domingo, agosto 06, 2006
  Antitabagismo Primário

A história conta-se em poucas palavras: uma empresa irlandesa, num anúncio de emprego informava que "Se for fumador não se incomode em responder"; logo a legitimidade de tal anúncio foi questionada por uma senhora eurodeputada britânica, Catherine Stihler, a quem foi respondido pelo senhor Vladimir Spidla, comissário europeu do Emprego e Assuntos Sociais que tal anúncio não violava nenhuma lei pois que " A legislação antidiscriminação europeia proíbe a discriminação no emprego e noutras áreas com base na raça ou etnia, numa deficiência, na idade, na orientação sexual, na religião ou crenças". Pelo que, segundo o douto comissário, recusar emprego a um fumador é algo de perfeitamente aceitável, por não se enquadrar em nenhuma das situações acima mencionadas.
Resposta típica de um burocrata de antolhos a quem falta qualquer bom senso.
A legislação europeia antidiscriminação também não prevê milhentas outras situações que nós, num exercício lúdico, poderíamos elencar: por exemplo e porque não os comedores de passarinhos fritos? Ou de jaquinzinhos? E os pescadores que pescam com isco vivo? E os caçadores? E os que frequentam touradas? E os que coleccionam coisas mais excêntricas como caixas de fósforos, pacotes de açúcar, cintas de charutos e tantas outras coisas? E os solitários? E os altos, os baixos, os gordo, os magros, os feios, os que tomam bica, os que bebem imperiais, os que têm mau hálito, os que não gostam de futebol, os que detestam telenovela, os que não gostam do José Cid?...
Acrescente outros, se lhe der no goto.
A situação é de tal modo caricata que de facto nos dá vontade de brincar em torno dela, numa primeira fase, para nos preocupar numa segunda. É que a perseguição, a cruzada, que se tem movido contra os fumadores vem assumindo aspectos perfeitamente execráveis. Compreende-se que os fumadores não incomodem e prejudiquem os outros com o seu nefando vício: por isso, e cada vez mais, é proibido fumar em recintos fechados e nos locais de trabalho, reservando a esses pobres de espírito locais onde possam satisfazer o seu pecaminoso vício. Mas daí a discriminar alguém no mundo laboral por ser fumador e um dos burocratas que nos governam a partir de Bruxelas achar isso a coisa mais natural do mundo, é demais.
Há algum tempo contraí um empréstimo bancário, coisa de pouca monta, o que não evitou o ter que responder a um exaustivo questionário sobre as minhas capacidades físicas e mentais e onde me perguntavam, inclusive, não apenas se fumava mas quantos cigarros fumava por dia.
Devo confessar-vos que entretanto fiz uma pausa neste escrito e fui fumar um cigarro.
Mas que tinha a instituição bancária a ver com os cigarros que eu fume ou deixe de fumar por dia? E que tem o patrão a ver com o facto de o seu empregado cultivar os seus pequenos vícios e prazeres? Que tem que ele, para melhor lhe esquecer a cara e o baixo salário, vá ao bar mais próximo, depois de mais uma jornada de trabalho, beber uma imperial com os amigos e fumar um cigarro?
Segundo a tal empresa irlandesa o justificativo para o seu bizarro anúncio é que os fumadores são, pasme-se, anti-sociais e têm mais baixas médicas. Estamos pois no reino do mais feroz economicismo. Deves zelar pela tua saúde, abandonar práticas que te prejudiquem no teu rendimento laboral, pois há que produzir mais e mais e sempre mais. Se é para isso já têm os robôs, para que querem pessoas, seres humanos?
E eu, que sou professor, o que me sucederá? Dir-me-ão, um destes dias, que ou deixo o cigarro ou deixo a profissão por ser um péssimo exemplo para os jovens de cujo ensino sou responsável? Ou dir-se-á ao candidato a professor que se é fumador nem valerá a pena fazer a sua candidatura?
Mas afinal o que se pretende? Ter um mundo de seres uniformizados, padronizados, iguais, monotonamente iguais, sem vícios, impolutos, bacteriologicamente e eticamente puros, obedientes e zelosos cumpridores dos padrões de conduta que uns quantos fariseus da nova religião do economicismo e do politicamente correcto nos querem impor? Se assim é, e parece que é, será bom que nos precavamos. É que isto tem um nome, chama-se fascismo. 
|


<< Home

Artigos Recentes
Arquivos
Links


Powered by Blogger

Weblog Commenting and Trackback by HaloScan.com