoria do comportamento e assiduidade dos alunos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Quarto: trate os docentes como aliados e parceiros, não como inimigos a abater. As propostas que recentemente vieram ao conhecimento público, como o acabar com as pausas lectivas de Natal, Páscoa e Carnaval, bem como as oito horas de actividades lectivas diárias, não são sérias, Senhora Ministra, são oníricas porque humanamente inexequíveis, traduzem um total desconhecimento das exigências físicas, intelectuais e psicológicas a que o trabalho docente obriga.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E esta consideração remete-nos para uma outra questão, Senhora Ministra, que é a do brutal agravamento das condições para a aposentação. Não se reconhecem especificidades próprias à profissão docente que fazem dela uma profissão de acentuado desgaste e daqui a anos, não muitos, teremos milhares de professores sexagenários incapazes, na sua maioria, de um desempenho digno da profissão e por isso, porque são profissionais honestos, a requerem a aposentação antecipada com as inevitáveis penalizações. A não ser que seja isto mesmo que se pretende, Senhora Ministra, e desse modo se pouparão alguns milhões ao erário público.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Curiosamente, esta questão da aposentação começou por vir quase em nota de rodapé nos comunicados sindicais chegados às escolas, quando se começou a discutir a revisão do Estatuto da carreira. Pois agora desapareceu por completo como objecto de discussão. A frente comum de sindicatos deixou-a cair no olvido. E no entanto, senhores sindicalistas, esta é uma questão que afecta milhares de docentes já no presente e muitos mais afectará no futuro e, devo dizer-vos, não é questão menor pois sempre que falo com colegas acerca da revisão do Estatuto, e faço-o com frequência, como calcularão, essa questão vem à frente de todas as outras. Este olvido ir-vos-á cair em cima, mais depressa do que cuidam, e decerto que a Senhora Ministra vos estará muito grata por tal lapso.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-116274950568840331?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/116274950568840331'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/116274950568840331'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2006/11/senhora-ministra-errou-o-alvo.html' title='A Senhora Ministra errou o alvo'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-116214621714963944</id><published>2006-10-29T17:17:00.000Z</published><updated>2006-10-29T18:28:01.546Z</updated><title type='text'>Escolha o Melhor Português</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Ainda está a tempo de escolher aquele que considera o maior português de todos os tempos, pois a votação decorre até 31 de Outubro.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas que sentido tem votar no maior português de todos os tempos, em mais um passatempo televisivo? Nenhum, a não ser participar em mais um passatempo televisivo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Quem foi o maior de todos os portugueses? Decerto que foi aquele cujas acções maior impacto e mais e maiores consequências positivas tiveram tanto interna como externamente. Este será o princípio. Mas se na listagem proposta nos surgem nomes de fadistas, futebolistas e quejandos já se está a ver no que toda esta paródia poderá dar.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas para votar no maior de todos os portugueses necessário será que aquele que vota tenha sólidos conhecimentos da história pátria e universal para que possa votar em consciência. Está preenchida esta liminar condição? Obviamente não. Ainda há poucos dias, a propósito do feriado de 5 de Outubro, se perguntava, em inquérito televisivo de rua, se os cidadãos passantes sabiam o porquê do feriado. A maioria das respostas revelava a mais crassa ignorância. E é esta gente que vai votar no maior português de todos os tempos? Vou ali e já venho.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E depois o voto será sempre condicionado, para além da ignorância da maioria, pela postura ideológica e cultural de cada um. Se se perguntar a um clérigo qual o maior de todos os portugueses nada me escandaliza que ele responda que foi Santo António. E porque não? Mas já merece o meu protesto que um proeminente político da nossa praça venha a público advogar a causa de Afonso Costa? A que propósito? Será porque um foi e o outro é pedreiro-livre? Não me parece suficiente. Pelo exemplo escolhido dir-se-á que não sou republicano. Sou-o e até sou agnóstico. Sou portanto insuspeito na escolha de tal exemplo, que foi esse porque foi esse que de momento me ocorreu. Mas que a figura de Santo António tem muito maior revelância externa do que Afonso Costa parece-me evidente.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O modelo não é original, já foi testado, que eu saiba, na Grã-Bretanha, ou Inglaterra, não estou certo, e em França: ganharam Churchill e De Gaullel, respectivamente. Foram estes o maior inglês e francês de todos os tempos? Grandes foram-no, decerto, mas os maiores? Perguntar-se-á sempre, sejam eles quais forem.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas há aqui um outro senão e grave: é que aqui não vale um princípio básico de qualquer eleição democrática, que é o de um homem um voto. Nada impede que um qualquer vote tantas vezes quantas queira nem nada obsta a que se constituam sindicatos de voto. Mas que importância tem isso? Nenhuma, trata-se de mero entetenimento.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Não irei votar, não estou interessado em participar em entretenimentos pouco sérios. E se votasse votaria num herói que não vem listado, votaria num herói colectivo, aquele que lavrou os campos, embarcou nas caravelas e edificou um império e, quando calhou, pegou em armas para defender o território, que foi quase sempre mal governado por elites cúpidas, estúpidas e dessolidárias e que, mesmo assim, nunca teve estados de alma sobre a sua condição de português, votaria no povo português.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-116214621714963944?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/116214621714963944'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/116214621714963944'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2006/10/escolha-o-melhor-portugus.html' title='Escolha o Melhor Português'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-116093393454277684</id><published>2006-10-15T17:26:00.000+01:00</published><updated>2006-10-15T18:38:54.620+01:00</updated><title type='text'>Ele há muitas maneiras de matar pulgas</title><content type='html'>No passado dia 5 de Outubro o telejornal das 20.00 horas da nossa estação oficial de televisão abria com um sequestro verificado nesse mesmo dia numa agência bancária de Setúbal; e com essa cacha se consumiram largos minutos. Foi esse, nesse dia 5 de Outubro, na opinião daqueles que fazem o alinhamento noticioso do oficioso telejornal, o acontecimento mais candente, mais relevante de quantos aconteceram &lt;em&gt;urbi et orbi.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;E no entanto, nesse dia, comemorava-se mais um aniversário da implantação da República: não iria mal à R.T.P. que, num esforço cívico e pedagógico, aludisse logo no início ao facto histórico, atendendo à crassa ignorância que os portugueses demonstram relativamente aos mais elementares factos da sua História, como tantos inquéritos de rua o demonstram; e no entanto, nesse dia, dia da implantação da República e Dia do Professor, havia-se realizado em Lisboa uma manifestação de professores que foi só a maior de quantas se realizaram no pós-25 de Abril.&lt;br /&gt;Confesso que estive atento à abertura dos noticiários das 20.00 horas das três estações televisivas mais importantes e somente a T.V.I abriu o seu serviço noticioso aludindo à referida manifestação. E apesar de ter feito constantes &lt;em&gt;zappings&lt;/em&gt; à R.T.P. acabei por não ver qualquer referência à manifestação, tão escasso foi o tempo que lhe dedicaram, como no dia seguinte confirmei junto de colegas de profissão.&lt;br /&gt;Um conhecido crítico de televisão comprovou, faz semanas, de cronómetro na mão, que o tempo dedicado à cíclica temática dos incêndios de Verão pela R.T.P era bastante menor do que o dedicado pelas restantes estações televisivas, além de que tais notícias surgiam tarde e a desoras, imersas na longa e fastidiosa novela da irrelevância quotidiana em que se transformaram os telejornais, mormente o da R.T.P.. E sabe-se como tais notícias sobre os incêndios estivais queimam não apenas as matas mas também a reputação dos governantes, incapazes que têm sido, ano após ano, de lhes pôr cobro. Não sei se são os governantes que determinam o alinhamento do serviço noticioso da R.T.P.. Não cometerei o dislate de o afirmar para não me ver nalguma embrulhada jurídica, como aconteceu ao conhecido crítico televisivo, além de que ele tem quem lhe respalde as costas e eu tenho-as nuas. Mas também é verdade que, desde criança, ouço dizer que há muitas maneiras de matar pulgas.&lt;br /&gt;Ainda hoje, dia 15 de Outubro, o serviço noticioso da nossa oficiosa estação televisiva abriu, às 13.00 horas em ponto, com um directo a Vila Flor onde o secretário-geral do Partido Socialista, José Sócrates, note-se, o secretário-geral e não o primeiro-ministro, fazia a apresentação, a militantes, da moção que se propõe levar ao Congresso dos socialistas, a realizar em breve. Mas que coincidência interessante: logo foi às 13.00 horas em ponto que José Sócrates pronunciava aquelas palavras de profundo entusiasmo e optimismo militantes para aquela plateia atenta e reverenciadora; e logo em Vila Flor, que nome tão lindo, vila e sede de concelho do distrito de Bragança (eu também não sabia, fui agora vê-lo a um dicionário enciclopédico).&lt;br /&gt;E assim vai o serviço noticioso da nossa oficiosa R.T.P.. Bem, sempre podemos utilizar o comando à distância e observar o que nos contam as outras estações televisivas (confesso que é o que já faço há algum tempo). Mas o mesmo não podemos fazer a quem nos governa. E como temos que os sofrer por quatro anos pois os mandatos são para cumprir até ao fim, embora a tradição recente tenha apontado no sentido da fuga torpe e irresponsável, seria de esperar um pouco mais de decoro e discrição.&lt;br /&gt;Mas talvez eu esteja a ser injusto relativamente ao alinhamento noticioso hoje verificado na R.T.P.: é verdade que  também foi dito, e logo no início da peça, que José Sócrates havia chegado a Vila Flor na maior das harmonias, não se verificando nas ruas qualquer contestação à sua presença. Decerto que era esta a grande notícia  que justificava plenamente a abertura do serviço noticioso das 13.00 horas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-116093393454277684?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/116093393454277684'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/116093393454277684'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2006/10/ele-h-muitas-maneiras-de-matar-pulgas.html' title='Ele há muitas maneiras de matar pulgas'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-115972771861080078</id><published>2006-10-01T18:15:00.000+01:00</published><updated>2006-10-02T14:10:14.193+01:00</updated><title type='text'>Sob Sequestro</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;A Deutsche Oper, de Berlim, retirou de cartaz a ópera &lt;em&gt;Idomeneu&lt;/em&gt;, de Mozart, por recear ataques de extremistas islâmicos pois que nesta versão, do encenador Hans Neunfels, se inclui uma cena em que, sobre quatro cadeiras, surgem as cabeças decepadas de Buda, Cristo, Maomé e do deus grego do mar, Posídon, cujo equivalente na mitologia romana é o tridentífero Neptuno. Parece que o libreto da ópera não faz qualquer alusão aos valores islâmicos sendo esta cena, portanto, resultado da imaginação criadora do encenador. Em má hora a teve, pelos vistos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O curioso é que, aparentemente, ninguém se terá preocupado com os sentimentos dos cristãos ou dos budistas, pois que quanto ao deus Posídon, velho de mais de dois milénios e por isso com precedência histórica sobre os outros, já não há quem o defenda, remetido que está para o reino da fantasia mitológica.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas que fazer com todas aquelas obras culturais que ao longo dos séculos o Ocidente foi produzindo e onde as referências ao islamismo e seus seguidores são frequentes e pouco abonatórias, quando não claramente ofensivas? Vamos rasurá-las? Vamos pedir desculpa por outros, antes de nós, as haverem produzido? Teremos nós que engendrar um novo Index inquisitorial?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Punhamos nós, portugueses, o caso de &lt;em&gt;Os Lusíadas&lt;/em&gt;, cuja importância identitária será estulto enfatizar, por demais sabida, e onde as referências negativas ao Islão são recorrentes. Vejamos um exemplo, Canto IV, estrofes 100 e 101:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;100&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Não tens junto contigo o Ismaelita,&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Com quem sempre terás guerras sobejas?&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Não segue ele do Arábio a lei maldita,&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Se tu pela de Cristo só pelejas?&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Não tem cidades mil, terra infinita,&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Se terras e riqueza mais desejas?&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Não é ele por armas esforçado, &lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Se queres por vitórias ser louvado?&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;101&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Deixas criar às portas o inimigo,&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Por ires buscar outro de tão longe, &lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Por quem se despovoe o reino antigo,&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Se enfraqueça e se vá deitando a longe.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Buscas o incerto e incógnito perigo&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Por que a fama te exalte e te lisonje,&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Chamando-te senhor, com larga cópia,&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Da Índia, Pérsia, Arábia e Etiópia.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Todos decerto reconhecem aqui a célebre invectiva do &lt;em&gt;Velho do Restelo&lt;/em&gt;, quando a armada do Gama se apresta para zarpar a caminho da Índia. E contudo, à luz dos cânones morais hodiernos, quão politicamente incorrectas são estas estrofes. E bem andaríamos se fosse esta a única referência feita em desabono do Islão. Dê-se o leitor ao trabalho e verá quantas encontra. E então? Será que em algum dia futuro teremos que abjurar de &lt;em&gt;Os Lusíadas&lt;/em&gt; e em nome do Poeta pedirmos desculpa? Será que teremos que editar clandestinamente a epopeia e lê-la no segredo de algum antro, qual clube de poetas mortos, por forma a não ferir a tão susceptível irritabilidade da &lt;em&gt;rua &lt;/em&gt;muçulmana?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Até onde poderão ir as cedências e os pedidos de desculpa? Ele foi o caso das caricaturas, ele foi a aula de sapiência proferida pelo Papa em Ratisbona e ele foi agora, mesmo sem quaisquer protestos ou ameaças, veja-se já o grau de temor e condicionamento, a ópera Idomeneu. E não tenhamos ilusões, amanhã será outro qualquer pretexto, por mais insensato que nos possa parecer. Ainda recentemente se assassinou uma freira na Somália e se queimaram no Cairo efígies em papel do Papa em represália pelas palavras pretensamente ofensivas por ele proferidas. Algum dignitário do mundo islâmico pediu desculpa por tais excessos? Que eu saiba não. E contudo alguém o deveria ter feito.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Diálogo? Decerto. Tolerância e respeito pelos valores alheios? Plenamente de acordo. Mas é fundamental que haja reciprocidade.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Diz o povo que a quem muito se baixa o rabo lhe aparece. E o Ocidente há algum tempo já que anda a mostrá-lo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-115972771861080078?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/115972771861080078'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/115972771861080078'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2006/10/sob-sequestro.html' title='Sob Sequestro'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-115911434399617702</id><published>2006-09-24T16:16:00.000+01:00</published><updated>2006-10-02T14:04:20.160+01:00</updated><title type='text'>Linha de Auxílio ao Professor</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;-Estou! Qual é o seu problema?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Qual é o meu problema? É que acabo de ser agredido por um encarregado de educação!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Calma! Pode dizer-me em que circunstâncias é que ocorreu tal agressão? E que tipo de agressão foi?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Bem, um aluno disse um palavrão em plena aula e eu obriguei-o de imediato a pedir desculpa pelo palavrão, a mim e aos colegas. Como o aluno se recusasse a fazê-lo ordenei-lhe que saísse da sala de aula para o que chamei um auxiliar que o deveria acompanhar até à Biblioteca, como deixei explícito. Pois o aluno não só não acompanhou o funcionário até à Biblioteca como o agrediu verbalmente e saiu da Escola a chamar o encarregado de educação. Quando findei o meu turno de trabalho esperava-me este ao portão da Escola. Depois de me chamar as coisa mais incríveis deu-me um murro que em deixou atordoado.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Agressões verbais, um murro, bem vejo! Mas bem vê, essa é a cultura de que o aluno e o encarregado de educação são portadores. Há que contextualizar as coisas...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Contextualizar!? Mas essa não é a minha cultura nem a cultura de escola. Ou não deveria ser. E é somente isso o que tem para me dizer?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-E que mais quer que lhe diga? Olha que esta!? Olhe, sabe que mais? Ponha gelo que o inchaço logo passa. E passe bem que tenho um outro seu colega em linha.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Estou! Em que lhe posso ser útil?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Uma aluna, cujo comportamento prejudica permanentemente o ambiente de aula e a quem eu, inutilmente, repreendo, acaba de me dizer que se a torno a repreender me fura os pneus do carro e mo risca todo. Um carro que nem um ano tem e que ainda estou a pagar, sabe Deus com que esforço.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Bem, os seus compromissos financeiros, como deverá entender, não nos dizem respeito. Também, só querem "brutas máquinas" e depois queixam-se!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Perdão, está a fazer extrapolações abusivas...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Abusivas? Como se não fosse verdade! Mas afinal qual é o seu problema?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Mas se já lho expliquei...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Olhe, passe a ir de transporte público para a Escola. Ou a pé, que lhe faz bem à saúde.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Do lugar de onde vivo não tenho transportes públicos que me levem até à Escola, e para ir a pé é muito longe. Mas ouça lá, eu desloco-me para a Escola como entender...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Então desloque-se, mas depois não se queixe. A propósito, quantos anos tem?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-48 anos. Mas a que propósito...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-A propósito de que tem idade suficiente para se recordar do velho slogan publicitário que dizia: Bate-chapas e tinta Robbialac põem o carro como novo. Passe muito bem, que tenho outro em linha!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Estou! Há azar?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Há azar? Bem que podia ser mais delicado!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Diga lá o que quer e despache-se!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Estou banzado. Não me basta a indisciplina na Escola. A indisciplina, sim, que os governantes e os sindicatos tardam em reconhecer como um dos principais factores que obstaculizam as aprendizagens e prematuramente desgastam os docentes. E esse não reconhecimento é feito em nome de concepções pedagógicas e sociais que há décadas provam que não funcionam...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Alto lá, alto lá! A malta aqui não faz política. Se quer fazer política escolheu mal o sítio!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Política? Apenas constato factos...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Alto! Alto! Vamos lá ao que interessa! De que se queixa?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Queixo-me de que a indisciplina é tal, numa das minhas turmas, que quando me desloco para a sala de aula onde irei ter os ditos alunos, por vezes tenho que passar pela casa de banho para vomitar, tanta é a contrariedade.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-E já experimentou tomar um anti-vomitório, daqueles que se tomam quando se viaja de barco ou de avião? Pode ser que resulte!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Mas está a brincar comigo ou quê? Se lhe estou a dizer que a indisciplina, a ausência de quaisquer regras mínimas de conduta...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;-Mas qual indisciplina? Então não sabe que a indisciplina e a conflitualidade são próprias da escola moderna? Está-me cá a parecer que se enganou no guichê. O que você está é mal aviada. Olhe, vá queixar-se à DECO!&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-115911434399617702?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/115911434399617702'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/115911434399617702'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2006/09/linha-de-auxlio-ao-professor.html' title='Linha de Auxílio ao Professor'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-115851390240231281</id><published>2006-09-17T17:20:00.000+01:00</published><updated>2006-09-18T10:07:10.146+01:00</updated><title type='text'>Ninguém Sai Ileso</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;De forma cirúrgica têm vindo a lume, a lume exactamente pois que tais novas são bem quentes, os nomes de algumas personalidades ligadas ao meio futebolístico como pretensos implicados no caso "Apito Dourado". E ao mesmo tempo têm-se divulgado algumas transcrições das escutas feitas de conversas mantidas por essas mesmas personalidades, constituindo o teor das conversas a matéria incriminatória.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas que matéria incriminatória? Tenho lido essas transcrições e francamente, as criaturas em causa apenas se têm limitado a pugnar pelas instituições que representam metendo uma &lt;em&gt;cunhazinha&lt;/em&gt;, muito particularmente em relação aos árbitros que hão-de apitar os jogos disputados pelos respectivos clubes. Mas então a &lt;em&gt;cunha&lt;/em&gt; não é uma instituição nacional, interclassista, intergeracional, transversal à sociedade, secular até? Não é ela filha dos tão proclamados &lt;em&gt;brandos costumes &lt;/em&gt;e &lt;em&gt;espírito de desenrascanço nacionais, &lt;/em&gt;matriz do nosso carácter, estruturante da nossa sociedade?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Quem não utiliza a &lt;em&gt;cunha&lt;/em&gt;? Sim, quem? Desde o ministro que quer meter o seu tão promissor rebento no curso de Medicina, comprometido pela odiosa concorrência dos filhos desta nóvel classe média, ambiciosa e arrivista, até ao humilde funcionário autárquico que procura, em desespero, emprego para um seu familiar e que por isso, bajula, em vésperas de concurso público, o vereador que ele cuida mais susceptível de atender ao seu pedido. E poderíamos encher páginas com exemplos semelhantes.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E a que é que se resume, na sua maior parte, a militância partidária, muito particularmente a vivência das juventudes partidárias? Preparam-se aí as futuras gerações para o acto de governação pública? Ora, ora, bem sabe o meu eventual leitor para quê. Recorda-se decerto daquela frase assassina proferida por esse homem fatal, António Guterres, o célebre &lt;em&gt;no jobs for the boys. &lt;/em&gt;E como é que se criam e se mantêm as clientelas partidárias? Escuso de pôr mais na carta.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas é tudo isto novo? Não é, é velho e revelho. Leia-se Camilo, leia-se Eça, este fado está lá todo descrito. Foi assim na monarquia constitucional, e foi-o antes, foi assim na 1ª República, foi assim na Ditadura, é-o agora em Democracia. O Portugal velho, profundo, castiço, persiste contra ventos e marés, revoluções e mudanças de regime. Claro que tudo isto tem um preço e um preço elevado: a mesquinhez no relacionamento pessoal, a ausência de mobilidade social, a inexistência de uma prática meritocrática e, consequentemente, a incompetência, a falta de espírito profissional, e esta pobreza ancestral que nos tem marcado e nos marca. Ainda agora assistimos ao descolar dos novos aderentes à União Europeia, enquanto nós nos quedamos pela cauda com um crescimento económico ridículo face a todos eles.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Por tudo isto me causa alguma estranheza a náusea com que alguns dos nossos mediáticos comentadores olham e comentam o caso "Apito Dourado". Afinal ele traduz-se apenas no ténue levantar de uma pontinha do tapete para onde, colectivamente, varremos a porcaria. Que a um alienígena, recentemente chegado, e a quem, às primeiras impressões de formalismo e normalidade das ruas e instituições, mostrássemos, sem contemplações, o outro lado, aquilo que todos nós sabemos, admitir-se-ia essa atitude de profundo espanto e repugância. Mas ao indígena, e ainda por cima bem informado, essa atitude de donzela ofendida, tapando pudicamente o nariz com os seus dedinhos, é apenas e só hipocrisia.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-115851390240231281?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/115851390240231281'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/115851390240231281'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2006/09/ningum-sai-ileso.html' title='Ninguém Sai Ileso'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-115790802991415317</id><published>2006-09-10T17:15:00.000+01:00</published><updated>2006-09-10T18:19:00.913+01:00</updated><title type='text'>Caminhos de Ferro</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Após mais que uma secular ligação directa de Beja à capital através do caminho de ferro eis que se perspectiva a perda dessa ligação, adivinhe-se a favor de quem? De Évora, obviamente. Será agora esta putativa capital do Alentejo que, através do seu ramal, objecto de recentes melhoramentos, irá beneficiar dessa ligação directa sendo que aqueles que de Beja se dirijam a Lisboa terão de fazer transbordo na Casa Branca, exactamente o inverso do que ocorria até agora, isto é, quem se dirigia de ou para Évora é que fazia o transbordo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E eis como o ramal suplantou a via principal. Ramal será agora a via férrea que de Casa Branca se estende até Beja. Provavelmente passámos a contar com o ramal férreo mais comprido do mundo.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E assim, paulatinamente, nos vamos afogando nesta fatal e vil tristeza: perda de valências administrativas, perda de importância económica, uma como que ilha que mais e mais se vai isolando e afastando do todo nacional.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O IP8 continua a ser uma miragem, apesar das promessas sempre renovadas dos nossos deputados socialistas, a abertura do aeroporto para fins civis teima em não ultrapassar o seu actual estádio de novela grotesca e desse outro pilar dito estruturante para o desenvolvimento da região, o porto de Sines, teimam os &lt;em&gt;media &lt;/em&gt;em trazer-nos notícias quase sempre pouco animadoras quanto ao seu relançamento.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Há poucos dias, devido ao encerramento de uma maternidade, as gentes de Mirandela vieram para as ruas e para as estradas manifestar o seu descontentamento. Provavelmente nada conseguirão com tal protesto, mas demonstram aos poderes instituídos que não aceitam de forma passiva todos e quaisquer ditames e provavelmente terão conseguido que em futuras decisões que à região digam respeito esses mesmos poderes ponderem melhor as suas decisões. Não proponho que imitemos esses gestos tremendistas e sempre dramáticos das gentes do Norte, mas afirmo que esta nossa habitual passividade conduz a que não nos respeitem e que connosco se permitam "brincar". Pois não será estranho que as ditas forças vivas da região, perante tantas adversidades impostas, que não naturais, não reajam de forma indignada? De que estamos à espera? Que se apiedem de nós? Hoje, em dias de impiedosa competitividade entre estados, regiões e cidades? Não perguntemos que papel nos reservará neste novo mundo que ora se constrói o poder central, os outros, perguntemo-nos que perspectiva temos sobre esse papel que nos propunhamos desempenhar. Mas onde estão essas elites capazes de apontar caminhos, capazes de reivindicar, de nos dar respeitabilidade? Onde estão que não as vislumbramos?&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Entretanto Évora vai fazendo o seu caminho. Para os mais distraídos lembro que os socialistas, que por ora nos governam, se preparam para, em breve, aí realizarem o seu Congresso Nacional. Imaginam tal evento a ocorrer entre nós? Nem eu.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Não é que nos importemos muito com isso nem que tal nos faça falta. Mas é que tal acontecimento, ocorrendo em Évora, se traduz num reconhecimento político, e consequentemente social, económico, cultural e o mais que queiram, que a nós nos é claramente recusado.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-115790802991415317?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/115790802991415317'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/115790802991415317'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2006/09/caminhos-de-ferro.html' title='Caminhos de Ferro'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-115740596284465763</id><published>2006-09-04T22:02:00.000+01:00</published><updated>2006-09-04T22:39:23.716+01:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;M&lt;/em&gt;&lt;span style="font-family:arial;"&gt;&lt;em&gt;anuais&lt;/em&gt; Escolares&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;Do 1º ao 12º ano o sistema de ensino português tem 2701 manuais escolares. Quem garante a qualidade pedagógica e científica neste vasto oceano de manuais? Nada nem ninguém. É certo que os professores dos grupos disciplinares se reúnem quando é chegada a altura de escolher os respectivos manuais e entre os muitos que à escola e a eles próprios foram enviados, pressurosamente, pelas editoras, lá elegem um. E eis como surge algum critério de selectividade, insuficiente e a jusante de todo o processo, quando a selecção deveria ser feita a montante, antes do envio desses manuais para as escolas e para os professores.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;E no entanto desde 1990 que a lei obriga a uma prévia certificação da qualidade dos manuais adoptados pelas escolas. E porque nunca foi tal lei posta em execução? No seguimento de uma queixa apresentada por um encarregado de educação ao provedor de Justiça, a equipa ministerial, chefiada à altura por David Justino, justificou tal com a alegação de que &lt;em&gt;"a constituição de comissões representativas, isentas e competentes para avaliar os manuais escolares que circulam no mercado se torna uma tarefa quase impraticável, morosa e de custos financeiros insuportáveis"&lt;/em&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;Perante tal demonstração de incapacidade dos governantes anteriores eis que a actual equipa ministerial já fez publicar em &lt;em&gt;Diário da República&lt;/em&gt; uma lei que obriga à certificação dos manuais a partir do ano lectivo de 2008/09. Esperemos que desta vez não se fiquem os governantes pelas boas intenções e consigam vencer os obstáculos intransponíveis perante os quais os anteriores se revelaram impotentes.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;Mas talvez que os verdadeiros obstáculos à implementação de tal lei não residam particularmente nos motivos invocados pela anterior equipa de David Justino e sim nos chorudos interesses económicos que giram em torno do livro escolar. Por isso já a Associação Portuguesa de Editores e LIvreiros veio alertar para a possibilidade do aumento do preço do livro escolar se tal medida for avante.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;Só que a "mão invísivel do mercado" não garantiu, até hoje, um preço acessível desses manuais nem sequer a sua qualidade, sendo que alguns são inadequados de um ponto de vista pedagógico e apresentam clamorosos erros científicos. E isto sei-o eu por experiência própria, dada a minha actividade profissional. E se ao Ministério da Educação não cabe a função produtora de tais manuais, cabe-lhe certamente a certificação da sua qualidade e da sua adequação aos objectivos definidos para o sistema nacional de ensino.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;Sejamos claros: ao conteúdo prefere-se a forma. Daí que os manuais apresentem um aspecto tão atraente de um ponto de vista estético, com a utilização de tipos de papel caro e pesado. Pesado, sim. Os manuais, e o demais material, que o aluno se vê compelido a levar para as actividades lectivas representam um peso excessivo passível de lhe provocar mazelas. Que adulto aceitaria deslocar-se diariamente para o seu local de trabalho carregando às costas 15 quilos, exactamente o peso das ferramentas necessárias à execução das suas tarefas? As nossas crianças e adolescentes não transportarão 15 quilos mas numa relação de grandeza com o peso de um adulto cuido não errar por muito.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;Parece que tal realidade já despertou a atenção nalguns países, nomeadamente em Itália. Esperemos que tal desperte também entre nós algum interesse. Estou certo de que alguns estudos feitos relativamente ao acima enunciado se revelariam interessantes e de conclusões pouco agradáveis.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;E é possível e desejável que o manual escolar seja feito em papel de tipo mais leve, diminuindo em muito o peso que os nossos alunos se vêem compelidos a transportar para a escola. Perderá o livro em cor, brilho, atracção visual, mas o livro escolar deverá valer mais pelo conteúdo e menos pela forma, pese embora haver quem considere que a dignidade do livro escolar seja a mesma de um sabonete ou de um refrigerante.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Arial;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-115740596284465763?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/115740596284465763'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/115740596284465763'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2006/09/manuais-escolares-do-1-ao-12-ano-o.html' title=''/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-115530704815887152</id><published>2006-08-11T15:37:00.000+01:00</published><updated>2006-08-11T15:37:28.276+01:00</updated><title type='text'>A Todos o Meu Obrigado</title><content type='html'>Este blog vai de f&amp;eacute;rias at&amp;eacute; final do corrente m&amp;ecirc;s. A todos os que me t&amp;ecirc;m honrado com a sua visita, e na esperan&amp;ccedil;a de que tais visitas se possam  renovar de futuro, o meu muito obrigado.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-115530704815887152?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/115530704815887152'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/115530704815887152'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2006/08/todos-o-meu-obrigado.html' title='A Todos o Meu Obrigado'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-115489132796651528</id><published>2006-08-06T20:08:00.000+01:00</published><updated>2006-08-06T20:09:58.333+01:00</updated><title type='text'>Antitabagismo Primário</title><content type='html'>A história conta-se em poucas palavras: uma empresa irlandesa, num anúncio de emprego informava que "Se for fumador não se incomode em responder"; logo a legitimidade de tal anúncio foi questionada por uma senhora eurodeputada britânica, Catherine Stihler, a quem foi respondido pelo senhor Vladimir Spidla, comissário europeu do Emprego e Assuntos Sociais que tal anúncio não violava nenhuma lei pois que " A legislação antidiscriminação europeia proíbe a discriminação no emprego e noutras áreas com base na raça ou etnia, numa deficiência, na idade, na orientação sexual, na religião ou crenças". Pelo que, segundo o douto comissário, recusar emprego a um fumador é algo de perfeitamente aceitável, por não se enquadrar em nenhuma das situações acima mencionadas.&lt;br /&gt;Resposta típica de um burocrata de antolhos a quem falta qualquer bom senso.&lt;br /&gt;A legislação europeia antidiscriminação também não prevê milhentas outras situações que nós, num exercício lúdico, poderíamos elencar: por exemplo e porque não os comedores de passarinhos fritos? Ou de jaquinzinhos? E os pescadores que pescam com isco vivo? E os caçadores? E os que frequentam touradas? E os que coleccionam coisas mais excêntricas como caixas de fósforos, pacotes de açúcar, cintas de charutos e tantas outras coisas? E os solitários? E os altos, os baixos, os gordo, os magros, os feios, os que tomam bica, os que bebem imperiais, os que têm mau hálito, os que não gostam de futebol, os que detestam telenovela, os que não gostam do José Cid?...&lt;br /&gt;Acrescente outros, se lhe der no goto.&lt;br /&gt;A situação é de tal modo caricata que de facto nos dá vontade de brincar em torno dela, numa primeira fase, para nos preocupar numa segunda. É que a perseguição, a cruzada, que se tem movido contra os fumadores vem assumindo aspectos perfeitamente execráveis. Compreende-se que os fumadores não incomodem e prejudiquem os outros com o seu nefando vício: por isso, e cada vez mais, é proibido fumar em recintos fechados e nos locais de trabalho, reservando a esses pobres de espírito locais onde possam satisfazer o seu pecaminoso vício. Mas daí a discriminar alguém no mundo laboral por ser fumador e um dos burocratas que nos governam a partir de Bruxelas achar isso a coisa mais natural do mundo, é demais.&lt;br /&gt;Há algum tempo contraí um empréstimo bancário, coisa de pouca monta, o que não evitou o ter que responder a um exaustivo questionário sobre as minhas capacidades físicas e mentais e onde me perguntavam, inclusive, não apenas se fumava mas quantos cigarros fumava por dia.&lt;br /&gt;Devo confessar-vos que entretanto fiz uma pausa neste escrito e fui fumar um cigarro.&lt;br /&gt;Mas que tinha a instituição bancária a ver com os cigarros que eu fume ou deixe de fumar por dia? E que tem o patrão a ver com o facto de o seu empregado cultivar os seus pequenos vícios e prazeres? Que tem que ele, para melhor lhe esquecer a cara e o baixo salário, vá ao bar mais próximo, depois de mais uma jornada de trabalho, beber uma imperial com os amigos e fumar um cigarro?&lt;br /&gt;Segundo a tal empresa irlandesa o justificativo para o seu bizarro anúncio é que os fumadores são, pasme-se, anti-sociais e têm mais baixas médicas. Estamos pois no reino do mais feroz economicismo. Deves zelar pela tua saúde, abandonar práticas que te prejudiquem no teu rendimento laboral, pois há que produzir mais e mais e sempre mais. Se é para isso já têm os robôs, para que querem pessoas, seres humanos?&lt;br /&gt;E eu, que sou professor, o que me sucederá? Dir-me-ão, um destes dias, que ou deixo o cigarro ou deixo a profissão por ser um péssimo exemplo para os jovens de cujo ensino sou responsável? Ou dir-se-á ao candidato a professor que se é fumador nem valerá a pena fazer a sua candidatura?&lt;br /&gt;Mas afinal o que se pretende? Ter um mundo de seres uniformizados, padronizados, iguais, monotonamente iguais, sem vícios, impolutos, bacteriologicamente e eticamente puros, obedientes e zelosos cumpridores dos padrões de conduta que uns quantos fariseus da nova religião do economicismo e do politicamente correcto nos querem impor? Se assim é, e parece que é, será bom que nos precavamos. É que isto tem um nome, chama-se fascismo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-115489132796651528?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/115489132796651528'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/115489132796651528'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2006/08/antitabagismo-primrio_06.html' title='&lt;b&gt;Antitabagismo Prim&amp;aacute;rio&lt;/b&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-115489117959858363</id><published>2006-08-06T20:06:00.000+01:00</published><updated>2006-08-06T20:06:19.603+01:00</updated><title type='text'>O Fiel Amigo</title><content type='html'>&lt;br /&gt;Chega o Ver&amp;atilde;o e eis que o bairro onde habito ganha novos habitantes: c&amp;atilde;es abandonados que aqui v&amp;ecirc;m parar, possivelmente porque o bairro &amp;eacute; exc&amp;ecirc;ntrico e tranquilo, possivelmente porque confina com o campo, possivelmente porque aqui sempre h&amp;aacute; umas almas caridosas que os v&amp;atilde;o alimentado e dessedentando, possivelmente por tudo isto.&lt;br /&gt;Ele h&amp;aacute; duas &amp;eacute;pocas cr&amp;iacute;ticas para que os c&amp;atilde;es por aqui apare&amp;ccedil;am e que s&amp;atilde;o o in&amp;iacute;cio do per&amp;iacute;odo de f&amp;eacute;rias e o per&amp;iacute;odo de abertura da ca&amp;ccedil;a. Levar o c&amp;atilde;o de f&amp;eacute;rias &amp;eacute; um grande transtorno e uma grande trabalheira: o c&amp;atilde;o n&amp;atilde;o pode ir &amp;agrave; praia, o c&amp;atilde;o n&amp;atilde;o &amp;eacute; consentido em restaurantes, discotecas e estabelecimentos similares, o c&amp;atilde;o &amp;eacute; um trambolho que s&amp;oacute; atrapalha. Lev&amp;aacute;-lo para um desses hot&amp;eacute;is ditos de c&amp;atilde;es onde o recolham por alguns dias? Custa dinheiro. O melhor mesmo &amp;eacute; larg&amp;aacute;-lo no meio da rua. Mas esse sentimento de abandono &amp;eacute; sentido pelo c&amp;atilde;o de uma forma profunda, n&amp;atilde;o direi que o sinta como um dos nossos filhos o sentiria se assim fosse abandonado, mas um c&amp;atilde;o n&amp;atilde;o &amp;eacute; de todo destitu&amp;iacute;do de sentimentos. E o c&amp;atilde;o assim abandonado pode ocasionar um acidente, pode atacar um pacato transeunte, qui&amp;ccedil;&amp;aacute; uma crian&amp;ccedil;a, o c&amp;atilde;o vai inevitavelmente conspurcar as ruas com os seus dejectos, o c&amp;atilde;o pode tornar-se nocivo para a sa&amp;uacute;de p&amp;uacute;blica. Que importa isso &amp;agrave;quele que at&amp;eacute; ontem foi seu dono? Aparentemente nada. E depois se calhar o c&amp;atilde;o j&amp;aacute; est&amp;aacute; velho, at&amp;eacute; j&amp;aacute; consumiu alguns euros no veterin&amp;aacute;rio, por isso a melhor solu&amp;ccedil;&amp;atilde;o &amp;eacute; mesmo abandon&amp;aacute;-lo.&lt;br /&gt;Quanto ao per&amp;iacute;odo de ca&amp;ccedil;a essa &amp;eacute; outra hist&amp;oacute;ria: o c&amp;atilde;o &amp;eacute; testado mas n&amp;atilde;o provou, fugiu aos primeiros tiros, &amp;eacute; um merdoso que s&amp;oacute; servir&amp;aacute; para comer e dormir. Destino? Um de dois: ou leva j&amp;aacute; ali um tiro em pleno campo ou ent&amp;atilde;o abandona-se &amp;agrave; sua sorte.&lt;br /&gt;Existe na cidade uma organiza&amp;ccedil;&amp;atilde;o chamada "Cantinho dos Animais" que recolhe e cuida de muitos destes "fi&amp;eacute;is amigos" abandonados, e procura quem os adopte. Mas, claro, luta com dificuldades econ&amp;oacute;micas para alimentar e tratar a mais de uma centena de c&amp;atilde;es que tem a seu cargo, ainda que os seus membros trabalhem em regime de voluntariado e nada recebam em troca do seu of&amp;iacute;cio. E &amp;eacute; assim que alguns, poucos, l&amp;aacute; v&amp;atilde;o tentando remediar os males ocasionados por os muitos energ&amp;uacute;menos que habitam este pa&amp;iacute;s e o fazem parecer muitas vezes um lugar muito mal frequentado.&lt;br /&gt;Diz-se que uma das formas de aquilatar do grau de civilidade de uma popula&amp;ccedil;&amp;atilde;o, de um pa&amp;iacute;s, &amp;eacute; atrav&amp;eacute;s da forma como trata os seus animais. Pois se j&amp;aacute; ficamos mal em tantos par&amp;acirc;metros de civilidade neste n&amp;atilde;o ficamos melhor.&lt;br /&gt;Perguntava eu esta manh&amp;atilde; a um vizinho porque n&amp;atilde;o s&amp;atilde;o penalizados aqueles que assim procedem, pois a lei tipifica como conden&amp;aacute;vel os maus tratos infligidos aos animais. Respondeu-me ele:&lt;br /&gt;-E quem &amp;eacute; que os vai penalizar?&lt;br /&gt;E &amp;eacute; assim. Instalou-se um sentimento de total impunidade e irresponsabilidade pois n&amp;atilde;o h&amp;aacute; autoridade que nos valha na preven&amp;ccedil;&amp;atilde;o e penaliza&amp;ccedil;&amp;atilde;o das pr&amp;aacute;ticas mais aberrantes e conden&amp;aacute;veis.&lt;br /&gt;A prop&amp;oacute;sito, ouvi h&amp;aacute; poucos dias, na televis&amp;atilde;o, que n&amp;atilde;o sei que institui&amp;ccedil;&amp;atilde;o oficial iria iniciar mais uma campanha de sensibiliza&amp;ccedil;&amp;atilde;o no tocante ao abandono dos animais. &amp;Agrave; falta de autoridade contrap&amp;otilde;e-se assim mais uma piedosa campanha de sensibiliza&amp;ccedil;&amp;atilde;o que inculque melhores pr&amp;aacute;ticas nas cabe&amp;ccedil;as duras e irrespons&amp;aacute;veis de muitos. Ter&amp;aacute; o efeito pr&amp;aacute;tico de muitas outras campanhas de sensibiliza&amp;ccedil;&amp;atilde;o, coisa em que somos f&amp;eacute;rteis, como aquelas que t&amp;ecirc;m sido feitas, &amp;agrave;s dezenas, sobre seguran&amp;ccedil;a rodovi&amp;aacute;ria sem que deixemos de ser os campe&amp;otilde;es europeus de sinistralidade rodovi&amp;aacute;ria, muitos anos e muitas campanhas de sensibiliza&amp;ccedil;&amp;atilde;o depois.&lt;br /&gt;Assim n&amp;atilde;o vamos l&amp;aacute;!&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-115489117959858363?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/115489117959858363'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/115489117959858363'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2006/08/o-fiel-amigo.html' title='&lt;b&gt;O Fiel Amigo&lt;/b&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-115298792119277996</id><published>2006-07-15T19:25:00.000+01:00</published><updated>2006-07-15T19:25:21.546+01:00</updated><title type='text'>Prudência e Caldos de Galinha nunca fizeram Mal a Ninguém</title><content type='html'>&lt;br /&gt;H&amp;aacute; dias, poucos, foi not&amp;iacute;cia de telejornal um jantar, ou almo&amp;ccedil;o, para o caso tanto faz, que reunia o senhor Pinto da Costa, presidente do F.C.P. e oitenta deputados. Motivo do almo&amp;ccedil;o? Todos os oitenta deputados eram "drag&amp;otilde;es". E l&amp;aacute; surgiam os deputados, n&amp;atilde;o sei se os oitenta, rodeando o senhor Pinto da Costa que, aproveitando o ensejo para mais uns momentos de gl&amp;oacute;ria televisiva, respondeu &amp;agrave;s perguntas do sol&amp;iacute;cito entrevistador naquele seu estilo piad&amp;eacute;tico a que j&amp;aacute; nos habituou. H&amp;aacute; quem n&amp;atilde;o lhe ache de todo piada nenhuma, como &amp;eacute; o meu caso, de facto n&amp;atilde;o consigo encontrar ponta de humor em chala&amp;ccedil;as pesadas, provocat&amp;oacute;rias e bastas vezes mal-intencionadas, mas n&amp;atilde;o era esse o sentir dos senhores deputados que ouviam e soltavam sonorosas gargalhadas.&lt;br /&gt;E depois? N&amp;atilde;o ter&amp;atilde;o os senhores deputados o direito de cultivarem as amizades que muito bem entendam? Decerto, mas mais como cidad&amp;atilde;os do que como deputados. E n&amp;atilde;o ter&amp;atilde;o direito a ter as suas op&amp;ccedil;&amp;otilde;es club&amp;iacute;sticas? Incontestavelmente.&lt;br /&gt;Ent&amp;atilde;o? Ent&amp;atilde;o &amp;eacute; que os senhores deputados enquanto tais n&amp;atilde;o s&amp;atilde;o cidad&amp;atilde;os comuns, s&amp;atilde;o os representantes do povo que neles delegou, pelo voto, a capacidade de o representarem, integram um &amp;oacute;rg&amp;atilde;o de soberania, a Assembleia da Rep&amp;uacute;blica, um dos esteios do regime democr&amp;aacute;tico a quem incumbe, entre outras coisas, fazer as leis que nos regem e fiscalizar os actos do governo e que, al&amp;eacute;m disso, devem ter uma imagem de idoneidade e respeitabilidade irrepreens&amp;iacute;veis, embora suponha que esta &amp;uacute;ltima qualidade n&amp;atilde;o se encontre escrita. Mas se n&amp;atilde;o est&amp;aacute; decorre ela da &amp;eacute;tica da presta&amp;ccedil;&amp;atilde;o de um servi&amp;ccedil;o p&amp;uacute;blico de t&amp;atilde;o grande relev&amp;acirc;ncia como o &amp;eacute; ser-se deputado. J&amp;aacute; vos vejo sorrir. Mas se esta &amp;eacute; a imagem ideal e que, como tal, n&amp;atilde;o corresponder&amp;aacute; de todo &amp;agrave; realidade, nem por isso os detentores do cargo de deputado se eximir&amp;atilde;o &amp;agrave; responsabilidade que t&amp;ecirc;m de em todos os seus actos p&amp;uacute;blicos prosseguirem este desiderato. E este repasto com o senhor Pinto da Costa foi um acto p&amp;uacute;blico pois foi assim que a televis&amp;atilde;o no-lo mostrou.&lt;br /&gt;Mas onde &amp;eacute; que eu quero chegar? A isto: faz muito tempo que comentadores pol&amp;iacute;ticos e at&amp;eacute; agentes da coisa p&amp;uacute;blica, e de v&amp;aacute;rios quadrantes, v&amp;ecirc;m denunciando eventuais con&amp;uacute;bios, menos l&amp;iacute;citos, entre o poder pol&amp;iacute;tico, o futebol e os interesses econ&amp;oacute;micos. At&amp;eacute; ao presente, &amp;eacute; verdade, sem grandes resultados. E se esta suspeita existe seria de bom tom que os agentes desta trindade aparentassem, ao menos, uma imagem p&amp;uacute;blica de que entre eles h&amp;aacute; um separar de &amp;aacute;guas. Por respeito para com eles pr&amp;oacute;prios e por respeito para connosco. Ora cerim&amp;oacute;nias como aquela que a televis&amp;atilde;o nos mostrou em nada nos tranquilizam.&lt;br /&gt;Senhores deputados, almocem, jantem, com o senhor Pinto da Costa ou com quem vos der na real gana, mas sejam discretos e fa&amp;ccedil;am-no, se poss&amp;iacute;vel, na condi&amp;ccedil;&amp;atilde;o de simples cidad&amp;atilde;os. Algu&amp;eacute;m disse que em pol&amp;iacute;tica aquilo que parece &amp;eacute;.&lt;br /&gt;Para que n&amp;atilde;o nos fique aquela imagem de os senhores deputados irem almo&amp;ccedil;ar com o senhor Pinto da Costa, em grupo folgaz&amp;atilde;o, como &lt;i&gt;good fellows&lt;/i&gt;.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-115298792119277996?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/115298792119277996'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/115298792119277996'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2006/07/prudm.html' title='&lt;b&gt;Prud&amp;ecirc;ncia e Caldos de Galinha nunca fizeram Mal a Ningu&amp;eacute;m&lt;/b&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-115125381110074141</id><published>2006-06-25T17:43:00.000+01:00</published><updated>2006-06-25T17:48:06.680+01:00</updated><title type='text'>Uma Bandeira Perdida</title><content type='html'>Dá mostras de alguma dinâmica um recém-criado movimento de opinião pública que visa combater o esvaziamento administrativo de que é alvo Beja de há anos a esta parte. Só é de espantar ter surgido agora. Por muito menos temos assistido por esse País fora ao corte de estradas, vias-férreas e outras manifestações que tais.&lt;br /&gt;O Partido Socialista, que durante anos pregou praticamente só contra tal prática, aparece agora dissociado do movimento. Lembro que ainda no início dos anos 90, simbolicamente, o mesmo Partido mudou a designação da sua estrutura distrital de Federação Distrital de Beja para Federação Regional do Baixo-Alentejo. E dissocia-se deste movimento invocando o quê? Que ele, o movimento, está "capturado", usando uma terminologia agora em voga e inaugurada pela inefável ministra da Educação, pelo Partido Comunista. Concedamos que há alguma verdade nisto. Mas a deserção do Partido Socialista irá contribuir decisivamente para que tal se efective e provavelmente os socialistas estão a deixar cair uma bandeira que dificilmente voltarão a recuperar. Até porque esta tão estranha mudança de estratégia nos parece "capturada" por um seguidismo acrítico relativamente ao poder central, seguidismo esse vassalo do carreirismo de algumas personalidades que pontificam nas estruturas federativas do Partido. Em suma, a aparente satisfação de ambições pessoais compromete uma estratégia coerente e que deveria ser consequente, mas deixou de o ser, de defesa dos interesses, mais do que de Beja, do Baixo-Alentejo.&lt;br /&gt;Com a agravante de que tal situação está a levantar divisionismos internos entre os socialistas, para além daqueles já existentes pela actuação do governo central, a quem recentemente chamaram, numa reunião de notáveis realizada no Porto, "comissão liquidatária", liquidatária do incipiente estado social que construímos até agora, entenda-se. A presença de vereadores socialistas da Câmara Municipal de Beja numa recente reunião desse movimento de opinião é sintomática das rupturas internas que entretanto se verificam em torno desta questão.&lt;br /&gt;E o Partido Comunista? Porquê esta tão imprevista e surpreendente inflexão estratégica? Decerto que a ela não será indiferente a recente mudança de gestão camarária. Mas ilude-se quem cuidar que tal alteração estratégica é devedora a uma qualquer estratégia autónoma da mesma Câmara. Se alguma autonomia existiu na gestão camarária relativamente aos ditames da Rua Ancha foi nas anteriores gestões camarárias de Carreira Marques. Esta inflexão estratégica é devedora sim ao frio pragmatismo que norteia a actuação política dos comunistas. O sonho do grande Alentejo, com a sua centralidade em Évora, já lá vai e agora trata-se tão somente de salvar o essencial e conservar os redutos que ainda mantêm em seu poder.&lt;br /&gt;E Évora, esse eucalipto que os comunistas ajudaram a crescer, perfila-se agora como sério obstáculo ao crescimento harmonioso e à coesão territorial do todo alentejano.&lt;br /&gt;Repare-se: em apenas três ou quatro anos a mais-valia agrícola do projecto de Alqueva, razão primeira da sua existência, foi sendo paulatinamente esvaziada em favor da sua mais-valia turística. Se os terrenos a irrigar se situam maioritariamente no Distrito de Beja, os projectos turísticos que vêm sendo anunciados situam-se quase todos no Distrito de Évora. E o I.P 8, essa via estruturante para o desenvolvimento do Baixo-Alentejo? Para quando a sua construção? E já repararam no traçado da via que nos é proposto? Qualquer cidadão comum, sem conhecimentos de engenharia mas fundado no senso comum, que é a minha condição e creio que a condição da maioria dos leitores que a estas linhas vierem parar nas sua navegações internáuticas, saberá que quando se pretende traçar uma estrada entre dois pontos se procurará sempre o traçado mais curto entre esses dois pontos. Pois o traçado do I.P. 8 não obedece a este critério ditado pelo mais elementar bom senso: sai de Sines, sofre uma brusca inflexão para nordeste em direçcão a Grândola, isto é, a Évora, e para recuperar o traçado do mesmo I.P. 8 há que rumar a Sul pela A. N. 2. Confuso? Não tanto. É que o I. P. 8, pensado para servir como corredor Sines-Beja-Ficalho-Sevilha, terá, pelo que parece, como sua primeira prioridade o corredor Sines-Évora- Badajoz.&lt;br /&gt;Procurai razões que expliquem os atrasos verificados em outros projectos estruturantes para o Baixo-Alentejo e decerto encontrareis pistas que vos conduzirão inevitavelmente a Évora.&lt;br /&gt;Pobre Beja, que tão mal estás servida de elites.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-115125381110074141?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/115125381110074141'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/115125381110074141'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2006/06/uma-bandeira-perdida.html' title='&lt;b&gt;Uma Bandeira Perdida&lt;/b&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-114936181051560356</id><published>2006-06-03T20:10:00.000+01:00</published><updated>2006-06-03T20:10:10.563+01:00</updated><title type='text'>Uma Reportagem Tardia</title><content type='html'>&lt;br /&gt;A R.T.P. passou, em hor&amp;aacute;rio dito nobre, e ainda bem, uma reportagem que deixou o Pa&amp;iacute;s &amp;agrave; beira de um ataque de nervos. Algo de imprevisto, recente? N&amp;atilde;o, a reportagem apenas mostrou uma realidade que n&amp;atilde;o &amp;eacute; de hoje nem de ontem, &amp;eacute; de h&amp;aacute; muito e que de forma gradual, paulatina se vem agravando ano ap&amp;oacute;s ano; a viol&amp;ecirc;ncia e o ambiente de generalizada indisciplina que grassa nas nossas escolas. Desconhecida esta realidade? Mas se ela tem sido denunciada j&amp;aacute; por in&amp;uacute;meras vezes pelos professores que a sofrem no seu quotidiano, impotentes para lhe p&amp;ocirc;r termo j&amp;aacute; que sistematicamente desautorizados pela tutela ministerial. Toda a gente ouviu dizer, mas todos fingiram ignorar: a tutela porque imersa em teorias pedag&amp;oacute;gicas pseudo-cient&amp;iacute;ficas, mais interessada em boas estat&amp;iacute;sticas do que na qualidade do ensino que seria suposto tentar proporcionar &amp;agrave;s crian&amp;ccedil;as e jovens, os sindicatos porque c&amp;uacute;mplices, coniventes e at&amp;eacute; instigadores de tais pr&amp;aacute;ticas pedag&amp;oacute;gicas e a sociedade, os pais e encarregados de educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o, que na sua maioria se demitiram da educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o e forma&amp;ccedil;&amp;atilde;o dos seus educandos, despreocupadamente cometendo &amp;agrave; escola tais responsabilidades e sem tempo nem pachorra para indagarem se os seus educandos eram efectivamente educados ou se medravam em ambientes que os predispunham mais para comportamentos delinquentes do que para a adop&amp;ccedil;&amp;atilde;o de condutas respons&amp;aacute;veis.&lt;br /&gt;Esta reportagem teve o cond&amp;atilde;o de mostrar, n&amp;atilde;o apenas de dizer. Da&amp;iacute; o pretenso choque. E n&amp;atilde;o se diga que aquela Escola, a mostrada na reportagem, &amp;eacute; uma excep&amp;ccedil;&amp;atilde;o, n&amp;atilde;o o &amp;eacute;. Na maioria das escolas a viol&amp;ecirc;ncia e a indisciplina n&amp;atilde;o atingir&amp;atilde;o tal gravidade, como a que nos foi mostrada na dita reportagem, mas em todas as escolas p&amp;uacute;blicas, em maior ou menor grau, existe um clima de indisciplina, de desrespeito pelas mais elementares regras de conv&amp;iacute;vio e um sentimento de quase total impunidade por parte de v&amp;acirc;ndalos que diariamente se permitem cometer desmando sobre desmando. Gastamos mais do que os nossos parceiros europeus na educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o e temos piores resultados? At&amp;eacute; poder&amp;iacute;amos gastar ainda mais que os resultados seriam exactamente os mesmos. Porque enquanto este clima de laxismo, indisciplina, irresponsabilidade e impunidade n&amp;atilde;o der lugar a um outro que se paute pela auto-responsabiliza&amp;ccedil;&amp;atilde;o de alunos e encarregados de educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o e pela exig&amp;ecirc;ncia e rigor nas aprendizagens e avalia&amp;ccedil;&amp;otilde;es jamais sairemos do p&amp;acirc;ntano onde d&amp;eacute;cadas de insensatez e del&amp;iacute;rio pseudo-cient&amp;iacute;fico nos atolaram. O robusto edif&amp;iacute;cio conceptual que em torno de tais bondosas teorias se foi arquitectando, as milhentas teses de mestrado e doutoramento que &amp;agrave; sua sombra se foram engendrando, o fazerem tais teses perten&amp;ccedil;a do &lt;i&gt;mainstream &lt;/i&gt;ideol&amp;oacute;gico, o serem politicamente correctas, tudo leva a crer que a situa&amp;ccedil;&amp;atilde;o ainda estar&amp;aacute; para durar. Poucas s&amp;atilde;o as vozes que a ousam p&amp;ocirc;r em causa: Eduardo Prado Coelho, Maria de F&amp;aacute;tima Bonif&amp;aacute;cio, Maria Filomena M&amp;oacute;nica e poucos mais.&lt;br /&gt;Entretanto, porque o mensageiro, o professor, n&amp;atilde;o traz boas novas, opta-se por matar o mensageiro, n&amp;atilde;o por transformar a realidade. E assim &amp;eacute; o professor o miser&amp;aacute;vel culpado por todos os males de que enferma o ensino. A actual ministra da educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o usa para com eles de uma linguagem que, estou em crer, nem j&amp;aacute; os sargentos usam para com os recrutas. S&amp;atilde;o sonegados a professores com dezenas de anos de carreira direitos adquiridos, sim adquiridos, senhor Jos&amp;eacute; Manuel Fernandes, com um total despudor. Procedimentos tais dariam azo, a acontecerem entre privados, a processo judicial.&lt;br /&gt;A senhora ministra &amp;eacute; ministra h&amp;aacute; um ano, eu sou professor h&amp;aacute; trinta e dois. E sou, senhora ministra, como a maioria dos meus colegas, ass&amp;iacute;duo e zeloso no cumprimento dos meus deveres profissionais. E acho inadmiss&amp;iacute;veis a forma e o conte&amp;uacute;do das afirma&amp;ccedil;&amp;otilde;es que sobre n&amp;oacute;s tem produzido. De uma coisa eu estou certo; a senhora deixar&amp;aacute; de ser ministra e eu professor continuarei, n&amp;atilde;o j&amp;aacute; por mais quatro anos, como estava impl&amp;iacute;cito no acordo que com o Estado firmei quando iniciei a minha carreira docente, mas por mais doze, conforme as novas regras de aposenta&amp;ccedil;&amp;atilde;o. Mas ser&amp;aacute; por mais doze? Quando se quebra um contrato firmado h&amp;aacute; mais de trinta anos s&amp;atilde;o agora de esperar todas e quaisquer arbitrariedades, pois n&amp;atilde;o &amp;eacute; verdade senhor Jos&amp;eacute; Manuel Fernandes?&lt;br /&gt;A senhora ministra ir-se-&amp;aacute; embora, embora na acep&amp;ccedil;&amp;atilde;o etimol&amp;oacute;gica da palavra, em boa hora, em boa hora para todos n&amp;oacute;s. E quando abalar mande, se quiser, saudades, que &amp;eacute; coisa que c&amp;aacute; n&amp;atilde;o deixa.&lt;br /&gt;Acabo de uma forma deselegante, deseducada, n&amp;atilde;o &amp;eacute; meu costume. Mas n&amp;atilde;o resisti. &amp;Eacute; que &amp;eacute; dif&amp;iacute;cil resistir a tanta afronta sem perder a compostura.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-114936181051560356?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/114936181051560356'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/114936181051560356'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2006/06/uma-reportagem-tardia.html' title='&lt;b&gt;Uma Reportagem Tardia&lt;/b&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-114831881042189871</id><published>2006-05-22T18:26:00.000+01:00</published><updated>2006-05-22T18:26:50.473+01:00</updated><title type='text'>Plano Nacional de Leitura</title><content type='html'>&lt;br /&gt;Ontem, Domingo, na sua habitual cr&amp;oacute;nica no jornal "P&amp;uacute;blico", Vasco Pulido Valente, com a trucul&amp;ecirc;ncia a que nos habituou, desancava forte e feio no Plano Nacional de Leitura, para cuja Comiss&amp;atilde;o de Honra havia sido convidado, convite que recusou. Entre outros mimos dizia que "O Plano Nacional de Leitura" n&amp;atilde;o passa de uma fantasia para uns tantos funcion&amp;aacute;rios justificarem a sua injustific&amp;aacute;vel exist&amp;ecirc;ncia e espatifarem milh&amp;otilde;es, que o Estado extraiu esfor&amp;ccedil;adamente ao contribuinte". N&amp;atilde;o sei quanto de verdade assiste &amp;agrave;quilo que V. P. V. nos diz, mas sendo ele pessoa bem informada suponho que alguma. Mas que a promo&amp;ccedil;&amp;atilde;o dos h&amp;aacute;bitos de leitura &amp;eacute; uma causa nobre disso n&amp;atilde;o tenho eu a menor d&amp;uacute;vida. Pode ser que as pessoas disso encarregadas n&amp;atilde;o sejam as mais capazes, poder&amp;aacute; acontecer que este Plano em nada resulte e tudo n&amp;atilde;o passe de mais um alfobre onde colocar mais uns quantos clientes pol&amp;iacute;ticos que assim, ap&amp;oacute;s todo o alarido e propaganda iniciais, em breve cair&amp;atilde;o na modorra e assim poder&amp;atilde;o ir tratando da sua vidinha na mais completa inactividade e obscuridade, criando-se mais uma institui&amp;ccedil;&amp;atilde;o, a somar a tantas outras, que um dia algu&amp;eacute;m descobre que existe mas j&amp;aacute; n&amp;atilde;o se sabe muito bem para o que serve.&lt;br /&gt;Mas a promo&amp;ccedil;&amp;atilde;o de h&amp;aacute;bitos de leitura, num povo t&amp;atilde;o arredio a tais pr&amp;aacute;ticas, tem uma nobreza ineg&amp;aacute;vel. Depende tudo do modo como tal se far&amp;aacute;.&lt;br /&gt;Que os tempos n&amp;atilde;o t&amp;ecirc;m corrido a favor das pr&amp;aacute;ticas de leitura &amp;eacute; uma evid&amp;ecirc;ncia: primeiro foi o telefone, a seguir a r&amp;aacute;dio, depois foi a televis&amp;atilde;o, depois vieram as tecnologias da informa&amp;ccedil;&amp;atilde;o e comunica&amp;ccedil;&amp;atilde;o, os telem&amp;oacute;veis, enfim, o &amp;aacute;udio-visual foi paulatinamente tomando o campo &amp;agrave; palavra escrita e at&amp;eacute; mesmo ao h&amp;aacute;bito da charla, entre familiares, entre amigos. Que o combate &amp;eacute; de monta n&amp;atilde;o h&amp;aacute; d&amp;uacute;vida. E que os h&amp;aacute;bitos de leitura ou se adquirem na inf&amp;acirc;ncia ou dificilmente vir&amp;atilde;o algum dia a adquirir-se &amp;eacute; uma evid&amp;ecirc;ncia. Antes da emerg&amp;ecirc;ncia das novas tecnologias de informa&amp;ccedil;&amp;atilde;o e comunica&amp;ccedil;&amp;atilde;o &amp;eacute;ramos demasiado pobres e t&amp;iacute;nhamos demasiados analfabetos para que tais h&amp;aacute;bitos se enraizassem de forma significativa entre n&amp;oacute;s. Quando ultrapass&amp;aacute;mos tais impedimentos j&amp;aacute; haviam feito vencimento as tais tecnologias. And&amp;aacute;mos tarde, o que tamb&amp;eacute;m &amp;eacute; pecha nacional.&lt;br /&gt;Eu, que adquiri tais h&amp;aacute;bitos na inf&amp;acirc;ncia, tenho quanto a isso uma enorme d&amp;iacute;vida de gratid&amp;atilde;o para com as bibliotecas itinerantes da Funda&amp;ccedil;&amp;atilde;o Calouste Gulbenkian. Foi h&amp;aacute; mais de meio s&amp;eacute;culo j&amp;aacute; que a Funda&amp;ccedil;&amp;atilde;o iniciou esse t&amp;atilde;o merit&amp;oacute;rio servi&amp;ccedil;o ao Pa&amp;iacute;s, que n&amp;atilde;o sei se algures no Portugal mais profundo ainda se continua. Recordo a impaci&amp;ecirc;ncia com que sempre aguardava a vinda da carrinha, repleta de livros, &amp;agrave; aldeia onde ent&amp;atilde;o vivia e que eu, sem nada dar em troca, podia levar para casa a meu bel-prazer. E foi a Funda&amp;ccedil;&amp;atilde;o que me permitiu o contacto com J&amp;uacute;lio Verne, Em&amp;iacute;lio Salgari, mais tarde com Zola, John dos Passos, Erico Ver&amp;iacute;ssimo, Jorge Amado, Camilo, E&amp;ccedil;a e tantos outros. As horas de profundo prazer que tais leituras me proporcionaram &amp;eacute; &amp;agrave; Funda&amp;ccedil;&amp;atilde;o que o devo. Seria eu hoje o mesmo sem essas leituras? Seguramente n&amp;atilde;o e seguramente n&amp;atilde;o seria melhor. E como eu quantos e quantos milhares de portugueses, vivendo na ignorante simplicidade da prov&amp;iacute;ncia de ent&amp;atilde;o, n&amp;atilde;o ter&amp;atilde;o esta mesma d&amp;iacute;vida de gratid&amp;atilde;o?&lt;br /&gt;V. P. V., n&amp;atilde;o sei se o senhor ter&amp;aacute; inteira raz&amp;atilde;o. Eu gostaria que n&amp;atilde;o tivesse. E se o Plano Nacional de Leitura conseguisse trazer a tais pr&amp;aacute;ticas mais uns milhares de portugueses eu penso que o combate j&amp;aacute; teria valido a pena. Como valeu a pena o servi&amp;ccedil;o de bibliotecas itinerantes de h&amp;aacute; algumas d&amp;eacute;cadas.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-114831881042189871?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/114831881042189871'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/114831881042189871'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2006/05/plano-nacional-de-leitura.html' title='&lt;b&gt;Plano Nacional de Leitura&lt;/b&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-114702705717980112</id><published>2006-05-07T19:37:00.000+01:00</published><updated>2006-05-07T19:37:37.186+01:00</updated><title type='text'>OVIBEJA</title><content type='html'>&lt;br /&gt;A Ovibeja, que encerra hoje, vai j&amp;aacute; na sua 23&amp;ordf; edi&amp;ccedil;&amp;atilde;o.&lt;br /&gt;Ao longo destes anos cresceu e afirmou-se como uma das mais importantes, sen&amp;atilde;o mesmo a mais importante feira agr&amp;iacute;cola nacional. Numa regi&amp;atilde;o falha de dinamismo econ&amp;oacute;mico e onde a iniciativa privada n&amp;atilde;o &amp;eacute; particularmente acarinhada pela for&amp;ccedil;a pol&amp;iacute;tica dominante ao n&amp;iacute;vel aut&amp;aacute;rquico, convenhamos que &amp;eacute; obra. Ainda mais porque o Terreiro do Pa&amp;ccedil;o tardou, e muito, em reconhecer-lhe a import&amp;acirc;ncia que lhe era devida. Todos recordam decerto, aqueles que por estas coisas se interessam e delas guardam mem&amp;oacute;ria, como a feira decorria, nos seus anos iniciais, perante a total indiferen&amp;ccedil;a n&amp;atilde;o s&amp;oacute; do poder pol&amp;iacute;tico central como tamb&amp;eacute;m dos &amp;oacute;rg&amp;atilde;os de informa&amp;ccedil;&amp;atilde;o de expans&amp;atilde;o nacional.&lt;br /&gt;S&amp;oacute; tardiamente nela repararam. Foi a Ovibeja que se lhe imp&amp;ocirc;s pela sua dimens&amp;atilde;o, porque n&amp;atilde;o reparar neste evento era j&amp;aacute;, como n&amp;oacute;s dizemos, "estar na aldeia e n&amp;atilde;o ver as casas".&lt;br /&gt;E hoje &amp;eacute; v&amp;ecirc;-los num corrupio visitando a Ovibeja, oriundos de todos os quadrantes pol&amp;iacute;ticos, em busca do protagonismo que tal visita lhes proporciona. Ironicamente &amp;eacute; hoje a classe pol&amp;iacute;tica que necessita da Ovibeja, &amp;eacute; ela que integra a sua agenda pol&amp;iacute;tica, n&amp;atilde;o a Ovibeja que necessita dos seus favores para se afirmar.&lt;br /&gt;As feiras de antanho, que cumpriam o seu papel econ&amp;oacute;mico acompanhando as etapas de desenvolvimento do ano agr&amp;iacute;cola, feneceram e hoje poucas subsistem. A Feira de Beja, dita de S. Louren&amp;ccedil;o e de Santa Maria, coincidia com o encerrar do ano agr&amp;iacute;cola e teve a import&amp;acirc;ncia pr&amp;oacute;pria de se realizar no seio de uma das zonas agr&amp;iacute;colas mais importantes do Pa&amp;iacute;s. Apesar de algumas m&amp;aacute;s cosm&amp;eacute;ticas que lhe foram sendo aplicadas ao longo dos &amp;uacute;ltimos anos est&amp;aacute; definitivamente acabada. &amp;Eacute; um anacronismo e em economia, mais do que em qualquer outra actividade, e porque uma feira &amp;eacute; essencialmente um evento de car&amp;aacute;cter econ&amp;oacute;mico, os anacronismos n&amp;atilde;o perduram por muito tempo.&lt;br /&gt;O &amp;ecirc;xito da Ovibeja adv&amp;eacute;m-lhe do facto de ter o modelo adequado aos tempos de hoje. Nela n&amp;atilde;o se compram cereais nem alfaias, tampouco vestu&amp;aacute;rio para o pr&amp;oacute;ximo Inverno nem &amp;eacute; momento ideal para divers&amp;atilde;o; ela &amp;eacute; sim a montra das potencialidades econ&amp;oacute;micas da regi&amp;atilde;o, mostru&amp;aacute;rio ainda de muitas e diversificadas actividades, nem todas elas ligadas &amp;agrave; actividade agr&amp;iacute;cola, e uma oportunidade de neg&amp;oacute;cio. Al&amp;eacute;m de que j&amp;aacute; n&amp;atilde;o andamos imersos em nuvens de p&amp;oacute; e com a cabe&amp;ccedil;a &amp;agrave; esturreira. Os burgueses em que nos torn&amp;aacute;mos j&amp;aacute; n&amp;atilde;o o suportariam.&lt;br /&gt;As mais valias advindas do projecto de Alqueva far-se-&amp;atilde;o necessariamente sentir na economia regional e com isso a Ovibeja ganhar&amp;aacute; ainda mais import&amp;acirc;ncia. Haja f&amp;eacute;. A mesma f&amp;eacute; que animou uma despretensiosa exposi&amp;ccedil;&amp;atilde;o de gado ovino num armaz&amp;eacute;m de l&amp;atilde;s e que, com o tempo, se veio a transformar no grande evento que &amp;eacute; hoje a Ovibeja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A prop&amp;oacute;sito de esturreira: o escriba destas linhas procura, neste seu passatempo, n&amp;atilde;o cometer erros, pelos menos aqueles ditos de palmat&amp;oacute;ria, consciente embora de que alguns poder&amp;atilde;o passar ao seu crivo que &amp;eacute; decerto limitado. Por isso procurei em alguns dicion&amp;aacute;rios o termo esturreira, duvidoso que estava de o mesmo l&amp;aacute; se encontrar registado. N&amp;atilde;o o encontrei. &amp;Eacute; pena. Trata-se de um regionalismo bem expressivo e que tantas vezes ouvi referir quando, em crian&amp;ccedil;a, brincava na rua nas longas e ardentes tardes de Ver&amp;atilde;o e a minha m&amp;atilde;e me admoestava por eu andar h&amp;aacute; tanto tempo com a cabe&amp;ccedil;a &amp;agrave; esturreira.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-114702705717980112?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/114702705717980112'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/114702705717980112'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2006/05/ovibeja_07.html' title='&lt;b&gt;OVIBEJA&lt;/b&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-114598852796493285</id><published>2006-04-25T19:08:00.000+01:00</published><updated>2006-04-25T19:08:47.973+01:00</updated><title type='text'>25 de Abril</title><content type='html'>&lt;br /&gt;J&amp;aacute; foi h&amp;aacute; 32 anos! Dir&amp;atilde;o aqueles que, como eu, eram ao tempo suficientemente maturos para terem da &amp;eacute;poca uma mem&amp;oacute;ria bem viva. E &amp;agrave; celebra&amp;ccedil;&amp;atilde;o dos acontecimentos ent&amp;atilde;o verificados, juntamos as mem&amp;oacute;rias pessoais de todos estes anos transcorridos, de tal modo que celebramos o evento hist&amp;oacute;rico e celebramos tamb&amp;eacute;m quem n&amp;oacute;s &amp;eacute;ramos ao tempo: 32 anos mais novos, mais ing&amp;eacute;nuos, mais esperan&amp;ccedil;osos e generosos, transportando connosco todos aqueles sonhos que todo o jovem sonha e que o tempo, esse inexor&amp;aacute;vel juiz, se encarrega de puir e, quantas vezes, de esboroar de todo. Enfim , as celebra&amp;ccedil;&amp;otilde;es do 25 de Abril, para aqueles que como eu rondavam ent&amp;atilde;o os 20 anos, j&amp;aacute; se n&amp;atilde;o fazem sem uma profunda nostalgia por aquilo que foi e j&amp;aacute; n&amp;atilde;o &amp;eacute;.&lt;br /&gt;Onde estar&amp;iacute;amos n&amp;oacute;s hoje sem o 25 de Abril? Segundo o nosso Nobel estar&amp;iacute;amos pouco mais ou menos no mesmo s&amp;iacute;tio. Referia-se o escritor, obviamente, &amp;agrave;s condi&amp;ccedil;&amp;otilde;es s&amp;oacute;cio-econ&amp;oacute;micas e culturais de que hoje a mediania desfruta. A descoloniza&amp;ccedil;&amp;atilde;o era uma inevitabilidade hist&amp;oacute;rica e se a domocratiza&amp;ccedil;&amp;atilde;o do regime ter&amp;aacute; influenciado a transi&amp;ccedil;&amp;atilde;o democr&amp;aacute;tica em Espanha provavelmente teria acontecido o inverso, o expirar da ditadura franquista acarretaria consigo a agonia e o inevit&amp;aacute;vel fim do salazarismo, ao tempo travestido de roupagens pseudo-liberais mas ainda assim anacr&amp;oacute;nico e imposs&amp;iacute;vel de sustentar, face aos ventos da Hist&amp;oacute;ria que um isolacionismo de d&amp;eacute;cadas tentara em v&amp;atilde;o suster.&lt;br /&gt;Mas fomos n&amp;oacute;s, nestes anos entretanto decorridos, capazes de construir uma sociedade mais justa, mais fraterna, mais igualit&amp;aacute;ria, como foi promessa do 25 de Abril? A resposta, por muito que custe admiti-lo, &amp;eacute; negativa. E era da constata&amp;ccedil;&amp;atilde;o deste facto que decorria a afirma&amp;ccedil;&amp;atilde;o de Jos&amp;eacute; Saramago. Somos hoje na Uni&amp;atilde;o Europeia, como &amp;eacute;ramos ent&amp;atilde;o na Europa, uma das sociedades menos igualit&amp;aacute;rias, com uma das mais injustas distribui&amp;ccedil;&amp;otilde;es da renda nacional.&lt;br /&gt;Deparamo-nos hoje com novos desafios e novos problemas, dos quais um dos maiores ser&amp;aacute; o da nova ordem econ&amp;oacute;mica global, acelerada pelo desenvolvimento c&amp;eacute;lere das novas tecnologias da informa&amp;ccedil;&amp;atilde;o e comunica&amp;ccedil;&amp;atilde;o. E face a esta problem&amp;aacute;tica dita da globaliza&amp;ccedil;&amp;atilde;o, que at&amp;eacute; ao presente se tem caracterizado, de um ponto de vista social, pela desregulamenta&amp;ccedil;&amp;atilde;o das rela&amp;ccedil;&amp;otilde;es laborais e pelo predom&amp;iacute;nio do capital face ao trabalho, as receitas, se assim se lhes pode chamar, mais comummente ouvidas dizem-nos que &amp;eacute; preciso desregulamentar ainda mais, que a presen&amp;ccedil;a do Estado no campo social e econ&amp;oacute;mico &amp;eacute; excessiva e inibidora do progresso, isto &amp;eacute;, do lucro. N&amp;atilde;o creio que seja este o caminho. Continuo a acreditar no papel insubstitu&amp;iacute;vel do Estado como zelador dos neg&amp;oacute;cios p&amp;uacute;blicos e corrector das assimetrias sociais, econ&amp;oacute;micas e culturais que as sociedades livres entre si sempre engendram. E tanto mais insubstitu&amp;iacute;vel quanto as sociedades s&amp;atilde;o mais injustas e incapazes de autocorrec&amp;ccedil;&amp;atilde;o, como me parece ser o nosso caso.&lt;br /&gt;E os nossos governantes, que representam e s&amp;atilde;o o Estado, estar&amp;atilde;o eles agora deveras preocupados com este nosso triste fado j&amp;aacute; que, pelo que nos &amp;eacute; dado ver, n&amp;atilde;o o estiveram antes? O discurso oficial n&amp;atilde;o vai nesse sentido. Ouvi e vi as comemora&amp;ccedil;&amp;otilde;es do 25 de Abril, que decorreram na Assembleia da Rep&amp;uacute;blica. O discurso do senhor Presidente da Rep&amp;uacute;blica foi aplaudido tamb&amp;eacute;m, n&amp;atilde;o sem alguma surpresa, pelos deputados do Partido Socialista. Pudera! O P.S. tem-se descaracterizado tanto nestes meses de governa&amp;ccedil;&amp;atilde;o de Jos&amp;eacute; S&amp;oacute;crates que ou muito me engano ou ir&amp;aacute; ser ultrapassado pela esquerda pelo Presidente da Rep&amp;uacute;blica, eleito ironicamente com os votos da direita. E n&amp;atilde;o s&amp;oacute;, e n&amp;atilde;o s&amp;oacute;!&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-114598852796493285?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/114598852796493285'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/114598852796493285'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2006/04/25-de-abril_25.html' title='&lt;b&gt;25 de Abril&lt;/b&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-114451966839110789</id><published>2006-04-08T19:07:00.000+01:00</published><updated>2006-04-09T00:38:49.776+01:00</updated><title type='text'>Outra Vez a Violência Escolar</title><content type='html'>Uma senhora professora foi agredida, selvaticamente agredida para ser conforme com a descrição do acto, por uma encarregada de educação numa Escola algures perto de Viseu. Foi esta sentenciada ao pagamento de uma multa no valor de 1.800 euros e ao pagamento de uma indemnização à agredida no valor de 1.500 euros. A agressão foi cometida, pasme-se, em 2.000 e só agora, passados seis anos, a sentença transitou em julgado. Alguns analistas políticos, e não poucos, referem insistentemente como a reforma mais urgente de que o País carece precisamente a do sistema judicial. Perante exemplos como este só podemos estar de acordo.&lt;br /&gt;Mas não deixa de ser curiosa a ênfase posta no caso pelos meios de comunicação, como se algo de extraordinário tivesse acontecido, sendo que o extraordinário não é a agressão em si mas o facto de ela ter sido penalizada. Deveria ser o inverso, mas não é. Infelizmente o País e os poderes instituídos parecem ter-se habituado à violência que diariamente se perpetra sobre professores e auxiliares de acção educativa, um pouco por todo o País, como se de uma fatalidade se tratasse. No ano transacto terão ocorrido, fora aquelas que não foram participadas, cerca de 1.200 agressões em recintos escolares.&lt;br /&gt;Mas em que oficina, em que fábrica, em que repartição pública, em que ambiente de trabalho um profissional está sujeito a esta catadupa de agressões verbais e físicas por parte daqueles a quem serve, a não ser na Escola? É isto normal, é isto salutar? Teremos que viver com esta triste e trágica banalização da violência escolar? Então a Escola, aquele espaço sagrado em que se ensinam as gerações vindouras, onde se giza o futuro do País, onde se fazem os investimentos mais produtivos e úteis de que carece uma sociedade, terá que coabitar fatalmente com este estado de coisas? Não seria tal situação passível de um sobressalto cívico por parte da sociedade, de uma genuína preocupação e de uma profunda intervenção por parte dos poderes instituídos? Parece que não. É que tal situação não é de agora, ela remonta há anos e há anos que se vem agravando.&lt;br /&gt;Professores há que se dirigem amedrontados para a sala de aula, para o seu local de trabalho. É possível ensinar, e será possível aprender, em tal ambiente? Bem podem os governantes gastar dinheiro, dinheiro a rodos, com a educação, que os níveis de conhecimentos e competências adquiridos pelos nossos alunos em pouco melhorarão. É que o problema já não está no maior ou menor apetrechamento das nossas Escolas com meios materiais e humanos, o problema é um problema de paradigma educativo, que não é o do rigor, da exigência e da auto-responsabilização, mas sim o do facilitismo e o da impunidade. Mas a Escola não é uma ilha, ela assume e reproduz os valores da sociedade de onde emana.&lt;br /&gt;Um encarregado de educação que viola o espaço vedado de uma Escola e agride um professor, por muitas razões que lhe assistam, será sempre um canalha. E uma sociedade que se permite conviver com tais actos, como se de uma fatalidade ou de uma banalidade se tratasse, é uma sociedade doente.&lt;br /&gt;O mesmo vem acontecendo no resto do mundo, dito ocidental. Triste consolo. Mas aí, porque vão à nossa frente alguns anos, outro fenómeno emerge: nalguns países, nomeadamente na Holanda e Reino Unido, começam a faltar professores. Pudera, quem é que se habitua a ser sovado no seu local de trabalho? Nem os escravos, nos tempos de antanho. E ainda por cima mal remunerados, embora tal não seja o caso dos professores portugueses, cuja massa salarial é fracção maior do PIB do que a que auferem os seus colegas em outros países da União Europeia, não é verdade, senhor José Manuel Fernandes? Mas decerto também saberá que o PIB &lt;em&gt;per capita&lt;/em&gt; português está em 69% da média comunitária. Adiante. Sem querer ser profeta creio que tal situação, a da escassez de professores, também por cá se irá verificar.&lt;br /&gt;Onde tal não ocorre é na Finlândia, que por agora os nossos governantes parecem ter adoptado como modelo. Aí o que atrai os futuros professores não é o nível remuneratório, que não será excepcional relativamente ao rendimento médio nacional, mas sim a respeitabilidade e o estatuto social conferidos ao professor. Forçoso é concluirmos que aos nossos governantes não faltam nem optimismo nem ignorância quanto à adopção de modelos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-114451966839110789?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/114451966839110789'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/114451966839110789'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2006/04/outra-vez-violncia-escolar.html' title='&lt;b&gt;Outra Vez a Viol&amp;ecirc;ncia Escolar&lt;/b&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-114391187406516543</id><published>2006-04-01T18:17:00.000+01:00</published><updated>2006-04-02T10:58:08.286+01:00</updated><title type='text'>Os Dramas da Emigração</title><content type='html'>A deportação de dezenas de compatriotas nossos pelas autoridades canadianas tem levantado legítimas preocupações por parte dos governantes portugueses e causado consternação entre todos nós que assistimos, quase diariamente, em imagens pungentes que as televisões nos trazem, ao desembarque de gente que, abruptamente, se vê obrigada a deixar bens, trabalho, escola, sonhos e projectos e se vê compelida agora a recomeçar do zero.&lt;br /&gt;E contudo, para além dos dramas humanos que estas deportações suscitam, parece que as autoridades canadianas se limitam a aplicar, com legitimidade indiscutível, as leis sobre imigração vigentes no seu país, leis essas que parecem ser das mais generosas e abertas para a imigração legal, sendo o Canadá o país do mundo que mais imigrantes recebe tendo em conta a população residente.&lt;br /&gt;Parece estarmos pois perante uma endrómina de putativos conselheiros que, aqui e do outro lado do Atlântico, de conluio com empregadores canadianos sem escrúpulos, levam a que muitos embarquem na aventura da imigração ilegal com promessas de uma rápida e fácil legalização, sendo que o embuste se terá acentuado a partir do ano 2000. E é aqui que as autoridades portuguesas, de parceria com as suas congéneres canadianas, terão que actuar rápida e prontamente, na detecção e severa penalização destes modernos traficantes de carne humana.&lt;br /&gt;Solicitam estes imigrantes a concessão de um particular estatuto de refugiados por razões de perseguição ou exclusão de que serão vítimas em Portugal por motivos, religiosos, políticos ou de orientação sexual. Ora não será necessária uma investigação muito exaustiva por parte das autoridades canadianas para verificarem que, no Portugal de hoje, ninguém é perseguido ou vítima de exclusão em função de tais motivos. Daí a inevitável deportação. Entretanto, os tais senhores conselheiros ter-se-ão aboletado com milhares sonegados ao trabalho, esforço e poupanças destes mal aconselhados imigrantes. É revoltante.&lt;br /&gt;Será pois de esperar uma rápida reacção das nossas autoridades no sentido do aconselhamento dos candidatos a imigrantes e na rápida repressão das malfeitorias que em torno destes se geram. É de esperar mesmo uma particular sensibilidade das nossas autoridades para com toda esta problemática, pois que somos um País de emigrantes desde há séculos, com comunidades espalhadas pelas mais díspares partes do mundo.&lt;br /&gt;Acresce que começámos também a ser, de há poucos anos a esta parte, um País de acolhimento, sendo já de centenas de milhar o número de imigrantes que entre nós reside e trabalha. Também para estes se exigirá, por parte das nossas autoridades, a atenção e o tratamento que exigimos para com os nossos.&lt;br /&gt;As deslocalizações de populações ir-se-ão acentuar no futuro, potenciadas pela rápida globalização da economia, facilidades de meios de transporte e permeabilidade de fronteiras, mormente no seio da União Europeia. Este é um fenómeno que veio para ficar e melhor será que nos preparemos o melhor possível para sabermos e podermos lidar com ele.&lt;br /&gt;Ao longo de muitos anos de docência nunca tive um aluno estrangeiro. Este ano lectivo, nas turmas que me foram atribuídas, conto com cinco, 3 brasileiros e 2 ucranianos. Escolas há, mormente nos grandes centros urbanos, onde esta ocorrência acontece com maior amplitude, pois que a nossa região não é das mais atractivas para a mão-de-obra imigrante, precisamente porque a oferta de trabalho não abunda. E ainda assim eles aí estão, os imigrantes, presença já habitual e familiar nos mais variados locais. E assim também a presença de alunos estrangeiros nas minhas aulas passou de situação anómala e quase exótica a situação comum, banal, que me leva a encarar o Ruslan, o Oleh, o Giuliano, o Moroni e o Alison apenas como pessoas, alunos tão naturalmente meus como todos os outros indígenas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-114391187406516543?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/114391187406516543'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/114391187406516543'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2006/04/os-dramas-da-emigrao.html' title='&lt;b&gt;Os Dramas da Emigra&amp;ccedil;&amp;atilde;o&lt;/b&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-114279334725094691</id><published>2006-03-19T18:35:00.000Z</published><updated>2006-03-19T18:45:34.693Z</updated><title type='text'>A Violência nas Escolas</title><content type='html'>Os jornais têm-se feito eco ultimamente do aumento da violência nas escolas, referindo particularmente actos de violência, física e mental, exercidos por alunos e, pasme-se, até por encarregados de educação, sobre professores e auxiliares de acção educativa. O problema não é novo e não é apenas nosso: de outras paragens da velha e civilizada Europa nos chegam com frequência notícias sobre este já não recente fenómeno. O mal será pois de cariz civilizacional. E a escola, que deveria ser um espaço sagrado de aprendizagem, tolerância e civilidade, converteu-se, a pouco e pouco, num lugar onde impera a lei do mais forte, o poder do grupo, a barbárie, enfim. O retrato estará pintado com cores muito carregadas, dir-me-ão, pois há ainda muitas escolas onde continua a ser possível uma sã convivência entre todos os membros da comunidade educativa. Ainda há, eu conheço-as. Mas o ainda é que nos deverá fazer reflectir, já que este tipo de manifestações tem vindo a alastrar como mancha insidiosa sendo cada vez mais as escolas onde tais comportamentos se verificam.&lt;br /&gt;A transmissão às gerações mais jovens daqueles elementares valores que tornam possível a convivência pacífica entre os membros de uma comunidade parece não funcionar. E os resultados são brutais, particularmente nas escolas públicas, local de intersecção classista e, mais recentemente, de confronto de culturas.&lt;br /&gt;Dizia-me uma colega que, enquanto aluna, tinha medo dos professores e agora, como professora, teme os alunos. Ora esta situação é insustentável. Que mais não seja porque qualquer profissional, e um professor é um profissional, um cidadão comum, não é um missionário, terá direito a exercer a sua profissão em condições de segurança e tranquilidade, sem que o exercício da mesma lhe acarrete quaisquer danos de carácter físico ou mental. Ora as condições em que milhares de docentes exercem a sua actividade são todo o contrário disto. É do conhecimento comum que os professores são os clientes mais assíduos das consultas de saúde mental.&lt;br /&gt;Estarão os poderes políticos suficientemente alertados para a crueldade desta situação? Não me parece. A recente ofensiva desencadeada recentemente pelos governantes contra esta classe profissional revela uma profunda falta de tacto, sensibilidade e conhecimento real da situação. Sendo previsível, se nada for feito no sentido de repor alguma ordem e disciplina nas escolas, e uso as palavras ordem e disciplina de forma propositada, vai sendo tempo de não termos receio de utilizar determinados vocábulos apenas porque a história mais recente os conotou pejorativamente, dizia eu, se nada for feito este clima tenderá gradualmente a agravar-se. E olho-me a mim, com 32 anos de serviço e 54 de idade, olho os meus colegas e pergunto-me quantos de nós estarão em condições físicas e mentais para, ultrapassados os 60 anos, sermos capazes de desempenhar a nossa profissão sem nos sentirmos ainda mais constrangidos e amargurados do que no presente, por já não o conseguirmos fazer com a dignidade e proficiência que a actividade docente exige.&lt;br /&gt;O entendimento dos nossos iluminados governantes é outro. Daí o recente e brutal agravamento das condições de aposentação, recusando à profissão quaisquer especificidades de exercício merecedoras de um particular tratamento. Que a situação actual terá que ser revista não o duvido. Não porque sejamos credores de quaisquer benesses do poder, até porque essas benesses se esgotam naqueles que exercem esse mesmo poder, desde o deputado ao autarca, nada sobrando para os outros, mas porque a realidade do exercício da profissão assim o imporá.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-114279334725094691?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/114279334725094691'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/114279334725094691'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2006/03/violncia-nas-escolas.html' title='&lt;b&gt;A Viol&amp;ecirc;ncia nas Escolas&lt;/b&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-114218133318873564</id><published>2006-03-12T16:35:00.000Z</published><updated>2006-03-12T18:35:57.116Z</updated><title type='text'>A cabulice é má conselheira</title><content type='html'>O nosso primeiro-ministro dirigiu-se recentemente à Finlândia em procura de inspiração e ensinamentos para o seu entrevado choque tecnológico. Parece ser agora a Finlândia o exemplo a seguir pela tribo lusitana. Há alguns anos, não muitos, era a verde Irlanda o modelo. Países com uma dimensão humana até inferior à nossa e até há poucas décadas sociedades de rústicos campónios e que, no entanto, souberam dar o salto para patamares de desenvolvimento social e económico invejáveis.&lt;br /&gt;Num passado mais longínquo o país erigido como modelo era a Bélgica, afinal um estado dual, resultante mais da vontade política das potências europeias de então do que da vontade expressa dos seus habitantes e que, contudo, se havia tornado numa sociedade próspera, ordeira e educada. Tudo aquilo que nós não éramos, como não se cansavam de apregoar os homens da Geração de 70, mirando com inveja e despeito a Europa além-Pirinéus, então já tão próxima de nós através do comboio e ao mesmo tempo tão longínqua. Copiámo-la, mas mal, em calão, segundo esse génio de ironia mefistofélica que foi Eça.&lt;br /&gt;A Irlanda em 1986, ano da nossa adesão à então denominada Comunidade Económica Europeia, tinha um índice de desenvolvimento semelhante ao nosso. Agora olhamo-la por um canudo.&lt;br /&gt;O que têm então eles que nós não tenhamos?&lt;br /&gt;Bem, em primeiro lugar eles têm belgas, irlandeses e finlandeses e nós temos portugueses. Depois têm governantes belgas, irlandeses e finlandeses e nós temos governantes portugueses. De seguida terão feito opções correctas em devido tempo e nós ainda andamos a discutir quais as opções que haveremos de tomar. E mais, uma grande parte das nossas preclaras elites não se cansa de nos serrazinar aos ouvidos que o país até nem é viável. Com o esforço e a sapiência de alguns desses excelsos espécimes não o seríamos decerto.&lt;br /&gt;Além de tudo isto, que já não é pouco, têm um paradigma de vida que se pauta pelo esforço, trabalho e persistência. E têm padrões elevados de cidadania e educação. Um exemplo? Cá, o chico-espertismo nacional ensina-nos que não pagar impostos é acto meritório e sinal de sagacidade. Por lá , para além de crime, é anátema social que impede aquele que o faça de ter quaisquer veleidades de fazer carreira política.&lt;br /&gt;Em troca, o Estado é eficaz, até generoso, e trata com respeito os seus cidadãos. Uma realidade que não agrada de todo aos nossos neo-liberais, que acusam o incipiente Estado-Providência, que entretanto construímos, de estorvar o desenvolvimento económico.&lt;br /&gt;É este o nosso paradigma, senhor primeiro-ministro? Não é.&lt;br /&gt;Dê-nos a todos sinais de que está disposto a mudar este estado de coisas. Nomeadamente no seio do Partido que o apoia, porque quando se quer mudar o melhor é mesmo começarmos pela nossa casa.&lt;br /&gt;Querer mudar cabulando aquilo que os outros conseguiram realizar, com esforço e determinação, não é mais do que um sinal da nossa ancestral ronha e preguiça.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-114218133318873564?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/114218133318873564'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/114218133318873564'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2006/03/cabulice-conselheira.html' title='&lt;b&gt;A cabulice &amp;eacute; m&amp;aacute; conselheira&lt;/b&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-114124223629728189</id><published>2006-03-01T19:43:00.000Z</published><updated>2006-03-01T19:43:56.343Z</updated><title type='text'>Marcas Sociais</title><content type='html'>&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando eu era crian&amp;ccedil;a a forma de tratamento usual entre familiares era o &lt;i&gt;voc&amp;ecirc;&lt;/i&gt;. Era assim que eu me dirigia aos meus pais, tios e av&amp;oacute;s. Entre irm&amp;atilde;os e primos tute&amp;aacute;vamo-nos. Estranho era para mim ver o mais novo dos meus tios tratar o meu pai por &lt;i&gt;voc&amp;ecirc;&lt;/i&gt;, pois que era ele o primog&amp;eacute;nito. Resqu&amp;iacute;cios de antigos h&amp;aacute;bitos que obrigavam os irm&amp;atilde;os a uma particular defer&amp;ecirc;ncia para com o morgado, herdeiro de todos os bens familiares e benfeitor dos irm&amp;atilde;os, quando o era, embora aqui nem fosse o caso, pois que os meus familiares eram todos de modesta condi&amp;ccedil;&amp;atilde;o social e os escassos bens que os meus av&amp;oacute;s possu&amp;iacute;am t&amp;atilde;o escassos eram que nem dariam azo a qualquer demanda por partilhas.&lt;br /&gt;Longe de mim sequer a ideia de tutear qualquer um dos meus familiares. Se &amp;agrave; primeira poderia ser levado o despaut&amp;eacute;rio &amp;agrave; laia de equ&amp;iacute;voco provavelmente, se segunda houvesse, acabaria por apanhar uma lambada, ou mais, porque do visado apanharia na certa e depois viriam as contas a ajustar com meus pais.&lt;br /&gt;E se assim era no seio de minha fam&amp;iacute;lia assim era em todas as outras &amp;agrave; excep&amp;ccedil;&amp;atilde;o, ele h&amp;aacute; sempre excep&amp;ccedil;&amp;otilde;es, da fam&amp;iacute;lia de um meu amigo, companheiro de escola e de brincadeiras mas cuja fam&amp;iacute;lia pertencia a um outro extracto social, gente abonada em terras e cabedais e com licenciados entre si, enfim, gente com outro estad&amp;atilde;o e que entre si se tuteava. E causava-me uma certa estranheza ver o meu amigo tratar por &lt;i&gt;tu &lt;/i&gt;todos os familiares, pais e av&amp;oacute;s inclu&amp;iacute;dos. Cuidava eu ent&amp;atilde;o que aquela forma de tratamento era fruto de requinte educativo e civilizacional, admiss&amp;iacute;vel entre gente que se poderia permitir faz&amp;ecirc;-lo sem que com isso se abastardassem as formas de relacionamento respeitoso que haveriam de imperar entre familiares.&lt;br /&gt;Os anos transcorreram e tudo mudou. Hoje a minha filha tuteia-me assim como &amp;agrave; m&amp;atilde;e e restantes familiares. Mas entre as classes possidentes, ou que assim presumem, pois que come&amp;ccedil;a a ser de regra a mobilidade social, toda a gente se trata por &lt;i&gt;voc&amp;ecirc;&lt;/i&gt;, n&amp;atilde;o apenas os filhos em rela&amp;ccedil;&amp;atilde;o aos pais e outros familiares, mas os irm&amp;atilde;os e os c&amp;ocirc;njuges entre si e at&amp;eacute; entre amigos.&lt;br /&gt;E entre amigos e amigas &amp;eacute; de regra um s&amp;oacute; beijo na face e n&amp;atilde;o dois, como o fazem aqueles de menor estatuto social. Afinal as formas de tratamento, ao contr&amp;aacute;rio do que pensava a crian&amp;ccedil;a que eu fui, nada t&amp;ecirc;m a ver com uma particular e refinada educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o mas mais n&amp;atilde;o s&amp;atilde;o do que marcas sociais, s&amp;iacute;mbolos , c&amp;oacute;digos de comunica&amp;ccedil;&amp;atilde;o e diferencia&amp;ccedil;&amp;atilde;o.&lt;br /&gt;E eis como a l&amp;iacute;ngua e as formas de cumprimento se convertem em factores de diferencia&amp;ccedil;&amp;atilde;o e estratifica&amp;ccedil;&amp;atilde;o social. L&amp;iacute;nguas h&amp;aacute; menos pass&amp;iacute;veis de serem usadas sob este ponto de vista. O ingl&amp;ecirc;s apenas tem o &lt;i&gt;you&lt;/i&gt;, que tanto significa &lt;i&gt;tu &lt;/i&gt;como &lt;i&gt;voc&amp;ecirc;&lt;/i&gt;. Mas isso n&amp;atilde;o impediu que a sociedade inglesa fosse uma das mais estratificadas da Europa, pois nela se pode catalogar socialmente um indiv&amp;iacute;duo pela pron&amp;uacute;ncia. E se o Brasil adoptou apenas e s&amp;oacute; o &lt;i&gt;voc&amp;ecirc;&lt;/i&gt;, n&amp;atilde;o deixa por isso a sociedade brasileira de ser uma das mais injustas e desiguais n&amp;atilde;o apenas da Am&amp;eacute;rica Latina mas de todo o mundo.&lt;br /&gt;As marcas de diferencia&amp;ccedil;&amp;atilde;o social eram no passado mais e mais marcantes. Desde logo o vestu&amp;aacute;rio e a capacidade expressiva, de elocu&amp;ccedil;&amp;atilde;o. Essas atenuaram-se mas outras, mais subtis, subsistem.&lt;br /&gt;Elas s&amp;atilde;o patentes at&amp;eacute; nos h&amp;aacute;bitos gastron&amp;oacute;micos. Um amigo meu, snobe quanto baste, confessou-me um dia que havia deixado de pedir como entrada, nos restaurantes que frequentava, mel&amp;atilde;o com presunto, e como ele gostava de mel&amp;atilde;o com presunto, quando se apercebeu de que tal entrada se havia de tal modo banalizado que at&amp;eacute; nos restaurantes mais modestos a serviam.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-114124223629728189?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/114124223629728189'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/114124223629728189'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2006/03/marcas-sociais.html' title='&lt;b&gt;Marcas Sociais&lt;/b&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-114037860224565835</id><published>2006-02-19T19:50:00.000Z</published><updated>2006-02-19T19:50:02.276Z</updated><title type='text'>A morte lenta do mundo rural</title><content type='html'>&lt;br /&gt;O encerramento de muitas escolas, designadas anteriormente por prim&amp;aacute;rias e hoje pela sigla E.B. 1, &amp;eacute; uma inevitabilidade. De facto, que sentido faz manter escolas com meia d&amp;uacute;zia de alunos? De um ponto de vista econ&amp;oacute;mico &amp;eacute; absurdo e de um ponto de vista pedag&amp;oacute;gico, e isto ser&amp;aacute; o mais importante, &amp;eacute; err&amp;oacute;neo. A economia de escala dita aqui as suas leis.&lt;br /&gt;Basta pensar no que perder&amp;atilde;o as crian&amp;ccedil;as em termos de socializa&amp;ccedil;&amp;atilde;o e de desfrute de instala&amp;ccedil;&amp;otilde;es educativas, nomeadamente desportivas, para al&amp;eacute;m de uma maior riqueza e diversidade curricular que s&amp;oacute; uma escola de dimens&amp;otilde;es adequadas lhes poder&amp;aacute; proporcionar.&lt;br /&gt;E ser&amp;aacute; assim, mal-grado a gritaria de autarcas e popula&amp;ccedil;&amp;otilde;es. Fechar uma escola &amp;eacute; apressar a morte de muitas comunidades rurais? S&amp;ecirc;-lo-&amp;aacute;. Mas qual a alternativa? Sujeitar os infantes a uma escolaridade deficiente? E o n&amp;atilde;o encerramento dessas escolas obstar&amp;aacute; ao total definhamento de muitas dessas comunidades? Obviamente n&amp;atilde;o.&lt;br /&gt;Tamb&amp;eacute;m eu, criado em meio rural, como quase todos n&amp;oacute;s, tenho a nostalgia da minha pequena escola, da minha mestra, dos meus colegas. Esse mundo acabou.&lt;br /&gt;Os assalariados rurais migraram ou emigraram. Os pequenos rendeiros ou propriet&amp;aacute;rios definharam ou simplesmente mudaram de ocupa&amp;ccedil;&amp;atilde;o ou de poiso para viver. Quem quer hoje sujeitar-se a viver num pequeno povoado remoto, e j&amp;aacute; n&amp;atilde;o digo monte, engordando o seu porquito, mantendo a sua cria&amp;ccedil;&amp;atilde;o, colhendo meia d&amp;uacute;zia de sacos de azeitona, semeando uma seara em meia d&amp;uacute;zia de hectares e comendo dos legumes plantados no hortejo? Alguns? Decerto. Os poucos idosos que n&amp;atilde;o puderam ou n&amp;atilde;o quiseram mudar-se a horas. A verdade &amp;eacute; que nas comunidades rurais mais afastadas dos m&amp;eacute;dios e grandes centros urbanos s&amp;oacute; h&amp;aacute; idosos, n&amp;atilde;o h&amp;aacute; casais jovens e por isso n&amp;atilde;o h&amp;aacute; crian&amp;ccedil;as. E uma comunidade sem crian&amp;ccedil;as est&amp;aacute; condenada ao gradual definhamento e ao inexor&amp;aacute;vel desaparecimento. E isto n&amp;atilde;o &amp;eacute; apenas entre n&amp;oacute;s, &amp;eacute; um mal comum a toda a Europa.&lt;br /&gt;A velha Europa ser&amp;aacute;, de todos os continentes, aquele onde a m&amp;atilde;o do homem mais afei&amp;ccedil;oou a paisagem, num trabalho continuado por s&amp;eacute;culos. E pa&amp;iacute;ses h&amp;aacute; onde esse trabalho deu aos campos uma aprazibilidade de quase jardim. Do pouco que conhe&amp;ccedil;o de modo vivencial sempre recordo com encanto e emo&amp;ccedil;&amp;atilde;o essa extraordin&amp;aacute;ria obra do engenho humano que &amp;eacute; o campo em Fran&amp;ccedil;a. Tamb&amp;eacute;m a nossa paisagem duriense &amp;eacute; disso exemplo paradigm&amp;aacute;tico. Nalguns pa&amp;iacute;ses, na &amp;Aacute;ustria por exemplo, a manuten&amp;ccedil;&amp;atilde;o da paisagem e da agricultura alpina &amp;eacute; feita com grandes disp&amp;ecirc;ndios de dinheiros p&amp;uacute;blicos, pois tal agricultura, para subsistir, &amp;eacute; altamente custeada.&lt;br /&gt;Ser&amp;aacute; ent&amp;atilde;o a manuten&amp;ccedil;&amp;atilde;o do mundo rural um luxo s&amp;oacute; acess&amp;iacute;vel a pa&amp;iacute;ses ricos, que o podem pagar? Talvez n&amp;atilde;o. Talvez seja poss&amp;iacute;vel encontrar outra voca&amp;ccedil;&amp;atilde;o econ&amp;oacute;mica para esse mundo que, se o n&amp;atilde;o salvar&amp;aacute; de todo, talvez o salve em parte. Talvez que o turismo s&amp;eacute;nior, mormente o proveniente do norte europeu, frio e descolorido, seja em parte solu&amp;ccedil;&amp;atilde;o. E a&amp;iacute; sim, a&amp;iacute; talvez que algumas actividades agr&amp;iacute;colas se lhe possam desenvolver paralelamente e possamos assistir ao retorno de alguns daqueles que aqui &lt;i&gt;votaram com os p&amp;eacute;s&lt;/i&gt;, isto &amp;eacute;, que se viram compelidos &amp;agrave; partida em procura de melhor vida.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-114037860224565835?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/114037860224565835'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/114037860224565835'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2006/02/morte-lenta-do-mundo-rural.html' title='&lt;b&gt;A morte lenta do mundo rural&lt;/b&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-113968672244810919</id><published>2006-02-11T19:38:00.000Z</published><updated>2006-02-11T19:38:44.966Z</updated><title type='text'>Ainda as caricaturas blasfemas</title><content type='html'>&lt;br /&gt;O ministro dos Neg&amp;oacute;cios Estrangeiros do governo portugu&amp;ecirc;s publica um comunicado, com chancela do Minist&amp;eacute;rio, onde condena as caricaturas como ofensivas da religi&amp;atilde;o isl&amp;acirc;mica. Quanto aos desmandos de multid&amp;otilde;es hist&amp;eacute;ricas e ululantes que queimam embaixadas e bandeiras e proferem amea&amp;ccedil;as de morte aos &amp;iacute;mpios infi&amp;eacute;is ocidentais nem uma palavra. Instado a comentar o comunicado ter&amp;aacute; dito que n&amp;atilde;o condena o &amp;oacute;bvio. Ora &amp;eacute; t&amp;atilde;o &amp;oacute;bvio que as caricaturas de Maom&amp;eacute; iriam ferir a t&amp;atilde;o melindrosa susceptibilidade isl&amp;acirc;mica, como ser&amp;aacute; &amp;oacute;bvio que actos de uma viol&amp;ecirc;ncia gratuita e desproporcionada, relativamente &amp;agrave; publica&amp;ccedil;&amp;atilde;o de umas meras caricaturas, s&amp;atilde;o merecedores de um total rep&amp;uacute;dio e veemente condena&amp;ccedil;&amp;atilde;o. Mais ainda quando hoje se sabe que tais genu&amp;iacute;nas e espont&amp;acirc;neas manifesta&amp;ccedil;&amp;otilde;es de ira t&amp;ecirc;m vindo a ser preparadas quase desde a publica&amp;ccedil;&amp;atilde;o das caricaturas, que o foram em Setembro passado.&lt;br /&gt;O que nos vale &amp;eacute; que a visibilidade externa das palavras do senhor ministro Freitas do Amaral &amp;eacute; tanta quanta a do Pa&amp;iacute;s e do Governo de que faz parte. Porque as palavras contidas no comunicado do minist&amp;eacute;rio n&amp;atilde;o veiculam apenas a opini&amp;atilde;o do senhor ministro ou do seu governo, elas s&amp;atilde;o a express&amp;atilde;o daquilo que o Pa&amp;iacute;s pensa sobre o assunto, j&amp;aacute; que vivemos numa democracia representativa. Mas j&amp;aacute; estamos habituados a estas tomadas de posi&amp;ccedil;&amp;atilde;o de c&amp;oacute;coras dos nossos governantes. Tem sido assim em rela&amp;ccedil;&amp;atilde;o aos governantes das ex-col&amp;oacute;nias, &amp;eacute; assim agora relativamente aos senhores do petr&amp;oacute;leo. Em nome da &lt;i&gt;realpolitik&lt;/i&gt;, isto &amp;eacute;, do mundo dos neg&amp;oacute;cios, e para nossa vergonha.&lt;br /&gt;Somos fi&amp;eacute;is seguidores de uma pol&amp;iacute;tica de auto-culpabiliza&amp;ccedil;&amp;atilde;o que tem vindo a ensombrar a Europa de h&amp;aacute; d&amp;eacute;cadas para c&amp;aacute;. Os ex-colonizados clamam? Que fazer? Pede-se desculpa. Pede-se desculpa pela Hist&amp;oacute;ria, pelo passado, isto &amp;eacute;, pedimos desculpa pela nossa exist&amp;ecirc;ncia de na&amp;ccedil;&amp;otilde;es com Hist&amp;oacute;ria e passado, pedimos desculpa por termos existido e, n&amp;atilde;o tarda, por existirmos. Por existirmos com as nossas convic&amp;ccedil;&amp;otilde;es, com a nossa cultura, por existirmos como muito bem entendemos. C&amp;aacute; por mim perguntaria &amp;agrave;s oligarquias teocr&amp;aacute;ticas e desp&amp;oacute;ticas que governam a maior parte dos pa&amp;iacute;ses isl&amp;acirc;micos, quando &amp;eacute; que pensam pedir desculpa pelo desrespeito permanente pelos mais elementares direitos e pelas in&amp;uacute;meras atrocidades cometidas sobre os seus pr&amp;oacute;prios povos. E n&amp;atilde;o por actos passados mas por actos bem presentes.&lt;br /&gt;Entre n&amp;oacute;s, europeus, e o mundo isl&amp;acirc;mico hodierno existe uma fractura hist&amp;oacute;rica que remontar&amp;aacute; ao S&amp;eacute;culo das Luzes. Tivemos guerras religiosas, tivemos os iconoclastas, tivemos a Inquisi&amp;ccedil;&amp;atilde;o, cometemos crimes sem conta em nome da pureza dos ideais religiosos. Se cedemos agora &amp;agrave;s press&amp;otilde;es e exig&amp;ecirc;ncias de l&amp;iacute;deres religiosos fanatizados estaremos a p&amp;ocirc;r em causa todo um legado civilizacional que constru&amp;iacute;mos e a que custo. Eu por mim n&amp;atilde;o quero um regresso &amp;agrave; barb&amp;aacute;rie. N&amp;atilde;o somos n&amp;oacute;s que temos que descer ao n&amp;iacute;vel de aceita&amp;ccedil;&amp;atilde;o de exig&amp;ecirc;ncias que ponham em causa o modo de vida que escolhemos, s&amp;atilde;o os outros que ter&amp;atilde;o que nos aceitar como somos e como tal ter&amp;atilde;o que nos respeitar. Porque o que todo este mal estar reinante no mundo isl&amp;acirc;mico reflecte &amp;eacute; a sua desadequa&amp;ccedil;&amp;atilde;o a um mundo cada vez mais global, &amp;eacute; o choque entre adquiridos civilizacionais cada vez mais globais e um mundo fechado, regido por princ&amp;iacute;pios emanados de textos escritos h&amp;aacute; 1400 anos e governado por cliques as mais das vezes corruptas e desp&amp;oacute;ticas.&lt;br /&gt;Mas quem quer ser respeitado tem que se dar ao respeito. Por isso foi t&amp;atilde;o infeliz o comunicado do senhor ministro Freitas do Amaral. E se ainda n&amp;atilde;o t&amp;iacute;nhamos sido directamente visados pelo fanatismo isl&amp;acirc;mico que por a&amp;iacute; agora tem campeado pois, senhor ministro, para ter dito o que disse mais valia n&amp;atilde;o ter dito nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-113968672244810919?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/113968672244810919'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/113968672244810919'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2006/02/ainda-as-caricaturas-blasfemas.html' title='&lt;b&gt;Ainda as caricaturas blasfemas&lt;/b&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-113917283847880229</id><published>2006-02-05T20:53:00.000Z</published><updated>2006-02-05T20:56:43.170Z</updated><title type='text'>Blasfémias</title><content type='html'>Alguém escreve um livro sobre Maomé. Porque o autor não encontra ninguém que lhe ilustre o livro, com medo de represálias, um obscuro jornal dinamarquês, que dá pelo título de &lt;em&gt;Jillands-Posten&lt;/em&gt;, resolve desafiar os criativos locais e, no dia 30 de Setembro, publica doze caricaturas do profeta islâmico. Estava aceso o rastilho.&lt;br /&gt;Curiosamente, só agora, passados cerca de quatro meses, o assunto é alvo da cólera dos governos e dos governados dos países muçulmanos. Porquê só agora? Não o sei. Quem o saiba que mo explique.&lt;br /&gt;Clamam os líderes religiosos muçulmanos que se trata de blasfémia. Não é. Só o crente é blasfemo. O não crente, quando muito, poderá injuriar, denegrir, ofender mas nunca blasfemar.&lt;br /&gt;Será então ofensiva a publicação de tais caricaturas? É-o aos olhos do crente e será de todos conhecida a grande susceptibilidade do crente muçulmano. Esse é um mundo que não conheceu qualquer processo de laicização, onde poder político e poder religioso se confundem onde, enfim, estará de todo por fazer a secularização da lei. Não nos confundamos: aqui, na Europa, o Iluminismo sucedeu no século XVIII e as revoluções liberais, suas filhas, aconteceram há duzentos anos. E no entanto, mesmo aqui, entre nós, não haveria um sentimento de repúdio se acaso, na imprensa muçulmana, surgissem quaisquer caricaturas afrontosas de Cristo ou de qualquer outro símbolo que reputamos como sagrado? Decerto que sim.&lt;br /&gt;Mas o que está aqui verdadeiramente em causa é algo que para nós será um dado adquirido e inquestionável, mas não o é para o mundo muçulmano: a liberdade de expressão, a qual envolve mesmo a liberdade de asnear e ser insensato. Quem quiser poderá fazê-lo, sujeitando-se, é óbvio, ao primado da lei, mas uma lei secular, não religiosa.&lt;br /&gt;Recordar-se-ão decerto do episódio protagonizado por um secretário de Estado de um governo de Cavaco Silva e o escritor José Saramago, acerca da proposição do seu livro &lt;em&gt;O Evangelho Segundo Jesus Cristo&lt;/em&gt; para um prémio internacional. Foi de tal monta o incidente que o escritor se exilou em Lanzarote e só muitos anos depois fez as pazes com o partido a que pertence o douto e melindroso secretário de Estado, o P.S.D.. E alguns outros exemplos de susceptibilidades feridas por motivos religiosos aqui se poderiam citar e em época recente. Não estranhemos pois a cólera dos muçulmanos.&lt;br /&gt;Mas se lhes reconhecemos o direito à indignação não abdiquemos jamais das nossas liberdades, tão laboriosa e duramente conquistadas, em nome de qualquer relativismo moral ou da dogmática do politicamente correcto.&lt;br /&gt;Foi destituída de bom senso a publicação de tais caricaturas? Foi. São de evitar quaisquer ofensas gratuitas aos sentimentos religiosos de terceiros? Com certeza. São tais actos inevitáveis? Decerto que não. Pois que protestem os crentes muçulmanos mas que esses protestos não assumam as formas violentas que tão caras são a um sector radicalizado e fanatizado do mundo islâmico. A recente destruição das embaixadas da Dinamarca e Noruega em Damasco não são formas aceitáveis de protesto. A propósito, gostaria de ver a mesma veemência nos protesto de rua quando o que está em causa é um qualquer atentado perpetrado na Europa por um qualquer grupo terrorista de inspiração islâmica.&lt;br /&gt;Na verdade, pessoalmente, que sou agnóstico, e esta afirmação não a poderia eu fazer publicamente se fosse indígena de um qualquer país muçulmano, o incidente provocado pela publicação de tais caricaturas não passa de um &lt;em&gt;fait-divers&lt;/em&gt;, pouco merecedor do empolamento que lhe tem sido dado.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-113917283847880229?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/113917283847880229'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/113917283847880229'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2006/02/blasfmias.html' title='&lt;b&gt;Blasf&amp;eacute;mias&lt;/b&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-113855963265499978</id><published>2006-01-29T18:33:00.000Z</published><updated>2006-01-29T18:37:56.620Z</updated><title type='text'>Para que servem os professores?</title><content type='html'>Para que servem os professores? - perguntou no Prós e Contras, com trejeitos de animadora mediática, para gáudio e aplauso da plateia acéfala, Clara Pinto Correia, professora e investigadora(?), colunista e colunável que se tornou há bem pouco tempo notícia escandalosa em jornais e revistas por ter plagiado uns artigos científicos. Se foram esses os métodos ensinados pelos seus professores ou se os ensina aos seus alunos, não me espanta que questione a sua utilidade como professora, pois lhe bastará mandar os estudantes à Internet para fazer &lt;i&gt;copy &amp; paste&lt;/i&gt; de um qualquer artigo! Mas a memória é curta... e este país parece sofrer de amnésia crónica.&lt;br /&gt;E eu, professora do ensino secundário, por vocação e escolha, me confesso: ao fim de 35 anos de dedicação exclusiva ao ensino, senti-me esventrada até ao âmago da alma pela agudeza da pergunta e tentei encontrar uma (possível) resposta que gostaria de partilhar com o mundo. Para que servem, então, os professores?&lt;br /&gt;Servimos como bombo da festa e consolo nacional para a ignorância, mediocridade e incompetência que grassa transversal e perpendicularmente em todas as profissões (sem excepção) deste país; presumo, a julgar pela atitude da plateia, que não tivemos, nem temos, qualquer crédito na formação dos bons, dos competentes e dos cultos. Se os portugueses estão na cauda da Europa, não é por falta de habilitações, nem por trabalharem mal, mas por terem tido maus professores!&lt;br /&gt;Servimos de desculpa e bode expiatório para a impossibilidade, incapacidade ou desinteresse dos pais (quantos destes naquela plateia?), encarregados de educação e outros familiares em ensinarem aos filhos, nos primeiros anos da infância, os princípios morais e cívicos, tão necessários à formação do indivíduo. Como poderá a escola impor hábitos de higiene, de delicadeza, de disciplina e outros igualmente básicos a alunos adolescentes, quando os não tiveram na infância? Servimos, assim, para assediar os pais com chamadas à escola, incomodando-os com ninharias como as faltas injustificadas, mau comportamento ou o desinteresse dos filhos.&lt;br /&gt;Servimos também para arcarmos com as culpas e responsabilidades do falhanço continuado de reformas impostas por sucessivos ministérios, feitas muitas vezes "sobre o joelho" e por gente que desconhece a realidade escolar e aposta no facilitismo para mascarar o insucesso. Servimos de trampolim para muitos "chicos-espertos" fazerem carreira à custa do nosso trabalho e da nossa dedicação, apesar das condições miseráveis das nossas escolas. Servimos para muita coisa, pelos vistos, menos para ensinar as matérias das nossas disciplinas, porque passamos o tempo a tentar que os adolescentes se comportem com civismo, sentados (sim, C. P. Correia, um acto tão simples como ficarem sentados 45 minutos) a uma mesa, a trabalhar numa aula de Português ou de Matemática, sem gritos, sem conversa, sem música de telemóveis, para só falar nos males menores.&lt;br /&gt;Servimos de pau para toda a obra, nas nossas escolas, mas servimos, acima de tudo, para amar os nossos alunos, para os compensar das muitas carências afectivas, mesmo quando nos rejeitam, para tentar ensinar-lhes, embora remando contra a maré de bruteza desta sociedade que os tritura, que há valores que são eternos, como os diamantes e, como eles, preciosos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(publicado na secção "Cartas ao Director" do jornal &lt;i&gt;Público&lt;/i&gt;, de 27 Jan. 2006, da autoria da minha colega de profissão e desencanto Deana Barroqueiro, escritora e professora do E. Secundário, presumo que em Lisboa, e cujas palavras eu inteiramente subscrevo e por tal transcrevo, com a devida vénia.)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-113855963265499978?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/113855963265499978'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/113855963265499978'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2006/01/para-que-servem-os-professores.html' title='&lt;b&gt;Para que servem os professores?&lt;/b&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-113794402507527119</id><published>2006-01-22T15:33:00.000Z</published><updated>2006-01-23T23:49:29.190Z</updated><title type='text'>Metapresidenciais</title><content type='html'>Escrevo hoje, 22 de Janeiro, dia de eleições presidenciais. Para além da espuma da campanha, para além dos já habituais lugares comuns que os candidatos, esforçadamente, debitam País fora para plateias de convertidos, para além da renovada esperança de uma fracção cada vez menor dos eleitores em melhores dias, o que me fica como marca mais saliente, mais ou menos consequente, o futuro no-lo dirá, é, melhor será porque à hora a que escrevo ainda não sei os resultados definitivos, a surpreendente votação em Manuel Alegre, quer ele fique em segundo ou terceiro lugares.&lt;br /&gt;Surpreendente porque, qual D. Quixote, sem o apoio de uma máquina partidária, até mesmo contra essa nebulosa de interesses e dependências feudais que comummente se designa por aparelho, no caso aquele do Partido de onde emana, se atirou à liça, granjeou adesões e conquista um significativo número de votos, suficientemente amplo para nos fazer meditar.&lt;br /&gt;Desde logo a candidatura de Manuel Alegre não foi um epifenómeno ditado por razões de ordem pessoal de alguém que procura palco e notoriedade política; Manuel Alegre não o necessita por razões de todos sobejamente conhecidas e que seria ocioso enunciar.&lt;br /&gt;Esta também não é uma candidatura cómoda; Alegre arrostou com a malquerença de muitos que foram seus companheiros de lutas políticas de muitos e largos anos, particularmente Mário Soares. Esta sua candidatura abriu feridas que tarde ou nunca sararão.&lt;br /&gt;Se alguma razão mais forte ditou então esta candidatura foi a sua vontade de afrontar o poder, asfixiante, que os ditos aparelhos partidários vêm assumindo na vida política nacional, pouco espaço deixando livre para a livre participação cívica dos cidadãos. E é em volta desta candidatura que se formou um grande movimento cívico, gerado contra a lógica aparelhística, contra essa imagem, que infelizmente também é uma prática, nefasta para uma sã vida democrática, dos partidos como organizações tentaculares que tudo controlam e tudo decidem, desde quem é o candidato autárquico até ao emprego do filho do compadre do militante que é sobrinho do presidente da estrutura partidária concelhia.&lt;br /&gt;Alguns sinais já haviam sido dados aquando da realização das últimas eleições autárquicas, com algumas listas de independentes intrometendo-se nas pugnas inter-partidárias e conquistando algumas autarquias. Em minha opinião esta é uma tendência que se irá acentuar no futuro. Compreenderão os partidos políticos estes sinais, serão eles capazes de mudar o suficiente para não defraudar mais as expectativas, tantas vezes goradas, dos eleitores?&lt;br /&gt;O país precisa de subir um patamar em termos de exigência, rigor e seriedade, penhor de um desenvolvimento económico que tarda. Cabe aos partidos políticos serem agentes e protagonistas dessa mudança. Aos partidos e aos cidadãos, organizados ou não em estruturas partidárias. Afinal, e felizmente, a participação política e cívica dos cidadãos não se esgota na actividade partidária.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-113794402507527119?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/113794402507527119'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/113794402507527119'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2006/01/metapresidenciais.html' title='&lt;b&gt;Metapresidenciais&lt;/b&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-113717365256072581</id><published>2006-01-13T17:34:00.000Z</published><updated>2006-01-13T17:47:08.630Z</updated><title type='text'>Votamos para quê, quando votamos?</title><content type='html'>Um partido político é, qualquer dicionário no-lo dirá, uma associação de cidadãos organizada em torno de um determinado projecto de sociedade, nas suas vertentes política, social, económica e cultural, e que visa a conquista do poder para a implementação desse mesmo projecto. Seria de esperar, como tal, que transcorridas três décadas de regime democrático os partidos, que se têm revezado no poder, tivessem deixado mais profundas marcas na sociedade. Se éramos, e continuamos a ser, uma sociedade marcada por profundas assimetrias sociais, económicas e culturais, a menos igualitária das que compõem a União Europeia, teremos forçosamente que nos questionar sobre os reais propósitos e eficácia das políticas entretanto desenvolvidas pelos poderes que nos têm governado, tanto mais que essas forças políticas, referimo-nos obviamente ao P.S. e ao P.P.D.-P.S.D., se invocam ambas da social-democracia e ambas dizem visar não somente a democracia política mas igualmente uma crescente e maior democracia económica, sem a qual aquela será sempre e necessariamente anquilosada, incompleta.&lt;br /&gt;Mas a que assistimos nós após cada acto eleitoral? A um esforço concertado de mudança do &lt;i&gt;statu quo&lt;/i&gt;? Vislumbramos nós sinais de mudança? Não, o que vemos é uma corrida desenfreada, uma desapiedada e torpe competição partidária pelos despojos do poder, a distribuição dos&lt;i&gt; jobs for the boys&lt;/i&gt;, frase que, estou certo, Guterres já terá bastas vezes lamentado ter pronunciado, de tal modo ela glosa lapidarmente as práticas políticas do seu e dos outros partidos.&lt;br /&gt;E as histórias que recentemente têm vindo a lume, a somar a outras passadas, sobre a promiscuidade entre o poder político e os grandes interesses financeiros e empresariais, mais intranquilos nos deixam. Confesso que os episódios narrados pelos media resultam, para mim, simples e vulgar cidadão , de difícil compreensão: ele são a banca e o mundo empresarial mais os conselhos de administração e o poder dos accionistas, os interesses nacionais e os interesses estrangeiros, a compra e venda de acções, a clareza e a opacidade das regras do mercado, a perda de influência estatal em sectores económicos ditos estratégicos, o diabo a quatro. De tudo isto o que resulta? Que ministros, enquanto tal, e legitimamente, porque pretensos defensores dos interesses da República, mantêm relações negociais com o mundo do grande dinheiro e depois que cessam funções governativas nos aparecem como homens de mão daqueles com quem negociaram. Se não há aqui ilegalidade há pelo menos imoralidade. À trindade tantas vezes denunciada composta pelo poder municipal, futebol e construção civil acrescenta-se a relação dual esfera governativa / mundo empresarial.&lt;br /&gt;Votamos para quê, quando votamos? Para que uma revoada de clientes ocupe altos cargos na administração e nos conselhos de administração de empresas públicas e, pelos vistos, também de empresas privadas?&lt;br /&gt;O país há anos que deixou de convergir com a média comunitária, atrasámo-nos até, não obstante os auxílios económicos de que beneficiamos. Índices de desenvolvimento humano tendem a persistir a níveis que deveriam despertar um rebate de indignação cívica, civilidade essa de que também denunciamos um lamentável défice. E senhores governantes, os cidadãos, quando votam, não votam exactamente para os fins que, infelizmente, parecem ser aqueles que são os do vosso entendimento.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-113717365256072581?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/113717365256072581'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/113717365256072581'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2006/01/votamos-para-qu-quando-votamos.html' title='&lt;b&gt;Votamos para qu&amp;ecirc;, quando votamos?&lt;/b&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-113598005412764079</id><published>2005-12-30T22:00:00.000Z</published><updated>2005-12-30T22:15:27.143Z</updated><title type='text'>Que Todos tenham um Ano Melhor do que aquele que está a findar</title><content type='html'>O ano está a acabar e verdade, verdadinha, não correu bem à maioria dos portugueses. A retoma económica tarda, o desemprego aumenta a cada dia que passa, os novos aderentes à União Europeia passam-nos à frente que é uma limpeza, aqueles índices que a todos deveriam envergonhar persistem e um sentimento de depressão e descrença apossa-se de todos nós.&lt;br /&gt;Na verdade não temos muitas razões para nos sentirmos felizes. No meu caso pessoal consumou-se aquilo que, qual espada de Dâmocles, me ameaçava, a mim e a muitos milhares: após 31 anos de serviço, quando esperava trabalhar mais cinco, porque foi isso que contratualizei com o Estado não ontem, não há meia dúzia de anos mas há 31 anos, vêm-me agora dizer que já não é assim, agora terei que trabalhar não mais cinco mas mais doze até alcançar a tão almejada reforma. Recordam-se todos, decerto, que até há muito pouco tempo se permitiu que agentes da função pública pagassem anos de trabalho, bastando para isso o testemunho de dois comparsas e com isso antecipavam em anos a idade de reforma. Noutros casos houve mesmo incentivos às reformas antecipadas. Que diabo, não foi assim há tanto tempo. Então os governantes que, à altura, pactuaram com tudo isto, não perceberam que, ao enveredarem por tal caminho, estavam a hipotecar o futuro de muitos outros? E por que o fizeram? Por motivos eleitoralistas, populistas? Por estupidez? Afinal que raio de governantes temos nós? Cometem dislates de forma irresponsável e são os outros que têm que pagar as favas? E eles, esses governantes, onde param? Provavelmente, porque melhor informados, prepararam as coisas de tal modo que já se encontrarão no pleno gozo da sua reforma, em muitos casos dourada. Não , na verdade não tenho muitas razões para me sentir feliz.&lt;br /&gt;E agora? Bem, agora é de esperar tudo. Se contratos firmados há dezenas de anos são assim denunciados está aberta a porta a toda e qualquer arbitrariedade. Dizia-me o meu pai, já lá vão muitos anos, que o Estado poderá remunerar mal os seus funcionários mas remunera-os e cumpre o que com eles contratualiza porque o Estado é pessoa de bem, tem necessariamente que o ser. Parece que isso já foi.&lt;br /&gt;E os aumentos anunciados , meus amigos, são de 1,5%. Será mais um ano em que perderemos poder de compra. Se for por bem, a gente conforma-se. Se de todos estes sacrifícios que nos são impostos resultar um futuro comum mais risonho, tudo bem, a gente acata. Só que já foram tantas as promessas adiadas e tantos os sacrifícios imediatos que, mesmo que a gente não queira, a descrença acaba por vir ao de cima.&lt;br /&gt;A propósito, ouvi agora na televisão que o nosso primeiro-ministro sofreu uma distensão num joelho quando fazia esqui numa estância de Inverno na Suiça. A propósito? Porquê a propósito? Nem eu mesmo sei. Lembrei-me! Ainda bem que o nosso primeiro-ministro não vai ler estas linhas, senão imaginaria logo que eu estava para aqui a insinuar que quando se pedem sacrifícios à população os governantes devem dar sinais de alguma parcimónia e austeridade na forma como se conduzem na sua vida privada, com a qual nós não temos nada que ver, pois não é verdade? E insinuações destas são de mau gosto, miserabilistas. O nosso primeiro-ministro pode fazer esqui onde muito bem entender, até podia ir p'ró, olha, p'ró Colorado, para Bolton, que é uma estância de Inverno muito chique, pelo menos é o que eu tenho ouvido dizer, até costuma ir para lá esquiar o doutor Paulo Portas que também é uma pessoa muito fina. Bem, o nosso primeiro-ministro podia ir fazer esqui para a Serra da Estrela, parece que ele é daquelas zonas, mas também que graça tinha isso? Primeiro toda a gente o haveria de conhecer e lá se ia a bendita privacidade. Assim, na Suiça, ele há de ser tão conhecido como o primeiro-ministro da Lituânia, que eu se visse na rua não reconheceria e penso que nem você, e assim ninguém o irá incomodar. Segundo, já não há cão nem gato que não faça esqui na Serra da Estrela e, que diabo, é de esperar que os nossos governantes, a nossa elite governativa como sói dizer-se, procure desfrutar as suas merecidas férias em locais mais&lt;i&gt; in&lt;/i&gt;. Na verdade, ir fazer esqui para a Serra da Estrela é um bocado fatela, não acha?&lt;br /&gt;Bom, já vai longa a missiva. Tenha um bom ano caro leitor, melhor do que aquele que agora finda. Haja esperança, que a esperança é a última coisa a morrer, esperança e saúde que o mais, melhor ou pior, se arranjará.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-113598005412764079?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/113598005412764079'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/113598005412764079'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2005/12/que-todos-tenham-um-ano-melhor-do-que.html' title='&lt;b&gt;Que Todos tenham um Ano Melhor do que aquele que est&amp;aacute; a findar&lt;/b&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-113492878897206790</id><published>2005-12-18T17:59:00.000Z</published><updated>2005-12-18T19:11:36.446Z</updated><title type='text'>Evolução na Continuidade</title><content type='html'>Anuncia-se para breve a mudança de director no órgão de informação baixo-alentejano "Diário do Alentejo". E depois? Quando um jornal é dependente das maiorias políticas conjunturais que se forjam após cada eleição autárquica, quando esse mesmo jornal está economicamente dependente dos poderes políticos porque não é viável economicamente, isto é, não tem leitores suficientes que o suportem, quando um jornal tem esta dupla dependência, política e económica, que admira pois que a sua linha editorial dance e balance ao sabor das partidocracias?&lt;br /&gt;Durante um longo período, que irá do pós-25 de Abril a 2001, quando as câmaras CDU, na sequências das eleições autárquicas então disputadas, deixaram de ser maioritárias no seio da Associação de Municípios do Baixo Alentejo e Alentejo Litoral, a entidade pagante e, por isso, mandante no jornal, durante esse longo período foi o jornal de um panfletarismo monocolor merecedor das mais severas críticas por parte das forças políticas opositoras. E com razão.&lt;br /&gt;Após 2001, e até ao presente, a linha editorial do jornal sofreu alterações que se pretendiam de equilíbrio e isenção política. E o que sucedeu? Foi nomeado um novo director para o jornal , o agora em vias de demissão, e o jornal seguiu uma linha editorial inócua, coibindo-se de tecer quaisquer críticas, veladas que fossem, à gestão das autarquias integrantes da entidade patronal, a AMBAAL. Isto é, o jornal deixava de servir um só senhor e passava a servi-los todos. Interessante, original, recomendável continuava a ser a linha editorial do jornal.&lt;br /&gt;A partilha político-partidária deste patético órgão de informação regional chegava ao ponto de se repartirem com equidade os colunistas, tantos de uma cor, tantos de outra cor. Pretendia-se, com a original solução, dar-se ares de isenção e independência. E colunistas não faltaram, na sua maioria mais colunáveis que colunistas, gente em busca de protagonismo mediático, servindo interesses pessoais ou de grupo, mandatada, quase sempre, pelos aparelhos político-partidários que não por qualquer vocação jornalística ou intenção de intervenção cívica e cidadã.&lt;br /&gt;Regressaremos agora à linha panfletária monocolor? Tudo parece indicá-lo. E depois? Não será essa a evolução mais natural deste, que alguns pretendem, conceituado jornal tendo em conta os condicionalismos em que o mesmo tem vivido de há trinta anos a esta parte?&lt;br /&gt;Interessante jornal este, interessante como&lt;i&gt; case-study&lt;/i&gt; de órgão de informação dependente e por isso instrumentalizado pelos poderes que o gerem e o pagam. O pior, o pior de tudo é que o pagam com dinheiros do erário público sem que a opinião pública, mas ela existe?, se insurja e condene.&lt;br /&gt;Interessante ainda porque sendo, de há largos anos, de periodicidade semanal se continuar ainda a chamar diário. É por estas e por outras que se contam tantas anedotas sobre os alentejanos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-113492878897206790?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/113492878897206790'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/113492878897206790'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2005/12/evoluo-na-continuidade.html' title='&lt;b&gt;Evolu&amp;ccedil;&amp;atilde;o na Continuidade&lt;/b&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-113415143125232067</id><published>2005-12-09T18:03:00.000Z</published><updated>2005-12-09T18:03:51.260Z</updated><title type='text'>E Você, também quer ser Espanhol?</title><content type='html'>&lt;br /&gt;Come&amp;ccedil;a a ser recorrente ouvir-se, a prop&amp;oacute;sito dos males de que o Pa&amp;iacute;s enferma, a frase definitiva, assassina, com a qual se ultima a conversa: "O melhor era sermos todos espanh&amp;oacute;is!".&lt;br /&gt;Sintoma de grav&amp;iacute;ssima crise de identidade nacional? Nem tanto.&lt;br /&gt;Ent&amp;atilde;o o que se passa?&lt;i&gt; It's economics, stupid!&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;O vizinho cresce, moderniza-se, afirma-se no panorama europeu e mundial e n&amp;oacute;s? Bem, n&amp;oacute;s h&amp;aacute; anos que deix&amp;aacute;mos de convergir com a Europa, mesmo aqui ao lado e ainda t&amp;atilde;o longe. &amp;Eacute; acabrunhante, humilhante, de fazer roer de inveja qualquer portugu&amp;ecirc;s que se preze. E que coisa f&amp;aacute;cil &amp;eacute; roermo-nos de inveja, esse sentimento t&amp;atilde;o portugu&amp;ecirc;s, t&amp;atilde;o idiossincr&amp;aacute;tico. Sabia que &amp;eacute; essa a palavra com que terminam &lt;i&gt;"Os Lus&amp;iacute;adas"&lt;/i&gt;? N&amp;atilde;o exactamente &lt;i&gt;inveja&lt;/i&gt; mas &lt;i&gt;enveja&lt;/i&gt;, no dizer do portugu&amp;ecirc;s quinhentista.&lt;br /&gt;Qual a solu&amp;ccedil;&amp;atilde;o para esta apagada e vil tristeza do marasmo econ&amp;oacute;mico? Est&amp;aacute;-se mesmo a ver qual ser&amp;aacute;. Arrega&amp;ccedil;armos as mangas e tentarmos fazer mais e melhor? N&amp;atilde;o, o chico-espertismo nacional engendrou solu&amp;ccedil;&amp;atilde;o melhor: sentarmo-nos &amp;agrave; mesa do vizinho, mesmo que n&amp;atilde;o tenhamos sido convidados, e banquetearmo-nos. Digam l&amp;aacute; se a solu&amp;ccedil;&amp;atilde;o n&amp;atilde;o &amp;eacute; um verdadeiro achado digno do g&amp;eacute;nio nacional?&lt;br /&gt;Mas isso de querermos ser espanh&amp;oacute;is ainda tem que se lhe diga. Se at&amp;eacute; ao s&amp;eacute;culo XVI ainda um portugu&amp;ecirc;s se poderia intitular, se perguntada a sua nacionalidade no resto da Europa, ser um espanhol de Portugal, a partir da Restaura&amp;ccedil;&amp;atilde;o tal h&amp;aacute;bito perdeu-se, j&amp;aacute; l&amp;aacute; v&amp;atilde;o, daqui a pouco, quatrocentos anos. &amp;Eacute; muito tempo. Isso de sermos todos espanh&amp;oacute;is, ou melhor hisp&amp;acirc;nicos, tinha a ver com a mem&amp;oacute;ria hist&amp;oacute;rica da monarquia visig&amp;oacute;tica que havia unificado toda a Hisp&amp;acirc;nia na sequ&amp;ecirc;ncia do desmoronar do Imp&amp;eacute;rio Romano e que, por sua vez, deu de pantanas com a invas&amp;atilde;o mu&amp;ccedil;ulmana. E era a necessidade de unidade perante o mundo isl&amp;acirc;mico que fazia os povos ib&amp;eacute;ricos sentirem-se membros e participantes dessa Hisp&amp;acirc;nia una e, sobretudo, crist&amp;atilde;.&lt;br /&gt;Hoje? Bem, assim como um gal&amp;ecirc;s ou um escoc&amp;ecirc;s poder&amp;aacute; partilhar com um ingl&amp;ecirc;s a comum condi&amp;ccedil;&amp;atilde;o de brit&amp;acirc;nicos, ou um noruegu&amp;ecirc;s e um sueco a sua condi&amp;ccedil;&amp;atilde;o de escandinavos, tamb&amp;eacute;m n&amp;oacute;s, com os restantes povos da Ib&amp;eacute;ria, podemos partilhar, e s&amp;oacute;, a comum condi&amp;ccedil;&amp;atilde;o de ib&amp;eacute;ricos.&lt;br /&gt;Mas n&amp;atilde;o deixa de ser curioso que enquanto alguns de n&amp;oacute;s manifestam esse veemente desejo de tamb&amp;eacute;m sermos espanh&amp;oacute;is, se defronte o Estado espanhol com movimentos independentistas que o amea&amp;ccedil;am fazer implodir. &lt;br /&gt;O que se passa? &lt;i&gt;It's economics, stupid!&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;A puls&amp;atilde;o independentista surge precisamente nas prov&amp;iacute;ncias mais ricas e desenvolvidas do territ&amp;oacute;rio espanhol. S&amp;atilde;o elas que t&amp;ecirc;m um produto mais elevado, s&amp;atilde;o elas que mais contribuem para o bolo espanhol e, por isso, mais perder&amp;atilde;o na reparti&amp;ccedil;&amp;atilde;o final desse bolo. Mostrando-se as regi&amp;otilde;es mais ricas de Espanha t&amp;atilde;o pouco solid&amp;aacute;rias para com as mais desfavorecidas talvez que para connosco se mostrassem, quem sabe, mais caridosas e fraternas.&lt;br /&gt;&amp;Eacute; j&amp;aacute; a seguir, &amp;eacute; que &amp;eacute; j&amp;aacute; a seguir!&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-113415143125232067?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/113415143125232067'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/113415143125232067'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2005/12/e-vocm-quer-ser-espanhol_09.html' title='&lt;b&gt;E Voc&amp;ecirc;, tamb&amp;eacute;m quer ser Espanhol?&lt;/b&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-113311462516679749</id><published>2005-11-27T18:03:00.000Z</published><updated>2005-12-02T12:21:07.820Z</updated><title type='text'>Admirável Mundo Novo</title><content type='html'>Não deixa de ser tocante a imensa preocupação manifestada agora pelas forças do capitalismo internacional com a sorte dos milhões de deserdados do Terceiro Mundo que elas querem, à viva força, arrancar dos braços da extrema miséria em que têm vivido, isto após séculos de complacência e do mais profundo desinteresse pelo destino das mesmas.&lt;br /&gt;Bem, não será tanto assim. Ainda no final do século XIX o grande poeta britânico Rudyard Kipling alertava para a necessidade de as hostes iluminadas do ocidente civilizarem e trazerem à luz do progresso essas hordas de selvagens, preocupação essa que o mesmo bardo sintetizava na fórmula "O Fardo do Homem Branco", título de um seu poema que a tão magno assunto era dedicado. Claro que atrás dessa proclamada missão civilizadora vinha a desenfreada procura de matérias-primas e de novos mercados para a pujante e triunfante indústria europeia e americana. E todos sabemos no que vieram a dar essa missão civilizadora e os colonialismos consequentes.&lt;br /&gt;Mas como arrancar agora da miséria essas modernas hordas de deserdados? Muito simplesmente pondo-os a trabalhar nas indústrias que para lá vão, apressadamente, sendo deslocalizadas deixando, é certo, nos países de origem, uma horda de novos deserdados, isto é, de desempregados. Provavelmente este será o novo fardo do homem branco.&lt;br /&gt;Mas será que multidões de operários sujeitas às mais hediondas condições de exploração impostas por um capitalismo selvagem, como ocorre na comunista China, com salários miseráveis, sem quaisquer direitos ou garantias, para quem as palavras férias ou direitos sindicais não passam de uma miragem, será que essas multidões foram arrancadas de facto aos braços da miséria? Porque não exportar para esses países, juntamente com as unidades fabris, conceitos tão básicos como os de sindicato, direito à greve, contratação colectiva, justa remuneração, férias, horário laboral, seguro por acidente, assistência na doença, proibição do trabalho infantil e outros que tais?&lt;br /&gt;Ao mesmo tempo, e com total impudor, põe-se em causa, anunciando-lhe um já irremediável fim, o estado-providência. Para muitos nem já se questiona a sua reforma, a sua adaptação, enfim, a novas realidades. Uma construção civilizacional, e das maiores, de que a Europa, mais do que a América, se devia legitimamente orgulhar, tem a morte anunciada pois não é compatível com a concorrência e a competitividade impostas pelas novas condições económicas a nível global. Então como explicar por que motivo as economias nórdicas, onde o mesmo estado-providência foi mais aprofundado e que nele continuam a apostar, se continuem a prefigurar como das economias mais eficazes e competitivas do Mundo?&lt;br /&gt;Serão estas questões denunciadoras de novos confrontos sociais num futuro que cada vez mais se avizinha? Não tenho dúvidas. A França, que conta com uma opinião pública bem melhor informada e formada do que a nossa, já saiu à rua em defesa daquilo que alguns apelidam de privilégios e outros, mais comedidos, de direitos, mas que para a maioria são conquistas civilizacionais e como tal inegociáveis.&lt;br /&gt;E nós por cá? Bem, nós por cá continuamos entretidos com os shows televisivos, as telenovelas e o futebol. Por enquanto...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-113311462516679749?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/113311462516679749'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/113311462516679749'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2005/11/admirvel-mundo-novo.html' title='&lt;b&gt;Admir&amp;aacute;vel Mundo Novo&lt;/b&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-113181820951207515</id><published>2005-11-12T17:56:00.000Z</published><updated>2005-11-12T18:01:33.113Z</updated><title type='text'>Cuidado! A França é o Laboratório Social e Político da Europa</title><content type='html'>São inquietantes as imagens e as notícias que nos chegam de França: pelo que traduzem de esboroamento das relações sociais e pela incapacidade de um Estado de Direito fazer valer e respeitar no seu território o primado da lei e da ordem.&lt;br /&gt;Estaremos perante um fenómeno a que chamaremos de luta de classes, utilizando os parâmetros mentais e de análise herdados do velho marxismo? Mas quem pratica os actos de violência não são uma classe social em particular, são jovens, alguns ainda adolescentes. Não estão aqui em causa relações laborais, salariais, de condições de trabalho ou habitabilidade.&lt;br /&gt;São estes jovens gente desesperançada, sem perspectivas de futuro? Também o são os adolescentes que, numerosos, juntamente com os mais velhos, praticam actos de violência gratuita?&lt;br /&gt;Vivem em guetos? Mas estes bairros suburbanos, quando foram construídos há vinte, trinta anos, a expensas do Estado francês, que o mesmo é dizer do contribuinte francês, para realojamento dos pais destes jovens que usufruíam de condições de habitação, essas sim, deploráveis, não foram, logo de início, guetos, como se de um pecado original se tratasse; transformaram-se ou melhor, foram transformados em guetos por aqueles que os habitaram.&lt;br /&gt;Qual o percurso de vida de muitos destes jovens? Sem pretensões de adivinho, porque nunca vi feita essa averiguação, mas tendo em atenção a realidade com que me deparo na minha actividade de professor, realidade essa que não é assim tão diferente da francesa, saberei que esse percurso estará marcado pelo insucesso e abandono escolar, adopção de comportamentos anti-sociais na escola e na sociedade, desestruturação familiar, adopção da violência como forma de afirmação individual e grupal. Em suma, a mais completa ausência dos valores de civilidade e de relacionamento humano nos quais sucessivas gerações de europeus foram educados e que nos permitiram usufruir, até hoje, de formas de viver ditas civilizadas.&lt;br /&gt;Não posso de boamente aceitar as explicações cúmplices e desculpabilizadoras de uma certa sociologia, que assaca toda e qualquer responsabilidade à sociedade em que esses indivíduos se inserem passando em branco as responsabilidades individuais que a cada um incumbe pelos actos que pratica.&lt;br /&gt;É a incompetência e a demissão educativa das famílias, quando existem, é a impunidade do delinquente, que leva a que as escolas fiquem reféns de meia dúzia de desordeiros, é o relativismo moral, é todo um caldo de cultura pautado pelo hedonismo e pela satisfação imediata de toda e qualquer pretensão consumista, caldo de cultura veiculado pelos media e muito particularmente pela televisão, essa grande educadora, é, enfim, a falência total de uma sociedade em transmitir aos mais jovens esses valores elementares que são os do trabalho, da perseverança, das boas maneiras e do respeito tolerante pelo outro, são estas as responsabilidades sociais, não aquelas que uma certa sociologia de pacotilha nos tenta vender.&lt;br /&gt;A desculpabilização e a cumplicidade com a desordem não são o caminho, como não o será a repressão pura e dura. Chegámos a um ponto em que as soluções são sempre difíceis e morosas. Mas que a pauta de valores que tem norteado as sociedades europeias, e cuja génese principiou há três ou quatro dezenas de anos, terá que ser repensada, disso não tenho eu a menor dúvida. Sob pena de, para não caminharmos para uma nova barbárie medieval, caminharmos para formas de sociedade repressivas e anuladoras de muitas das liberdades que prezamos e queremos manter.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-113181820951207515?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/113181820951207515'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/113181820951207515'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2005/11/cuidado-frantico-da-europa.html' title='&lt;b&gt;Cuidado! A Fran&amp;ccedil;a &amp;eacute; o Laborat&amp;oacute;rio Social e Pol&amp;iacute;tico da Europa&lt;/b&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-113087209434050661</id><published>2005-11-01T19:08:00.000Z</published><updated>2005-11-02T14:27:06.856Z</updated><title type='text'>Algumas Divagações a Propósito do Terramoto de Lisboa de 1755</title><content type='html'>Passam hoje 250 anos sobre o terramoto que destruiu Lisboa. A propósito, várias iniciativas comemorativas do trágico acontecimento se anunciam. Pela manhã os sinos das igrejas de Lisboa dobraram durante longos minutos. Na estação televisiva oficial ouvi eu, à hora do almoço, a locutora de serviço dizer que na capital os sinos haviam repicado. Ora os sinos repicam em altura festivas, dobram quando o momento é de luto e tristeza e tocam a rebate quando anunciam perigo iminente ou convocam as populações por qualquer razão urgente. Ao que parece estas simples distinções semânticas não as sabem fazer os senhores jornalistas de serviço na estação televisiva oficial, quando trocam o repicar do sino, aqui de todo desadequado, pelo dobrar do mesmo, esse sim, o termo ajustado. Adiante.&lt;br /&gt;Tão trágico acontecimento causou, à época, justa e natural comoção por toda a Europa e provocou mesmo acesas discussões sobre o sentido de tais catástrofes: se eram tributáveis a causas apenas naturais ou se resultavam de um qualquer desígnio divino. Se de origem natural como se poderia entender que Deus as permitisse? Se resultantes da sua vontade como entender que a misericórdia divina pudesse lançar sobre os homens tais calamidades? Decerto que para os castigar pela sua impiedade e actos pecaminosos.&lt;br /&gt;Se para o poder temporal, personificado então pelo Marquês de Pombal, tudo se explicava por causas naturais, conforme estudo por este encomendado, o mesmo não acontecia quanto a muitos membros da Igreja, havendo mesmo pregadores inflamados que, no meio das ruínas, compeliam os aterrorizados sobreviventes à aceitação do trágico evento como castigo pelos seus muitos pecados e os incitavam ao arrependimento, opondo-se mesmo alguns deles à reconstrução da cidade porque contrária aos desígnios divinos. Tragicamente célebre ficou o Padre Gabriel Malagrida, jesuíta italiano autor do folheto &lt;i&gt;Juízo da Verdadeira Causa do Terramoto que Padeceu a Corte de Lisboa no 1º de Novembro de 1755&lt;/i&gt;, no qual considerava o sismo como castigo de Deus. Acabou condenado e executado a mando do Marquês que, além de déspota e cruel, tinha um particular acinte contra os jesuítas.&lt;br /&gt;A propósito do maremoto que assolou o sudeste asiático, em finais do ano passado, também os jornais se fizeram eco desta polémica, causa natural versus desígnio divino, obviamente mais em estilo de celebração do que com propósitos de relançamento do debate, que hoje teria um cariz anacrónico.&lt;br /&gt;"A Deus o que é de Deus e a César o que é de César", eis a máxima tributável a Jesus quando perguntado pelos fariseus sobre se concordava ou não com o pagamento de tributos ao ocupante romano, já lá vão dois milénios. Mas a linha que separa o temporal do espiritual, o divino do secular, é frágil e, ontem como hoje, passível de atropelos por vezes os mais sinistros. Não é verdade que o terrorismo de raiz muçulmana se arroga a inspiração e protecção divinas como justificação e caução para os seus hediondos actos? Afinal, terá o debate um carácter assim tão anacrónico?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-113087209434050661?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/113087209434050661'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/113087209434050661'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2005/11/algumas-divagasito-do-terramoto-de.html' title='&lt;b&gt;Algumas Divaga&amp;ccedil;&amp;otilde;es a Prop&amp;oacute;sito do Terramoto de Lisboa de 1755&lt;/b&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-113008650036982858</id><published>2005-10-23T17:55:00.000+01:00</published><updated>2005-10-23T22:38:45.803+01:00</updated><title type='text'>Que fizeram de ti, Mariana?</title><content type='html'>Estavas tu, linda Mariana, posta em sossego, e incomodam-te para um desconchavo destes. Celebram em teu nome uma Feira dita do "Amor" e eis no que te transformaram: numa cortesâ, numa feirante que vende beijos, "não vai um beijo, ó freguês?", numa traficante de unguentos afrodisíacos e de toda a parafernália de objectos ditos eróticos. Só faltou mesmo utilizar o teu nome como marca de preservativo ou quejando. E que tens tu a ver com tudo isto, Mariana? Nada, absolutamente nada.&lt;br /&gt;Aqueles que em teu nome celebram o mais desbragado hedonismo não te perceberam. Tu foste apenas, o que não é pouco, uma noviça encarcerada entre as paredes de um Convento, desde criança, e que aí te fizeste núbil, donzela sonhadora, e que vieste por fim a apaixonar-te louca, obsessivamente, por um galante, presumo eu, cavaleiro francês que, no período da Guerra da Restauração, aqui comandou seus homens de armas. Que fácil te terá sido apaixonares-te por esse cavaleiro, tão diferente daqueles homens rudes e ignorantes que até então havias conhecido, que poucos seriam sem dúvida, os teus familiares e poucos mais. A França, mãe da moda e da etiqueta, decerto lhe teria suavizado os modos, modulado a voz. E foi pela paixão louca e insensata, e que paixão não o é, que a esse homem dedicaste, ele sim, um cortesão habituado ao ludíbrio e aos jogos frívolos do amor palaciano, que tu, enganada e abandonada, escreveste essas cinco cartas de amor que logo te imortalizariam.&lt;br /&gt;Dizem alguns que não foste tu que as escreveste. Como seria possível que uma simples noviça, educada num Convento situado em nenhures, longe dos grandes centros de produção cultural, sem quaisquer contactos com gente ilustrada e dada às artes e convenções literárias, escrevesse tais cartas, argumentam? Que milagre teria sido esse que te possibilitou tal profundeza de análise psicológica, tal mestria na arte de dizer? Tenho em mim que foste tu que o fizeste, Mariana. Em ti não sei onde acaba o mito e começa a realidade, mas tu és mito, Mariana, tu superas a realidade, que importa a realidade, e quando o mito supera a realidade, escreve-se aquele, não a realidade.&lt;br /&gt;Suportará a lenda estes agravos? Decerto que sim.&lt;br /&gt;Verdade seja dita, no vetusto Convento onde transcorreram os teus dias, as comemorações tiveram a dignidade que o local e a tua figura de amante imortal merecem: fizeram uma exposição bibliográfica, sim, as tuas cartas encontram-se traduzidas nas mais variadas e díspares línguas, e iconográfica, a tua imagem, mítica, etérea, mereceu a atenção e devoção dos grandes mestres da pintura. Mas quanto ao resto, Mariana, é para esquecer. Suportarás tu tais agravos? Decerto que sim. Que são algumas manifestações de mau-gosto em torno da tua memória, em que poderão beliscar elas a tua imagem de símbolo universal do amor e da paixão? Mas lá que aborrece ver tal bastardia acontecer na urbe que te viu nascer e morrer, lá isso aborrece.&lt;br /&gt;E foi para veres tantos abrolhos que te foram despertar do teu secular recolhimento? Mais valia que te tivessem deixado em sossego, Mariana.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-113008650036982858?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/113008650036982858'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/113008650036982858'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2005/10/que-fizeram-de-ti-mariana.html' title='&lt;b&gt;Que fizeram de ti, Mariana?&lt;/b&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-112906643183063024</id><published>2005-10-11T22:33:00.000+01:00</published><updated>2005-10-11T22:33:51.856+01:00</updated><title type='text'>Memórias de Chocolate</title><content type='html'>&lt;br /&gt;Uma fila estanciava perante as caixas autom&amp;aacute;ticas para levantar dinheiro. Viste-a ent&amp;atilde;o. Estava v&amp;aacute;rios lugares &amp;agrave; tua frente, que a fila era longa. Olhaste-a, olhou-te. Um olhar fugaz, r&amp;aacute;pido, circunstancial. Como poderia ela reconhecer-te? E como poderias tu reconhec&amp;ecirc;-la se n&amp;atilde;o te houvessem dito quem era? Tinha sido semanas antes, estavas na rua tagarelando com um grupo de amigos quando ela passou. "Sabes quem &amp;eacute;?", perguntou algu&amp;eacute;m vendo o teu olhar que se demorava na senhora que passava, porque foi isso que te demorou o olhar, foi o porte senhoril despido de altivez, e foi, reconhece-o, uns ainda evidentes tra&amp;ccedil;os de beleza, os tra&amp;ccedil;os de uma mulher que havia sido bela e ainda continuava a s&amp;ecirc;-lo, sem quaisquer artificialidades, cosm&amp;eacute;ticas ou pl&amp;aacute;sticas, e isso nota-se, n&amp;atilde;o &amp;eacute;? Que n&amp;atilde;o, n&amp;atilde;o sabias quem era, respondeste. Disseram-te ent&amp;atilde;o quem era. Era a Camila, uma das filhas do patr&amp;atilde;o do teu pai, daquele que havia sido patr&amp;atilde;o do teu pai porque j&amp;aacute; ambos tinham falecido, e h&amp;aacute; n&amp;atilde;o poucos anos. Se a tinhas conhecido na tua meninice? Ent&amp;atilde;o n&amp;atilde;o conheci?, respondeste. Mas conheceste-a tu? Passaste uma tarde de brincadeira com ela, no monte, quando o pai um dia l&amp;aacute; levou uns convidados da capital para ca&amp;ccedil;arem e almo&amp;ccedil;arem. Mas isso n&amp;atilde;o o contaste tu, ele h&amp;aacute; recorda&amp;ccedil;&amp;otilde;es t&amp;atilde;o gratas, de uma t&amp;atilde;o suave e profunda fragr&amp;acirc;ncia que s&amp;oacute; intimamente as recordamos, porque as palavras n&amp;atilde;o as reproduzem de forma perfeita e porque os outros nunca poder&amp;atilde;o entender quanto elas significam para n&amp;oacute;s.&lt;br /&gt;Ela acompanhou o pai, lembras-te? E enquanto ele e os convidados comeram e beberam tarde adiante, tu brincaste com ela. Eram os dois crian&amp;ccedil;as e o distanciamento que tu sentias existir entre os teus pais e todos aqueles adultos n&amp;atilde;o existiu entre ti e a Camilinha, apenas um acanhamento, um pudor que breve se dissipou. Eram crian&amp;ccedil;as e ainda n&amp;atilde;o haviam aprendido por inteiro os pap&amp;eacute;is sociais que cada um haveria de representar no futuro, ainda eram crian&amp;ccedil;as e inocentes. Brincaram toda a tarde. Tu exibiste-te, bem entendido: sabias o que ela n&amp;atilde;o sabia, sabias dos ninhos e dos nomes dos p&amp;aacute;ssaros, sabias dos nomes das plantas, mesmo as mais humildes que calcamos aos p&amp;eacute;s sem ver, sabias de todos os animais, dom&amp;eacute;sticos e bravios, sabias como selar um cavalo, sabias trepar &amp;agrave;s &amp;aacute;rvores e atiravas pedras t&amp;atilde;o longe e com tanta pontaria que ela te ficava a olhar num misto de admira&amp;ccedil;&amp;atilde;o e inveja. E o que ambos riam quando ela tentava t&amp;atilde;o sem jeito atirar uma pedra. Ela tinha uns olhos cor de avel&amp;atilde;, uns cabelos castanhos ondulados que lhe ca&amp;iacute;am pelas costas, uma voz suave, cantada, como s&amp;oacute; os p&amp;aacute;ssaros canoros que tu t&amp;atilde;o bem conhecias, umas m&amp;atilde;os t&amp;atilde;o brancas e macias, com umas unhas t&amp;atilde;o bem desenhadas a r&amp;oacute;seo, ela era perfeita, era o que tu pensavas s&amp;oacute; existir nos livros de contos de fadas, de reis e rainhas, pr&amp;iacute;ncipes e princesas. E brincaste a tarde inteira, num encantamento t&amp;atilde;o profundo, t&amp;atilde;o indel&amp;eacute;vel que te chegou at&amp;eacute; aos dias de hoje.&lt;br /&gt;Mas esses momentos t&amp;atilde;o fugazes nunca mais se repetiram. E como se haveriam de repetir? Cada um foi &amp;agrave; sua vida, tu, filho do criado, e ela filha do patr&amp;atilde;o, como se haveriam de encontrar mais, que esquina da vida vos poderia proporcionar um recome&amp;ccedil;o?&lt;br /&gt;Ficou-te a mem&amp;oacute;ria. Ado&amp;ccedil;ada ainda mais pelo chocolate que ela te deu. Ela tinha trazido frutas e chocolate para merendar. Ofereceu-te metade, tu n&amp;atilde;o querias aceitar, ela insistiu. Perguntou-te se n&amp;atilde;o gostavas, tu respondeste que sim, mas tu n&amp;atilde;o sabias se gostavas, na verdade nunca tinhas provado chocolate. Em tua casa n&amp;atilde;o entravam tais guloseimas, a pobreza do teu viver n&amp;atilde;o consentia tais luxos, mas tu calaste isso, n&amp;atilde;o confessaste que nunca tinhas provado chocolate, sempre tiveste, desde crian&amp;ccedil;a, esse orgulho, esse amor-pr&amp;oacute;prio, por isso que alguns te vieram depois a chamar vaidoso, mas nunca perdeste esse jeito de ser ao longo da tua vida, o que alguns engulhos te trouxe, mas nasceste assim, por isso lhe disseste que j&amp;aacute; tinhas provado chocolate e por isso refreaste em ti qualquer express&amp;atilde;o de satisfa&amp;ccedil;&amp;atilde;o, calaste qualquer den&amp;uacute;ncia do inef&amp;aacute;vel prazer que te inundou quando provaste pela primeira vez o chocolate que a Camilinha te ofereceu naquele perfeito findar de tarde.&lt;br /&gt;Depois, bem, depois ela foi para o col&amp;eacute;gio privado que j&amp;aacute; frequentava e tu foste para a escola onde a Dona Doroteia, professora-regente, foi tua mestra de primeiras letras, escola que ficava de tua casa meia hora de caminho bem andado, que tu e outros da tua condi&amp;ccedil;&amp;atilde;o frequentavam e demandavam todos os dias, fizesse chuva ou Sol, por caminhos de p&amp;oacute;, se era Ver&amp;atilde;o ou barro, se era Inverno, um barro t&amp;atilde;o peganhento e que de tal modo se te agarrava aos butes que ainda hoje, sem grande esfor&amp;ccedil;o de mem&amp;oacute;ria, eras capaz de lhe sentir o crescente peso a cada passo que davas.&lt;br /&gt;Mas n&amp;atilde;o ficaste nos campos. Disseram-te que l&amp;aacute; para as bandas de Lisboa conseguirias trabalho certo, terias sal&amp;aacute;rio garantido ao findar da quinzena e mais, trabalharias debaixo de telha. Adeus frios de rachar, adeus calores infernais, adeus trabalho infiel e ingrato, e l&amp;aacute; foste, como tantos outros.&lt;br /&gt;Mas disseste tamb&amp;eacute;m adeus aos vastos horizontes, aos ares lavados, aos costumes simples e honestos, aos h&amp;aacute;bitos de solidariedade e vizinhan&amp;ccedil;a e uma vontade surda, constante de um dia voltares nunca deixou de te atenazar.&lt;br /&gt;E um dia voltaste, voltaste &amp;agrave; terra ingrata que te viu nascer e onde querias que os teus ossos se misturassem com o p&amp;oacute; dos caminhos que tantas vezes calcorreaste.&lt;br /&gt;E agora ali estavas na fila frente &amp;agrave; caixa autom&amp;aacute;tica, ela quatro metros &amp;agrave; tua frente, e tu que tinhas em comum com ela uma tarde m&amp;aacute;gica h&amp;aacute; tantos anos ocorrida, e que para al&amp;eacute;m disso nada mais tinhas, que eras para ela um rosto an&amp;oacute;nimo entre outros e n&amp;atilde;o mais do que isso. E que mais poderias ser? O que s&amp;atilde;o escassas horas na vida de uma pessoa, o que s&amp;atilde;o essas escassas horas no meio de milhares e milhares de tantas outras que somam as nossas vidas? Para al&amp;eacute;m dessa t&amp;atilde;o long&amp;iacute;nqua e feiticeira tarde havia entre v&amp;oacute;s um mar de conven&amp;ccedil;&amp;otilde;es e preconceitos sociais que te impediam de a cumprimentar, de dizer-lhe "recorda-se de mim? daquela tarde que pass&amp;aacute;mos juntos, ainda crian&amp;ccedil;as, no Monte do Olival?". E a ideia pareceu-te t&amp;atilde;o rid&amp;iacute;cula que esbo&amp;ccedil;aste um breve sorriso de comisera&amp;ccedil;&amp;atilde;o por ti, pelas tuas mem&amp;oacute;rias, pela tua pobre inf&amp;acirc;ncia, pela tua vida que sempre transcorreu na outra margem, na margem oposta &amp;agrave; dela. Que recorda&amp;ccedil;&amp;otilde;es lhe teria deixado essa tarde, a ela que teve uma vida decerto bem mais preenchida do que a tua, de tantas e mais gratas recorda&amp;ccedil;&amp;otilde;es do que as tuas pobres recorda&amp;ccedil;&amp;otilde;es de menino pobre para quem o chocolate era um luxo desconhecido? A vida deu-lhe entretanto outras mem&amp;oacute;rias onde estas decerto n&amp;atilde;o couberam. Ficaste tu e s&amp;oacute; tu com elas e decidiste ent&amp;atilde;o, mais uma vez, n&amp;atilde;o as denunciares a ningu&amp;eacute;m nem confront&amp;aacute;-las com a realidade, e a realidade era agora a senhora Dona Camila, n&amp;atilde;o a Camilinha da tua inf&amp;acirc;ncia j&amp;aacute; t&amp;atilde;o long&amp;iacute;nqua.&lt;br /&gt;Mas eis que algu&amp;eacute;m que tu j&amp;aacute; conhecias de v&amp;aacute;rios epis&amp;oacute;dios ocorridos nas ruas do centro da cidade irrompe no &amp;aacute;trio do Banco. Decerto viria mendigar algumas moedas com que alimentava o v&amp;iacute;cio. Jovem ainda mas j&amp;aacute; t&amp;atilde;o velho no olhar, na compostura. Dirigiu-se &amp;agrave; tua conhecida e pediu-lhe dinheiro num tom de humildade farsante, com trejeitos de mau autor de pantomina reles. Que tinha fome, que n&amp;atilde;o tinha ainda comido nada, que estava doente. Ela voltou-lhe a cara, ignorando-o. E o tom dele foi em crescendo at&amp;eacute; se mostrar irado, irado com ela a quem chamava "dona cagona", irado com todos os presentes a quem chamava "burgueses de merda", e o inc&amp;oacute;modo teu e de todos foi crescendo com o crescendo do tom de voz do sujeito. Invectiva-a agora a ela, o rosto quase colado ao seu rosto. Intervieste ent&amp;atilde;o. Cresceste para o desgra&amp;ccedil;ado a quem admoestaste num tal tom de voz e com tal autoridade que tu pr&amp;oacute;prio te surpreendeste e o pobre diabo, amedrontado com reac&amp;ccedil;&amp;atilde;o t&amp;atilde;o intempestiva, acabou por afastar-se, soltando alguns improp&amp;eacute;rios agora quase em surdina. Ela olhou-te e num leve aceno de cabe&amp;ccedil;a agradeceu-te. Comentava-se agora o despaut&amp;eacute;rio e a ousadia do tresloucado. Havia quem lhe conhecesse a fam&amp;iacute;lia e maldissesse a triste sina de tais pais e de tal filho. Ela saiu n&amp;atilde;o sem que antes, ao passar junto de ti, de novo te olhasse, sorrisse e te dissesse um "obrigada" num tom de voz  doce e cantado que logo te transportou ao reino m&amp;aacute;gico das tuas mem&amp;oacute;rias de inf&amp;acirc;ncia. E t&amp;atilde;o enleado ficaste que nada soubeste responder.&lt;br /&gt;Alguns dias passaram, poucos, e entregam agora em tua casa uma encomenda, uma caixa embrulhada em papel fino. Abriste-a. Eram chocolates. Trazia um cart&amp;atilde;o: "Muito obrigada, Camila Monteiro", dizia. E tu n&amp;atilde;o resistes a essa insaci&amp;aacute;vel gulodice Manuel Carrusca, tens for&amp;ccedil;osamente que comer um chocolate. Mas uma l&amp;aacute;grima corre-te pelo rosto?! De que choras tu? Come, come chocolates Manuel Carrusca, h&amp;aacute; mais dial&amp;eacute;ctica nesses chocolates do que em todas as vulgatas que te deram a ler ao longo da tua vida de oper&amp;aacute;rio orgulhoso.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-112906643183063024?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/112906643183063024'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/112906643183063024'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2005/10/memrias-de-chocolate.html' title='&lt;b&gt;Mem&amp;oacute;rias de Chocolate&lt;/b&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-112827858780204392</id><published>2005-10-02T19:43:00.000+01:00</published><updated>2005-10-02T22:13:58.706+01:00</updated><title type='text'>Um Homem Justo</title><content type='html'>Aristides de Sousa Mendes é uma figura só tardiamente conhecida e reconhecida. Sobre ele fez a jornalista Diana Andringa um documentário passado pela R.T.P.2,no já distante ano de 1992, e só a partir de então se torna uma figura mundialmente conhecida. Mas com o alcance e a projecção mediáticos que as coisas feitas entre nós e por nós assumem o cônsul e o seu gesto terão despertado um relativo interesse que logo adormeceu. Em 1995 a Editorial Caminho publica a sua biografia, "Aristides de Sousa Mendes, o Wallenberg" Português", da autoria de Rui Afonso. Mas é somente após a publicação de um extenso artigo do jornalista francês José Alain Fralon, sobre o cônsul português, no jornal "Le Monde" e após a publicação de um livro da sua autoria sobre a mesma personagem, "Le Juste de Bordeaux", o qual teve direito a manchete no jornal britânico "Times", que a figura de Aristides de Sousa Mendes se torna alvo do interesse europeu e mundial.&lt;br /&gt;Alain Fralon teve o seu primeiro contacto com o cônsul português quando fazia a cobertura jornalística do julgamento de Maurice Papon, funcionário do Governo colaboracionista de Vichy, acusado de ter enviado para as câmaras de gás nazis vários judeus. Logo se apaixona por esta personagem que lhe aparece como o anti-Papon, um por justificar o seu gesto pelo dever de obediência a que, como funcionário, estava sujeito, o outro por ter desobedecido a uma ordem que lhe pareceu iníqua e que, ao desobedecer, estava consciente dos perigos que tal gesto acarretaria não apenas para si mas para os seus familiares.&lt;br /&gt;Nada o obrigaria, na verdade , a assumir tal atitude. Homem de formação católica, monárquico e conservador, oriundo de famílias aristocráticas do norte, nasce em 19 de Julho de 1885, em Cabanas de Viriato, Carregal do Sal. O seu gesto só encontrará justificação numa grande nobreza de carácter ancorada em fortes convicções humanísticas. No dizer de Alain Fralon, em entrevista publicada pelo jornal "Público", Aristides de Sousa Mendes quando, em Bordéus, viu aqueles milhares de pessoas em frente do consulado, terá ficado profundamente chocado. E que, consciente de que apenas lhe bastaria assinar um visto para lhes salvar a vida, decidiu fazê-lo. "Para mim é a explicação mais simples: uma assinatura e salvo-os. Acima de tudo, era um homem bom", termina.&lt;br /&gt;Tal gesto custa-lhe não apenas a carreira mas também o desafogo económico em que até então havia vivido. Expulso da função pública, com uma reforma de miséria, fica incapaz de prover às necessidades da sua numerosa prole, doze filhos. Vê-se só e abandonado. Nem mesmo aqueles que ajudara a salvar o socorrem. Silencia o seu gesto. Ter-lhe-ia sido fácil denunciar a injustiça da sua situação a instâncias políticas que o poderiam ter ajudado. Em vão terá esperado um perdão de Salazar, que nunca chegará. Nem mesmo a necessidade do regime provar aos Aliados que também entre nós houve resistentes, que também alguns de nós souberam estar do lado certo da História, nem isso terá demovido o ditador. Aristides de Sousa Mendes vem a morrer pobre e só no Hospital da Ordem Terceira, em 3 de Abril de 1954. Tinha 68 anos.&lt;br /&gt;Ao nosso Schindler fará falta o Spilberg, que não temos, que o soubesse homenagear condignamente. Em Israel mereceu o estatuto de "justo entre as nações", atribuído a todos aqueles que salvaram judeus durante o Holocausto. Suponho que será justo e apropriado que a cidade o homenageie integrando o seu nome na toponímia urbana. Fica a sugestão.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-112827858780204392?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/112827858780204392'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/112827858780204392'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2005/10/um-homem-justo.html' title='&lt;b&gt;Um Homem Justo&lt;/b&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-112767166700487268</id><published>2005-09-25T19:07:00.000+01:00</published><updated>2005-09-25T19:11:28.096+01:00</updated><title type='text'>Lixo e Consumismo</title><content type='html'>Costumo fazer curtas viagens em redor do perímetro da cidade. Diviso-a, ao longe, observo como o seu perfil se vai alterando e alongando, mercê do crescimento urbano e, mais do que isso, procuro o contacto com o campo e com alguns dos seus recantos pitorescos e bucólicos, que ainda os há.&lt;br /&gt;Muitas vezes incluo nesses pequenos roteiros uma ida à Fonte Mouro. E por ali me quedo um pouco, a fumar um cigarro à sombra dos pinheiros que bordejam o caminho vicinal, e que julgo centenários, tal o seu porte. E dou por mim a recordar tempos, que nem sequer vivi, quando para ali, em passeio pedestre, no dizer de amigos mais idosos, o bejense ia piquenicar em fins-de-semana mais soalheiros, que o lugar é acolhedor e com água e sombra fartas. Se em Lisboa se ia aos Domingos para as hortas merendar e bater o fado, também aqui o provinciano cumpria esse ritual de frequentar, em patuscadas alegres e ruidosas, as agora quase inexistentes hortas que rodeavam a cidade. E se não cantava o fado cantava as suas modas, porque nisto do cantar pedimos, ou pedíamos, meças a quem quer que seja.&lt;br /&gt;Há anos atrás a Junta de Freguesia local teve a boa ideia, de que não anda ausente algum salutar saudosismo, de dotar o sítio com uns bancos e umas mesas, em cimento, à semelhança dos que se encontram no Parque de Merendas. Dar-se-ia assim mais conforto ao eventual grupo que decidisse reatar hábitos antigos e talvez fosse isso incentivo para que outros lhe seguissem o exemplo.&lt;br /&gt;Que o local é frequentado atesta-o o numeroso lixo que conspurca o local e o barranco que lhe corre à margem. Ele são garrafas, garrafões, sacos e papelões e toda a casta de porcarias próprias daquilo a que se chama uma sociedade de consumo e desperdício. De quando em vez o local aparece limpo, decerto que por zelo da Junta, mas não tarda e logo o lixo se começa de novo a acumular. E eis como o bucolismo e pitoresco de um lugar aprazível, com as suas sombras, silvados e loureiros, com sua fonte e regato de águas cantantes, são maculados pela incúria e desmazelo de alguns.&lt;br /&gt;E o mesmo se poderia dizer de outros locais para onde se concorre em patuscadas, ou se pára ocasionalmente com o fito de merendar. Viajei há algum tempo de Expresso, entre Lisboa e Beja, pelo IP1, e fui observando a berma da estrada. Dada a posição elevada, em relação ao piso da estrada, de quem viaja neste transporte, podia fazê-lo perfeitamente. A berma era um permanente corredor de lixo ao longo de todo o percurso, pois todo o objecto é bom para lançar janela fora. E nos locais com acesso, onde alguma sombra amiga bordejava a estrada, aí ainda era maior a lixeira, sinal óbvio de que o local era frequentado.&lt;br /&gt;Creio que um dos mais seguros métodos para se aquilatar do grau de civilidade de uma população é o verificar-se a forma como esta trata o ambiente. Apesar de se verificar em sectores da população, e já não tão minoritários quanto isso, a emergência de uma verdadeira consciência ambiental, é-nos evidente que deste ponto de vista muito teremos ainda que progredir.&lt;br /&gt;Tão ou mais importante do que andarmos a exigir aos poderes instituídos que zelem pela limpeza e higiene do meio-ambiente é nós próprios termos o cuidado de não o conspurcar. E isso passa quase sempre pela adopção de pequenos gestos, pequenos hábitos, aqueles gestos e hábitos que, como se diz, afinal até nem custam nada.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-112767166700487268?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/112767166700487268'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/112767166700487268'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2005/09/lixo-e-consumismo.html' title='&lt;b&gt;Lixo e Consumismo&lt;/b&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-112723473613857746</id><published>2005-09-20T17:45:00.000+01:00</published><updated>2005-09-21T17:14:39.996+01:00</updated><title type='text'>A "Doutorite"</title><content type='html'>Enferma o País de vários males, de índole cultural e social, de tal forma enraizados que, como um sarro imune a sucessivas lavagens, persistem em permanecer como um traço de carácter que nos afasta irremediavelmente daquela modernidade por que almejamos.&lt;br /&gt;Entre essas taras avulta a da "doutorite". Creio não haver país algum no mundo, pelo menos naquele mundo a que queremos pertencer, onde exista uma tão grande densidade de "doutores" por quilómetro quadrado. Ele é "doutor" para aqui, "doutor para ali", os doutores tudo enxameiam. De título académico converteu-se em factor de promoção e estatuto social. Ele não há bicho-careto algum que, investido em funções de carácter político ou empresarial, por pouco relevantes que sejam, não passe a ostentar, de imediato e publicamente, o título de doutor. Mesmo que o não seja.&lt;br /&gt;O "doutor" de hoje corresponderá, de forma agravada, ao barão dos tempos da monarquia liberal. Barão que era objecto de sátira de cronistas, jornalistas, poetas e outros que com mais acutilância observam a sociedade e as suas taras. João de Deus, a propósito da "baronite", compôs o célebre epigrama em que dizia:&lt;br /&gt;"Foge, cão, que te fazem barão!&lt;br /&gt;Para onde, se me fazem visconde?"&lt;br /&gt;Experimente o leitor, em local onde não seja conhecido, apresentar-se de fato e gravata e dando-se ares, e muito possivelmente o empregado de balcão, o empregado de mesa, trata-lo-á por "doutor".&lt;br /&gt;Não deixa de ser curiosa esta "doutorite aguda" num país que, ainda na década de sessenta, apresentava uma taxa de analfabetismo que rondava os 40% e, ainda hoje, continua a liderar o "ranking" dos países europeus, com uma taxa que medeia entre os 8 e 10%.&lt;br /&gt;Há nesta postura o seu quê de novo-riquismo, de ostentação ridícula e pacóvia de quem nunca nada teve e de repente se vê senhor de algo que o deslumbra e que ele entende exibir despudoradamente, para que também o mundo se possa deslumbrar com ele.&lt;br /&gt;Em boa verdade existem na carreira académica vários degraus dos quais o último é, precisamente, o de "doutor": bacharel, licenciado, mestre e doutor. E aqui é que bate o ponto: Portugal é, na Europa a que queremos pertencer, e não só de um ponto de vista geográfico, o país com menos doutorados relativamente à população estudantil.&lt;br /&gt;Esta distorção resultará do facto de termos assistido, num escasso número de anos, a um aumento muito significativo da população estudantil ao nível do ensino superior, o que é de saudar. Os doutoramentos surgirão a seu tempo.&lt;br /&gt;Alguém que visitasse o País e não fosse conhecedor da língua nem conhecesse o exacto significado da palavra "doutor", julgaria tal palavra como integrante da onomástica nacional e que o país teria mais ou menos ensandecido, tanta era a gente que tinha por nome "doutor". A seu tempo, esperemo-lo, a "doutorite aguda" ir-se-á esbater e ceder o seu lugar a uma atitude mais natural e cordata de maneira a que passemos a ser Zés e Manéis e outros que tais, que esses sim, são nomes de baptismo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-112723473613857746?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/112723473613857746'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/112723473613857746'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2005/09/doutorite.html' title='&lt;b&gt;A &quot;Doutorite&quot;&lt;/b&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-112661679731707682</id><published>2005-09-13T14:06:00.000+01:00</published><updated>2005-09-13T14:20:46.076+01:00</updated><title type='text'>Os Moinhos do Guadiana</title><content type='html'>Procuremos a definição de monumento num dicionário. Que nos diz ele?&lt;br /&gt;Monumento: construção ou obra de escultura destinada a perpetuar a memória de um facto ou de alguma personagem notável; edifício majestoso; obra digna de passar à posteridade; memória; recordação; restos ou fragmentos materiais pelos quais podemos conhecer a história dos tempos passados. Será então isto, &lt;em&gt;grosso modo&lt;/em&gt;, aquilo que comummente é entendido por monumento. Embora, quando o pensemos, o arquétipo que nos ocorra seja sempre o do edifício majestoso, a construção grandiosa e perene, enaltecedora dos valores religiosos ou militares, glorificadora dos feitos pátrios. Enfim, a mania das grandezas que a todos um pouco contamina.&lt;br /&gt;Vem isto a propósito dos humildes, esquecidos e derruídos moinhos do Guadiana. Serão eles um monumento? São-no, sem dúvida. Faltar-lhes-á a grandiosidade, mas são memória, são recordação, são fragmento material pelo qual podemos conhecer a história dos tempos passados, são monumentos erguidos ao engenho e ao trabalho dos nossos antepassados, e que maior majestade poderá existir do que aquela que glorifica e louva o engenho e o trabalho humanos? Não exaltam a guerra nem o ódio, não exaltam valores religiosos quantas vezes fonte de intolerância e violência, exaltam a paz, o trabalho, a mais nobre das actividades humanas.&lt;br /&gt;Poder-se-á compreender esta região e o seu povo, as suas idiossincrasias sociais e culturais sem o contexto económico marcado essencialmente pela cultura extensiva dos cereais, particularmente do trigo? Obviamente que não. E aí temos o moinho do Guadiana, justamente como parte dessa cadeia de actividades relacionadas com a produção do trigo e sua transformação. E foi tão importante este ciclo de actividades, que poderemos designar por ciclo do pão, que tudo ele impregnou: o folclore, o vestuário, a gastronomia, os anexins populares, a calendarização das feiras e também a sazonalidade laboral, a fome e a pobreza.&lt;br /&gt;E os moinhos foram peça importante desse mundo. Centenários, de muitos séculos, coevos de mouros, moeram o trigo de que se alimentaram as gerações que nos precederam. Construídos naquela sua forma abaulada, de grossas paredes, são um milagre de engenho capaz de resistir anos sem fim às fúrias devastadoras das cheias invernosas.&lt;br /&gt;Para outros, muitos outros, são memória, não muito antiga, de pescarias e caldos de peixe comidos à sua sombra amiga.&lt;br /&gt;Ao que vem tudo isto, perguntarão? Vem a propósito de que urge reabilitar, preservar, pôr em funcionamento um desses moinhos. Não tenhamos a veleidade de salvá-los todos que é a melhor forma de não salvar nenhum. Naquela parte do concelho de Beja cuja fronteira é o Guadiana alguns existem, nas freguesias de Baleizão e Quintos. Que se conjuguem esforços das várias entidades para isso vocacionadas e se proceda ao restauro de um desses moinhos. É ainda hoje possível encontrar vivo algum desses moleiros que nos transmita os seus saberes e torne possível o seu funcionamento. Mas essa possibilidade esvai-se com o tempo, todo esse saber desaparecerá com a morte do último moleiro.&lt;br /&gt;É de interesse histórico e pedagógico fazê-lo. Para aqueles mais pragmáticos, para quem o interesse económico é dominante, lembro que será sempre um ponto de notável interesse a visitar pelo turista acidental a quem se proponha um passeio segundo uma rota a que se poderia chamar &lt;i&gt;Rota do Pão&lt;/i&gt;. Não deixemos pois perder um tão notável exemplo de engenho industrial.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-112661679731707682?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/112661679731707682'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/112661679731707682'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2005/09/os-moinhos-do-guadiana.html' title='Os Moinhos do Guadiana'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-112585999205976843</id><published>2005-09-04T19:53:00.000+01:00</published><updated>2005-09-05T18:49:27.746+01:00</updated><title type='text'>Nova Orleães Deserdada</title><content type='html'>Das profusas imagens que nos têm chegado do calamitoso estado da cidade de Nova Orleães, após a passagem do furacão Katrina, um aspecto desde logo se me evidenciou como estranho e cuja explicação os&lt;i&gt; media &lt;/i&gt;tardaram a dar: as multidões que ficaram na cidade e que agora careciam de urgente auxílio eram, maioritariamente, constituídas por negros. Porquê? Perguntava-me, suspeitando a resposta.&lt;br /&gt;E a resposta é que o "Deep South" ainda não saldou de todo a sua dívida para com as populações negras que foram, enquanto mão-de-obra escrava, o sustentáculo da sua prosperidade e que ainda hoje ocupam as franjas mais desfavorecidas e marginais de uma sociedade rica, opulenta e profundamente injusta.&lt;br /&gt;Sim, os pobres são ignorados, como se fossem não-pessoas, como algo incómodo com quem, esporadicamente, o americano médio se cruza nas ruas, são os "loosers" de uma sociedade presa nos meandros do seu egoísmo e veneradora de valores dicotómicos, que se habituou a incensar os seus ricos, exemplo máximo do "winner", modelo social que muitos, esforçadamente, procuram imitar com aplicação, zelo e, suponho, ausência de espírito crítico.&lt;br /&gt;10% será a percentagem de pobres no total da população americana, que sobe para os 30% na cidade de Nova Orleães, que por sua vez apresenta um dos mais baixos produtos &lt;i&gt;per capita&lt;/i&gt; entre as grandes cidades da União. E toda aquela gente desesperada, que nos foi dado ver, eram parte substancial desses pobres que ficaram por não terem meios para partir, nem porventura teriam onde ficar na própria cidade, integrantes que seriam, muitos deles, desse numeroso exército maltrapilho dos sem-abrigo que deambula pelas grandes cidades americanas.&lt;br /&gt;Imagens de incúria social, imprevidência e desmazelo na prestação de primeiros socorros que chocam com essa outra imagem de uma nação rica e orgulhosa. Decerto que a poderosa máquina económica e administrativa americana depressa sarará as feridas deixadas pelos furores da Natureza implacável. Mas as imagens iniciais que nos ficaram na memória são aquelas que nos habituámos a associar a um Terceiro-Mundo desorganizado e carente.&lt;br /&gt;E a cidade? Será ela capaz de renascer com a sua alegria, com a sua música, com a sua deslumbrante cultura crioula? Bom seria. Cidade ícone, mãe dessa expressão musical síntese das culturas africana, americana e francesa, e finalmente crioula, berço dessa figura maior do mundo da música, sem distinções, que foi Louis Armstrong, cujo aeroporto internacional leva o seu nome, símbolo feliz e maior do "melting-pot" americano, será sempre referência quase mítica para todos aqueles que gostam de Jazz ou, se não, apreciam a "joie-de-vivre" que ali ficou plantada por influência gaulesa e que, orgulhosamente, a cidade exibe e contrasta com uma outra América, puritana e quantas vezes hipócrita.&lt;br /&gt;P.S. - Não conheço Nova Orleães, como não conheço tantos outros locais espalhados por esse Mundo e que, não obstante, admiro e prezo como se fossem meus também.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-112585999205976843?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/112585999205976843'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/112585999205976843'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2005/09/nova-orlees-deserdada.html' title='&lt;b&gt;Nova Orle&amp;atilde;es Deserdada&lt;/b&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-112542814304005588</id><published>2005-08-30T19:55:00.000+01:00</published><updated>2005-09-03T09:50:18.096+01:00</updated><title type='text'>O Triste Fado Estival</title><content type='html'>O meu país arde. E não é apenas em sentido metafórico. Dia após dia as televisões trazem-nos imagens de gente em desespero, quase sempre gente humilde, sem voz, sem influência política ou qualquer outra, que assiste impotente à brutalidade das chamas devastadoras que consomem milhares de hectares de florestas e quantas vezes lhes raiam as parede de suas casas, lhes devoram os parcos haveres, amealhados em tantos anos de sacrifícios e os deixam sem meios de subsistência, gente pobre que numa agricultura de quase subsistência garante a sua sobrevivência e que na sua modéstia e humildade não pode e não sabe reivindicar, exigir. São quase sempre idosos, os velhos que abandonámos no interior ao mesmo tempo que abandonámos o próprio interior. O país é assimétrico a vários níveis: ao nível do desenvolvimento económico, ao nível demográfico, ao nível dos afectos. Tardiamente, demasiado tarde, os responsáveis políticos condescenderam em deslocar-se às zonas sinistradas para observar, levar algum conforto, uma palavra de solidariedade. É pouco, mas ele há gestos que valem pelo seu simbolismo.&lt;br /&gt;Ele há relatórios, diagnósticos, recomendações que de ano para ano se repetem assim como se repetem, ano após ano, este pavor que são os incêndios estivais. Inépcia, desleixo, irresponsabilidade, que mais poderemos concluir?&lt;br /&gt;Condições naturais? Elas são, &lt;i&gt;mutatis mutandis&lt;/i&gt;, as mesmas que encontramos no restante sul europeu. E contudo a incidência de fogos verificada no País é, comparativamente, assustadora, vergonhosa.&lt;br /&gt;E as forças político-partidárias, senhores, que deviam ter algum decoro e conjugar esforços no combate a este flagelo, tenebroso pelas suas causas e pelas suas consequências, o que fazem? Aproveitam a ocasião para mais alguns exercícios de demagogia, para lançarem mais umas quantas farpas uns sobre os outros para, enfim, se desresponsabilizarem de tão incómoda situação como se esta calamidade cíclica não fosse responsabilidade de todos, responsabilidade passada, presente e futura.&lt;br /&gt;Desordenamento territorial, incivilidade, piromania, interesses obscuros, plantio desregrado de espécies inadequadas, inexistênca de acessos e de pontos de água, falta de meios de combate aos incêndios, incumprimento de legislação. E depois? De que estão à espera senhores governantes, senhores autarcas, poder judicial? Invertam a situação. Ou será que deveremos encarar como uma fatalidade este estado de coisas? Ou será que haveremos forçosamente de concluir que vós sois demasiado ineptos sequer para não deixar que o País arda Verão após Verão, ano após ano?&lt;br /&gt;Mais uma vez o País ardeu e uma imensa nuvem de fumo cobriu-o de norte a sul, sentimo-lo aqui em Beja, sentiram-no os veraneantes a banhos nas praias algarvias. Arde o País, arde a nossa auto-estima, arde a nossa esperança no futuro. Para o próximo ano como será? Meu pobre País, que tão poucos motivos me dás de orgulho e tantos me dás de tristeza e desalento.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-112542814304005588?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/112542814304005588'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/112542814304005588'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2005/08/o-triste-fado-estival.html' title='&lt;b&gt;O Triste Fado Estival&lt;/b&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-112370341531711064</id><published>2005-08-10T20:50:00.000+01:00</published><updated>2005-08-10T20:50:15.333+01:00</updated><title type='text'>Férias</title><content type='html'>Este Blog vai de f&amp;eacute;rias. A todos os que me t&amp;ecirc;m visitado os meus agradecimentos esperando que, aquando do meu regresso, me continuem a honrar com a vossa presen&amp;ccedil;a.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-112370341531711064?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/112370341531711064'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/112370341531711064'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2005/08/frias.html' title='&lt;b&gt;F&amp;eacute;rias&lt;/b&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-112319187754376795</id><published>2005-08-04T22:44:00.000+01:00</published><updated>2005-08-04T23:02:00.416+01:00</updated><title type='text'>A Propósito de um Outdoor</title><content type='html'>A propósito de outdoor, porque haveremos de dizê-lo assim e não utilizamos um sinónimo em bom e escorreito português? Não sei como o dizem aqui os vizinhos espanhóis mas aposto que não utilizam o anglicismo, ciosos da sua língua e avessos a falar línguas estrangeiras como são. Assim cuidássemos nós da nossa.&lt;br /&gt;Mas o outdoor de que pretendo falar é um bem específico, trata-se do outdoor do candidato à Câmara Municipal de Beja João Paulo Ramôa, há poucos dias espalhado pelas rotundas e esquinas mais percorridas da cidade.&lt;br /&gt;Ora este outdoor é tudo aquilo que um outdoor não deve ser. Desde logo contém um excesso de informação. Um outdoor é para observar de relance, de forma fugaz, porque quem o observa vai ocupado a conduzir a sua viatura, em velocidade que, por muito lenta que seja, não permite nunca leituras demoradas. Por isso a mensagem que o oudoor transmita deverá ser objectiva e concisa. Diz-se até que um bom outdoor é aquele que é "estúpido", isto é, minimalista na informação que fornece. Se o candidato João Paulo Ramôa pretendeu fazer um outdoor "inteligente" falhou nesse seu propósito e apenas logrou um outdoor ineficaz. Depois as cores do outdoor são baças, tristes, pouco chamativas. Se os políticos nos dão tão poucas alegrias ao menos que nos objectos de propaganda sejam álacres, imaginativos. Faz-me lembrar este outdoor aqueloutro colocado junto à fronteira e que anuncia a região do Alentejo para quem, vindo de Rosal de la Frontera, entra em Portugal. É triste, lúgubre, de cores terrosas e bacentas. O turista que o vislumbre não terá grandes expectativas relativamente ao que virá encontrar. Em contrapartida, colocado do outro lado da fronteira, está um outdoor que nos anuncia a Andaluzia e esse como se nos apresenta? Jovial, alegre, &lt;i&gt;saleroso&lt;/i&gt;, colorido, com motivos cubistas, óbvia homenagem ao andaluz universal que é Pablo Picasso. Dois países, dois temperamentos praticamente antagónicos? Recuso-me a aceitá-lo; temos talvez é que contratar os técnicos do marketing andaluz. Do mesmo modo, talvez que o candidato João Paulo Ramôa tenha também que mudar de técnicos de marketing político.&lt;br /&gt;Vejamos agora o conteúdo:&lt;br /&gt;-diz-nos o candidato João Paulo Ramôa que pretende transformar Beja numa cidade aeronáutica. Louvável propósito. Mas aqui apenas lembraremos que correligionários seus deram, recentemente, um contributo assaz negativo para a concretização deste desiderato. Provavelmente vai ter que afastá-los de todo este processo;&lt;br /&gt;-diz-nos depois que se empenhará pessoalmente na revisão do P.D.M.. Porquê pessoalmente? Isso dá provas de um espírito pouco colegial. Melhor seria que o empenhamento fosse da Câmara que se propõe liderar. Enfim, ele há estilos e estilos de liderança e gestão;&lt;br /&gt;-propõe-se em seguida a criação de 400 novos empregos. Como? Admitindo mais funcionários para os serviços camarários? Decerto que não. Promovendo o investimento no Concelho? Talvez. Então se é assim, o seu a seu dono: poderá proporcionar condições a que outros criem esses postos de trabalho, mas não será o próprio a criá-los;&lt;br /&gt;-diz-nos de seguida que se propõe alterar o trânsito e o estacionamento na cidade. Nada a opinar, a não ser que qualquer espírito sensato proporia exactamente a mesma coisa;&lt;br /&gt;-criar um cartão municipal para o idoso? Subscrevo inteiramente;&lt;br /&gt;-finalmente, "informática e inglês em todo o ensino básico". Como? As Câmaras Municipais não têm qualquer tutela pedagógica relativamente ao ensino básico, nem em relação a nenhum outro. Então como fazer? Recrutará e remunerará a Câmara os monitores para esse fim? Se assim é por mim tudo bem. Felizmente que em termos de gestão apenas interfiro na gestão do orçamento familiar, e chega-me.&lt;br /&gt;Mas se a informação é assim tanta para um outdoor como consegui eu lê-la toda, perguntarão? Não foi dando voltas e mais voltas a uma qualquer rotunda, não senhor. Estacionei o carro, apeei-me e fui ler. E o propósito com que se afixa um outdoor não é de todo para obrigar um condutor a este procedimento.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-112319187754376795?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/112319187754376795'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/112319187754376795'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2005/08/propsito-de-um-outdoor.html' title='&lt;b&gt;A Prop&amp;oacute;sito de um Outdoor&lt;/b&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-112250102758056095</id><published>2005-07-27T22:50:00.000+01:00</published><updated>2005-07-31T19:19:18.580+01:00</updated><title type='text'>Uma Candidatura Serôdia</title><content type='html'>A candidatura de Mário Soares à Presidência da República não deixa de causar alguma perplexidade e alguma apreensão.&lt;br /&gt;Não pelo facto de o candidato ser muito idoso para tal desempenho, como alguma opinião pública e publicada tem sustentado. Esse não foi óbice que haja impedido outros de se candidatarem e concretizarem mandatos com proficiência: lembremos Sandro Pertini, Churcill, Eamon De Valera. Supomos que não seria agora também o caso. Mas Mário Soares há escassos seis meses havia garantido, peremptoriamente, que em caso algum voltaria a ser candidato à Presidência da República. Depois de uma carreira política mais do que brilhante, opositor contumaz à Ditadura, a figura mais proeminente na luta que ele mesmo encabeçou para dotar o País de estruturas democráticas aquando da deriva totalitária do pós-25 de Abril, duas vezes primeiro-ministro, dois mandatos cumpridos como mais alto magistrado da Nação, Pai da Pátria, enfim, nada faria prever o seu regresso às lides políticas. Tal como um atleta de alta competição deve saber o momento exacto da sua retirada também Mário Soares o havia sabido fazer. O seu regresso tem um sabor a requentado, um ar de &lt;i&gt;déjà vu&lt;/i&gt;, um aspecto passadista e que não projecta futuro.&lt;br /&gt;Mas Mário Soares apenas está a pagar a factura da falta de estratégia dos dirigentes políticos seus correligionários, subordinada que está a actuação política destes ao mais rasteiro tacticismo, ao mais deplorável carreirismo. Falhos de generosidade, avessos a qualquer luta política menos proveitosa e mais dúbia, empurraram para a frente o velho leão que, porque nobre de nome e de carácter, não enjeitou o desafio. E mais uma vez António Guterres, em quem a direcção actual do Partido Socialista, de forma incauta, tudo havia apostado, não compareceu à chamada, apostado que está agora numa brilhante carreira política internacional e sem paciência, diz-se, para as questiúnculas da política caseira. Isto é, o País não o merece. Pois que tenha muito boa sorte e que a nós não nos falte.&lt;br /&gt;Preocupante é a incapacidade da actual geração de dirigentes políticos gerar entre si individualidades com projecção, carisma e credibilidade suficientes que os habilitem aos voos exigentes de uma magistratura presidencial. Onde estão tais dirigentes? Não estão. Dependente que está a sua agenda política de tacticismos conjunturais, de interesses pessoais e de grupúsculo, sem visão estratégica da coisa pública, pegam e despegam o poder sem remorso nem paixão, com uma leveza fútil despida de qualquer sentido de serviço público e ética republicana. Pois que não podemos mudar de classe política mudemos de atitude, sejamos mais exigentes e rigorosos no pedir a assunção de responsabilidades.&lt;br /&gt;Quanto à novel e não tão surpreendente candidatura de Mário Soares gostaria, ao menos, de estar optimista, mas de facto não estou.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-112250102758056095?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/112250102758056095'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/112250102758056095'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2005/07/uma-candidatura-serdia.html' title='&lt;b&gt;Uma Candidatura Ser&amp;ocirc;dia&lt;/b&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-112179923944531293</id><published>2005-07-19T19:53:00.000+01:00</published><updated>2005-07-27T22:19:48.476+01:00</updated><title type='text'>Quase uma Aldeia</title><content type='html'>Onde quer que estejamos divisamos o campo. Se não, basta deslocarmo-nos algumas dezenas de metros para o vermos, sempre, omnipresente, senhor que foi dos destinos passados, penhor que é de sobrevivência futura.&lt;br /&gt;A cidade cresceu mas não cresceu tanto que perdesse essa aura rural que tanto a continua a marcar. Existe uma gastronomia citadina? Não existe. A gastronomia é claramente de feição rural: o pão, o azeite, o vinho, as ervas aromáticas são os pontos cardeais de uma ementa de despensa pobre mas de imaginação exuberante. Sim, é necessária uma fértil criatividade para com tão parcos condimentos elaborar tantos e tão ricos sabores. Pois é, ele há também a doçaria, mas aí estamos num outro campo, numa micro-sociedade, a dos conventos e mosteiros, de modo algum representativa do quotidiano das gentes comuns. O consumo de doces era um hábito aristocrata, ou não fossem as freiras , na sua maioria, provenientes da casta fidalga. Mas para a doçaria conventual era a despensa farta e rica: ovos, açúcar, farinha, amêndoa, eis a paleta com que se compunham os paladares que as freiras degustariam com ar pecaminoso, pois que privadas de outros prazeres. Como aquela princesa de um dos muitos reinos em que se dividia a Itália pré-garibaldina e que exclamava, em êxtase, comendo um gelado: "Que pena não ser pecado". Se era assim com a princesa transalpina, conhecedora do pecado, senão não lhe ocorreria tão bizarra associação, imagine-se o deleite com que nas austeras arcadas conventuais as sorores de antanho comeriam os seus tão requintados doces.&lt;br /&gt;Mas se é uma quase aldeia na gastronomia também o é nos costumes, no trato. É deambular por algumas ruas de extracto mais popular, nestas noites mais quentes de estio e ainda podereis ver os vizinhos sentados no passeio, à porta de suas casas, tagarelando à espera que o relento chegue e lhes permita regressar a penates. E mais se veriam não fora a fatal atracção da pantalha televisiva com as suas pantominas baratas. Assim era nos bairros populares, não nos outros, habitados por, dizia-se então, "gente fina", para quem sentar-se na rua ao cavaco com a vizinhança era desaforo próprio de plebeus.&lt;br /&gt;Mas é ainda uma quase aldeia nas formas de convivência. É passar pelas Portas de Mértola, pela manhã ou pela tarde, faça chuva ou faça Sol e vereis um permanente grupo de ociosos, na maioria de provecta idade, em pé, junto às paredes, comentando as novas do dia ou reparando de forma mais ou menos ostensiva em quem passa. Mulheres? Algumas e só de passagem. É verdade que o surgimento de esplanadas veio amenizar um pouco este ambiente campestre, povoadas que são por alguns, raros, turistas. Mas quereis marca mais aldeã do que esta? Reparem até no trajar desses admiráveis citadinos a quem não falta, em muitos, chapéu ou boina. Na verdade vereis aqui, no centro da cidade, o que vereis em qualquer aldeia do Alentejo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-112179923944531293?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/112179923944531293'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/112179923944531293'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2005/07/quase-uma-aldeia.html' title='&lt;b&gt;Quase uma Aldeia&lt;/b&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-112101975205568456</id><published>2005-07-10T19:22:00.000+01:00</published><updated>2005-07-11T09:19:54.956+01:00</updated><title type='text'>Nome de Guerra</title><content type='html'>O título desta croniqueta é também nome de romance, romance desse génio multifacetado que foi Almada Negreiros. Que se me releve pois o empréstimo, já que plágio não é.&lt;br /&gt;Segundo o Dicionário Houaiss &lt;i&gt;nome de guerra&lt;/i&gt; será o "pseudónimo usado pelos maçons nas suas reuniões e, por extensão, pseudónimo ou apelido pelo qual alguém é mais conhecido na sociedade, no meio artístico etc."&lt;br /&gt;Atenhamo-nos pois, e apenas, ao&lt;i&gt; nome de guerra&lt;/i&gt; usado nas circunstâncias atinentes à vida política. Se esse é o nome por que alguém pretenda ser mais conhecido no meio, desde logo uma primeira e fulcral preocupação surge: a de que esse nome seja absolutamente original, para que não dê azo a confusões, bastas vezes, como se sabe, desagradáveis. Uma excepção se admite: a de que tenha existido homónimo ilustre mas, obviamente, já defunto. Excepção perfeitamente admissível e compreensível, já que permite tomar de empréstimo a notoriedade de alguém que não se encontra, por razões óbvias, em condições de contestar tal abuso.&lt;br /&gt;De seguida outra preocupação surge: a de que esse nome tenha uma sonoridade tal que seja simultaneamente agradável e fácil de memorizar. Finalmente, que tal nome fuja da vulgaridade. Decerto ninguém imagina que um político com pretensões tenha como &lt;em&gt;nome de guerra&lt;/em&gt; um ordinário&lt;i&gt; José da Silva&lt;/i&gt;, muito menos &lt;i&gt;José Silva,&lt;/i&gt; salvo o devido respeito a quantos foram crismados com tal nome e que decerto não serão poucos.&lt;br /&gt;E assim o pretendente ao&lt;i&gt; nome de guerra &lt;/i&gt;há-de, artificiosamente, combinar os seus nomes de baptismo até encontrar o ideal, que se há-de caracterizar por ser original, sonoro e invulgar.&lt;br /&gt;Poderá o candidato a político ter um tal conjunto de apelidos plebeus que nenhuma combinação, por mais artificiosa, resultará. Que fazer? Pois utilizá-los e transformá-los em orgulhosa imagem, embora me pareça que tal candidato a político tenha mais êxito se optar por se situar à esquerda do espectro político. Poderia o nosso candidato usar um pseudónimo? Poderia, não fosse tal prática desusada e de todo desaconselhável em actividade tão circunspecta quanto a política, admissível sim entre os cómicos e quejandos, cujas vidas se caracterizam pela futilidade, aparência e dissimulação, qualidades estas que, como todos sabemos, não têm qualquer cabimento na vida política.&lt;br /&gt;Senão vejamos. É à esquerda que nós encontramos os políticos com nomes mais banais: Mário Soares, Álvaro Cunhal, não são propriamente nomes altissonantes, nem Manuel Alegre, Carlos Brito, Jorge Sampaio ou Jerónimo de Sousa. Imaginam um político de direita chamado Jerónimo de Sousa? Nem eu.&lt;br /&gt;Mas à direita sim, encontramos políticos com nomes mais pomposos: Marcelo Rebelo de Sousa, Francisco Sá Carneiro, Francisco Lucas Pires, Pedro Santana Lopes, Diogo Freitas do Amaral, embora este exemplo não seja o melhor porque já não se sabe muito bem onde situar o dito. E tem mais, muitos deles não utilizam dois nomes mas três. Claro que há excepções, como Marques Mendes, mas três nomes para Marques Mendes talvez fosse excessivo, não bateria a bota com a perdigota tendo em conta o arcaboiço do dito. Pronto, foi de mau gosto, mas que querem, saiu-me?&lt;br /&gt;E porque será assim? Porque três nomes têm mais sainete, porque se trata de gente com &lt;i&gt;pedigree&lt;/i&gt;, porque muitos deles têm tradições familiares em matéria de governação, pudera, pertencem às classes possidentes e por isso, geracionalmente , detentoras do poder e por isso transportam consigo esse nome de família que, em muitas circinstâncias, funciona como um &lt;i&gt;abre-te sésamo.&lt;/i&gt; E por isso também que muitos se cuidam, por direito natural, mais capacitados para o exercício desse mesmo poder.&lt;br /&gt;E se nem todos têm &lt;i&gt;pedigree &lt;/i&gt;têm pelo menos pretensões de classe, são o que se chama arrivistas.&lt;br /&gt;Até na política local esta asserção se confirma: diz-se José Raúl dos Santos e não José dos Santos, diz-se João Paulo Ramôa e não João Ramôa; em contrapartida diz-se Francisco Santos e Carlos Figueiredo.&lt;br /&gt;Para acabar, que a prosa já vai longa: alguns há que conseguem a proeza de serem designados por um só nome. Mas este é feito ao alcance de poucos eleitos, somente daqueles que&lt;i&gt; por obras valorosas se vão da lei da morte libertando,&lt;/i&gt; obras valorosas ou não, como é fácil constatar: ninguém diz Winston Churchill, mas apenas Churchill, como raramente se diz Adolfo Hitler mas apenas Hitler; e Estaline e Salazar e Franco e Roosevelt e Mitterrand e Kennedy e De Gaulle e Adenauer e Mandela e tantos outros. E também e somente Amália.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-112101975205568456?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/112101975205568456'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/112101975205568456'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2005/07/nome-de-guerra.html' title='&lt;b&gt;Nome de Guerra&lt;/b&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-112040952074028018</id><published>2005-07-03T17:52:00.000+01:00</published><updated>2005-07-04T11:22:53.416+01:00</updated><title type='text'>Santos e Mastros Populares</title><content type='html'>Transcorreu Junho, mês dos Santos Populares, a tríade Santo António, São João e São Pedro, e nós quase nem demos por isso. E quase nem demos por isso porque os folguedos populares com que se cultuavam os ditos quase não existiram. A forma tradicional de cultuar estes santos era através dos bailaricos que se celebravam em torno de um mastro e se mastros houve este ano, e parece que os houve, dois tanto quanto me foi dito, erguidos em bairros de cariz mais popular, tão discretos foram os folguedos em torno deles celebrados que passaram despercebidos.&lt;br /&gt;Estranha forma esta de prestar culto a tão dignos e veneráveis membros da hagiologia católica, práticas cultuais que só podiam passar por licenciosas aos olhos da severa moral cristã. E contudo tais práticas eram toleradas. Como tantas outras práticas rituais e simbólicas mergulhariam as suas origens em cerimoniais pagãos com que os nossos antepassados pré-romanos e posteriormente romanizados celebrariam o solstício de Verão, práticas próprias de sociedades agrárias, firmemente ancoradas ao ritmo das estações do ano e aos caprichos do tempo e que com elas procuravam captar a benevolência da mãe Natureza. Moldados ao longo de milhares de anos estavam tais cerimoniais tão enraizados na alma do vulgo que a Igreja, incapaz de todo de os extirpar, metamorfoseava-os em rituais aos quais sempre se davam umas pinceladas de cosmética religiosa canónica que os tornasse, benevolamente, toleráveis. E os ritos celebrados em torno de um símbolo fálico, que é exactamente aquilo que o mastro representa, tantas voltas levaram que vieram a descambar num mais aceitável culto a uma trindade de santos apelidados de populares.&lt;br /&gt;Anos há, e não muitos, em que os mastros animavam as noites quentes de Junho e as comissões de rua e de bairro, espontaneamente criadas, rivalizavam no erguer do mastro mais catita. Tempos em que eu e uma súcia de amigos fazíamos a ronda dos mastros até alta madrugada. Eram famosos os mastros do Terreirinho das Peças e do Largo de Santo Amaro. Mais tarde pontificou o do Jardim das Alcaçarias, animado pela Associação Cultura e Recreativa Zona Azul, que aí lograva obter alguns fundos. Depois, bem depois estas festividades foram perdendo fôlego, novos hábitos surgiram, tempos houve em que os serviços culturais da Câmara Municipal procuraram reactivar os mastros populares concedendo subsídios às comissões promotoras e atribuindo prémios aos melhores, mas quando isto acontece, quando as entidades oficiais começam elas a promover e subsidiar tais manifestações de cariz popular, é isso sinal de que se está à beira do fim.&lt;br /&gt;Mas os mastros que eu conheci na cidade também já não tinham um cariz genuinamente popular: eram animados por conjuntos musicais e dançava-se ao som de, imagine-se, muitas modinhas brasileiras e até francesas e italianas. Mastros populares conheci-os eu na minha infância, na aldeia onde então vivia, em que os participantes, à luz de um lampião a petróleo, dançavam ao som das modas que eles próprios cantavam: &lt;i&gt;"Quem anda no meio é bem bonitinho, para namorar tem todo o jeitinho..."&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;Rituais e práticas simbólicas que remontarão àquelas que decerto se praticavam no Cromeleque da Herdade do Xerez, no termo de Reguengos de Monsaraz, com sua cercadura de menires rodeando um outro de formas mais avantajadas colocado ao centro, manifesto símbolo fálico. Cerimoniais que sociedades agrárias moldaram ao longo de milhares de anos e que os tempos levaram. Que outras práticas e ritos lhes sucederão? Alguns serão, as sociedades humanas não vivem sem tais manifestações. Parece vivermos num portal da História, em tempos que já não são mas cujo rosto futuro não nos é ainda perceptível. A caminhada iniciada com a revolução neolítica estará a chegar ao fim. Que nos sintamos privilegiados por vivermos estes tempos e não nostálgicos por um tempo que se foi e não regressará. Ergamos a taça aos tempos vindouros.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-112040952074028018?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/112040952074028018'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/112040952074028018'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2005/07/santos-e-mastros-populares.html' title='&lt;b&gt;Santos e Mastros Populares&lt;/b&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-111920797387122324</id><published>2005-06-19T20:06:00.000+01:00</published><updated>2005-06-19T20:11:30.526+01:00</updated><title type='text'>O Pax Julia Reabre as Suas Portas</title><content type='html'>O velho Cine-Teatro Pax Julia, que passa por ser uma das maiores salas de espectáculos do Sul do País, reabriu as suas portas no passado dia 17 de Junho. Foi este um longo interregno, que durou de 1990 até aos nossos dias.&lt;br /&gt;Após as muitas vicissitudes que as obras de remodelação padeceram, o que já parece ser fado de toda a obra que na cidade ou na região se faça, vide o projecto de Alqueva e a agora mais recente telenovela, talvez tragicomédia seja melhor apodo, da abertura do aeroporto militar de Beja para fins civis, mas dizíamos nós, após as habituais vicissitudes reabre o velho Pax Julia as suas portas e tal não passa sem que um sentimento de nostalgia perpasse por mim e, julgo, por todos aqueles pouco mais velhos, pouco mais novos que, como eu, desfrutaram tantas tardes e noites de puro prazer cinéfilo, tantas vezes redobrado por esse outro prazer de ver cinema de mão dada com a namorada. Éramos mais jovens, mais esperançosos, a vida tinha mais sabor e o Pax Julia faz indelével parte desse relicário precioso de memórias de juventude que cada um de nós traz consigo. Mas basta de nostalgia.&lt;br /&gt;A futura programação contempla não apenas o cinema mas também o teatro, a música e a dança, expressões artísticas estas últimas que a velha sala raramente contemplou. Esperemos que com a reabertura uma nova era se abra para a fruição das variadas formas de arte.&lt;br /&gt;Eu por mim espero ainda reconciliar-me com o prazer de ver cinema, que de mim se arredou nos últimos tempos. As salas de cinema actuais são cochichos, onde o som elevado a muitos e agressivos decibéis, suponho que para sublinhar e acentuar os efeitos especiais, incomoda e distrai. Não têm as salas de hoje o fôlego, a respiração, a grandiosidade das salas de cinema de antanho, construídas como palácios de fantasia onde os populares desfrutavam dessa nova forma de distracção, tardiamente erguida à forma de arte, pois que esses mesmos populares não tinham acesso às formas de arte canonizadas e consagradas pela burguesia culta e possidente, teatro, ópera e a chamada grande música. E de passatempo e curiosidade de feira fez o cinema o seu caminho e a ele se ergueram verdadeiros e fantásticos palácios, ficando para a posteridade como a mais genuína forma de arte do século passado, consagrando-se definitivamente como uma das mais marcantes e duradouras manifestações de cultura de massas, num reinado de décadas que a televisão, o vídeo e os mais recentes &lt;em&gt;dvds&lt;/em&gt; apenas perturbaram.&lt;br /&gt;Tempos passados em que ainda não tinham feito a sua aparição as malfadadas pipocas. Recordam-se? Aos intervalos fumava-se um cigarro, sem o sentimento de pecado que agora nos querem impingir, que bom que era, e bebia-se uma ginjinha no bufete. E o filme via-se sem aquela incómoda ruminação alarve e contínua.&lt;br /&gt;Ainda se faziam letras como aquela da canção brasileira: &lt;i&gt;No escurinho do cinema, chupando dropes de anis, longe de qualquer problema, perto de um final feliz..&lt;/i&gt; Pois bem, vendam no Pax Julia dropes de anis, dos mais variados sabores,&lt;i&gt; tutti-frut&lt;/i&gt;i, vendam até cachorros, hamburgueres, pizas, vendam toda a parafernália alimentícia com que as novas gerações se intoxicam e se deseducam em termos gastronómicos, mas, por favor, não vendam pipocas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-111920797387122324?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/111920797387122324'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/111920797387122324'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2005/06/o-pax-julia-reabre-as-suas-portas.html' title='&lt;b&gt;O Pax Julia Reabre as Suas Portas&lt;/b&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-111842693594077115</id><published>2005-06-10T19:08:00.000+01:00</published><updated>2005-06-10T19:11:38.680+01:00</updated><title type='text'>Perplexidades</title><content type='html'>¢Sou professor do 2.º Ciclo do Ensino Básico, já passei os 50 anos, e há dias sugeri aos meus alunos de uma Turma do 6.º ano, cuja idade média ronda os 11 anos, que me imaginassem aos 65 anos dando-lhes aulas. Entreolharam-se e desataram a rir. De facto a sugestão era de todo despropositada, anedótica, só mesmo para rir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;¢O senhor Presidente do Governo Regional da Madeira, Dr. Alberto João Jardim, chamou aos jornalistas do continente bastardos e filhos da puta, assim mesmo, sem piii, porque estes nos últimos tempos se atreveram a questionar o facto de o senhor acumular reforma e vencimento. Instado a pronunciar-se sobre o sucedido o senhor Presidente da República assobiou para o lado. Perguntado sobre o mesmo o senhor Dr. Marques Mendes, líder do Partido Social-Democrata, do qual é excelso militante o Dr. Alberto João Jardim, respondeu que este se havia excedido. Mais não disse.&lt;br /&gt;Já seria mau se a coisa tivesse ficado por aqui. Mas não ficou. Os senhores deputados sociais-democratas do Parlamento Regional da Madeira resolveram propor e aprovar, com aclamação e tudo , um voto de congratulação pelas doutas palavras e postura cívica do seu líder regional, criticando ao mesmo tempo a tibieza do seu líder nacional a quem notoriamente faltam a coragem e frontalidade do seu correligionário ilhéu.&lt;br /&gt;Dou aulas de Formação Cívica aos alunos que acima citei. Vejam só que espinhosa é a minha missão perante tais exemplos que de cima nos chegam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;¢Chegou o tempo quente e com ele recomeçaram os incêndios. E a mesma ladainha se fez ouvir, aquela que sempre ouvimos até onde nos chega a memória: falta de limpeza das matas e consequente acumulação excessiva de biomassa, falta de meios aéreos e terrestres, falta de acessos, falta de aceiros, falta de tudo. Falta de vergonha, diremos nós. Só nos sobra a náusea.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;¢Após o "não" francês e holandês no referendo ao Tratado Constitucional Europeu parece que ninguém sabe o que fazer. Ter-se-á partido do princípio que a aprovação do Tratado eram favas contadas, que toda a gente, ou quase, diria "sim"? Se assim foi muito mal se andou, pelo desrespeito revelado pelo eleitorado, pelos europeus, enfim, e pela total e irresponsável imprevidência.&lt;br /&gt;Nos próximos dias 16 e 17 de Junho reúne em Bruxelas o Conselho Europeu. Veremos então qual o caminho futuro. Digo eu, que sou um europtimista.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-111842693594077115?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/111842693594077115'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/111842693594077115'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2005/06/perplexidades.html' title='&lt;b&gt;Perplexidades&lt;/b&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-111808074005008378</id><published>2005-06-06T18:59:00.000+01:00</published><updated>2005-06-06T18:59:00.056+01:00</updated><title type='text'>A Excelência Também Mora no Baixo-Alentejo</title><content type='html'>O Departamento do Patrim&amp;oacute;nio Hist&amp;oacute;rico e Art&amp;iacute;stico da Diocese de Beja foi agraciado pela Uni&amp;atilde;o Europeia com o Pr&amp;eacute;mio Europa Nostra, no valor de dez mil euros, que segundo o seu Director, arquitecto Jos&amp;eacute; Ant&amp;oacute;nio Falc&amp;atilde;o, se destinam &amp;agrave; sensibiliza&amp;ccedil;&amp;atilde;o e forma&amp;ccedil;&amp;atilde;o de jovens para a defesa do patrim&amp;oacute;nio da Diocese. Apoiado no trabalho de 200 volunt&amp;aacute;rios o Departamento, nos &amp;uacute;ltimos 21 anos, j&amp;aacute; procedeu &amp;agrave; identifica&amp;ccedil;&amp;atilde;o de meio milhar de edif&amp;iacute;cios e 200 mil obras de arte na &amp;aacute;rea da Diocese.&lt;br /&gt;Pelo pr&amp;eacute;mio agora conquistado e pelo seu aturado esfor&amp;ccedil;o na conserva&amp;ccedil;&amp;atilde;o e divulga&amp;ccedil;&amp;atilde;o do patrim&amp;oacute;nio religioso baixo-alentejano, actividade cuja notoriedade de h&amp;aacute; muito ultrapassou fronteiras, &amp;eacute; o DPHA da Diocese de Beja merecedor das nossas maiores e mais sinceras felicita&amp;ccedil;&amp;otilde;es.&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-111808074005008378?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/111808074005008378'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/111808074005008378'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2005/06/excelm-mora-no-baixo-alentejo.html' title='&lt;b&gt;A Excel&amp;ecirc;ncia Tamb&amp;eacute;m Mora no Baixo-Alentejo&lt;/b&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-111799522612409519</id><published>2005-06-05T19:13:00.000+01:00</published><updated>2005-06-10T17:35:29.233+01:00</updated><title type='text'>A Europa na Encruzilhada</title><content type='html'>A França e a Holanda referendaram o Tratado Constitucional Europeu e o resultado foi um "não" rotundo, mais rotundo o holandês do que o francês. E agora, que fazer? Perguntam-se perplexos aqueles que têm por missão conduzir esta velha , cansada e descrente Europa. E as respostas são tantas e tão variadas que o comum cidadão, onde me incluo, fica também perplexo, carente de bússola que o possa orientar no mar encapelado das opiniões avulsas e contraditórias que os media veiculam.&lt;br /&gt;O que se diz? Dizem uns que o processo referendário está ferido de morte e não deverá prosseguir, dizem outros que a acontecer tal teremos como que um directório do "não", esquecendo-se que outros já disseram "sim"; que o "não" francês e o "não" holandês tiveram motivações diferentes; que na própria França aqueles que votaram "não" o fizeram por razões diversas, v.g. os lepenistas, metade dos socialistas, comunistas e verdes; que esse "não" é em si tão contraditório que é impossível a sua síntese, isto é, que agora ninguém sabe o que fazer com ele. E o que o terá inspirado? O medo do futuro, da globalização, da deslocalização, uma percepção, não difusa, de que o modelo social europeu, tão laboriosamente edificado no pós-guerra, se encontra periclitante, o medo do outro, do estrangeiro, do imigrante, do mítico "canalizador polaco" que, por um prato de lentilhas, nos roubará o trabalho, sentimento agudizado por um desemprego que não cessa de crescer, o temor pela insegurança urbana, dolorosamente sentida nos subúrbios dos grandes centros urbanos, o sentimento frustrante de que o multiculturalismo fracassou, atirando para guetos comunidades imigrantes desintegradas, marcadas pela violência, pela intolerância e pelo gritante insucesso escolar das gerações mais jovens, e isto é particularmente sentido na tolerante, laboriosa e pacata Holanda, a recusa em pagar mais pela integração dos países recém-chegados à União Europeia, pois que se já tanto se pagou pela integração do Sul agora ainda se há-de ter de pagar pela integração do Leste, o medo do turco contra quem, erroneamente se diz, se construiu a Europa.&lt;br /&gt;E que tem isto a ver com o processo referendário? Tudo e nada. Nada porque estas questões lhe são laterais, tudo porque aqueles que votaram "não" recusaram assim o aprofundamento de um processo que lhes escapa e os amedronta, um processo congeminado pelas elites políticas e insuficientemente explicado e participado pelos populares. Se algo posso concluir deste fracassado processo referendário é que ele foi revelador de um profundo divórcio entre os desígnios dos governantes e o querer e a percepção dos governados. Forçosamente ter-se-á que parar para reflectir. Parafraseando um grande europeu estou em crer que isto não será o princípio do fim mas sim o fim do princípio. Um longo e por vezes amargo caminho ainda teremos que percorrer.&lt;br /&gt;Talvez que a aprovação deste Tratado Constituciomal fosse boa para a Europa. Talvez que o inevitável protelar do processo de aprofundamento da União não seja bom nem sequer para franceses e holandeses. Mas estes assim não o entenderam.&lt;br /&gt;E nós que diremos quando votarmos, se é que votaremos, em referendo? Presumo que diremos "sim", com o óbvio "não" de comunistas, verdes e bloquistas, aliás em conformidade com a recusa, dos dois primeiros só porque os terceiros à altura ainda não existiam, do processo de integração de Portugal na então Comunidade Europeia, transmutada em calculada indiferença quando as autarquias por eles dominadas passaram a beneficiar dos pingues proventos proporcionados pelos Quadros Comunitários de Apoio. E diremos "sim" porque aquilo que nos importa é que o fluxo de euros continue, além de que existe plena consciência de que os males de que enferma o País são menos devedores à Europa e mais à nossa ancestral incapacidade de previsão e organização.&lt;br /&gt;P.S. Ainda não li o projecto do Tratado Constitucional, para além daqueles curtos excertos que a imprensa por vezes reproduz. Cento e muita páginas numa cerrada linguagem político-jurídica? Poupem-me. Estou à espera de que me venha parar às mãos um &lt;i&gt;digest&lt;/i&gt;. Espero que haja o bom senso de publicá-lo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-111799522612409519?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/111799522612409519'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/111799522612409519'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2005/06/europa-na-encruzilhada.html' title='&lt;b&gt;A Europa na Encruzilhada&lt;/b&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-111721595365139878</id><published>2005-05-27T18:45:00.000+01:00</published><updated>2005-05-30T18:12:05.600+01:00</updated><title type='text'>Um Caminho sem Retorno</title><content type='html'>O Partido Comunista, força política preponderante que foi no Alentejo ao longo de décadas, tem vindo a perder, de forma gradual e irreversível, influência e eleitores por notória incapacidade de compreensão e adaptação a novos tempos e a novas realidades, o que não deixa de ser irónico num Partido que faz da análise objectiva da realidade o instrumento orientador de toda a sua actividade política, conforme os mais estritos e ortodoxos princípios do materialismo dialéctico.&lt;br /&gt;Na verdade a inércia que pauta a actuação do Partido Comunista Português transformaram-no na mais conservadora das forças políticas que compõem o leque partidário parlamentar. É isto salutar para a vida política nacional? Não é. Desde logo porque um sector ainda vasto do campesinato alentejano, em redução acelerada pela emergência de novos meios de produção dispensadores da utilização de mão-de-obra intensiva, e uma vasta franja da população mais envelhecida se revêem nele como seu interlocutor e porta-voz privilegiado. A consequência óbvia é que aqueles que não têm voz cada vez a terão menos, porque o conservadorismo do voto rural e a memória ainda mítica e quase religiosa das lutas e sacrifícios dos comunistas em tempos da Ditadura, tornam quase proibitiva a deslocação do voto para outras forças políticas, assumindo tal acto, a concretizar-se, foros de uma quase apostasia. Tais considerações não se aplicarão de todo ao mundo urbano, de fidelidades partidárias mais volúveis pela maior permeabilidade social. Mas a inexistência de grandes meios urbanos, as próprias cidades capitais de distrito ter-se-ão que catalogar como cidades de média dimensão, fizeram do voto rural o voto determinante ao longo de muitos anos.&lt;br /&gt;Essa memória bloqueadora não existe nas gerações mais jovens e são os mais jovens, o 25 de Abril ocorreu há 31 anos, a maioria do eleitorado nos dias de hoje. E o discurso de contornos neo-realistas em que persistem os comunistas já não se compagina com a nova realidade, fruto de profundas e estruturantes mutações sócio-económicas e culturais.&lt;br /&gt;Por isso que a perda de influência política dos comunistas não releva de uma qualquer mutação circunstancial do sentido de voto dos eleitores, mas tem tudo a ver com alterações estruturantes na tessitura económica e social, isto é, quem não vota comunista hoje não o fará amanhã, porque não se revê nessa força política, porque a forma e o conteúdo, a praxis e a teoria são passadistas, anacrónicas. Se a infra-estrutura determina a superestrutura então o Partido Comunista é hoje um instrumento de combate político desadequado.&lt;br /&gt;As candidaturas à Câmara Municipal de Beja estão lançadas: Carlos Figueiredo, pelo Partido Socialista, Francisco Santos, pelo Partido Comunista e João Paulo Ramôa, pelo P.P.D.-P.S.D.&lt;br /&gt;Atentemos na candidatura comunista: Francisco Santos é médico, natural do Concelho, de onde se ausentou há largos anos por razões de ordem profissional, o que não é motivo de reparo desmerecedor; o mesmo se poderá dizer do candidato socialista. Francisco Santos foi, e disso se recordarão aqueles cuja memória histórica remonta aos anos logo imediatamente posteriores ao 25 de Abril, um destacado e celebrado militante do Partido Comunista. O ser homem de origens modestas e as suas qualidades profissionais e humanas fadavam-no para personificar o militante comunista exemplar. E foi por isso agora o escolhido para candidato à Câmara Municipal de Beja: Francisco Santos transporta consigo a memória de tempos áureos de hegemonia optimista, isto é, o candidato transporta consigo as memórias do passado, não traz consigo qualquer projecto de futuro. E serão essas memórias do passado que pretenderão alentar e revivificar um projecto já obsoleto. Dir-se-á que é o melhor que se pode arranjar, sem desprimor para a pessoa.&lt;br /&gt;O comportamento dos comunistas cada vez mais se parece com o dos habitantes de uma cidadela sitiada cuja queda se antevê como inevitável: afirmam esperançosos os sitiantes "É agora", perguntam-se ansiosos os sitiados "Será desta?". Dirão os comunistas, embalados até pelo carácter messiânico da sua doutrina, que toda a sua vida tem sido feita de resistência, por vezes em condições profundamente adversas. Ninguém o nega. Mas só um projecto consistente de futuro suporta qualquer acto de resistência, resistir de olhos postos no passado é protelar um irremediável fim.&lt;br /&gt;Decididamente, o caminho descendente do Partido Comunista é um caminho sem retorno.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-111721595365139878?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/111721595365139878'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/111721595365139878'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2005/05/um-caminho-sem-retorno.html' title='&lt;b&gt;Um Caminho sem Retorno&lt;/b&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-111711833813763576</id><published>2005-05-26T15:38:00.000+01:00</published><updated>2005-06-03T22:55:24.133+01:00</updated><title type='text'>SOMBRAS DO PASSADO</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;I&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo começou num fim de tarde de um dia de Agosto, dia quente, muito quente, como são todos os dias de Agosto em Beja. Começara a soprar a maré, ao sopro da qual se padejavam os cereais nas eiras e se separava o grão da palha, aquela brisa fresca, balsâmica, que do Oceano nos chega quando o Sol, até aí senhor inclemente, começa a declinar e permite, enfim, que homens e bichos rompam a clausura em que o calor opressivo os mantivera. Chegara a maré e, como vinha sendo hábito, o terraço do Grémio Artístico Bejense povoara-se já com os habituais jogadores de malha, na sua maioria de encanecidas e respeitáveis idades que ali, ao entardecer, se juntavam a jogar ao perde-paga, pagavam um copo os perdedores aos vencedores, que esta é uma associação respeitável e não se permitem jogos a dinheiro, bem entendido.&lt;br /&gt;Nesta ocupação se encontravam quando se anunciam visitantes, uma dama e dois cavalheiros, também eles já de provecta idade. O meu particular amigo senhor Honório Ribeiro, Presidente da colectividade, sem enfado deixou a jogatina e lá foi cumprir as suas funções de anfitrião, bom anfitrião que ele sem favor o sabe ser. Ao que vinham, ao que não vinham? Desejavam visitar as instalações, haviam-nas conhecido na sua meninice já lá iam uns bem puxados setenta anos.&lt;br /&gt;Um dos cavalheiros trazia consigo alguns documentos e fotografias que desejava doar à colectividade, tinham a ver com a mesma. Os anos já eram muitos, o fim aproximava-se e decerto todo aquele espólio haveria de levar sumiço se não estivesse à salvaguarda de quem lhe desse a devida importância e o cuidasse, explicava ele.&lt;br /&gt;Mas a que vinha todo aquele mistério?&lt;br /&gt;-Pois vivi em Beja, durante a minha infância. Meu pai foi mestre de música aqui no Grémio Artístico, era sargento-músico do Regimento de Infantaria 17. Depois fomos para Lisboa, em 1933, e como não deixámos por cá família todo o contacto se perdeu. Veja, ali naquela fotografia de conjunto, aquele era o meu pai.&lt;br /&gt;Encontravam-se na sala da Direcção. Velhas fotografias dependuradas das paredes e cujos segredos já todos desconheciam eram agora reconhecidas por aquele inesperado e tardio visitante, em cuja voz se notava uma ligeira comoção.&lt;br /&gt;O meu amigo Honório passou em revista o espólio que lhe havia sido entregue, reconheceu entre as fotografias uma com a legenda "Direcção do G. A. B. - 1932".&lt;br /&gt;-Veja, ali na parede está uma fotografia igual a esta.&lt;br /&gt;O visitante olhou uma e outra. Que não, que não eram exactamente iguais, disse.&lt;br /&gt;-Como é que não são iguais?&lt;br /&gt;Pois que não eram iguais, comparasse-as melhor e veria que naquela que se encontrava na parede faltava um elemento do grupo.&lt;br /&gt;E de facto faltava. Como era possível?&lt;br /&gt;-Aquele senhor portou-se mal e os companheiros mandaram o fotógrafo apagá-lo. - respondeu lacónico, tão seco e lacónico que o meu amigo Honório ficou sem coragem para perguntar qual o pecado cometido por aquele jovem, pois de um jovem se tratava, à época.&lt;br /&gt;A visita continuou. Mas os visitantes pouco mais disseram. Afinal não vinham para ouvir nem para ver o presente, bastava-lhes o silêncio dos salões e das velhas fotografias das personagens austeras que pontificavam pelas paredes, silêncio que decerto lhes traria vozes do passado, notas soltas da música que ali se tocou, frases avulsas dos actores amadores que no vetusto palco sonharam e fizeram sonhar, etéreas memórias que a quase centenária colectividade encerrava e que só eles sabiam entender. E o meu amigo Honório seguia-os, sem nada explicar e nada interpelar, respeitador do silêncio daqueles romeiros chegados do passado e que procediam, olhavam e tocavam como se nunca de lá tivessem saído. E ele, homem de espírito positivo, confessou-me mais tarde que, a dado momento, ainda receou que, repentinamente, alguma daquelas fotografias se animasse e o retratado desatasse em amena cavaqueira com aqueles fantásticos visitantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;II&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobre estas e outras coisas discorria eu com o meu amigo Neves, sentados numa esplanada ali para as Portas de Mértola. O Neves é membro da actual Direcção do Grémio Artístico e andava intrigado com a eventual malfeitoria que o seu antecessor, apagado na fotografia, teria cometido.&lt;br /&gt;-O Presidente não lho perguntou e agora não lho vai perguntar mais. Sabes que o tal misterioso visitante faleceu poucas semanas depois de regressar a Lisboa?&lt;br /&gt;-Como é que sabes? - perguntei-lhe.&lt;br /&gt;-Sei porque há dias realizámos uma exposição retrospectiva sobre a vida da colectividade e enviámos-lhe um convite para assistir à inauguração da mesma, tínhamos ficado com o seu endereço. Pois a resposta que obtivemos foi que já tinha falecido.&lt;br /&gt;-Possivelmente quando cá esteve ele já sabia que iria morrer em breve, daí ter feito a doação do espólio. Talvez padecesse de alguma daquelas doenças que não perdoam e nos marcam prazo. - dizia-lhe eu.&lt;br /&gt;-Também suponho que sim. Mas nunca mais saberemos a tramóia cometida pela outra misteriosa personagem.&lt;br /&gt;-Homem, isso está a tornar-se uma obsessão. E que te importa isso a ti?&lt;br /&gt;Ficou-se de copo na mão a contemplar as bolhas que, do fundo do copo de cerveja, subiam em caprichoso bailado para, passado algum tempo, me perguntar com um ar manhoso, aquele ar manhoso que eu lhe conheço desde os bancos da escola e que sempre arvora quando pretende algo:&lt;br /&gt;-Como é que te parece que poderíamos descobrir a marosca?&lt;br /&gt;-Irra! Qual marosca nem meia marosca. Não tens mais nada que te preocupe? Olha, participa o assunto à Judiciária!&lt;br /&gt;-A sério, como é que nós poderíamos saber?&lt;br /&gt;Comecei a encará-lo com apreensão. A coisa era mais séria do que eu pensava. Sabia que este Neves era de ideias fixas mas esta ultrapassava as marcas. Disse-lhe num tom de enfado:&lt;br /&gt;-Procura nas actas das reuniões da Direcção por volta desses anos. A fotografia onde ele já não consta não tem a data de 1932? Pois então, com toda a probabilidade, o tão misterioso crime terá sido cometido nesse ano ou nos anos anteriores ou posteriores, um ou dois anos antes, um ou dois anos depois, suponho. Como vês, não terás que pesquisar muito.&lt;br /&gt;-Mas isso já eu procurei fazer. Os livros de actas já não existem! - declarou, num desabafo.&lt;br /&gt;-Porquê? Não houve o cuidado de preservá-los?&lt;br /&gt;-Não é isso. Nos anos quarenta houve um incêndio no prédio e grande parte de toda essa documentação se perdeu.&lt;br /&gt;Então ele já havia andado a indagar!? E confesso que terá sido por aqui que o assunto também me começou a interessar. Como nada conseguiu perseguindo a pista mais óbvia, estava agora a tentar derriçar-me, pois bem sabia da minha atracção por papéis e coisas velhas.&lt;br /&gt;-E já tentaste saber de pessoas dessa época que ainda estejam vivas e te possam contar o que aconteceu?&lt;br /&gt;-Repara que estamos a falar de coisas que ocorreram há cerca de setenta anos. Possivelmente aquilo que se passou não foi mais que um &lt;em&gt;fait-divers&lt;/em&gt; na vida da cidade, e a memória colectiva não guarda por muito tempo esses pequenos acontecimentos. E os que me poderiam contar aquilo que se passou já decerto morreram todos.&lt;br /&gt;-Tens toda a razão. O que se passou não foi mais que um &lt;em&gt;fait-divers&lt;/em&gt;, não merece o esforço.&lt;br /&gt;Começou de novo a fitar o copo de cerveja, agora praticamente vazio e de onde já não subiam bolhinhas. Tinha um ar de cão escorraçado. Mas que podia eu fazer?&lt;br /&gt;-Bem, bem! E se fôssemos tentar sabê-lo pelos jornais da época? Talvez que eles nos possam esclarecer sobre o que se passou.&lt;br /&gt;Um sorriso amaciou-lhe as faces. Deu-me uma tão grande palmada no ombro que salpicos de cerveja saltaram do copo que eu tinha na mão e me molharam a camisa.&lt;br /&gt;-Eu sabia que alguma ideia te havia de ocorrer, eu sabia!&lt;br /&gt;E perante tanta e tão genuína alegria e tão efusiva quanto brusca manifestação de amizade, não fui capaz de me zangar com o Neves por me ter molhado a camisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;III&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No dia aprazado deslocámo-nos à mediateca municipal na esperança de encontrar algo que satisfizesse a assolapada curiosidade do meu amigo Neves e, por que não confessá-lo, a minha própria curiosidade.&lt;br /&gt;-Que jornais da época achas que devemos consultar? - perguntou-me.&lt;br /&gt;-Bem, vamos começar pelo &lt;i&gt;Ecos de Beja&lt;/i&gt;, que era à época o jornal de maior circulação na cidade e no distrito, e se aí nada encontrarmos depois se verá.&lt;br /&gt;-Mas o tempo não nos vai chegar para vermos tantos jornais!&lt;br /&gt;-Que tempo? Referes-te ao dia de hoje? Não quiseste meter-te e meter-me nestes assados? Pois fica a saber que voltaremos aqui as vezes que forem necessárias.&lt;br /&gt;Fitou-me com uma cara de algum desalento. O tempo ali passado, ao findar da tarde, seria o tempo em que não estaria com a sua camarilha, depois de deixar o Banco onde trabalhava, a discutir futebol e a beber um copo no bar que habitualmente frequentava.&lt;br /&gt;Fui impiedoso.&lt;br /&gt;-Penso que temos aqui trabalho pelo menos para quinze dias.&lt;br /&gt;Tive como resposta um profundo suspiro.&lt;br /&gt;E, cheios de esperança, deitámos mãos à tarefa. Pedimos à funcionária que nos facultasse a consulta do&lt;i&gt; Ecos de Beja&lt;/i&gt; de 1930 e 1931 e distribuímos tarefas: o Neves consultava os números referentes ao primeiro dos anos e eu os restantes.&lt;br /&gt;A busca desse findar de tarde revelou-se infrutífera. O Neves detinha-se demoradamente nas parcas notícias que já então surgiam sobre football, como então ainda se escrevia, e tirava apontamentos, debaixo das minhas admoestações.&lt;br /&gt;-Neves, assim passamos aqui um mês!&lt;br /&gt;-Deixa lá, aquela tropa tem a mania que sabe tudo sobre futebol mas há aqui coisas que eles ignoram completamente.&lt;br /&gt;E ria, com um risinho sarcástico, antevendo o brilharete que haveria de fazer perante aquela douta assembleia de catedráticos do pontapé na bola.&lt;br /&gt;Regressámos no outro dia. O Neves encarregou-se de folhear os jornais referentes ao ano de 1932 e eu de 1933.A fortuna sorriu-me. Num número datado de Março de 1933 li a seguinte notícia:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Causou geral consternação em toda a cidade o misterioso desaparecimento, ocorrido há cerca de uma semana, do senhor Celestino da Graça Rodrigues Gomes, funcionário da Câmara Municipal, onde exercia as funções de escriturário de forma competente e dedicada. À data do encerramento deste jornal as variadas diligências encetadas pelas autoridades nada conseguiram apurar de concreto sobre os motivos de tal desaparecimento.&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;No número referente à semana seguinte, o&lt;i&gt; Ecos de Beja &lt;/i&gt;era um jornal semanário, leio o seguinte:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;As autoridades relacionam o misterioso desaparecimento do senhor Celestino da Graça Rodrigues Gomes, por nós já noticiado no nosso número anterior, com o também súbito e misterioso desaparecimento de uma jovem meretriz da Rua da Branca, de seu nome Maria Rosa Guerreiro, mais conhecida pela Maria Algarvia, com a qual, segundo o testemunho de amigos mais chegados do desaparecido, vinha este mantendo um relacionamento amoroso que durava de há meses a esta parte.&lt;br /&gt;Acresce dizer que dos cofres do Grémio Artístico Bejense terão desaparecido, segundo informaram as autoridades e nos foi confirmado pelo Presidente do Grémio, nosso particular amigo e assinante senhor José António Lobo Pimenta, cerca de 12.000.00, dinheiro proveniente da normal cotização e, a maior parte, de um avultado e recente donativo feito por um benemérito local que procurámos identificar mas que insiste em permanecer incógnito. Este avultado quantitativo era destinado ao pagamento de obras urgentes de que carece o edifício onde se encontra instalado o Grémio Artístico, dado o seu avançado estado de degradação.&lt;br /&gt;Ora sucede que o desaparecido vinha desempenhando nesta meritória colectividade, onde gosava de geraes simpatias, as funções de tesoureiro.&lt;br /&gt;Tudo leva a crer estarmos pois perante um furto e fuga motivados por razões passionais. Escusado será dizer quanto este lamentável sucesso impressionou familiares e amigos deste jovem, vítima dos desdouros de uma infeliz paixão.&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;Mostrei ambas as notícias ao Neves. À medida que as lia o rosto nédio e rubicundo iluminava-se-lhe num sorriso:&lt;br /&gt;-É isto, é isto! - repetia numa excitação feliz.&lt;br /&gt;-Pois é isto! Está satisfeita a tua bisbilhotice?&lt;br /&gt;Folheámos a mãos ambas os números seguintes até ao final do ano de 1933. O facto não era mais citado, pelos vistos os desaparecidos tinham levado um sumiço definitivo.&lt;br /&gt;-Mas e o que lhes teria sucedido, quero dizer, depois de terem fugido? - perguntava-me, coçando a nuca e semicerrando os olhos como se procurasse lobrigar os fugitivos no fundo das suas cogitações.&lt;br /&gt;-Creio que viveram ambos por muitos e longos anos, felizes e contentes, e tiveram muitos meninos. Se pretendes saber mais fá-lo tu agora sozinho, por tua conta e risco. Eu, por mim, dou-me por satisfeito.&lt;br /&gt;E os dias passaram.&lt;br /&gt;Imerso no meu quotidiano esqueci o par amoroso que a moral da época, tão rígida quanto hipócrita, obrigou a procurar refúgio sabia-se lá em que longínquas paragens, até àquele sábado em que, pela manhã, encontrava-me eu na tabacaria a comprar cigarros e o jornal, quando o Neves, que eu já não via há um bom par de dias, irrompe pela casa dentro e naquele seu jeito delicado me dá uma sonorosa palmada nas costas, que me sobressaltou, e me diz:&lt;br /&gt;-Ainda bem que te encontro. Nem de propósito! Temos que ir à Salvada!&lt;br /&gt;A Salvada, para os menos conhecedores da geografia da região, é uma aldeia que dista da cidade de Beja pouco mais de uma dezena de quilómetros.&lt;br /&gt;-Pelo tom imperativo estou em crer que tenho mesmo de lá ir! Mas o que vamos lá fazer?&lt;br /&gt;-Ouve-me, ouve-me bem! Tenho andado a procurar saber quem são os músicos mais velhos que tocaram na banda do Grémio e que ainda estejam vivos. Já falei com vários, mas nenhum deles é suficientemente velho para conhecer o que se passou há setenta anos atrás. Pois bem, soube ontem de um que vive na Salvada e que já terá passado dos noventa. Temos que ir falar com o homem, temos ou não temos?&lt;br /&gt;O bom do Neves não tinha desistido das suas pesquisas. Por força que haveria de descobrir o destino do par amoroso.&lt;br /&gt;-Está bem! Vamos lá falar com o homem. E até pode ser hoje, depois do almoço, se estiveres disponível.&lt;br /&gt;-Mas é claro que estou!&lt;br /&gt;E outra sonora palmada selou o acordado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;IV&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O senhor João de Brito Godinho tinha completado 91 anos. Começara a tocar na banda do Grémio tinha ele treze anos, fez parte das suas primeiras escolas de música. Encontrámo-lo ainda fero e de boa memória para as coisa do passado mais distante, que não para as mais recentes, o que parece ser comum a todos aqueles a quem os anos foram poupando. Vivia com uma irmã, também já muito idosa, ambos viúvos. Enquanto tivessem forças para se amparar um ao outro haveriam de fugir dos lares como o diabo da cruz, dizia-nos ele.&lt;br /&gt;Lembrava-se perfeitamente do acontecido, o Celestino era alguns anos, poucos, mais velho do que ele, mas tinha-o conhecido bastante bem até. Não eram das relações um do outro, não senhor, ele era operário e o Celestino funcionário da Câmara; um punha gravata e o outro vestia-se de ganga e isso, naquela época, marcava distâncias.&lt;br /&gt;Mas lembrava-se de tudo bastante bem. Nunca mais soube nada dele. Alguns amigos diziam que estava na Argentina e que até nem estava mal. Mas depois veio a Guerra de Espanha, veio a outra, a Mundial, vieram tempos muito difíceis e nunca mais se soube nada dele. Até se lembrava que a mãe do Celestino, quando ele fugiu com a moça do fado, assim se lhe referia, com vergonha, esteve dias sem pôr o pé na rua e o pai, que tinha uma oficina de ferrador perto da Praça de Touros, teve-a fechada uma porção de tempo. Aquilo foi um grande escândalo.&lt;br /&gt;Neste ponto da narrativa o Neves esticou o pescoço roliço, abriu muito os olhos e perguntou, singularmente interessado.&lt;br /&gt;-Mestre João, diga lá como se chamava o pai do Celestino, ainda se lembra?&lt;br /&gt;-Claro que me lembro, era o Mestre António Ferrador.&lt;br /&gt;-Está bem, mas o nome, o nome completo?&lt;br /&gt;-Também me lembro. Muitas vezes lá fui com o meu pai ferrar um macho que nós tínhamos. O meu pai era forneiro e era com esse macho que fazíamos o carrego de lenha para o forno...&lt;br /&gt;-Está bem, mas como é que era o nome do Mestre Ferrador? - cortou ele, brusco.&lt;br /&gt;Mestre João Godinho olhou para mim como que solicitando uma explicação para tanta impaciência e despropósito do meu amigo, que eu próprio estranhava, ele que habitualmente era tão cordato e bonacheirão.&lt;br /&gt;-Pois era o Mestre António Domingos Pratas Gomes.&lt;br /&gt;O Neves deu um salto na cadeira, como que electrizado. Vimo-lo, com um ar expectante, pegar no telemóvel e nervosamente fazer uma ligação. A espera foi breve:&lt;br /&gt;-Mãe? Sou eu, o João. Ouça, como se chamava, qual era o nome completo da avó Maria ?...Rodrigues Gomes? Pois, está bem!...Nada, eu depois lhe conto!E esse seu tio que emigrou e de quem nada mais souberam?....Chamava-se Celestino?... Sim?...Amanhã, está bem...Sim...Adeus!&lt;br /&gt;Voltou-se para nós, lívido, como se tivesse visto alguma aventesma.&lt;br /&gt;-O pai do Celestino, o Mestre António Ferrador, era meu bisavô! - ciciou num fio de voz, como se a revelação o amedrontasse.&lt;br /&gt;-Era teu bisavô?&lt;br /&gt;-Pois era o meu bisavô materno. O meu bisavô tinha uma oficina de ferrador perto da Praça de Touros, isso sempre o ouvi dizer a minha mãe. A minha avó, filha do Mestre António Ferrador e neste caso irmã do Celestino, chamava-se Maria da Soledade Rodrigues Gomes e a minha mãe Maria da Conceição Gomes Rocha. Eu chamo-me João Manuel Rocha das Neves. - e olhava para mim, depois deste confuso discurso, pálido e com um ar de perfeita incredulidade.&lt;br /&gt;-Acalma-te lá! - dizia-lhe eu, obrigando-o de manso a sentar-se. - Queres tu dizer que o tal Celestino é irmão da tua avó materna e que portanto é teu tio-avô? E como é que só agora o sabes?&lt;br /&gt;-Lembro-me de uma única vez a minha mãe se referir a um seu tio que tinha emigrado e do qual nunca mais tiveram notícias. Vê tu que durante tantos anos procederam como se ele quase não tivesse existido. Tudo isto me parece mentira!- e passava a mão pela testa numa incredulidade pesarosa.&lt;br /&gt;-Pois tinham de facto uns códigos morais extremamente rígidos! - dizia-lhe eu em tom afável, procurando desdramatizar a situação. Já entretanto a irmã de Mestre João Godinho tinha providenciado um copo de água que o Neves bebia sôfrego.&lt;br /&gt;Parecia agora mais calmo.&lt;br /&gt;-Vê lá agora não faças como esse teu antepassado!&lt;br /&gt;O Neves riu-se, estava de regresso o velho e bom Neves.&lt;br /&gt;- Não faço, não! Já não há amores de perdição e com o dinheiro que o cofre do Grémio tem também não dava uma volta muito grande!&lt;br /&gt;Creio não vos ter ainda dito mas o meu bom Neves é o actual tesoureiro do Grémio Artístico Bejense.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-111711833813763576?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/111711833813763576'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/111711833813763576'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2005/05/sombras-do-passado.html' title='&lt;b&gt;SOMBRAS DO PASSADO&lt;/b&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-111651978161925055</id><published>2005-05-19T17:23:00.000+01:00</published><updated>2005-05-20T09:57:23.730+01:00</updated><title type='text'>A Classe Política sob Suspeita</title><content type='html'>Há um país velho e longínquo onde a classe dirigente tantas tropelias cometeu que o povo, isto é, os dirigidos, começaram a olhá-la como um mal necessário, algo que havia que sofrer já que não se entende um Estado sem dirigentes, por muito maus e incompetentes que se revelem. E embora existissem eleições e já por várias vezes os indígenas tivessem procedido à substituição desses mesmos dirigentes saía-lhes sempre pior a emenda que o soneto.&lt;br /&gt;Por último a coisa começou a ficar preta, desculpem-me os politicamente correctos, com o défice das contas públicas. Havia que baixá-lo, havia forçosamente que sanear as contas públicas, o Estado andava a gastar bastante mais do que lhe permitiam os seus rendimentos e sem contas públicas equilibradas, diziam alguns mais avisados, não poderia haver crescimento económico sustentado, quer dizer, os pobres indígenas não poderiam melhorar as suas condições de vida. Algo que resultava incompreensível pois é precisamente para isso que a classe política existe, para tratar do bem comum. Vendeu-se património público, isto é, empobreceu-se o Estado, congelaram-se os vencimentos dos funcionários públicos durante dois anos, disse-se que agora já estava, os tempos de crise haviam acabado, a retoma económica estava em marcha, mas tudo isto soava a falso. Tanto soava a falso que o chefe de governo aproveitou uma inesperada oportunidade e pirou-se para o estrangeiro, para o desempenho de funções bem mais gratificantes do que chefiar um governo atolado em dificuldades e já sem energia para lhes fazer face. Deixou em seu lugar um &lt;i&gt;play&lt;/i&gt;-&lt;i&gt;boy&lt;/i&gt;, indivíduo que era useiro e vezeiro em tudo o que era &lt;em&gt;revista do coração&lt;/em&gt;, bom papagaio, de discurso empolado mas absolutamente oco, a quem não se conheciam quaisquer merecimentos senão os atrás enunciados e então é que as coisas dão mesmo para o torto. O árbitro de todo este jogo, que dá pelo nome de Jorge Sampaio, homem de discurso redondo e que prima pela incapacidade de tomar decisões, viu-se então compelido a agir e a pôr fora tão patusco chefe de governo, convocando eleições antecipadas, ganhas pela oposição.&lt;br /&gt;Pois bem, depois de todos aqueles anos de combate ao défice, depois de todas aquelas promessas chegou-se então à conclusão de que o mesmo não havia sido controlado, havia mesmo piorado.&lt;br /&gt;Conclusão inevitável: andaram todo esse tempo a mentir aos indígenas. Será que para determinados tipos de procedimentos governativos bastará o castigo das urnas, isto é, a derrota eleitoral? Será que para procedimentos tão graves, como o de mentir aos governados e governar por forma a comprometer o bem estar presente e futuro de toda uma comunidade, não deveria haver uma penalização mais grave, perguntavam-se já os indígenas?&lt;br /&gt;Os actuais governantes, que muito prometeram aquando da campanha eleitoral, levianamente ao que parece, vão ter que abrir mão dalgumas daquelas promessas pois a situação já não parece ser para &lt;i&gt;paninhos &lt;/i&gt;&lt;i&gt;quentes&lt;/i&gt;. Terá o actual chefe de governo arcaboiço para tanto, terá ele dimensão de estadista ou será apenas mais um dirigente de passagem? O seu antecedente partidário, que também deu à sola, governou tentando manter um eterno estado de graça, procurando agradar a gregos e a troianos, preferindo não tomar qualquer decisão a afrontar quaisquer interesses. Ora o actual foi ministro do anterior, a quem não regateia elogios. Será que lhe assimilou a escola? Até agora nada se viu, para além de alguns fogachos, a que chamam, alguns, actos simbólicos. Parece ter inaugurado um estilo de maior discrição governativa, parecendo pouco preocupado em aparecer diariamente nos telejornais das oito. Não está mal. Mas não basta. Não se querem governantes obcecados com a sua imagem, que transformem a governação em permanente encenação e espectáculo, sobriedade, parcimónia e dignidade quanto baste é o que se deseja à acção governativa, mas, que diabo, queremos, desejamos, que por detrás dessa circunspecção exista trabalho, projectos, dinâmica de futuro. Mas será ainda cedo para juízos definitivos. Esperemos. A ver vamos...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-111651978161925055?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/111651978161925055'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/111651978161925055'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2005/05/classe-poltica-sob-suspeita.html' title='&lt;b&gt;A Classe Pol&amp;iacute;tica sob Suspeita&lt;/b&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-111617112645728807</id><published>2005-05-15T16:32:00.000+01:00</published><updated>2005-05-15T16:32:06.466+01:00</updated><title type='text'>Notícias da Paróquia I</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;Not&amp;iacute;cias da Par&amp;oacute;quia&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;A partir dos come&amp;ccedil;os do m&amp;ecirc;s de Fevereiro os meus alunos provenientes da localidade de Penedo Gordo, a quatro quil&amp;oacute;metros da cidade, come&amp;ccedil;aram a comparecer &amp;agrave; primeira aula do dia, que principia &amp;agrave;s 8.15 horas, com 15/20 minutos de atraso. O que ocorria? A Rodovi&amp;aacute;ria, que os deixava junto &amp;agrave; Escola, tinha passado a deix&amp;aacute;-los a 1 quil&amp;oacute;metro da mesma. E porqu&amp;ecirc;? Porque os custos com os transportes escolares se haviam agravado, a entidade pagadora dos mesmos &amp;eacute; a C&amp;acirc;mara Municipal, as negocia&amp;ccedil;&amp;otilde;es entre ambas n&amp;atilde;o chegavam a bom termo e vai da&amp;iacute; a coisa partiu pelo elo mais fraco: a Rodovi&amp;aacute;ria decidiu encurtar os percursos, decerto que as poupan&amp;ccedil;as conseguidas com este triste encurtar seriam vultuosas, presumimos n&amp;oacute;s, e os alunos deixaram de comparecer a horas &amp;agrave;s aulas, com o atropelo dos seus mais elementares direitos e com os inevit&amp;aacute;veis preju&amp;iacute;zos de car&amp;aacute;cter pedag&amp;oacute;gico. Mas n&amp;atilde;o eram apenas os alunos do Penedo Gordo os afectados por esta decis&amp;atilde;o absurda, eram tamb&amp;eacute;m os provenientes de Baleiz&amp;atilde;o, Neves e outras.&lt;br /&gt;A coisa prolongou-se sem fim &amp;agrave; vista e as Associa&amp;ccedil;&amp;otilde;es de Pais e Encarregados de Educa&amp;ccedil;&amp;atilde;o das Escolas E.B. 2,3 de Santiago Maior e Santa Maria, naturalmente agastadas com a situa&amp;ccedil;&amp;atilde;o, convocam uma ac&amp;ccedil;&amp;atilde;o de protesto junto das instala&amp;ccedil;&amp;otilde;es da Rodovi&amp;aacute;ria, a qual se realiza no passado dia 4 de Maio. As televis&amp;otilde;es privadas, que se pelam por estas coisas, e ainda bem, comparecem, e o assunto assume relev&amp;acirc;ncia p&amp;uacute;blica e nacional.&lt;br /&gt;Final da hist&amp;oacute;ria: a partir da&amp;iacute; os meus alunos come&amp;ccedil;aram a chegar a horas &amp;agrave;s aulas.&lt;br /&gt;Coment&amp;aacute;rios? Para qu&amp;ecirc;? Trata-se de artistas portugueses...&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-111617112645728807?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/111617112645728807'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/111617112645728807'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2005/05/notquia-i.html' title='&lt;b&gt;Not&amp;iacute;cias da Par&amp;oacute;quia I&lt;/b&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-111574635113838988</id><published>2005-05-10T18:32:00.000+01:00</published><updated>2005-06-03T23:01:35.793+01:00</updated><title type='text'>A Propósito dos 60 Anos do Findar da Segunda Guerra Mundial</title><content type='html'>Passaram no dia 8 de Maio 60 anos sobre o fim da Segunda Guerra Mundial, que sendo Mundial devastou particularmente o continente europeu. Aqui poucos escaparam a essa onda de destruição e morte desencadeada pelos delírios paranóicos de Afolfo Hitler, esse homenzinho de bigode ridículo e extraordinárias capacidades comunicativas que logrou arrastar para a loucura toda uma nação tida como das mais cultas e civilizadas do velho continente, algo que ainda carece de uma explicação convincente, se é que algum dia a terá.&lt;br /&gt;Menorizada de um ponto de vista militar, a Alemanha só na década de 90, após a reunificação, enviou tropas suas para um teatro de guerra exterior às suas fronteiras, neste caso para território da ex-Jugoslávia.&lt;br /&gt;Mas já na década de 60, e pela primeira vez após o findar da Guerra, segundo cremos, a Alemanha havia enviado forças militares para solo estrangeiro. Neste caso para a Base Aérea nº 11, situada exactamente nas proximidades de Beja. Portugal e a Alemanha eram, e são, países membros da Nato e a deslocação dessas forças militares alemãs para solo português terá de situar-se dentro das directivas político-militares gizadas dentro dessa organização.&lt;br /&gt;Mas na década de 60 seriam ainda muito vivas em toda a Europa as memórias das atrocidades cometidas pelas tropas alemãs de ocupação. A Guerra havia acabado há escassos 20 anos. Afinal quantos países europeus haviam escapado aos horrores da Guerra? A pacata e operosa Suécia, A Irlanda, recém-independentizada e que olhava com azedume a pérfida Albion que a havia colonizado e martirizado durante séculos, a neutral Suiça, a Espanha, que então lambia as dolorosas feridas deixadas por uma trágica e ferocíssima Guerra Civil, a euroasiática Turquia, que ainda digeria a perda do seu império no decurso da Guerra de 1914/18 e o Portugal periférico, atrasado, um tanto ou quanto exótico e onde reinava a paz podre imposta pela Ditadura.&lt;br /&gt;Afinal em quantos países europeus, na década de 60, se toleraria a presença de tropas alemãs? Provavelmente apenas em Portugal. Até na franquista Espanha de então ela seria menos tolerada. Tropas alemãs haviam participado activamente na Guerra Civil ao lado dos nacionalistas e a Divisão Condor e o bombardeamento de Guernica, para sempre imortalizado por Picasso, eram símbolos demasiado poderosos para permitirem a muitos espanhóis um simples encolher de ombros de indiferença perante tal facto. Além disso a Espanha não era à altura membro da Nato.&lt;br /&gt;Os horrores da Guerra não haviam afectado directamente o solo português e olhos que não vêem coração que não sente, diz o povo. A memória das atrocidades cometidas pelas tropas alemãs não nos era alheia, mas essas atrocidades tinham sido cometidas sobre outros. Também é verdade que o regime musculado de então não toleraria quaisquer manifestações públicas de contestação pela presença de tropas alemãs em solo nacional. Mas não poderia evitar atitudes individuais de repúdio, que se poderiam manifestar por indiferença, frieza e distanciamento no trato, o que também não se verificou. Na verdade as relações entre as duas comunidades foram, ao longo de mais de 20 anos, enquanto a presença alemã durou, relações se não cordiais pelo menos de mútuo entendimento. O que não é pouco atendendo ao lastro de tenebrosas memórias deixadas pelo nazismo e ao pouco tempo decorrido sobre o findar desse período de Guerra, o mais trágico de todos quantos viveu o velho continente no decurso do século passado.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-111574635113838988?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/111574635113838988'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/111574635113838988'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2005/05/propsito-dos-60-anos-do-findar-da.html' title='&lt;b&gt;A Prop&amp;oacute;sito dos 60 Anos do Findar da Segunda Guerra Mundial&lt;/b&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-111541042408529697</id><published>2005-05-06T21:13:00.000+01:00</published><updated>2005-05-06T21:18:52.860+01:00</updated><title type='text'>CASTELO DE BEJA</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;MÁRIO BEIRÃO&lt;br /&gt;(1890-1965)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CASTELO DE BEJA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Castelo de Beja&lt;br /&gt;No plaino sem fim;&lt;br /&gt;Já morto que eu seja,&lt;br /&gt;Lembra-te de mim!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Castelo de Beja,&lt;br /&gt;De nuvens toucado;&lt;br /&gt;A luz que te beija&lt;br /&gt;É sol do passado!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Castelo de Beja,&lt;br /&gt;Espiando o inimigo;&lt;br /&gt;Te veja ou não veja,&lt;br /&gt;Estou sempre contigo!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Castelo de Beja,&lt;br /&gt;Feito de epopeias;&lt;br /&gt;Um sonho flameja,&lt;br /&gt;Nas tuas ameias!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Castelo de Beja,&lt;br /&gt;Subindo, lá vais...&lt;br /&gt;Tu fazes inveja&lt;br /&gt;Às águias reais!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Castelo de Beja,&lt;br /&gt;Lembra-te de mim:&lt;br /&gt;Saudade que adeja,&lt;br /&gt;No plaino sem fim...&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;p&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em data recente a Câmara Municipal de Beja homenageou o poeta Mário Beirão, filho da terra, onde nasceu em 1890, na Rua das Portas de Aljustrel, em casa devidamente assinalada com uma placa que dá notícia do fasto acontecimento. Homenagem singela que se traduz num pequeno memorial constituído pelo seu busto suportado por uma colunela e pela inscrição do poema que acima se transcreve, gravado em placa brônzea acoplada a outra colunela paralela à anterior, ambas de mármore cinzento, cremos que do chamado mármore de Trigaches.&lt;br /&gt;Feliz, a iniciativa peca embora por tardia. Mário Beirão é, ousamo-lo dizer, o maior vulto poético bejense do século passado. No dizer de David Mourão-Ferreira, em artigo inserto no "Dicionário de Literatura" &lt;i&gt;(direcção de Jacinto do Prado Coelho, Figueirinhas, Porto, 1983),&lt;/i&gt; "revelou-se como poeta de excepcionais qualidades ao publicar, com 21 anos apenas, o &lt;i&gt;Último Lusíada&lt;/i&gt; que, inserindo-se embora no ideário do saudosismo, não deixava também de apresentar, em germe, algumas importantes características da poesia portuguesa posterior (v. g., um propósito de concisa epopeia que será, depois, o de F. Pessoa da &lt;i&gt;Mensagem&lt;/i&gt;; uma obsessão telúrica que virá a exprimir-se na obra de Torga; um sentido de reivindicação social que terá involuntários continuadores entre os neo-realistas da geração de 40)".E o poeta que se revelou aos 21 anos foi vida fora um cantor da planície transtagana, das suas paisagens grandiosas e trágicas , da altivez nobre das suas gentes.&lt;br /&gt;Nestes tempos de inadiáveis afazeres e de tempo sempre escasso sugiro-lhe que, sem pressas, vá até ao Castelo, e leia, saboreando, o poema que acima transcrevo, fite as muralhas, deixe que as palavras do poema e a ambiência o envolvam, depois suba à Torre de Menagem, repouse o olhar na planície, deixe que ele circunvague até aos contrafortes das serras distantes e dê asas ao pensamento. Provavelmente virá de lá mais reconciliado consigo e com os outros. &lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-111541042408529697?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/111541042408529697'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/111541042408529697'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2005/05/castelo-de-beja.html' title='&lt;b&gt;CASTELO DE BEJA&lt;/b&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-111498676380712896</id><published>2005-05-01T23:32:00.000+01:00</published><updated>2005-05-18T22:06:39.746+01:00</updated><title type='text'>A Colocação de Professores ou Pior a Emenda que o Soneto</title><content type='html'>Para os males endémicos de que padece o nosso sistema de ensino e que remontam, pelo menos, aos tempos do Marquês de Pombal, propõem agora algumas luminárias uma panaceia, mais uma a somar a tantas outras, que nisto da educação não há bicho-careto que não meta a colher, a qual é a da "estabilidade do corpo docente". E como é que se vai conseguir tal desiderato? Acabando com o sistema centralizado pelo Ministério de colocação dos docentes e entregando tal processo às autarquias locais e às escolas.&lt;br /&gt;Pressupõe-se assim conquistar a almejada estabilidade do corpo docente mas ainda mais: garante-se que as escolas passarão a ter melhores professores pois que serão elas a seleccioná-los, cooptadas em tal missão pela douta opinião da respectiva autarquia local e famílias. Santa ingenuidade. É sabida a transparência, rigor e honestidade com que decorrem os concursos públicos para as mais diversas funções de Estado.&lt;br /&gt;E como os professores que temos são os actualmente existentes e não outros, e como o recrutamento futuro destes há-de ser feito de entre eles, e como, ao que parece, são na sua maioria notoriamente incompetentes, como vai ser? Vamos mandar os incompetentes para casa, ficar apenas com os bons e arranjar mais uns milhares de competentes passíveis de serem recrutados? É que se não for assim alguém ficará com os incompetentes. Ou não será?&lt;br /&gt;Mas experimentem a solução e verão o que vai acontecer: uma irremediável e perniciosa politização das escolas, um reforço da partidocracia em que já vivemos, o surgimento de escolas do PCP, do PS, do PSD e decerto também algumas do PP e do Bloco de Esquerda, dependendo isso da cor política da respectiva autarquia, o surgimento de mais clientelas políticas com o inevitável cortejo de intrigas, bajulices e reforço do caudilhismo, o surgimento de escolas de primeira, segunda e terceira conforme a atractividade ou repulsividade das regiões em que se insiram, sendo este mais um interessante contributo para a promoção da tão propalada coesão e solidariedade nacionais e, enfim, a perda de autonomia de toda uma classe profissional face aos poderes político-partidários.&lt;br /&gt;O actual sistema de colocação de professores, se enferma de imperfeições, garante pelo menos objectividade na ordenação dos docentes face às suas pretensões de colocação: atende ao grau académico e respectiva habilitação, habilitação profissional e tempo de serviço. Sou docente há 31 anos e orgulho-me de ao longo de toda a minha carreira não ter sido beneficiário de favoritismos de qualquer espécie. O mesmo dirá a maioria dos meus colegas. O que se propõe agora é deveras lamentável, como lamentável será a vida profissional de todos nós, a ir avante tão disparatada quanto insensata proposta.&lt;br /&gt;P.S.: Vasco Pulido Valente disse isto e muito mais em crónica publicada no jornal "Público" de 29/04/05. Recomendo a leitura.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-111498676380712896?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/111498676380712896'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/111498676380712896'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2005/05/colocao-de-professores-ou-pior-emenda.html' title='&lt;b&gt;A Coloca&amp;ccedil;&amp;atilde;o de Professores ou Pior a Emenda que o Soneto&lt;/b&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-111480505655642608</id><published>2005-04-29T21:04:00.000+01:00</published><updated>2005-04-29T21:04:16.556+01:00</updated><title type='text'>UM LAR POR EMPRÉSTIMO</title><content type='html'>Veio &amp;agrave; porta, com a m&amp;atilde;o espalmada sobre os olhos semicerrados, encandeado pela luminosidade excessiva que se derramava de um c&amp;eacute;u azul p&amp;aacute;lido, desmaiado, como se o calor, que tanto era, o tivesse chamuscado. Era uma tarde de Agosto.&lt;br /&gt;Vivia agora num permanente sobressalto. Os montes eram assaltados por quadrilhas de lar&amp;aacute;pios vindos n&amp;atilde;o se sabe de onde e que logo desapareciam, levados pelas artes do diabo. Por toda a freguesia n&amp;atilde;o se falava de outra coisa. Poucos dias havia que na freguesia vizinha tinham roubado um casal seu conhecido e at&amp;eacute;, ao que se dizia, tinham abusado da velhota. O receio difuso, alimentado quase diariamente pelas conversas ouvidas no Caf&amp;eacute;, centro do mundo duas l&amp;eacute;guas em redor, tinha-se agora transformado em medo. Os gatunos tinham at&amp;eacute; ent&amp;atilde;o feito as suas patifarias longe, e o seu receio seria como o da ca&amp;ccedil;a que ouve l&amp;aacute; longe, vagamente, o espingardear dos ca&amp;ccedil;adores e que precatada dorme, com um olho aberto e a orelha fita, sentindo-se ainda segura no aconchego do pasto dissimulador ou na lura aberta em p&amp;eacute; de azinheira carcomida pelos anos. Mas agora tinham-se chegado demasiado perto. Sentia-se jogador de uma lotaria para a qual n&amp;atilde;o tinha comprado cautela. Agora tamb&amp;eacute;m a ele lhe poderia calhar a sorte. O medo havia-se apegado &amp;agrave;s pessoas como o calor do Ver&amp;atilde;o.&lt;br /&gt;Tranquilizou-se. Era o jipe da Guarda.&lt;br /&gt;A mulher veio &amp;agrave; soleira perguntando quem era, que era a Guarda, que descansasse. Tamb&amp;eacute;m ela, e ainda mais ela, vivia em sobressalto. Nem as poucas horas que dantes dormia, que os anos nos v&amp;atilde;o tirando as horas de sono, agora lhe aproveitavam. At&amp;eacute; o ru&amp;iacute;do mais familiar a acordava e a punha em cuidados por longo tempo, sem pregar olho.&lt;br /&gt;-Bons dias! Bons dias! Que n&amp;atilde;o abrissem a porta a desconhecidos, fosse l&amp;aacute; por que raz&amp;atilde;o fosse, j&amp;aacute; que n&amp;atilde;o tinham telefone que comprassem um telem&amp;oacute;vel, que era coisa &amp;uacute;til e que at&amp;eacute; j&amp;aacute; nem custava muito dinheiro, que at&amp;eacute; os filhos lho poderiam comprar, que estavam empregados e que se o senhor An&amp;iacute;bal dissesse para o que era decerto que n&amp;atilde;o iriam dizer que n&amp;atilde;o. E por que toma e por que deixa...&lt;br /&gt;Mas o semblante taciturno, sombrio, dos guardas n&amp;atilde;o tranquilizava ningu&amp;eacute;m. Atenazada pelos superiores, apoucada pelo povo, pois aquilo durava havia meses sem que lhe conseguisse p&amp;ocirc;r termo, a autoridade sentia-se incomodada e posta em causa.&lt;br /&gt;E l&amp;aacute; seguiram o seu caminho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Caf&amp;eacute; do Vitorino encontrava-se mais animado do que era habitual. A televis&amp;atilde;o tinha falado noutro assalto l&amp;aacute; mais para baixo, quase na serra algarvia. Tinham espancado os velhotes, tinham-lhes roubado as poucas economias e deixado amarrados por largas horas, enquanto n&amp;atilde;o foram descobertos por um vizinho.&lt;br /&gt;Havia no ar uma exalta&amp;ccedil;&amp;atilde;o e um nervosismo contagiantes. Tinha ido ao Caf&amp;eacute; beber um copito e desenferrujar a l&amp;iacute;ngua e logo lhe contaram aquela.&lt;br /&gt;Mas ali encontravam-se mais seguros. Sempre eram umas quantas habita&amp;ccedil;&amp;otilde;es de um lado e outro da estrada. At&amp;eacute; agora os ladr&amp;otilde;es tinham roubado gente isolada nos montes e sempre casais idosos, que novos tamb&amp;eacute;m j&amp;aacute; por l&amp;aacute; n&amp;atilde;o os havia. Nunca tinham roubado em aldeias, por mais pequenas que fossem. Quando o faziam faziam-no pela certa, sabiam ao que iam. Roubavam gente como ele e a sua Mariana, s&amp;oacute;s, desamparados, velhos e tr&amp;ocirc;pegos, incapazes de se defenderem. H&amp;aacute; muito que se deveriam ter mudado para a aldeia, quando o &amp;uacute;ltimo dos filhos abalou deviam-no ter feito. Ela bem havia insistido. Mas ele, teimoso, preso a umas parcas courelas que desde mo&amp;ccedil;o trabalhara ainda em companhia de seu pai, fora ficando. Agora j&amp;aacute; nem for&amp;ccedil;a tinha para trabalh&amp;aacute;-las. Deveria ter vendido tudo em bom tempo e mudado para o povoado. Mas aquele malvado apego &amp;agrave; terra tinha podido mais. Vend&amp;ecirc;-la era vender-se, quando em tal pensava punha-se-lhe um peso e uma escurid&amp;atilde;o na alma que s&amp;oacute; ele sabia. Agora era aguentar-se at&amp;eacute; que a morte o viesse buscar.&lt;br /&gt;A conversa ia animada no Caf&amp;eacute;. Um gravatinha, banc&amp;aacute;rio na vila pr&amp;oacute;xima e que, como filho da aldeia, ali passava os fins de semana, dizia, toda farroncas, que a ele n&amp;atilde;o o haveriam de pilhar. Olha que se fosse com ele, havia de ser bonito, que lhes metia um tiro no bucho, que fazia e acontecia. O Vitorino olhava-o de soslaio. N&amp;atilde;o morria de amores por aquele desde que por causa de uma sua gracinha se tinha visto em apuros com a inspec&amp;ccedil;&amp;atilde;o das actividades econ&amp;oacute;micas, que esses tamb&amp;eacute;m s&amp;oacute; apoquentam os pequeninos. Tinha aparecido no Caf&amp;eacute; com uma garrafa de vinho de r&amp;oacute;tulo todo catita e por for&amp;ccedil;a que o Vitorino havia de ench&amp;ecirc;-la e servir com ela as ta&amp;ccedil;as. Em m&amp;aacute; hora o Vitorino acedeu. Logo chegam os fiscais e embirram com a garrafa que era de um vinho car&amp;iacute;ssimo. Ent&amp;atilde;o servia vinho aos fregueses em vasilhame que n&amp;atilde;o era o pr&amp;oacute;prio? E por pouco n&amp;atilde;o o encoimavam, n&amp;atilde;o fora as explica&amp;ccedil;&amp;otilde;es prestadas e o apoio de todos os fregueses, que o gravatinha na altura pisgou-se. Mas l&amp;aacute; parlapat&amp;atilde;o era ele. E n&amp;atilde;o &amp;eacute; que da&amp;iacute; em diante alguns farsantes entravam no Caf&amp;eacute; e lhe pediam vinho da tal marca, no meio de grande chacota? Vitorino n&amp;atilde;o era homem para motetes e um belo dia em que acordou mais assomadi&amp;ccedil;o, resolveu n&amp;atilde;o abrir o Caf&amp;eacute;. Por tr&amp;ecirc;s longos dias aquelas portas se mantiveram encerradas. O Vitorino est&amp;aacute; doente! O Vitorino ausentou-se! Que nada, estava amuado. E os fregueses, que andavam como p&amp;aacute;ssaros a quem houvessem destru&amp;iacute;do o ninho, fizeram romagens a sua casa: que n&amp;atilde;o ligasse, aquilo eram coisas de mo&amp;ccedil;os, que ele perdia o seu neg&amp;oacute;cio e eles o conv&amp;iacute;vio... E ao quarto dia Vitorino reabriu o Caf&amp;eacute;, que sempre era prefer&amp;iacute;vel aturar os fregueses do que a mulher, que nesse interm&amp;eacute;dio o havia infernizado. E quando, nessa manh&amp;atilde;, as portas se abriram, foram tantas e tais as manifesta&amp;ccedil;&amp;otilde;es de agrado da clientela desarvorada que Vitorino se comoveu.&lt;br /&gt;Era tempo de regressar a casa. Sempre era meia l&amp;eacute;gua que ele, An&amp;iacute;bal do Monte Lobo, ainda era capaz de fazer em meia-hora. Mas cada vez lhe ia custando mais. De repente estugou o passo, ao lembrar-se que a mulher h&amp;aacute; horas que estava para l&amp;aacute; sozinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;III&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mulher olhava-o com um ar repreensivo.&lt;br /&gt;An&amp;iacute;bal estava sentado com a velha escopeta sobre os joelhos. Tinha-a acabado de carregar. Comprara naquela manh&amp;atilde; cartuchos, coisa que j&amp;aacute; h&amp;aacute; muito tempo n&amp;atilde;o havia naquela casa, desde que as pernas se recusaram a marchar por veredas e c&amp;oacute;rregos em busca de ca&amp;ccedil;apos e perdizes.&lt;br /&gt;Aquilo n&amp;atilde;o era viver, dizia-lhe. Estavam para ali como animais acossados. Se viessem para roub&amp;aacute;-los pois que viessem, que o roubo havia de ser coisa de pouca monta. Mas sangue derramado em sua casa, gente ferida ou morta em sua casa, s&amp;oacute; eles. Como iam viver depois com isso? Que maluqueira se lhe havia metido na cabe&amp;ccedil;a? Que haviam de ir para um lar. O compadre Dam&amp;aacute;sio, que estava na Junta de Freguesia, era homem com muitos conhecimentos e haveria de meter um empenho. E que ou ele ia falar com o compadre ou ia ela.&lt;br /&gt;An&amp;iacute;bal, sentado na rua do monte, olhava os longes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;IV&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dia chegou.&lt;br /&gt;O t&amp;aacute;xi esperava-os. J&amp;aacute; tinham carregado os poucos tarambecos que haviam de levar consigo. A maior parte, que pouco pr&amp;eacute;stimo tinham, haviam-nos distribu&amp;iacute;do pelos vizinhos.&lt;br /&gt;O motorista esperava-os, impaciente. An&amp;iacute;bal demorava-se, olhando uma &amp;uacute;ltima vez os campos em redor, como se os afagasse com os olhos.&lt;br /&gt;Entraram por fim no carro e sentaram-se, sem trocar palavra. Ele, num gesto t&amp;atilde;o pouco comum, pousou a sua m&amp;atilde;o sobre a dela. Se algum deles chorou nunca o souberam. N&amp;atilde;o se olharam nem tampouco olharam para tr&amp;aacute;s.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-111480505655642608?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/111480505655642608'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/111480505655642608'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2005/04/um-lar-por-emprstimo.html' title='&lt;b&gt;UM LAR POR EMPR&amp;Eacute;STIMO&lt;/b&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-111367194277650082</id><published>2005-04-16T18:19:00.000+01:00</published><updated>2005-05-02T10:09:56.663+01:00</updated><title type='text'>Bilhete Postal</title><content type='html'>Falemos claramente, se não conseguimos eliminar os dejectos caninos das nossas ruas e praças então reconheçamo-nos definitivamente vencidos e tentemos virar a coisa a nosso favor.&lt;br /&gt;Já estou a ouvir os mais empedernidos defensores da coisa pública vociferarem que agora se abandona esta luta que é de todos, esta cruzada em prol da higienização dos espaços públicos, esta denodada luta em defesa da saúde pública, este objectivo que é o de subir mais um patamar de civilidade ao tratarmos bem os animais domésticos e não andarmos a pisar merda nos espaços públicos que presuntivamente são de todos. Mais devagar, mais devagar, se esta luta é de todos quantos estão empenhados em travá-la? As autoridades municipais para quem parece ser indiferente haver mais ou menos merda nas ruas? As madames que olham embevecidas os lulus enquanto estes levantam graciosamente a perninha e deixam a sua rosquinha malcheirosa no empedrado? Afinal, pergunto eu, quantos destes todos estão deveras interessados nesta luta? Sim, quantos? Luta em defesa da saúde pública? Bem, as maleitas provocadas pelas fezes caninas são perfeitamente curáveis e se o não forem sempre vos digo que de alguma coisa a gente há-de morrer. Um patamar mais na longa marcha a caminho da civilidade? Há prioridades, senhores, há prioridades. Por acaso já se constuíram todas as acessibilidades aos novos estádios? Parece que não. Construir uma obra pública para divertimento das massas e deixá-las sem acessos não revela uma grande falta de civilidade? Ora aí têm!&lt;br /&gt;Então como podemos virar a coisa a nosso favor? Com imaginação, meus senhores, com maginação. Vou dar-vos algumas sugestões:&lt;br /&gt;-organizar ralis pedestres, como por exemplo "Tente chegar ao fim da Avenida sem cagar os pés". O que as pessoas não se iam divertir;&lt;br /&gt;-formar técnicos numa nova forma de adivinhação a que se poderia chamar cacomancia. Eu explico: os turistas interessados recorriam aos serviços do cacomante, este fazia o turista rodar sobre si próprio umas quantas vezes e depois de este estar suficientemente entontecido mandava-o caminhar. É claro que poucos passos volvidos o interessado toparia com dejectos caninos. Aí entrava a sapiência do cacomante: pela altura do dejecto, sua consistência, cor, aroma e outras características que só o cacomante conhece, todos sabem que estas práticas têm os seus segredos, ele exercitaria então a nobre arte da adivinhação;&lt;br /&gt;-outra sugestão ainda: poder-se-ia instituir um prémio nacional para a povoação com maior densidade de dejectos caninos por metro quadrado. Chmar-se-ia à competição "A povoação mais merdaleja de Portugal" e o honroso galardão seria ostentado por um ano.&lt;br /&gt;É claro que estas são apenas algumas sugestões, muitas mais os leitores poderão engendrar se se derem ao trabalho. Eu fico-me por estas.&lt;br /&gt;Passem todos muito bem e até à próxima.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-111367194277650082?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/111367194277650082'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/111367194277650082'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2005/04/bilhete-postal.html' title='&lt;b&gt;Bilhete Postal&lt;/b&gt;&lt;div align=&quot;center&quot;&gt;&lt;/div&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-111316852847186452</id><published>2005-04-10T22:28:00.000+01:00</published><updated>2005-04-10T22:28:48.470+01:00</updated><title type='text'>CONVERSAS NO OCASO</title><content type='html'>-Compadre, Nunca mais voltou ao seu monte?&lt;br /&gt;-Nunca mais. Da &amp;uacute;ltima vez que l&amp;aacute; fui, j&amp;aacute; l&amp;aacute; v&amp;atilde;o uns bons dois anos, fiquei t&amp;atilde;o descoro&amp;ccedil;oado que jurei nunca mais l&amp;aacute; voltar. At&amp;eacute; me deu vontade de chorar. &amp;Eacute; verdade, n&amp;atilde;o tenho vergonha de dizer, compadre. Aquilo j&amp;aacute; n&amp;atilde;o era a mesma coisa. Estava tudo a mato. Na horta havia um erva&amp;ccedil;al mais alto do que eu. A parede da nora estava quase toda ca&amp;iacute;da, do monte j&amp;aacute; s&amp;oacute; havia pedras e o ch&amp;atilde;o da casa. Nem queira saber o desgosto que me deu quando vi aquilo naquele abandono. O s&amp;iacute;tio onde passei quase toda a minha vida j&amp;aacute; n&amp;atilde;o existia. Olhos que n&amp;atilde;o v&amp;ecirc;em cora&amp;ccedil;&amp;atilde;o que n&amp;atilde;o sente. E eu, em n&amp;atilde;o vendo, n&amp;atilde;o me lembro. &amp;Eacute; melhor assim. Nunca mais l&amp;aacute; hei-de voltar. Nunca mais!...&lt;br /&gt;-Pois &amp;eacute;, compadre! Estamos a chegar ao fim, a nossa licen&amp;ccedil;a est&amp;aacute;-se a acabar e tudo aquilo que fomos, tudo aquilo que tivemos, j&amp;aacute; n&amp;atilde;o existe. &amp;Eacute; a vida, tal como os alcatruzes da nora, uns v&amp;atilde;o e outros v&amp;ecirc;m, uns sobem e outros descem. E a gente j&amp;aacute; come&amp;ccedil;ou a descer h&amp;aacute; muito tempo, estamos quase no fundo.&lt;br /&gt;-Descendo ou subindo, compadre, tanto d&amp;aacute;. Mas sabe vossemec&amp;ecirc; o que &amp;eacute; que ainda l&amp;aacute; estava tal como eu havia deixado? As nogueiras que o meu pai tinha semeado l&amp;aacute; p'r&amp;oacute; p&amp;eacute; do barranco. &amp;Eacute; verdade, ainda l&amp;aacute; estavam e ainda l&amp;aacute; h&amp;atilde;o-de estar depois da gente partir, se ningu&amp;eacute;m as arrancar. Se aquelas nogueiras falassem muito tinham p'ra contar. Semearam aquilo tudo de eucaliptos mas n&amp;atilde;o tocaram nas nogueiras. N&amp;atilde;o lhes tocaram, &amp;eacute; verdade. Se elas falassem... Lembra-se o compadre da Maria Zefa, da Z&amp;eacute;finha? Est&amp;aacute; claro que se lembra. Pois era eu ainda solteiro o raio da mulher come&amp;ccedil;ou a aparecer l&amp;aacute; pelo monte quase todos os dias. Andava l&amp;aacute; no seu neg&amp;oacute;cio de compra de ovos e galinhas para ir vender &amp;agrave; vila e come&amp;ccedil;ou-me c&amp;aacute; a parecer que eram vezes demais aquelas de aparecer l&amp;aacute; pelo monte. E v&amp;aacute; de falinhas mansas para mim, que eu estava j&amp;aacute; um belo mo&amp;ccedil;o, se j&amp;aacute; tinha namorada e que mais isto e mais aquilo... N&amp;atilde;o sei se o compadre a conheceu por esse tempo. Era mulher dos seus trinta anos, de perna rija de subir e descer por esses c&amp;oacute;rregos, com um belo peito e cores sadias. N&amp;atilde;o se lhe conhecia homem certo mas tamb&amp;eacute;m n&amp;atilde;o eram muitos os que se gabavam de lhe ter posto a m&amp;atilde;o em cima.&lt;br /&gt;-&amp;Eacute; verdade, compadre, &amp;eacute; verdade. Olhe, um dia a vi eu, aqui no mercado da vila, assentar um chapad&amp;atilde;o num mais atrevido que a quis apalpar que o homem at&amp;eacute; parecia que tinha ficado com almareios e, a modos que envergonhado, meteu o rabo entre as pernas e marchou-se dali sem dizer palavra!&lt;br /&gt;-Pois era assim a Z&amp;eacute;finha, sim senhor... Mas como eu lhe ia dizendo, ela come&amp;ccedil;ou de aparecer l&amp;aacute; pelo monte mais vezes do que aquelas que seriam precisas l&amp;aacute; para o seu neg&amp;oacute;cio de compra e venda de ovos e galinhas. E v&amp;aacute; de me fazer gaifonas. Eu, que ainda era franganote, nem &amp;agrave;s sortes tinha ido, comecei a magicar naquilo, comecei a magicar e resolvi que quando melhor calhasse haveria de tentar a minha sorte para ver se a Z&amp;eacute;finha queria aquilo que eu tamb&amp;eacute;m queria.&lt;br /&gt;E o dia chegou. Foi a meio da manh&amp;atilde;. A minha m&amp;atilde;e, que Deus haja, e as minhas irm&amp;atilde;s tinham ido lavar roupa &amp;agrave; ribeira. O meu falecido pai andava a apanhar corti&amp;ccedil;a com dois homens que trazia &amp;agrave; jorna. Eu tinha ficado sozinho no monte a rachar lenha. E nisto apareceu-me a Z&amp;eacute;finha. Uma grande cesta &amp;agrave; cabe&amp;ccedil;a e outra na m&amp;atilde;o, toda corada que a manh&amp;atilde; estava quente e ela j&amp;aacute; tinha feito muitos caminhos. Veja l&amp;aacute;, compadre, que tudo me lembra como se tivesse sido ontem.&lt;br /&gt;-Pois comigo acontece a mesma coisa. Coisas que aconteceram h&amp;aacute; j&amp;aacute; tantos anos ainda hoje me lembram como se fosse ontem e as coisas que aconteceram h&amp;aacute; muito menos tempo, por mais voltas que d&amp;ecirc; &amp;agrave; cachim&amp;oacute;nia, n&amp;atilde;o consigo lembr&amp;aacute;-las. O tempo tudo nos tira, at&amp;eacute; a mem&amp;oacute;ria.&lt;br /&gt;-Pois &amp;eacute; assim tal e qual. Pois a Z&amp;eacute;finha chegou &amp;agrave; rua do monte, p&amp;ocirc;s as cestas no ch&amp;atilde;o e como n&amp;atilde;o visse ningu&amp;eacute;m chamou. Eu, que me encontrava debaixo das nogueiras, l&amp;aacute; p'r&amp;oacute; p&amp;eacute; do barranco, a rachar lenha, sempre era mais fresco e o calor j&amp;aacute; era muito, tinha parado de trabalhar a v&amp;ecirc;-la e chamei-a. Ela, assim que me viu, veio caminho abaixo. Agora, agora &amp;eacute; que tem de ser, pensei. E ela a descer o caminho para ir ter comigo e eu a marchar na direc&amp;ccedil;&amp;atilde;o dela. Perguntou-me se estava sozinho. Disse-lhe que sim. Disse que estava muito calor e tirou o len&amp;ccedil;o da cabe&amp;ccedil;a. Trazia o cabelo solto debaixo do len&amp;ccedil;o, um cabelo bonito, farto. E ria-se para mim. Lembra-me como se fosse ontem. E eu, tem-te n&amp;atilde;o caias, agarrei-a por um bra&amp;ccedil;o. Ela, em vez de se mostrar esquiva, encostou-se a mim. Fiquei desvairado. Puxei-a para baixo das nogueiras, para tr&amp;aacute;s do monte de lenha. Deitou-se no ch&amp;atilde;o, mansa como uma rola. E foi aquela a minha primeira vez, compadre...&lt;br /&gt;-E nunca mais se voltaram a encontrar?&lt;br /&gt;-Volt&amp;aacute;mos, volt&amp;aacute;mos! S&amp;oacute; que minha m&amp;atilde;e come&amp;ccedil;ou a desconfiar da fartura. E eu apercebi-me disso pois quando a Z&amp;eacute;finha ia ao monte fazer a sua negociata j&amp;aacute; a minha m&amp;atilde;e n&amp;atilde;o nos tirava os olhos de cima. As mulheres percebem essas coisas melhor do que os homens. De maneira que tivemos de lhe trocar as voltas. N&amp;atilde;o ia a Z&amp;eacute;finha ter comigo ia eu ter com ela. Pass&amp;aacute;mo-nos a encontrar &amp;agrave;s escondidas, a&amp;iacute; por esses c&amp;oacute;rregos. Belos tempos. A coisa ter&amp;aacute; durado a&amp;iacute; uns seis meses. Depois, de repente, a Z&amp;eacute;finha desapareceu. E sem dizer palavra!&lt;br /&gt;-Houve quem a visse mais tarde l&amp;aacute; para as bandas do Barreiro. Que se tinha juntado com um marchante...&lt;br /&gt;-Pois foi, compadre. E parece que o marchante era o mesmo que aparecia por a&amp;iacute; e lhe comprava os ovos e as galinhas. Eu &amp;eacute; que nunca mais a vi! Depois arranjei namoro com aquela que haveria de ser a minha mulher, j&amp;aacute; l&amp;aacute; est&amp;aacute;, coitada, fui &amp;agrave;s sortes, fiz a tropa, casei-me, vieram os gaiatos, mais trabalhos e mais canseiras e assim se foi uma vida!&lt;br /&gt;-O compadre onde &amp;eacute; que fez a tropa?&lt;br /&gt;-Em Beja, no 17. E o compadre, parece que foi em Elvas?&lt;br /&gt;-Pois foi em Elvas, sim senhor! Oh Elvas, oh Elvas, Badajoz &amp;agrave; vista... Algumas vezes l&amp;aacute; fui, a Badajoz, poucas que o dinheiro n&amp;atilde;o era muito e as espanholas eram caras, Ah compadre, que se pudesse voltar atr&amp;aacute;s!&lt;br /&gt;-As coisas est&amp;atilde;o assim feitas. Hoje uns, amanh&amp;atilde; outros. E n&amp;atilde;o vale a pena querermos o contr&amp;aacute;rio, porque a vida &amp;eacute; assim mesmo!&lt;br /&gt;-Pois vossemec&amp;ecirc; em Elvas e eu em Beja l&amp;aacute; fizemos a nossa tropa. O passadio n&amp;atilde;o era bom mas quando se &amp;eacute; mo&amp;ccedil;o tudo se aguenta. Os percevejos eram mais que muitos, compadre.&lt;br /&gt;-A quem voc&amp;ecirc; o diz!&lt;br /&gt;-E muito tempo se passava sem virmos a casa. O dinheiro era pouco. O meu pai, coitado, l&amp;aacute; me ia mandando aquele pouco que podia. Ainda me lembro quando fui a apanhar o comboio para Beja. Eu e o meu pai, cada um &amp;agrave; vez em cima de um burro que possu&amp;iacute;amos, que o caminho era comprido, l&amp;aacute; fomos at&amp;eacute; &amp;agrave; esta&amp;ccedil;&amp;atilde;o. Eu com a guia de marcha, uma merenda que a minha m&amp;atilde;e me tinha preparado, p&amp;atilde;o, uma marmita com carne e azeitonas, como tudo me lembra, e um saco de chita que a Jos&amp;eacute;lia, a minha mulher, na altura ainda namorada, me tinha feito. O compadre lembra-se que era costume as namoradas oferecerem esses sacos quando os mo&amp;ccedil;os partiam para a tropa?&lt;br /&gt;-Se me lembro, se me lembro! Tamb&amp;eacute;m, eu levei o meu saco, tamb&amp;eacute;m eu!&lt;br /&gt;-No monte tinham ficado as minhas irm&amp;atilde;s e a minha m&amp;atilde;e com a lagriminha ao canto do olho a ver-me partir. E o meu pai a dizer que n&amp;atilde;o era o fim do mundo, que era o destino dos mo&amp;ccedil;os e que a tropa s&amp;oacute; lhes fazia bem, ensinava-os a serem homens e que mais isto e mais aquilo. Tudo para nos animar, j&amp;aacute; se v&amp;ecirc;. E l&amp;aacute; fomos. De caminho sabe o que fiz, compadre? Apanhei um ramo de medronheiro para levar cimigo para o quartel, coisas de mo&amp;ccedil;os, pensava eu que assim haveria de ter menos saudades c&amp;aacute; dos s&amp;iacute;tios. Popis sabe o que lhe digo? O ramo de medronheiro nem chegou a Beja. Quando cheg&amp;aacute;mos &amp;agrave; Funcheira junt&amp;aacute;mo-nos com uns dos lados de Set&amp;uacute;bal que iam tamb&amp;eacute;m p'r&amp;aacute; tropa, para o mesmo quartel, e que nunca tinham visto medronhos, perguntaram o que era aquilo, se se podia comer, e toma l&amp;aacute; daqui, toma l&amp;aacute; dali, comeram-me os medronhos todos. Tinham l&amp;aacute; uns ares de rufias, de fadistas, que logo me fizeram desconfiar. Mas depois de os ficar a conhecer melhor, com o tempo, eram todos bons mo&amp;ccedil;os, boa rapaziada! Um deles foi at&amp;eacute; o meu melhor amigo na tropa. Belo mo&amp;ccedil;o! Nunca mais soube dele!&lt;br /&gt;-Pois era assim mesmo, faziam-se grandes amizades na tropa. Em Elvas tive eu um grande amigo que era de l&amp;aacute; mesmo. Fazia contrabando para Espanha. Aquilo era l&amp;aacute; coisa de fam&amp;iacute;lia. J&amp;aacute; o pai e os irm&amp;atilde;os faziam o mesmo e ele parece que desde muito gaiato come&amp;ccedil;ou a acompanh&amp;aacute;-los naquelas andan&amp;ccedil;as. Nos dias em que estava de licen&amp;ccedil;a era certo e sabido que l&amp;aacute; ia para o contrabando. Eu, &amp;agrave;s vezes, perguntava-lhe: "Mas tu n&amp;atilde;o tens medo que te apanhem? Olha que se te apanham metem-te no forte. Dessa n&amp;atilde;o te safas!" "Qual apanham!?" dizia ele. "Ainda n&amp;atilde;o nasceu aquele que me h&amp;aacute;-de apanhar. Conhe&amp;ccedil;o a fronteira como as minhas m&amp;atilde;os. N&amp;atilde;o h&amp;aacute; buraco, n&amp;atilde;o h&amp;aacute; caminho que eu n&amp;atilde;o conhe&amp;ccedil;a." E o certo &amp;eacute; que n&amp;atilde;o o apanhavam. Um dia diz-me ele: "Tens de vir comigo!" "T&amp;aacute;s maluco, eu tenho l&amp;aacute; vida para isso!?" "J&amp;aacute; te disse, vens comigo. Ganhas uns cobres e se gostares vais mais vezes!" "Homem, n&amp;atilde;o vou, nem penses nisso!?" Mas ele tanto me desafiou, tanto me desafiou, que eu fui. Com alguma sorte podia ganhar-se uma boa maquia e eu fui.&lt;br /&gt;-Pois ent&amp;atilde;o o compadre foi com os contrabandistas?&lt;br /&gt;-Pois fui. A primeira e &amp;uacute;nica vez. Aquilo n&amp;atilde;o &amp;eacute; p'ra qualquer um, compadre. Tem de se ser muito afoito. Mas quer ver o compadre como &amp;eacute; que aquilo foi? Aquilo era uma jolda de cinco homens, seis comigo. Cada um levava uma mochila com uma arroba de caf&amp;eacute;. Quando se cerrou a noite l&amp;aacute; march&amp;aacute;mos. Depois de andarmos um grande peda&amp;ccedil;o, diz-me ele: "Agora a partir daqui n&amp;atilde;o falas, n&amp;atilde;o dizes nada. Nem conversas, nem cigarros. Est&amp;aacute; entendido? E vais sempre atr&amp;aacute;s de mim. O que eu fizer fazes tu!" Acenei que sim com a cabe&amp;ccedil;a e l&amp;aacute; fomos. Eu ia mais pequenino que um rato, todas as sombras me metiam medo. O pior foi quando atravess&amp;aacute;mos o Guadiana. Eu, que n&amp;atilde;o sei nadar, ia com medo de cair nalgum cachafund&amp;atilde;o e pr'ali morrer afogado. Mas l&amp;aacute; pass&amp;aacute;mos sem novidade, com a &amp;aacute;gua pela cintura. Eles l&amp;aacute; conheciam os melhores s&amp;iacute;tios. . Eu ia de tal modo assustado que nem sequer me sentia molhado. L&amp;aacute; quando cheg&amp;aacute;mos a um tal s&amp;iacute;tio, que era assim um barranco escondido, fizeram alto e esper&amp;aacute;mos um bom peda&amp;ccedil;o. Ouviu-se um assobio e um dos nossos logo respondeu com outro assobio. E logo apareceram os espanh&amp;oacute;is. Eram cinco, cada um com a sua mochila. Falaram uns com os outros numa linguagem que eu n&amp;atilde;o entendi nada, aquilo era tudo gente que se entendia em espanhol, e l&amp;aacute; volt&amp;aacute;mos para tr&amp;aacute;s. Traz&amp;iacute;amos pe&amp;ccedil;as de bombazina, que era o contrabando que se trazia para c&amp;aacute;. Como eram cinco mochilas e a gente &amp;eacute;ramos seis l&amp;aacute; se decidiu que eu n&amp;atilde;o trazia nada &amp;agrave; volta, porque era a primeira vez que fazia aquilo. E l&amp;aacute; vim mais leve. Mais leve da carga que o medo agora at&amp;eacute; parecia que me pesava mais. Mas l&amp;aacute; volt&amp;aacute;mos em bem. E ainda ganhei uns bons tost&amp;otilde;es com aquele trabalho. Mas nunca mais voltei, ele bem que me desafiou mais vezes mas eu nunca mais fui. Tinha-me safado daquela n&amp;atilde;o me ia meter noutra. N&amp;atilde;o, que eu n&amp;atilde;o tinha nascido para aquilo. Ele &amp;eacute; que sim, l&amp;aacute; continou a ir e nunca o apanharam. Tinha feito daquilo modo de vida.&lt;br /&gt;-Sempre &amp;eacute; preciso muita afoiteza, compadre. Eu tamb&amp;eacute;m n&amp;atilde;o era homem para levar uma vida dessas!&lt;br /&gt;-Pois eu h&amp;aacute; peda&amp;ccedil;o n&amp;atilde;o acabei a minha conversa, quando fui com o meu pai montados no mesmo burro a apanhar o comboio &amp;agrave; esta&amp;ccedil;&amp;atilde;o para Beja. Pois quer ver o compadre, o comboio chega e vai da&amp;iacute; o meu pai mete-me uma nota de cem escudos na m&amp;atilde;o. Digo-lhe eu, "Meu pai, eu n&amp;atilde;o preciso do dinheiro, l&amp;aacute; para onde vou d&amp;atilde;o-me roupa, cama e mesa e ao pai o dinheiro fica-lhe a fazer falta". "Leva l&amp;aacute; o dinheiro, filho, que te h&amp;aacute;-de fazer mais falta a ti do que a mim!" Vai da&amp;iacute; d&amp;aacute;-me um grande abra&amp;ccedil;o, encomendou-me e l&amp;aacute; marchei para o comboio. Foi a &amp;uacute;nica vez que o meu pai me abra&amp;ccedil;ou, era muito amigo dos filhos mas n&amp;atilde;o era l&amp;aacute; homem para essas coisas.&lt;br /&gt;-O meu pai tamb&amp;eacute;m era assim. E depois que nos morreu a Maria, a nossa irm&amp;atilde; mais nova, morreu com cinco anos de um garrotilho, teve um desgosto t&amp;atilde;o grande que depois disso quase n&amp;atilde;o me lembro de o ver rir. Sempre triste, sempre triste...&lt;br /&gt;-Quando olhamos para tr&amp;aacute;s j&amp;aacute; s&amp;atilde;o mais os mortos que contamos do que os vivos! Dos seus dois irm&amp;atilde;os j&amp;aacute; s&amp;oacute; &amp;eacute; vivo o Chico?&lt;br /&gt;-Pois &amp;eacute; assim, compadre. Est&amp;aacute; l&amp;aacute; p'r&amp;oacute; Algarve. J&amp;aacute; n&amp;atilde;o o vejo h&amp;aacute; uns bons cinco anos. A &amp;uacute;ltima vez que o vi foi quando foi a enterrar a minha mulher. A gente j&amp;aacute; s&amp;oacute; se v&amp;ecirc; em alturas de desgra&amp;ccedil;a. O compadre ainda tem os filhos. Agora eu nem isso. Casei-me mas Deus n&amp;atilde;o me deu a dita de ter filhos.&lt;br /&gt;-Tenho filhos, tenho, mas de pouco me serve. Cada um abalou l&amp;aacute; &amp;agrave; sua vida e eu estou t&amp;atilde;o sozinho como o compadre.&lt;br /&gt;-N&amp;atilde;o diga isso que eles sempre o v&amp;ecirc;m visitar quando podem!&lt;br /&gt;-L&amp;aacute; isso &amp;eacute; verdade, mas o maior desgosto que eu tenho &amp;eacute; que nenhum deles quis seguir a vida da agricultura e isso &amp;eacute; que me obrigou a vender as poucas terras que possu&amp;iacute;a. Mas tamb&amp;eacute;m n&amp;atilde;o tenho l&amp;aacute; muitas raz&amp;otilde;es para me queixar, eu sempre lhes disse para seguirem outro modo de vida que isto da agricultura o que d&amp;aacute; mais &amp;eacute; padecimentos. Mas sempre esperei que o mo&amp;ccedil;o seguisse este modo de vida. Mas o que est&amp;aacute; feito, est&amp;aacute; feito, depois de cavalo morto cevada ao rabo!&lt;br /&gt;-O compadre n&amp;atilde;o devia ter vendido a terra.&lt;br /&gt;-Mas o que havia eu de fazer, compadre? As mo&amp;ccedil;as abalaram-me cada uma para o seu lado, casaram e ala. A mais nova foi para Fran&amp;ccedil;a com o marido, por l&amp;aacute; ficaram alguns anos e l&amp;aacute; conseguiram arranjar a vidinha. Verdade seja dita, nenhum deles precisa de mim. A oitra est&amp;aacute; l&amp;aacute; p'r&amp;oacute; Algarve. O mo&amp;ccedil;o empregou-se, e bem empregado, e eu vi-me sozinho com a patroa. Enquanto tive for&amp;ccedil;as para me mexer fui trabalhando. Mas os anos passam e n&amp;atilde;o perdoam. E veio o tempo em que j&amp;aacute; n&amp;atilde;o era capaz, compadre. Com grande desgosto meu vendi o que tinha e vim mais a mulher aqui para a vila, para uma casita que compr&amp;aacute;mos, n&amp;atilde;o iam ficar estes dois trastes sozinhos, l&amp;aacute; pelo monte. Depois a patroa come&amp;ccedil;ou de me andar doente, cada vez mais doente, sei l&amp;aacute; onde &amp;eacute; que eu fui, de m&amp;eacute;dico para m&amp;eacute;dico, fartei-me de gastar dinheiro, que isto quando toca &amp;agrave; sa&amp;uacute;de um homem n&amp;atilde;o olha a gastos, mas de nada serviu. Morreu mirradinha, coitada. E eu ainda mais sozinho me vi, compadre. Ainda passei uns tempos em casa de cada uma das filhas mas elas t&amp;ecirc;m l&amp;aacute; a sua vida e eu n&amp;atilde;o gosto de ser empecilho para ningu&amp;egrave;m. Que elas nunca me trataram mal, mas eu gosto c&amp;aacute; muito da minha independ&amp;ecirc;ncia e vai da&amp;iacute; resolvi-me a vir c&amp;aacute; p'r&amp;oacute; asilo. Do mal o menos.&lt;br /&gt;-Tal qual eu, compadre. Para onde &amp;eacute; que eu havia de ir se nem filhos tenho?&lt;br /&gt;-Sabe, compadre,. o meu pai e a minha m&amp;atilde;e viveram sempre comigo at&amp;eacute; morrerem, j&amp;aacute; de velhinhos. Mas os tempos eram outros, as fam&amp;iacute;lias eram mais unidas. Agora tudo &amp;eacute; diferente. H&amp;aacute; mais abastan&amp;ccedil;a, &amp;eacute; verdade, mas ganharam-se umas coisas e perderam-se outras. Veja l&amp;aacute; vocemess&amp;ecirc;, os mo&amp;ccedil;os hoje t&amp;ecirc;m transportes que os trazem at&amp;eacute; &amp;agrave; escola e os levam at&amp;eacute; casa. No tempo em que eu pus o mo&amp;ccedil;o nos estudos ainda nada disto havia. Que a gente j&amp;aacute; n&amp;atilde;o fala do nosso tempo que ent&amp;atilde;o nem escolas havia.&lt;br /&gt;-Pois n&amp;atilde;o, compadre. Eu aprendi a ler quando fiz a tropa.&lt;br /&gt;-Tamb&amp;eacute;m eu! Mas deixe-me contar-lhe uma coisa. O meu mo&amp;ccedil;o era bom nas letras e quando fez a quarta classe a professora veio falar comigo e disse-me que era uma pena que o gaiato ficasse por ali. Eu comecei c&amp;aacute; a pensar que para bruto bastava o pai e resolvi-me a met&amp;ecirc;-lo nos estudos aqui no col&amp;eacute;gio da vila. O gaiato tinha que c&amp;aacute; ficar em casa de algu&amp;eacute;m conhecido, que o monte era longe e ele n&amp;atilde;o podia ir e vir todos os dias p'r&amp;aacute; vila, a coisa n&amp;atilde;o me ia ficar barata mas o gaiato merecia o sacrif&amp;iacute;cio e tudo se havia de arranjar. Vim &amp;agrave; vila saber das coisas, da pens&amp;atilde;o, da matr&amp;iacute;cula, dos livros e vi que precisava de dois contos de r&amp;eacute;is para as despesas. Mas eu n&amp;atilde;o os tinha, compadre, nem tinha a quem os pedir. Mas j&amp;aacute; tinha resolvido que o gaiato ia estudar e tinha mesmo de ir, desse l&amp;aacute; por onde desse. Eu quando metia uma coisa na cabe&amp;ccedil;a s&amp;oacute; se n&amp;atilde;o pudesse de maneira nenhuma. Tinha um pedacito de terra, coisa pouca, com umas trinta oliveiras e alguma terra de semeadura que me ficava j&amp;aacute; um pouco despontada e resolvi-me a vend&amp;ecirc;-la. Vim &amp;agrave; vila para arranjar comprador e fui ter com o Manuel Ant&amp;oacute;nio que eu sabia que anadva a comprar terras e era pessoa minha conhecida. "Porque assim e porque assado, agora n&amp;atilde;o estou interessado em comprar terras, depois essa que o amigo me quer vender fica-me t&amp;atilde;o despontada, mas se fazemos neg&amp;oacute;cio &amp;eacute; s&amp;oacute; porque o amigo &amp;eacute; quem &amp;eacute; e est&amp;aacute; numa afli&amp;ccedil;&amp;atilde;o e mais isto e mais aquilo", bom, resumindo e concluindo, o homem oferecia-me pela terra dois contos de r&amp;eacute;is. Ora eu contava vend&amp;ecirc;-la a&amp;iacute; por uns seis. "Oh Manuel Ant&amp;oacute;nio, a terra vale bem uns seis contos de r&amp;eacute;is". "N&amp;atilde;o diga isso, homem, que a terra fica longe de bom caminho, e isto agora &amp;eacute; m&amp;aacute; altura porque ningu&amp;eacute;m est&amp;aacute; a comprar, &amp;eacute; como lhe digo, se lhe pus um pre&amp;ccedil;o &amp;eacute; porque sou seu amigo e o vejo numa afli&amp;ccedil;&amp;atilde;o!"&lt;br /&gt;-E era o homem seu amigo, compadre!&lt;br /&gt;-Pois est&amp;aacute; o compadre a ver o amigo que eu ali tinha. De maneira que lhe disse que ia ver se me davam mais alguma coisa noutro s&amp;iacute;tio. "O amigo faz aquilo que entender mas desde j&amp;aacute; o aviso que ningu&amp;eacute;m lhe d&amp;aacute; mais do que aquilo que eu lhe ofereci."&lt;br /&gt;-Aquilo estavam l&amp;aacute; todos combinados, compadre!&lt;br /&gt;-Nem mais. Desanimado, entro na venda do Chico Alberto para beber um copo. Quem havia de l&amp;aacute; estar, o lavrador da Cha&amp;iacute;&amp;ccedil;a, pessoa com quem eu tinha conviv&amp;ecirc;ncia por j&amp;aacute; termos feito alguns neg&amp;oacute;cios.&lt;br /&gt;-Tamb&amp;eacute;m o conheci, compadre. Pessoa s&amp;eacute;ria!&lt;br /&gt;-Pode diz&amp;ecirc;-lo. Mas escute, o homem viu-me com uma cara t&amp;atilde;o desanimada e meteu-se comigo. E eu l&amp;aacute; desabafei. Pois sabe o que o homem me respondeu? "Sou eu que lhe vou emprestar os dois contos de r&amp;eacute;is. Paga-me depois quando puder!" E logo ali mos passou p'r&amp;aacute; m&amp;atilde;o. E foi assim que l&amp;aacute; mandei o gaiato p'r&amp;oacute;s estudos.&lt;br /&gt;-O lavrador da Cha&amp;iacute;&amp;ccedil;a era homem muito s&amp;eacute;rio. Havia poucos como ele!&lt;br /&gt;-E hoje ainda h&amp;aacute; menos, compadre. De modo que l&amp;aacute; paguei depois o dinheiro ao homem como pude. Nem um tost&amp;atilde;o de juros me cobrou.&lt;br /&gt;-Outros tempos, outros tempos. Nem tudo era bom, &amp;eacute; verdade, havia muita mis&amp;eacute;ria por essas serras afora, mas os homens eram mais s&amp;eacute;rios!&lt;br /&gt;-Bem, compadre, j&amp;aacute; se est&amp;aacute; a p&amp;ocirc;r fresco e j&amp;aacute; me come&amp;ccedil;a a doer a porra do joelho. E quando estou assim muito tempo sentado ainda &amp;eacute; pior. Mau, mau &amp;eacute; quando me deito. Parece que a dor est&amp;aacute; l&amp;aacute; debaixo do travesseiro &amp;agrave; minha espera. Ainda ontem passei uma noite terr&amp;iacute;vel!&lt;br /&gt;-As malazengas j&amp;aacute; n&amp;atilde;o nos largam, compadre. &amp;Eacute; o caruncho!&lt;br /&gt;-Bom, vamos l&amp;aacute;! Mas antes ainda vamos ali beber um copito que amanh&amp;atilde; &amp;eacute; outro dia!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-111316852847186452?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/111316852847186452'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/111316852847186452'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2005/04/conversas-no-ocaso.html' title='&lt;b&gt;&lt;div align=&quot;center&quot;&gt;CONVERSAS NO OCASO&lt;/div&gt;&lt;/b&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-111297748012922608</id><published>2005-04-08T17:24:00.000+01:00</published><updated>2005-04-08T17:24:40.130+01:00</updated><title type='text'>CRISTAIS PARTIDOS</title><content type='html'>A bruxa do Monte Novo n&amp;atilde;o tinha um ar andrajoso nem cavalgava uma vassoura; nem sequer tinha aquela inevit&amp;aacute;vel verruga no nariz, como todas as bruxas que se prezam, isto conforme as hist&amp;oacute;rias com as quais, num sentimento confuso de encanto e temor, povo&amp;aacute;mos a nossa imagina&amp;ccedil;&amp;atilde;o no j&amp;aacute; distante reino da inf&amp;acirc;ncia. N&amp;atilde;o senhor, a bruxa do Monte Novo vestia-se bem, dizia-se at&amp;eacute; que s&amp;oacute; comprava as suas roupas nas melhores lojas da capital, era frequentadora ass&amp;iacute;dua do cabeleireiro, deslocava-se num carro daqueles que se dizem de gama alta e, naturalmente, usava telem&amp;oacute;vel. Para al&amp;eacute;m de tudo isto, que j&amp;aacute; n&amp;atilde;o &amp;eacute; pouco, era , nos seus j&amp;aacute; entrados quarenta anos, uma morena ainda vi&amp;ccedil;osa que fazia virar a cabe&amp;ccedil;a a muitos homens quando, num ar emproado de grande dama, deixava o seu retiro do Monte Novo e vinha fazer compras &amp;agrave; cidade, ou fazia um pouco de vida social na pastelaria mais chique, frequentada pela boa sociedade. E ainda que se quedasse sozinha &amp;agrave; mesa da pastelaria, pois que a gente de bem, por decoro e pros&amp;aacute;pia, com ela n&amp;atilde;o se relacionava, publicamente desde j&amp;aacute; se diga, era v&amp;ecirc;-la com um ar de soberano desd&amp;eacute;m, sorvendo o seu ch&amp;aacute; com estudada eleg&amp;acirc;ncia, detentora que era dos muitos segredos que as ditas boas casas escondiam e de que ela era profunda conhecedora. Algumas das damas que, com um ar senhoril, ostensivamente a ignoravam ou apenas e s&amp;oacute; lhe faziam uma muito subtil e quase impercept&amp;iacute;vel sauda&amp;ccedil;&amp;atilde;o, meneando levemente as pintadas cabecitas louras e batendo com suavidade as pestanas eram, foram ou seriam suas clientes.&lt;br /&gt;E tanta era a freguesia que havia mandado construir, no terreiro do Monte, um aparcamento para os in&amp;uacute;meros autom&amp;oacute;veis que lhe demandavam a porta, em procura de rem&amp;eacute;dio para os seus males, quase sempre males de amores. E alguns, com certeza muitos, vinham de paragens distantes, pois a sua fama havia chegado longe.&lt;br /&gt;Nunca p&amp;ocirc;s an&amp;uacute;ncio na imprensa nem nas r&amp;aacute;dios locais. E de resto tinha, ou usaria como m&amp;aacute;scara, nunca ningu&amp;eacute;m o soube, um nome bem comezinho, nada daqueles nomes ex&amp;oacute;ticos de conson&amp;acirc;ncias raras, lembrando long&amp;iacute;nquas, misteriosas e esot&amp;eacute;ricas culturas, j&amp;aacute; extintas, o que at&amp;eacute; tem mais sainete, onde estas capacidades, ao que se diz, teriam tido not&amp;aacute;vel desenvolvimento, hoje presumivelmente s&amp;oacute; acess&amp;iacute;veis a um n&amp;uacute;mero restrito de iniciados. Madame Margarida se chamava ela e, a n&amp;atilde;o ser o uso de Madame, nada nos indicaria estarmos em presen&amp;ccedil;a de algu&amp;eacute;m que se dedicasse ou tivesse artes fora do alcance do comum dos mortais: recu&amp;aacute;ssemos n&amp;oacute;s cinquenta anos e poder-se-ia supor que Madame Margarida seria porventura "patroa" de uma "casa de passe", pois de madames eram chamadas nesse tempo, ila&amp;ccedil;&amp;atilde;o nada abonat&amp;oacute;ria para a pessoa em causa. Mas onde &amp;eacute; que tudo isso j&amp;aacute; vai!&lt;br /&gt;Toda a gente sabe que as capacidades curativas, premonit&amp;oacute;rias, de adivinha&amp;ccedil;&amp;atilde;o e outras, ou como ela dizia de forma sint&amp;eacute;tica, capacidades extra-sensoriais, com o que muito impressionava os clientes, s&amp;oacute; s&amp;atilde;o acess&amp;iacute;veis a alguns eleitos: ou se t&amp;ecirc;m ou n&amp;atilde;o se t&amp;ecirc;m, nascem connosco, n&amp;atilde;o se aprendem, n&amp;atilde;o se d&amp;atilde;o e n&amp;atilde;o se vendem. Isto mesmo dizia ela, segundo me contaram.&lt;br /&gt;Mas uma bruxa que se queira a par com a modernidade, que se queira aceite e, enfim, que se queira cred&amp;iacute;vel, n&amp;atilde;o pode, desde logo, chamar-se de bruxa nem limitar-se a deitar maus olhados ou a lan&amp;ccedil;ar feiti&amp;ccedil;os. Afinal j&amp;aacute; ningu&amp;eacute;m acredita nessas patranhas. E o mesmo se diga dos bruxos da modernidade, que at&amp;eacute; se chamam de doutores. O melhor ser&amp;aacute; dar-se alguns atributos como os de astr&amp;oacute;logo, parapsic&amp;oacute;logo, cartomante, quiromante, tar&amp;oacute;logo ou outros arrevesados nomes que tais. E se se possuir diploma emoldurado na parede tanto melhor. Se somos detentores de capacidades raras devemos decor&amp;aacute;-las com algum saber acad&amp;eacute;mico, de outro modo n&amp;atilde;o seremos mais do que autodidactas e toda a gente sabe que um autodidacta nunca &amp;eacute; levado de todo a s&amp;eacute;rio. E porque era avisada era assim mesmo que procedia Madame Margarida: tinha t&amp;iacute;tulos e at&amp;eacute; tinha diploma comprovativo de que frequentara um curso de parapsicologia, no qual havia sido aprovada com elevada classifica&amp;ccedil;&amp;atilde;o. &amp;Eacute; &amp;oacute;bvio que toda esta parafern&amp;aacute;lia de saberes, atestados ainda por cima com diplomas, transformou a bruxa de antanho numa profissional, numa t&amp;eacute;cnica, enfim. &lt;br /&gt;Mas j&amp;aacute; vai longa a apresenta&amp;ccedil;&amp;atilde;o de Madame Margarida. E tudo isto vem a prop&amp;oacute;sito de vos querer contar um caso singular que com ela ocorreu e que, desde j&amp;aacute; vos aviso, n&amp;atilde;o concorre para abonar a sapi&amp;ecirc;ncia da mesma nem a honestidade de processos utilizados. Longe de mim cometer o despaut&amp;eacute;rio de generalizar relativamente a tantos outros que a tais pr&amp;aacute;ticas se dedicam. Al&amp;eacute;m de que, no caso que vos vou narrar, existe uma atenuante, uma atenuante que me parece merecer-nos alguma compreens&amp;atilde;o, pois que neste caso andou metida a m&amp;atilde;o de Eros, esse mesmo, o deus do amor. E s&amp;oacute; &amp;eacute; de todo insens&amp;iacute;vel e incapaz de compreens&amp;atilde;o aos devaneios do amor aquele que nunca amou. E quem nunca amou apenas nos poder&amp;aacute; ser digno de l&amp;aacute;stima, por ser um ente humano truncado, incompleto, desconhecedor daquele sentimento doce e eterno que &amp;eacute; capaz de nos elevar ao Olimpo celeste ou de nos rebaixar aos infernos profundos, e por isso &amp;eacute; o mais humano de todos os sentimentos: sublime e torpe, grandioso e mesquinho, generoso e cruel.&lt;br /&gt;Mas deixemo-nos de divaga&amp;ccedil;&amp;otilde;es e contemos o que se passou.&lt;br /&gt;A Madame Margarida n&amp;atilde;o se conhecia homem, pelo menos de h&amp;aacute; tr&amp;ecirc;s ou quatro anos a esta parte. Quando aqui se estabeleceu, inicialmente numa pequena casa t&amp;eacute;rrea, na parte antiga da cidade, numa zona de ruelas e becos, antigo bairro de mouros e judeus, trazia parceiro que, como ela, tamb&amp;eacute;m se dedicava &amp;agrave;s artes esot&amp;eacute;ricas. Dava pelo nome de Doutor Kebir, assim mesmo, com kapa e tudo, este sim, um nome de sonoridades ex&amp;oacute;ticas, a lembrar culturas distantes e saberes estranhos. Era um homem com um perfil aquilino, alto e magro, de cavanhaque e longa cabeleira, trajando sempre de negro. Era, como &amp;eacute; bom de ver, uma personagem que cultivava um estilo misterioso e distante, de todo conveniente ao seu mister. Mas um dia as coisas parece que azedaram entre ambos, v&amp;aacute; l&amp;aacute; saber-se porqu&amp;ecirc;, e o Doutor Kebir desapareceu, misteriosamente, da circula&amp;ccedil;&amp;atilde;o. N&amp;atilde;o se sabe de onde tinha vindo nem para onde se teria ausentado este Doutor. Vidas misteriosas, j&amp;aacute; se sabe.&lt;br /&gt;Quando se separaram j&amp;aacute; se haviam mudado h&amp;aacute; algum tempo para o Monte Novo, que compraram e recuperaram. &amp;Eacute; bom de ver que a compra do monte, situado nos arredores da cidade, fora ditada por raz&amp;otilde;es de car&amp;aacute;cter profissional e n&amp;atilde;o por mera ostenta&amp;ccedil;&amp;atilde;o, t&amp;atilde;o comum aos novos-ricos: o monte propiciava visitas discretas, longe dos olhares sempre inc&amp;oacute;modos e indagadores de amigos e conhecidos, pois aquilo que leva um comum mortal a fazer tais dilig&amp;ecirc;ncias &amp;eacute; quase sempre assunto inconfess&amp;aacute;vel, porque do foro mais &amp;iacute;ntimo. E eles, no louv&amp;aacute;vel prop&amp;oacute;sito de salvaguardarem a privacidade dos seus clientes, haviam optado pela compra do monte.&lt;br /&gt;A vida tinha-lhes sorrido mas, pelos vistos, nem tudo lhes correria de fei&amp;ccedil;&amp;atilde;o.&lt;br /&gt;As m&amp;aacute;s-l&amp;iacute;nguas locais bem que porfiavam em tentar encontrar homem para Madame Margarida. Podia l&amp;aacute; ser, uma mulher ainda em t&amp;atilde;o boa idade e t&amp;atilde;o apetec&amp;iacute;vel. Mas o certo &amp;eacute; que at&amp;eacute; ao presente nem chus nem bus que apontar, para desespero de muitos que sempre se comprazem em esmiu&amp;ccedil;ar a vida alheia, useiros e vezeiros que s&amp;atilde;o em ver o argueiro no olho alheio e em n&amp;atilde;o ver a trave no seu.&lt;br /&gt;E os tempos foram correndo, calmos e pr&amp;oacute;speros para Madame Margarida, at&amp;eacute; que um dado dia lhe entra em casa uma cliente. Era mais um caso de esposa que se cuidava atrai&amp;ccedil;oada e vinha em busca de lenitivo e cura, cura para o mal do marido. Que este j&amp;aacute; n&amp;atilde;o a procurava como dantes so&amp;iacute;a fazer, que por vezes chegava a casa a desoras, o que dantes n&amp;atilde;o acontecia, que ap&amp;oacute;s longos per&amp;iacute;odos de afastamento e absoluta frieza a obsequiava com prendas surpreendentes, prova de que o remorso e o arrependimento por vezes prevaleciam sobre o seu mau proceder que, enfim, j&amp;aacute; n&amp;atilde;o era o mesmo homem. Se tinha outras e mais fundadas provas de que outros amores o haviam desencaminhado dos seus deveres conjugais? Que n&amp;atilde;o, que n&amp;atilde;o tinha, e nem precisava, nestas coisas cora&amp;ccedil;&amp;atilde;o de mulher adivinha.&lt;br /&gt;Qual a terapia recomendada n&amp;atilde;o o sei. Nunca recorri a tais processos e aqueles que recorrem parece que t&amp;ecirc;m algum pejo em desvendar aquilo que se passa entre eles e o conselheiro vidente. Tamb&amp;eacute;m nunca o indaguei junto daqueles poucos que conhe&amp;ccedil;o que j&amp;aacute; foram &amp;agrave; "bruxa". Procuro intrometer-me o menos poss&amp;iacute;vel na vida alheia. Mas estou em crer que muitos outros que conhe&amp;ccedil;o tamb&amp;eacute;m j&amp;aacute; l&amp;aacute; ter&amp;atilde;o ido, s&amp;oacute; que sobre o assunto guardar&amp;atilde;o eles o mais profundo sigilo. Adiante.&lt;br /&gt;As visitas continuaram, prova da pouca efic&amp;aacute;cia da terapia utilizada, dir&amp;aacute; quem desconhece o fim da hist&amp;oacute;ria.&lt;br /&gt;Falta ainda esclarecer que a cliente de que falamos e o seu desencaminhado c&amp;ocirc;njuge eram, e ainda s&amp;atilde;o, funcion&amp;aacute;rios p&amp;uacute;blicos e trabalhavam, &amp;agrave; altura destes factos, na mesma reparti&amp;ccedil;&amp;atilde;o. Ele, merc&amp;ecirc; da sua actividade, fazia frequentes desloca&amp;ccedil;&amp;otilde;es &amp;agrave; capital onde por vezes se demorava dois a tr&amp;ecirc;s dias. E era nessas ocasi&amp;otilde;es que o ci&amp;uacute;me e a desconfian&amp;ccedil;a irrompiam como lava ardente no peito da esposa. Sei, porque esta o contou, que se tinha proposto v&amp;aacute;rias vezes segui-lo discretamente nessas sa&amp;iacute;das, mas que Madame Margarida sempre a dissuadiu de faz&amp;ecirc;-lo dizendo-lhe que seriam infrut&amp;iacute;feras tais dilig&amp;ecirc;ncias, convencendo-a da quase impossibilidade de seguir algu&amp;eacute;m na grande cidade por muito tempo sem lhe perder o rasto, ainda mais quando se conhece mal essa mesma cidade, como era o seu caso.&lt;br /&gt;E num determinado dia os acontecimentos precipitaram-se de forma irremedi&amp;aacute;vel. E por um conjunto de circunst&amp;acirc;ncias fortuitas, aquelas circunst&amp;acirc;ncias que, h&amp;aacute; falta de melhor, uns atribuem ao acaso, outros ao fado, outros &amp;agrave; provid&amp;ecirc;ncia divina e que os antigos, tentando p&amp;ocirc;r um pouco de raz&amp;atilde;o e ordem nas desordens do mundo, atribu&amp;iacute;am aos caprichos dos deuses. N&amp;atilde;o me parece que tenhamos avan&amp;ccedil;ado, neste sentido, muito mais do que eles. Aconteceu que o marido se havia ausentado para a capital, em servi&amp;ccedil;o, e por l&amp;aacute; se iria demorar dois dias. Quando ela, ao segundo dia de aus&amp;ecirc;ncia deste, comparece pela manh&amp;atilde; no local de trabalho uma colega, intrigada, pergunta-lhe:&lt;br /&gt;-Ent&amp;atilde;o, j&amp;aacute; regressaste de Lisboa?&lt;br /&gt;-Se j&amp;aacute; regressei de Lisboa?&lt;br /&gt;-Sim, &amp;eacute; que o meu marido telefonou ontem &amp;agrave; noite para o teu, creio que para combinarem uma ca&amp;ccedil;ada no pr&amp;oacute;ximo fim de semana, e do hotel responderam que ele tinha acabado de sair com a esposa.&lt;br /&gt;Imaginem a como&amp;ccedil;&amp;atilde;o. Mas n&amp;atilde;o se desmanchou. Conteve-se e respondeu-lhe que sim, havia acabado de chegar, que agora com a auto-estrada a viagem se fazia com mais rapidez e at&amp;eacute; com mais conforto e seguran&amp;ccedil;a.&lt;br /&gt;Ter&amp;aacute; passado todo esse dia numa ang&amp;uacute;stia profunda. Ele deveria regressar nessa noite. Segundo confessou mais tarde, dias depois, quando j&amp;aacute; havia serenado, desejou, desejou profundamente, que algo de mau lhe acontecesse, porque aquele desassossego &amp;iacute;ntimo em que a havia deixado era merecedor de alguma penosa contrapartida na pessoa dele.&lt;br /&gt;Cerca das dez horas da noite encontrava-se em casa fervendo em amarga revolta, preparada para uma hom&amp;eacute;rica disputa conjugal, quando recebe uma chamada telef&amp;oacute;nica das autoridades comunicando-lhe que o marido havia sofrido um acidente, j&amp;aacute; depois de ter deixado a auto-estrada. Supunha-se que o acidente havia sido causado pelo piso bastante molhado, devido &amp;agrave;s grandes chuvadas que haviam ca&amp;iacute;do ao longo do dia e que aqui e ali formavam grandes po&amp;ccedil;as. O estado do acidentado n&amp;atilde;o inspirava cuidados. O acidente, embora aparatoso, n&amp;atilde;o tivera consequ&amp;ecirc;ncias de maior: o carro havia sa&amp;iacute;do da estrada e fora imobilizar-se a cerca de cinquenta metros da via, numa zona de cultivo, livre de obst&amp;aacute;culos. O pr&amp;oacute;prio solo, empapado pela &amp;aacute;gua, teria amortecido o impacto. Que j&amp;aacute; havia seguido de ambul&amp;acirc;ncia para o hospital distrital.&lt;br /&gt;Para l&amp;aacute; se dirigiu aguardando ali a sua chegada. Sentia-se agora um tanto ou quanto culpada por t&amp;atilde;o intensamente haver desejado, ao longo do dia, que algo de mau lhe acontecesse. Mas do mal o menos, pela descri&amp;ccedil;&amp;atilde;o das autoridades,apenas n&amp;atilde;o ganhara para o susto. Oxal&amp;aacute; assim fosse.&lt;br /&gt;Quando a ambul&amp;acirc;ncia chegou olhou-o friamente. Poude confirmar que o estado dele, aparentemente, n&amp;atilde;o inspirava grandes cuidados. Estava consciente e para al&amp;eacute;m de algumas equimoses na cara e dores no peito, devido &amp;agrave; press&amp;atilde;o exercida pelo cinto de seguran&amp;ccedil;a, de nada mais se queixava. Iria ficar internado para observa&amp;ccedil;&amp;atilde;o e muito provavelmente teria alta no dia seguinte. Isto lhe dizia um dos bombeiros que o tinham transportado, para a confortar, quando chega uma outra ambul&amp;acirc;ncia. "Outro acidente?", perguntou-lhe ela. Que n&amp;atilde;o, que era o mesmo acidente, a viatura trazia dois ocupantes.&lt;br /&gt;Com o cora&amp;ccedil;&amp;atilde;o em sobressalto foi ver quem era o outro ocupante. Era Madame Margarida.&lt;br /&gt;Olhou-a longamente, sem dizer palavra. A outra, que estava bem desperta, ao pressentir a sua presen&amp;ccedil;a fechou os olhos e adoptou uma pose de completo desfalecimento. N&amp;atilde;o lhe apeteciam cenas p&amp;uacute;blicas com a esposa ofendida, tinha a sua reputa&amp;ccedil;&amp;atilde;o de mulher e de profissional a defender e ainda por cima, e isto era talvez o mais importante, jazia numa maca, toda dorida e incapaz de se defender.&lt;br /&gt;Depois de muito a olhar voltou-lhe por fim as costas com desdenhosa altivez. Em seguida meteu-se no carro mas n&amp;atilde;o se dirigiu para casa, tomou a direc&amp;ccedil;&amp;atilde;o do Monte Novo.&lt;br /&gt;No outro dia, pela manh&amp;atilde;, os eventuais passantes e os clientes de Madame Margarida, desconhecedores do acidente e do seu internamento no hospital, intrigavam-se com o aspecto do Monte Novo: algu&amp;eacute;m havia quebrado, &amp;agrave; pedrada, todos os vidros das janelas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Madame Margarida j&amp;aacute; n&amp;atilde;o reside na cidade. Mudou-se para o Algarve e, pelo que dizem, continua pr&amp;oacute;spera. Aprendeu l&amp;iacute;nguas e tem agora uma clientela cosmopolita.&lt;br /&gt;O casal desavindo rompeu definitivamente. Ele pediu transfer&amp;ecirc;ncia e trabalha agora numa vila vizinha. Dizem que continua a encontrar-se ocasionalmente com Madame Margarida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-111297748012922608?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/111297748012922608'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/111297748012922608'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2005/04/cristais-partidos.html' title='&lt;b&gt;&lt;div align=&quot;center&quot;&gt;CRISTAIS PARTIDOS&lt;/div&gt;&lt;/b&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-111297701002068832</id><published>2005-04-08T17:16:00.000+01:00</published><updated>2005-04-08T17:16:50.020+01:00</updated><title type='text'>AMORAS SILVESTRES</title><content type='html'>Apeteciam-lhe amoras. E as melhores das redondezas sabia ele onde encontr&amp;aacute;-las. L&amp;aacute; para baixo, debru&amp;ccedil;adas sobre a ribeira, num s&amp;iacute;tio t&amp;atilde;o pedregoso que nem mau caminho para l&amp;aacute; havia, faziam as silvas um monturo t&amp;atilde;o espesso que o Sol mal podia penetr&amp;aacute;-lo. E quem vinha pela outra margem, que fazia melhor andadura, se as quisesse provar tinha que atravessar a nado o pego de &amp;aacute;guas l&amp;iacute;mpidas e profundas, que nem sequer em anos de menos chuvas secava. E era aquele silvado como que seu, ainda mais desejado por n&amp;atilde;o ser secreto, pois que patente aos olhos cobi&amp;ccedil;osos dos viandantes da outra margem apenas era acess&amp;iacute;vel a gaiatos como ele, &amp;aacute;vidos dos seus frutos e l&amp;eacute;pidos como cabritos, a cuja gulodice nem as penedias e muito menos o prazer de um mergulho faziam embara&amp;ccedil;o.&lt;br /&gt;Saciou-se. Encheu os bolsos. Ao trepar a margem da ribeira, alta naquele ponto em que o silvado ca&amp;iacute;a em cach&amp;atilde;o sobre as &amp;aacute;guas l&amp;iacute;mpidas do pego, escorregou e caiu. E o inevit&amp;aacute;vel aconteceu: as amoras, esmagadas dentro dos bolsos, come&amp;ccedil;aram a tingir-lhe os cal&amp;ccedil;&amp;otilde;es com duas manchas ros&amp;aacute;ceas que alastravam. Tirou as amoras dos bolsos, lassas e a desfazerem-se em suco, e logo pensou em como se havia de livrar dos ralhos da m&amp;atilde;e. Sempre ouvira dizer que aquelas n&amp;oacute;doas de fruta, e particularmente das amoras, eram dif&amp;iacute;ceis de tirar. Pensou despir os cal&amp;ccedil;&amp;otilde;es e lav&amp;aacute;-los na ribeira. A n&amp;oacute;doa ainda era recente, n&amp;atilde;o se havia de todo entranhado no tecido e talvez assim evitasse males maiores. Mas ficar de cal&amp;ccedil;as na m&amp;atilde;o &amp;agrave; vista de qualquer passante? Afastou da mente, com um esgar, t&amp;atilde;o humilhante ideia. Poder-se-ia esconder enquanto as cal&amp;ccedil;as secavam. Mas essa antevista espera j&amp;aacute; o impacientava, mesmo antes de ter come&amp;ccedil;ado. E, apesar de escondido, quem lhe garantia que ningu&amp;eacute;m o veria? O melhor era lavar os cal&amp;ccedil;&amp;otilde;es mesmo vestidos. O calor do corpo e o calor do Sol, que a manh&amp;atilde; j&amp;aacute; ia alta, mais depressa lhos secariam e ficaria liberto para fazer o que muito bem lhe apetecesse.&lt;br /&gt;E assim fez. Achegou-se a um local onde lhe era mais f&amp;aacute;cil lav&amp;aacute;-los e nessa tarefa se encontrava quando percebeu sons de areias pisadas e ramos que se afastavam para dar passagem a algu&amp;eacute;m. Ergueu-se e percebeu que eram duas pessoas, n&amp;atilde;o uma, que se aproximavam daqueles s&amp;iacute;tios. Mas olha quem eles eram?! A Aninhas Perdigoa e o Aur&amp;eacute;lio. Mas j&amp;aacute; ele havia regressado da Sui&amp;ccedil;a? E que faziam aqueles por ali &amp;agrave;quela hora? Ent&amp;atilde;o a Aninhas n&amp;atilde;o ia casar dentro de poucos dias com o Tonico Marujo? E vinham ambos com tantas cautelas, em t&amp;atilde;o grande sil&amp;ecirc;ncio, que aquilo n&amp;atilde;o era decerto coisa boa. Escondeu-se para ver no que aquilo dava.&lt;br /&gt;Viu-os vagabundearem ao acaso, pisa aqui, pisa acol&amp;aacute;, como que procurando um local escondido de olhares estranhos. N&amp;atilde;o lhes era dif&amp;iacute;cil encontr&amp;aacute;-lo: naqueles s&amp;iacute;tios as moitas de loendreiros, de garridas flores ros&amp;aacute;ceas, eram densas e as cheias das invernias haviam escavado aqui, depositado monturos de areia mais al&amp;eacute;m, descobrindo ali maci&amp;ccedil;os taliscosos de bordos cortantes como navalhas, encobrindo-os acol&amp;aacute;, aqui parede alterosa, ali alicerce encoberto, de modo que os baixios e os loendreiros ofereciam in&amp;uacute;meros esconderijos. Finalmente l&amp;aacute; acharam um local que lhes pareceu mais a jeito, um baixio arenoso ainda ensombrado &amp;agrave;quela hora matinal pelos arbustos de troncos grossos como &amp;aacute;rvores que o rodeavam.&lt;br /&gt;P&amp;eacute; ante p&amp;eacute;, escondido entre o denso matagal, ficou-se a observ&amp;aacute;-los.&lt;br /&gt;Sentaram-se e por algum tempo dialogaram, mas t&amp;atilde;o baixo que ele apenas conseguia perceber uma que outra palavra, murmurada em tom mais emotivo. E enquanto falavam ele afagava-lhe os cabelos, em gestos longos e cariciosos. Depois atraiu-a si e come&amp;ccedil;aram a beijar-se. Deitaram-se sobre a areia e a troca de car&amp;iacute;cias continuou, cada vez mais intensa e apaixonada. Ele sabia dos jogos amorosos e da sua mec&amp;acirc;nica, na rua e no p&amp;aacute;tio da Escola tudo se aprende, mas n&amp;atilde;o sabia dos suspiros profundos, dos gemidos contidos, do &amp;ecirc;xtase. E um sentimento de desconforto come&amp;ccedil;ou por se apoderar dele. Sentia que um rubor lhe tingia as faces, que n&amp;atilde;o era ali o seu lugar. E sentimentos contradit&amp;oacute;rios dentro dele se debatiam. Apesar do sentimento pudibundo sentia-se tamb&amp;eacute;m atra&amp;iacute;do por uma curiosidade de menino para quem a novidade presencial do acto constitu&amp;iacute;a como que uma inicia&amp;ccedil;&amp;atilde;o &amp;agrave;quela parte do mundo dos adultos ainda misteriosa e proibida para ele. Depois pensou que ao ausentar-se poderia trair a sua presen&amp;ccedil;a, por qualquer ru&amp;iacute;do provocado de forma inadvertida. Este pensamento, como se fosse desculpa, confortou-o. E deixou-se ficar, quieto, alapardado e fascinado.&lt;br /&gt;Mas porque aquele sentimento de desconforto pudico de todo n&amp;atilde;o se arredasse, deixou que os seus sentidos se deixassem envolver pelo mundo circundante que, embora familiar, sempre o fascinava, regurgitante de vida, pleno de cores e sons.&lt;br /&gt;De onde estava divisava o pego de &amp;aacute;guas l&amp;iacute;mpidas; atraiu-o o baque surdo de um peixe que pinchava nas &amp;aacute;guas tranquilas e ca&amp;iacute;a, ainda lhe divisou o rev&amp;eacute;rbero prateado do dorso, que o Sol matinal fez relampejar; mirou a passarada que volteava no ar, atarefada no seu governo de vida, antes que o calor apertasse e a modorra a abrigasse nos folhedos densos e apraz&amp;iacute;veis; mais al&amp;eacute;m um bando de pardais ladinos, envoltos numa leve poalha, desparasitava-se, esfregando com vigor contorcionista os corpos penugentos na areia, numa desbragada e alegre algazarra. O par amoroso serenara e trocava agora suaves car&amp;iacute;cias. Tamb&amp;eacute;m ele serenara, o sentimento de pudor e a curiosidade m&amp;oacute;rbida j&amp;aacute; n&amp;atilde;o tinham ali cabimento: o tranquilo espect&amp;aacute;culo da Natureza onde cabia todo inteiro o par amoroso, e ele pr&amp;oacute;prio, isso sim, fazia sentido.&lt;br /&gt;Ela agora chorava. Via-lhe os ombros estremecerem com os solu&amp;ccedil;os que tentava conter com ambas as m&amp;atilde;os na boca. Ele falava e gesticulava de manso. Escondeu-lhe ent&amp;atilde;o o rosto contra o peito e os solu&amp;ccedil;os foram-se espa&amp;ccedil;ando, enfraquecendo. Colheu uma flor do loendreiro, que sobre eles ca&amp;iacute;a em capela, e prendeu-lha no cabelo. Deu-lhe um beijo, um &amp;uacute;ltimo beijo, e partiu. Ela ainda se ficou por longos minutos, sentada, fitando ora o ch&amp;atilde;o ora o azul infinito do c&amp;eacute;u. Por fim tamb&amp;eacute;m partiu, de ombros ca&amp;iacute;dos, desalentada.&lt;br /&gt;E s&amp;oacute; muito depois ele se atreveu a deixar o seu esconderijo e a regressar a casa, com uns olhos brilhantes de espanto e novidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-M&amp;atilde;e, n&amp;atilde;o &amp;eacute; verdade que a Aninhas Perdigoa vai casar com O Tonico Marujo?&lt;br /&gt;-N&amp;atilde;o se fala noutra coisa. Mas por que perguntas isso?&lt;br /&gt;-Por nada. Era s&amp;oacute; para confirmar. M&amp;atilde;e, sabes quem eu vi ontem? O Aur&amp;eacute;lio. J&amp;aacute; veio da Sui&amp;ccedil;a.&lt;br /&gt;-Tamb&amp;eacute;m j&amp;aacute; ouvi dizer.&lt;br /&gt;-M&amp;atilde;e, nunca ouviste dizer que o Aur&amp;eacute;lio e a Aninhas gostavam um do outro?&lt;br /&gt;-Ora! Isso foi coisa dos bancos da Escola. O Aur&amp;eacute;lio &amp;eacute; um mo&amp;ccedil;o pobre, criado pela m&amp;atilde;e com muitas dificuldades. Perdeu ele o pai tinha ainda meses. Muitas vezes a minha m&amp;atilde;e valeu &amp;agrave; m&amp;atilde;e dele, a tia Mariana. &lt;br /&gt;-E como &amp;eacute; que sabes que eles n&amp;atilde;o gostam ainda um do outro?&lt;br /&gt;-E que gostem! O Bento Perdig&amp;atilde;o nunca iria permitir que a sua querida filhinha casasse com um pobretanas. Rico casa com rico e pobre casa com pobre.&lt;br /&gt;-Mas nas telenovelas...&lt;br /&gt;-Isso s&amp;atilde;o tudo fantasias com que o povo se engana, filho.&lt;br /&gt;-Olha que &amp;agrave;s vezes n&amp;atilde;o s&amp;atilde;o fantasias!&lt;br /&gt;-Olha l&amp;aacute;, mas o que &amp;eacute; que tu sabes que eu n&amp;atilde;o saiba, hem?&lt;br /&gt;-Nada, m&amp;atilde;e, nada.&lt;br /&gt;E partiu deambulando ao acaso pelas ruas da aldeia. Rebentava por n&amp;atilde;o revelar o seu segredo a algu&amp;eacute;m. Mas a quem? Sim, a quem? Aos colegas de Escola? Impens&amp;aacute;vel! T&amp;atilde;o certo como dois e dois serem quatro em como passada uma hora toda a aldeia o saberia; n&amp;atilde;o passavam de um bando de fedelhos linguarudos e sem-vergonha. E ele tinha consci&amp;ecirc;ncia, nos seus verdes anos, do esc&amp;acirc;ndalo retumbante que assolaria a aldeia e l&amp;eacute;guas em redor se tal se viesse a saber. Durante dias, semanas at&amp;eacute;, seria tema de conversa mais que obrigat&amp;oacute;rio, saciaria bem a cr&amp;oacute;nica de maledic&amp;ecirc;ncia e mesquinhez a que muita daquela gente se dedicava com verrina e paix&amp;atilde;o doentia. E isso era a &amp;uacute;ltima coisa que ele desejava que acontecesse. N&amp;atilde;o &amp;eacute; que ficara a simpatizar com o par? Bom, ele at&amp;eacute; que j&amp;aacute; h&amp;aacute; muito gostava da Aninhas Perdigoa, julgava-a at&amp;eacute; a mo&amp;ccedil;a mais bonita da aldeia: alta, com o seu cabelo castanho levemente ondulado, uma tez suavemente morena, enfim, seria ainda uma crian&amp;ccedil;a mas tinha olhos na cara e sabia perfeitamente distinguir o feio do bonito. E quanto ao Aur&amp;eacute;lio at&amp;eacute; que lhe tinha simpatia, sempre que vinha de f&amp;eacute;rias, dos trabalhos sazonais na Sui&amp;ccedil;a, metia-se com ele ao v&amp;ecirc;-lo na rua e ainda no Natal passado lhe trouxera um chocolate sui&amp;ccedil;o, grande como nunca havia visto.&lt;br /&gt;A sua m&amp;atilde;e? Nunca o faria, n&amp;atilde;o seria jamais capaz de contar-lhe o que havia presenciado, impedia-o um sentimento de vergonha e decoro. E pelas mesmas e acrescidas raz&amp;otilde;es n&amp;atilde;o seria capaz de cont&amp;aacute;-lo a seu pai. S&amp;oacute; que o segredo era maior do que ele e rebentava se o n&amp;atilde;o partilhasse com algu&amp;eacute;m.&lt;br /&gt;E quase sem querer achou-se junto &amp;agrave; loja de roupas finas para senhora que a Aninhas possu&amp;iacute;a, que lha havia montado o pai quando ela, com muitos rogos e insist&amp;ecirc;ncias, lhe dizia que queria trabalhar na cidade, que a pasmaceira da aldeia a deprimia e que precisava de espairecer.&lt;br /&gt;-Chega de mata-mata! - respondeu-lhe ele um dia, j&amp;aacute; col&amp;eacute;rico. - Se quer trabalhar trabalhe ao menos para si e n&amp;atilde;o para os outros! Diga l&amp;aacute; que neg&amp;oacute;cio quer que eu lhe monte que eu trato j&amp;aacute; disso. Mas trabalhar para outros n&amp;atilde;o trabalha, porque n&amp;atilde;o precisa. N&amp;atilde;o tem tudo o que quer? Ora esta, onde &amp;eacute; que j&amp;aacute; se viu?&lt;br /&gt;E assim surgiu na aldeia a boutique de roupas de senhora, porque a filha de Bento Perdig&amp;atilde;o, no entender de seu esclarecido e abastado pai, jamais trabalharia em casa alheia.&lt;br /&gt;Entrou. Encontrava-se sozinha, sem clientes E tinha um ar infelic&amp;iacute;ssimo, t&amp;atilde;o infeliz que at&amp;eacute; mesmo um cora&amp;ccedil;&amp;atilde;o duro dela se apiedaria. Quando o viu tentou esbo&amp;ccedil;ar um sorriso, que saiu frouxo, for&amp;ccedil;ado.&lt;br /&gt;-Bom dia, Aninhas!&lt;br /&gt;-Bom dia, Carlinhos! Ent&amp;atilde;o, como t&amp;ecirc;m decorrido essas f&amp;eacute;rias?&lt;br /&gt;- Bem! E como a minha tia Margarida j&amp;aacute; me convidou a ir passar duas semanas a casa dela, no Algarve, ainda v&amp;atilde;o ser melhores.&lt;br /&gt;- Pois, a tua tia vive no Algarve...&lt;br /&gt;Claramente n&amp;atilde;o lhe apetecia conversar. Ele percebia-o pelo seu tom de voz, lamuriento e sumido. S&amp;oacute; o fazia, a pobre coitada, para tentar ser simp&amp;aacute;tica e disfar&amp;ccedil;ar a tristeza que lhe transparecia nos olhos tristes e magoados.&lt;br /&gt;E como uma n&amp;eacute;voa que lentamente se vai adensando, um sentimento de absurdo e de revolta se foi apossando do seu esp&amp;iacute;rito. A cena que havia presenciado na v&amp;eacute;spera, a conversa com sua m&amp;atilde;e, a infelicidade da Aninhas, e sobre tudo isso a figura de Bento Perdig&amp;atilde;o, pairando como uma hedionda ave negra, tudo lhe pareceu desconexo, il&amp;oacute;gico, pe&amp;ccedil;as de um puzzle que ele n&amp;atilde;o conseguia arrumar mas, o que era pior, n&amp;atilde;o suportava ver desarrumadas.&lt;br /&gt;E ent&amp;atilde;o, de forma t&amp;atilde;o irreflectida que ele pr&amp;oacute;prio se surpreendeu, disse-lhe:&lt;br /&gt;-Aninhas, ontem vi o Aur&amp;eacute;lio.&lt;br /&gt;-Sim? Onde? - respondeu-lhe ela, laconicamente, num fio de voz t&amp;atilde;o t&amp;eacute;nue que era quase impercept&amp;iacute;vel.&lt;br /&gt;-Vi-o ontem de manh&amp;atilde;, junto &amp;agrave; ribeira!&lt;br /&gt;Ela ergueu a cabe&amp;ccedil;a num gesto brusco, subitamente interessada.&lt;br /&gt;-E tamb&amp;eacute;m te vi a ti!&lt;br /&gt;-E tamb&amp;eacute;m me viste a mim?&lt;br /&gt;-Aninhas, por que n&amp;atilde;o casas com o Aur&amp;eacute;lio?&lt;br /&gt;Viu-lhe o peito estremecer e grandes e copiosas l&amp;aacute;grimas lhe despontaram dos olhos.&lt;br /&gt;-Deixa-me, vai-te embora! Que sabes tu da vida? Deixa-me... - e as l&amp;aacute;grimas deslizavam-lhe pela face, quase sem solu&amp;ccedil;os.&lt;br /&gt;Sentiu-se sem palavras e com um profundo sentimento de culpa por ter causado aquele t&amp;atilde;o lacrimoso transe. Mas quem o mandara meter-se na vida alheia? Afinal que tinha ele a ver com os amores e desamores dos outros, que tinha ele a ver com esse mundo adulto t&amp;atilde;o cheio de absurdos e incompreens&amp;otilde;es? E saiu rua fora revoltado contra si, contra a Aninhas, contra o Aur&amp;eacute;lio, contra tudo, contra todos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Umas m&amp;atilde;os, num gesto terno e suave, taparam-lhe os olhos. Aspirou lentamente o aroma que das m&amp;atilde;os e do corpo se desprendia. Era o mesmo perfume que havia sentido, no dia anterior, na loja da Aninhas.&lt;br /&gt;-Aninhas! - disse.&lt;br /&gt;Ela soltou-o e virou-o para si.&lt;br /&gt;-Como sabias que era eu? - perguntou-lhe risonha.&lt;br /&gt;-Adivinhei!&lt;br /&gt;-Tu adivinhas e v&amp;ecirc;s demasiadas coisas!&lt;br /&gt;E olhavam-se e sorriam um para o outro, num sorriso amigo e c&amp;uacute;mplice.&lt;br /&gt;Ela baixou-se e colocando-lhe as m&amp;atilde;os sobre os ombros fitou-o, olhos nos olhos:&lt;br /&gt;-Aquilo que tu viste &amp;eacute; um segredo que fica entre n&amp;oacute;s, n&amp;atilde;o &amp;eacute;? Ou j&amp;aacute; contaste a algu&amp;eacute;m? - perguntou-lhe num tom meigo mas onde se notava tamb&amp;eacute;m alguma apreens&amp;atilde;o e s&amp;uacute;plica.&lt;br /&gt;-N&amp;atilde;o, n&amp;atilde;o contei a ningu&amp;eacute;m!&lt;br /&gt;-Nem vais contar, pois n&amp;atilde;o?&lt;br /&gt;-N&amp;atilde;o, n&amp;atilde;o vou contar a ningu&amp;eacute;m! - disse-lhe, erguendo a cabe&amp;ccedil;a num gesto resoluto e categ&amp;oacute;rico.&lt;br /&gt;Ela passou-lhe a m&amp;atilde;o pelo rosto, numa suave car&amp;iacute;cia de agradecimento, rindo mais os olhos do que o rosto, uns olhos de onde haviam quase desaparecido as trevas magoadas e a ang&amp;uacute;stia que tanto o haviam impressionado no dia anterior.&lt;br /&gt;-N&amp;atilde;o conto a ningu&amp;eacute;m mas tu prometes-me uma coisa. Se tiveres um menino ele h&amp;aacute;-de chamar-se Aur&amp;eacute;lio!&lt;br /&gt;Ela riu-se, num riso prazenteiro e surpreso.&lt;br /&gt;-Ora, que ideia a tua!?&lt;br /&gt;-Prometes?&lt;br /&gt;-Prometo! - disse-lhe num ar subitamente s&amp;eacute;rio.&lt;br /&gt;E ele soube que assim seria, no abra&amp;ccedil;o forte e sentido que ela lhe deu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era s&amp;aacute;bado, n&amp;atilde;o tinha aulas, e mesmo que tivesse, n&amp;atilde;o deixaria nunca de comparecer ao baptizado do filho da Aninhas.&lt;br /&gt;-Onde vais? - perguntou-lhe a m&amp;atilde;e, estranhando v&amp;ecirc;-lo t&amp;atilde;o madrugador, ele que tanto gostava de ficar a pregui&amp;ccedil;ar na cama nos fins de semana libertos dos trabalhos escolares.&lt;br /&gt;-Vou ver o baptizado do filho da Aninhas!&lt;br /&gt;-Mas algu&amp;eacute;m te convidou? N&amp;atilde;o sabes que a casamento e baptizado s&amp;oacute; vai quem &amp;eacute; convidado?&lt;br /&gt;-Ora m&amp;atilde;e, vou s&amp;oacute; ver. Que mal tem?&lt;br /&gt;E ali estava ele. Como se precisassem de o convidar para tal cerim&amp;oacute;nia, sim, a ele, que antes mesmo de o menino existir j&amp;aacute; estava convidado, ele que era o verdadeiro padrinho daquela crian&amp;ccedil;a pois, afinal, quem lhe pusera o nome?&lt;br /&gt;A igreja encontrava-se repleta com os numerosos convidados. O templo at&amp;eacute; nem era muito grande mas, na verdade, os convivas eram muitos, pois Bento Perdig&amp;atilde;o queria que a cerim&amp;oacute;nia estivesse de acordo com os seus pergaminhos de homem influente e abastado e fosse digna do seu neto, o seu primeiro neto.&lt;br /&gt;E o momento solene aconteceu. O velho Padre Anselmo, que j&amp;aacute; havia baptizado tr&amp;ecirc;s ou quatro gera&amp;ccedil;&amp;otilde;es de paroquianos, ergueu a concha nas suas m&amp;atilde;os j&amp;aacute; tr&amp;eacute;mulas, e pronunciou as palavras sacramentais:&lt;br /&gt;-Aur&amp;eacute;lio, eu te baptizo em nome do Pai...&lt;br /&gt;Respirou fundo. Sentiu-se subitamente reconciliado consigo e com o mundo. At&amp;eacute; o Bento Perdig&amp;atilde;o, que olhava embevecido e com os olhos orvalhados o seu primeiro neto, que esbracejava e chorava incomodado com a &amp;aacute;gua que sobre si derramavam, lhe parecia agora mais simp&amp;aacute;tico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/11879476-111297701002068832?l=opacense.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/111297701002068832'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/11879476/posts/default/111297701002068832'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://opacense.blogspot.com/2005/04/amoras-silvestres.html' title='&lt;b&gt;&lt;div align=&quot;center&quot;&gt;AMORAS SILVESTRES&lt;/div&gt;&lt;/b&gt;'/><author><name>Joaquim Filipe Mósca</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-11879476.post-111288367282163597</id><published>2005-04-07T15:21:00.000+01:00</published><updated>2005-04-07T15:21:12.820+01:00</updated><title type='text'>A TIA CLEMENTINA </title><content type='html'>Quando naquela manh&amp;atilde; viu a bandeira de leil&amp;atilde;o colocada no edif&amp;iacute;cio da Caixa Geral de Dep&amp;oacute;sitos e l&amp;aacute; entrou para verificar se alguma coisa lhe poderia interessar, mal ele imaginava que aqueles passos o iriam conduzir a uma das hist&amp;oacute;rias mais desconcertantes que lhe haviam acontecido ao longo de toda a sua vida.&lt;br /&gt;De h&amp;aacute; muito que era frequentador daquele tipo de leil&amp;otilde;es. Ourives de profiss&amp;atilde;o, de ascend&amp;ecirc;ncia nortenha como quase todos os ourives que na regi&amp;atilde;o se haviam estabelecido, alguns h&amp;aacute; j&amp;aacute; v&amp;aacute;rias gera&amp;ccedil;&amp;otilde;es, quase sempre encontrava naqueles leil&amp;otilde;es um ou outro lote de j&amp;oacute;ias que lhe propiciavam um bom neg&amp;oacute;cio. Algumas daquelas j&amp;oacute;ias esconderiam decerto hist&amp;oacute;rias pungentes, de desespero e ang&amp;uacute;stia, teriam sido o &amp;uacute;ltimo dos recursos a que se teria jogado m&amp;atilde;o num momento de absoluta necessidade, quando todas as solidariedades falharam e o an&amp;oacute;nimo penhorante se achou s&amp;oacute; perante a adversidade. Tinha ele plena consci&amp;ecirc;ncia disso e era com alguma incomodidade que olhava os lucros de tal neg&amp;oacute;cio. Mas se n&amp;atilde;o fosse ele outro seria, e com este pensamento confortava a consci&amp;ecirc;ncia.&lt;br /&gt;Mas naquele dia julgou reconhecer uma de entre as j&amp;oacute;ias constantes de um lote. E a ser aquela que ele julgava, n&amp;atilde;o fazia grande sentido ali se encontrar. Conhecia os propriet&amp;aacute;rios e, tanto quanto sabia, n&amp;atilde;o teriam atravessado nem estariam a atravessar um qualquer transe dif&amp;iacute;cil que os obrigasse a empenharem-se e, o que &amp;eacute; mais, a verem-se desapossados de uma j&amp;oacute;ia que, e ele bem o sabia, era uma j&amp;oacute;ia de fam&amp;iacute;lia.&lt;br /&gt;Insond&amp;aacute;vel mist&amp;eacute;rio! Resolveu telefonar a um dos membros da fam&amp;iacute;lia com o qual tinha um relacionamento mais pr&amp;oacute;ximo, m&amp;eacute;dico de profiss&amp;atilde;o, h&amp;aacute; alguns anos ausente em Lisboa e que, porventura, lhe poderia esclarecer a t&amp;atilde;o misteriosa presen&amp;ccedil;a de tal j&amp;oacute;ia num leil&amp;atilde;o de penhores.&lt;br /&gt;A surpresa foi total. N&amp;atilde;o fazia a menor ideia de como &amp;eacute; que a j&amp;oacute;ia fora parar ao leil&amp;atilde;o. A mesma tinha desaparecido, &amp;eacute; certo. H&amp;aacute; j&amp;aacute; alguns anos que nem ele nem nenhum dos familiares sabiam do seu paradeiro, tinha levado um completo e inexplic&amp;aacute;vel sumi&amp;ccedil;o. Mas que aguardasse que nesse mesmo dia lhe telefonaria, que iria entretanto contactar outros familiares para deliberarem sobre como haveriam de proceder acerca da j&amp;oacute;ia.&lt;br /&gt;E assim aconteceu. Poucas horas passadas telefonava-lhe. Que adquirisse o lote de j&amp;oacute;ias onde aquela se encontrava, era um favor que lhe fazia, e que lha vendesse. Que de forma alguma iria sair prejudicado do neg&amp;oacute;cio. Mas se tal n&amp;atilde;o lhe fosse poss&amp;iacute;vel que desde logo lho dissesse, que ele mesmo procuraria outra maneira de ficar com o lote, embora s&amp;oacute; a j&amp;oacute;ia de fam&amp;iacute;lia lhe importasse.&lt;br /&gt;O lote seria necessariamente caro. O investimento de capital seria sempre vultuoso e s&amp;ecirc;-lo-ia ainda mais se aparecesse algu&amp;eacute;m no leil&amp;atilde;o particularmente interessado em adquiri-lo e o disputasse em licita&amp;ccedil;&amp;atilde;o p&amp;uacute;blica, possibilidade sempre em aberto. As j&amp;oacute;ias que o compunham eram, algumas delas, de razo&amp;aacute;vel idade, cuja est&amp;eacute;tica estava j&amp;aacute; bem fora dos gostos mais recentes e, por isso, a sua venda seria sempre problem&amp;aacute;tica e decerto morosa. Por outro lado aliavam &amp;agrave; preciosidade pr&amp;oacute;pria da sua condi&amp;ccedil;&amp;atilde;o uma outra, adveniente, nalgumas delas, da sua idade: eram pe&amp;ccedil;as de colec&amp;ccedil;&amp;atilde;o o que, se tornava mais problem&amp;aacute;tica a sua venda, as apreciava bastante. Tudo isto perpassou de relance pela sua mente de negociante experimentado. Respondeu afirmativamente, iria tentar comprar o lote, com uma salvaguarda: se aparecesse algu&amp;eacute;m a licit&amp;aacute;-lo por valores exorbitantes ele n&amp;atilde;o poderia acompanhar esses valores. Que o compreendesse, mas por muito que prezasse a amizade e considera&amp;ccedil;&amp;atilde;o que h&amp;aacute; anos lhe devotava era um negociante. Com certeza, nem ele aceitaria outra coisa, j&amp;aacute; l&amp;aacute; diz o velho rif&amp;atilde;o "amigos, amigos, neg&amp;oacute;cios &amp;agrave; parte", mas que tudo haveria de correr pelo melhor e que decerto conseguiria adquirir o lote por um pre&amp;ccedil;o razo&amp;aacute;vel. Seria pouco prov&amp;aacute;vel aparecer algu&amp;eacute;m particularmente interessado pelo mesmo. E que de uma coisa poderia estar certo, o pre&amp;ccedil;o pelo qual ele lhe compraria a j&amp;oacute;ia, h&amp;aacute; tanto desaparecida, seria sempre compensador, pois ele n&amp;atilde;o iria regate&amp;aacute;-lo. E que dentro de breves dias se deslocaria &amp;agrave; prov&amp;iacute;ncia e ent&amp;atilde;o mais e melhor falariam sobre o assunto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-Agrade&amp;ccedil;o-lhe ter-se interessado e comprado a j&amp;oacute;ia. H&amp;aacute; muitos anos j&amp;aacute; que desconhec&amp;iacute;amos o seu paradeiro. E na verdade continuamos sem saber como &amp;eacute; que ela foi parar ao leil&amp;atilde;o.&lt;br /&gt;Encontravam-se ambos sentados &amp;agrave; mesa do Caf&amp;eacute;, bem na baixa da cidade e que, de h&amp;aacute; muitos anos a esta parte, era frequentado pela boa sociedade local, em exclusividade em tempos de antanho, mas agora partilhado com turistas, estudantes e muitos ind&amp;iacute;genas, na sua grande maioria gente sem linhagem. Os tempos tudo mudam e as classes m&amp;eacute;dias, paulatina, tenazmente, iam subvertendo a ordem herdada dos velhos tempos. Come&amp;ccedil;ara por frequent&amp;aacute;-lo, a inst&amp;acirc;ncias do pai, que raramente l&amp;aacute; havia posto os p&amp;eacute;s, pois era seu entendimento que assim o filho n&amp;atilde;o somente granjeava estatuto como dos bons relacionamentos que ali se poderiam estabelecer resultariam bons neg&amp;oacute;cios. Ademais a ourivesaria situava-se nas proximidades. E de frequentador arrivista tornara-o o tempo cliente ass&amp;iacute;duo e banal, n&amp;atilde;o no sentido de trivial, sem import&amp;acirc;ncia, entenda-se, mas no sentido de que aquele h&amp;aacute; muito deixara de ser para si um espa&amp;ccedil;o estranho, onde se sentia como convidado tolerado, onde se entra como quem entra em casa alheia, para ser um espa&amp;ccedil;o onde entrava como em casa pr&amp;oacute;pria. Mas nem tudo havia mudado assim t&amp;atilde;o completamente. A geopol&amp;iacute;tica das mesas, quem se sentava com quem, contavam ainda muito a quem tivesse olhos para ver.&lt;br /&gt;Era ainda cedo, pela manh&amp;atilde;, e raros eram os clientes que se espalhavam pelas mesas.&lt;br /&gt;-Mas porqu&amp;ecirc; um interesse t&amp;atilde;o grande por tal j&amp;oacute;ia? - perguntou-lhe.&lt;br /&gt;Eram contos largos. A j&amp;oacute;ia encontrava-se na posse da fam&amp;iacute;lia h&amp;aacute; v&amp;aacute;rias gera&amp;ccedil;&amp;otilde;es, tantas que nem ele sabia bem. Segundo era tradi&amp;ccedil;&amp;atilde;o familiar, a mesma fora mandada fazer por um seu distante antepassado que fora oficial de marinha e que por bastos anos se ficara pelo Brasil, donde regressara com alguns proventos. Desde ent&amp;atilde;o a j&amp;oacute;ia passava de gera&amp;ccedil;&amp;atilde;o em gera&amp;ccedil;&amp;atilde;o, sendo sempre entregue &amp;agrave; primog&amp;eacute;nita filha do primog&amp;eacute;nito, com todas as variantes que da&amp;iacute; se possam deduzir. Por exemplo, a j&amp;oacute;ia tinha sido perten&amp;ccedil;a de sua tia Clementina, que morrera solteira e sem filhos. Seguindo a tradi&amp;ccedil;&amp;atilde;o, seria agora perten&amp;ccedil;a de sua irm&amp;atilde; Catarina, a mais velha das irm&amp;atilde;s nascidas de seu pai, por sua vez o mais velho dos irm&amp;atilde;os logo a seguir &amp;agrave; tia Clementina. Tanto quanto sabia o sistema tinha sempre funcionado bem. Eram afinal resqu&amp;iacute;cios de costumes antigos que a fam&amp;iacute;lia ainda conservava. Ou melhor, tal costume n&amp;atilde;o seria hoje sen&amp;atilde;o um fetichismo, uma caturrice de fam&amp;iacute;lia a que todos se haviam habituado e a que ningu&amp;eacute;m parecia desejar p&amp;ocirc;r cobro. As institui&amp;ccedil;&amp;otilde;es humanas, e a fam&amp;iacute;lia &amp;eacute; porventura a mais antiga dessas institui&amp;ccedil;&amp;otilde;es, vivem tamb&amp;eacute;m destes cerimoniais, destas pr&amp;aacute;ticas &amp;agrave;s vezes sem sentido mas que lhes acabam por dar alguma coes&amp;atilde;o, alguma unidade, e ser&amp;aacute; talvez esse o seu sentido final. Quanto &amp;agrave; j&amp;oacute;ia era bem verdade que a mesma era j&amp;aacute; t&amp;atilde;o fora de moda que ningu&amp;eacute;m hoje se atreveria a us&amp;aacute;-la. Tanto quanto sabia a &amp;uacute;ltima vez que fora usada em p&amp;uacute;blico, e com grande contrariedade de seu av&amp;ocirc;, tinha sido numa r&amp;eacute;cita do Liceu pela tia Clementina, &amp;agrave; altura jovem estudante, quando representara um qualquer papel num dramalh&amp;atilde;o cuja ac&amp;ccedil;&amp;atilde;o decorria no s&amp;eacute;culo XIX. O av&amp;ocirc; tinha-se oposto por considerar tal atitude um desrespeito, mas a av&amp;oacute;, que se pelava pelas artes c&amp;eacute;nicas, tinha conseguido demov&amp;ecirc;-lo. Dizia-se que tamb&amp;eacute;m a tia Clementina era gaiteira, enquanto jovem. Ele conhecera-a j&amp;aacute; entrada em anos, azeda, sorumb&amp;aacute;tica. Desgostos de amor? Dizia-se que sim, mas n&amp;atilde;o &amp;eacute; sempre isso que dizem dos solteir&amp;otilde;es inveterados? Mas se desgosto de amor houve a tia soubera manter o segredo bem aferrolhado, pois se se falava em desgosto de amor nunca ele ouvira, nem a ela nem a qualquer outro membro da fam&amp;iacute;lia, uma refer&amp;ecirc;ncia concreta a qualquer desvalido pretendente. &lt;br /&gt;A j&amp;oacute;ia, uma gargantilha, hoje s&amp;oacute; teria valor como adere&amp;ccedil;o de &amp;eacute;poca. De qualquer maneira n&amp;atilde;o deixava de ser uma pe&amp;ccedil;a valiosa e que ele bem conhecia. Um gordo e pesado entran&amp;ccedil;ado de fios de ouro donde pendia um medalh&amp;atilde;o cravejado de diamantes e &amp;aacute;guas marinhas. Apre&amp;ccedil;ara-a h&amp;aacute; j&amp;aacute; quase trinta anos, quando a fam&amp;iacute;lia, assustada com o curso dos acontecimentos pol&amp;iacute;ticos, resolvera p&amp;ocirc;-la a recato, juntamente com outras j&amp;oacute;ias, no cofre de um banco, n&amp;atilde;o sem que antes as tivesse apre&amp;ccedil;ado, encarregando-o a ele desse trabalho. Passada a como&amp;ccedil;&amp;atilde;o dos momentos que ent&amp;atilde;o se viveram, as j&amp;oacute;ias tinham retornado ao seio familiar e &amp;eacute; a partir dessa altura que a gargantilha leva sumi&amp;ccedil;o.&lt;br /&gt;E j&amp;aacute; havia tentado saber como tal tinha acontecido?&lt;br /&gt;Que j&amp;aacute;, mas na Caixa nada lhe puderam dizer, havia normas de servi&amp;ccedil;o que impediam que se divulgasse a particulares o nome dos penhorantes. Que nem mesmo tendo invocado as circunst&amp;acirc;ncias particulares que rodeavam a j&amp;oacute;ia conseguira que lhe dissessem o que quer que fosse.&lt;br /&gt;Mas talvez que se entregasse essa dilig&amp;ecirc;ncia &amp;agrave;s autoridades fosse mais bem sucedido, prop&amp;ocirc;s-lhe.&lt;br /&gt;Que tamb&amp;eacute;m j&amp;aacute; havia pensado nisso.&lt;br /&gt;Pois porque n&amp;atilde;o faz&amp;ecirc;-lo? Ele tinha um muito bom relacionamento com o comiss&amp;aacute;rio local da pol&amp;iacute;cia e poderia dar-lhe uma palavra nesse sentido ou, se assim o entendesse, poderia acompanh&amp;aacute;-lo nessa dilig&amp;ecirc;ncia e irem ambos falar com o dito comiss&amp;aacute;rio. Assim se combinou e assim se fez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;III&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vivament
